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Lenhador

by on 26 de Outubro de 2013
 

Manhã cedo passavam a minha casa muitos lenhadores. Vinham dos lugares a norte da Freguesia; Pilado e Garcia, ou a sul, Moita , Burinhosa e Patacas. Uns eram baixos, outros altos, mas todos tinham algo em comum: chapéus de feltro ou boinas na cabeça, rostos tisnados pelo sol, sacos de serapilheira às costas, contendo as ferramentas, e na mão, o cesto de verga.

Cortavam os pinheiros, que na véspera, os Guardas Florestais tinham descarrascado com a machadinha. Eles já sabiam o local do corte e diariamente a cena repetia-se durante os meses de verão.

As árvores eram abatidas a machado. Caíam no meio de estalidos da madeira partida, terminando a queda com um baque surdo que fazia tremer o chão. Depois, esgalhavam-nas e serravam-lhes as partes mais delgadas, ficando os toros aptos a serem transportados para as serrações.

Associada a esta profissão, houve há mais de sessenta anos uma outra, desempenhada por mulheres – A CARRASQUEIRA.

Rafael Moiteiro explicou-me como era: – Vinham estas mulheres da Garcia, da Escoura e do Pilado. Trabalhavam a dias na fábrica do Ricardo Galo, como enformadoras, escolhedoras, ou até na limpeza da fábrica e quando os fornos paravam, ficavam desempregadas durante alguns meses. Então, deslocavam-se a pé pela Mata fora, até aolocal do corte. Enchiam de carrasca os enormes sacos, colocavam-nos à cabeça e regressavam de novo pelo mesmo caminho. Depois, dirigiam-se à sua fábrica, a única que lhes comprava este material então utilizado no aquecimento dos fornos, e com o dinheiro recebido matavam a fome aos seus filhos.

Nos lugares da minha infância as burriqueiras enchiam os mesmos sacos, mas de faias resinosas, que depois transportavam nas cangalhas dos burros e com elas ateavam a fogueira, especialmente no Inverno quando a lenha estava molhada.

in: AO ENCONTRO COM O PASSADO
Autora: Deolinda Bonita
Edição da Autora
Data da Edição: 1993

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