Palavras
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Rimas ao Vento

by on 4 de Novembro de 2013
 

Arnaldo Fonseca – Poesia

Rimas ao Vento

“…………………
Tantas vezes alheio à forma, ou à métrica, o ritmo dos seus versos está sempre presente.
…………………”

18 de Janeiro de 1934

Recuar no tempo quarenta e um anos
Escrever um poema com alma e coração
Esquecer, recordando tempos de desenganos
Que todos desejamos para sempre se vão
Era noite na terra, os homens oprimidos
Ó povo da minha terra fostes vós os escolhidos
Para levantar bem alto o facho da esperança
Foi longa a noite que esse dia antecedeu
Mas na manhã gloriosa um novo Sol nasceu
18 de Janeiro meu punhado de heróis
Honrais a vossa terra
Eram dez, foram cem, muitos, mil
Foi na Marinha Grande que começou a nascer
O vinte cinco de Abril
Foi nessa noite gloriosa, que a história há-de contar
Que se não deve esquecer, foi nessa manhã de luta
Que os operários da Marinha
Começaram a mostrar sem luta
Nunca se podem vencer os que nos querem matar
Se eu soubesse escrever o que sinto cá dentro
Eu faria um poema que lançaria ao vento
Para levar por toda a terra, o nome dos heróis
Mas para quê nomes?
O que interessa foi a obra, o princípio, o arranque
E aqueles que depois lhe seguirão os passos
Não são menos heróis
Não se levou avante o que era desejado
Não se atingiu o fim por erros imprevistos
Mas foi caminho aberto, mas foi caminho andado
E aqueles que ficaram tombados no caminho
Hão-de ser recordados com orgulho e carinho
Cabe também lembrar o muito que se deve
Pois tudo o que se diz, pois tudo o que se escreve
É pouco muito pouco para dizer afinal
Que às Mulheres da minha terra, que às Mulheres do meu País
Se deve Portugal, Mães, Esposas, Filhas e Noivas
Quantas afrontas quantas, foi duro o seu caminho
Conhecem bem as grades das prisões conhecem bem os nomes dos ladrões
Que os mataram, espezinharam e ficaram sorrindo
Até nascer o Sol que há pouco nasceu, naquela madrugada
Que há muitos anos por muitos foi sonhada
E que em Abril para nós amanheceu
Marinha do cristal, artistas de valor
No campo do trabalho e no campo da luta
Vamos mostrar ao mundo que o que estava em disputa
Era a Paz, o trabalho e o Pão repartido por todos em igual
Gritando Povo unido jamais será vencido
Vencerá PORTUGAL

1975

Convite

Vem Vieira
Bom velho respeitado
Vem ver o teu S. Pedro
Vem cantá-lo
Mas vem pela noite de mansinho
E se puderes, vem de olhos fechados
Mas não tenhas medo,
Porque o que os homens fizeram
Ao teu querido S. Pedro
Um dia hão-de pagá-lo.
Vem Vieira
Olha a tua varanda
Nãso tens o teu casino
Que esteve ali ao lado.
Não tens o Camarção, do silêncio
De camarneiras todo semeado,
Não tens a camioneta do Vilela,
Junto à fonte
Mas tens apartamentos de cimento armado
E tens defronte o Mar
Aquele que tanto amor
Ao poeta inspirou,
Esse os homens não podem secar
Nem sequer desviar
Quando ele as paredes da tua trancada casa
Vem beijar.
Vem Vieira
Vem pegar-me ao colo como fizeste um dia
Tempos que não voltam mais
Porque os homens não querem nada do passado
As janelas da tua varanda
São mais belas com taipais.
Pensei melhor... não venhas Vieira
Não voltes mais.

1986-02-19

Deficiente sem D

Vivo contente e feliz
Se a minha vida é tão bela
Só eu a tornei assim
Lutei muito, tive sorte
Galguei as escadas da vida
Fugi muitas vezes à morte
Quando ela vinha para mim.
Tropecei, voltei para trás
Encetei novo caminho
Sempre com os olhos no além
Eu muito agradeço à vida
Por vencer esta corrida
E ir terminá-la em bem
A vida grande charada
Feita de várias facetas
Foi dura e complicada
E para ficar bem marcada
Cheguei a andar de muletas
Foi um desastre brutal
Coitadinho do rapaz
Agora fica arrumado
Ainda teve muita sorte
Esteve às portas da morte
Esteve a sorte pelo seu lado
Ficou deficiente
Ficou coxo e não vê
É assim que fala o povo
O bom povo Português
Deficiente sim, mas deficiente sem D.

1983-05-21

Desabafo

Vou fugir não posso mais
Quando saio ao meu portão
Quando abro a minha janela
Vou fugir não posso mais
Pois já não vejo por ela
Todo o esforço do meu País
Tanto sofremos um dia
Quando os malvados mandões
Cortaram nosso quintal
Tanto sofremos... não sei
Pois neste mundo malvado
Nem todos sofrem igual.
Foi preciso acompanhar
E com eles batalhar
P'ra saber dar o valor
Tanta noite sem dormir
Tanta lágrima chorada
Eu sei que não assististe
Que não assististe a nada
E só por essa razão
Tua acção é perdoada

1982-04-25

Entre o Mar e a Terra

Vem Entre o mar e a terra
Ali fiquei sonhando
Entre o mar e a terra
A vida foi mais bela
Entre a terra e o mar
Ali fiquei pensando
Entre a terra e o mar
Abriu-se uma janela.
Entre o mar e a terra
Deste-me o meu amor
Entre o mar e a terra
Algo que mais nos une
Entre a terra e o mar
Senti o teu calor
Entre a terra e o mar
Nasceu grande ciúme

1983-04-30

Fiquei tão feliz

Fiquei tão feliz por te ver passar
Fiquei tão feliz por te ver ao longe
E por te ver chegar
Nunca pensei que possível fosse
Nunca imaginei, que esperar fosse lindo,
Pois quando esperando a hora desejada,
Nos surge no caminho, a fada encantada
Todo esse caminho nos fica sorrindo.
Fiquei tão feliz por te ver passar,
Fiquei tão contente com o teu olhar.
Não tenho palavras por muito que eu queria
Escrever no papel o que sinto cá dentro,
Eu tento fazê-lo à minha maneira,
E a minha caneta, minha companheira,
Tenta-me ajudar, mas só sabe escrever
Fiquei tão feliz por te ver passar
Fiquei tão feliz por hoje te ver
Fiquei tão contente com o teu olhar.

1986-07-25

Mãe

Mãe palavra tão pequena
Que tanto diz ao nosso coração
Pequena em letras, mas grande, muito grande
Esvoaça no ar como linda canção
Tudo me deste Mãe, até a vida
Sem ti eu não seria o que hoje sou
E podes ficar certa
Quando chegar a hora da partida
Tu não vais partir Mãe
Tu vais ficar... todos os dias
Sempre no meu caminho, à minha cabeceira
Como fazias, quando em pequenino
Eu te queria sempre à minha beira
Mãe do meu País, Mães do mundo inteiro
Tu não tens preço
Com todo o meu amor verdadeiro
Eu te agradeço

1985-04-23

Marinha

Marinha do cristal
Rodeada de pinhal
Para mim os teus vidreiros são
Artistas de valor
Que trabalham com amor
Só para honrar a nação

Marinha és um jardim
Não há igual para mim
Por isso tenho orgulho em te cantar
Os teus verdes canteiros
Semeados de pinheiros
Que vão até beijar o mar

Cantada por poetas
Com frases tão discretas
Que hão-de ficar gravadas afinal
Na história tão sagrada
A da pátria amada
Marinha tu serás sempre imortal.

1948

Era um sucesso cantado por Humberto Graça

Penedo da Saudade

Que linda canção o mar está cantando
Bela melodia, correndo no ar
Parei um bocado e pus-me escutando
E sobre o penedo que eu estava pisando
Penedo de sonhos de histórias passadas
Ali fiquei, e pus-me pensando e pus-me a sonhar
Pensei na Rainha Isabel que aqui veio chorar
As mágoas que o Rei D. Diniz tanto a fez sofrer
Pensei em outras Rainhas que sem terem coroas
Tanto aqui choraram... tanto aqui passaram
Só para eu as ver.
Penedo da Saudade de sonhos vividos
De sonhos passados
Abre-me os teus braços, deixa-me ficar
E tu ó farol que estás a meu lado
Vai-me iluminando para eu me guiar.

1984-01-07

 

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