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Vieira de Leiria

by on 30 de Outubro de 2013
 

A mulher do pescador / lembra a cruz ao céu erguida: / Homem, filhos, mar e dor / crucificaram-na em vida.
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José Loureiro Botas»

Vieira de Leiria é uma das três Freguesias que compõem o concelho da Marinha Grande, distando 14 Km da sede do concelho e situada na margem esquerda do rio Lis e próximo da sua foz, no extremo norte do pinhal de Leiria.

A 3 Km da povoação fica a foz do Lis, com locais pitorescos, como as antigas Tercenas, e a Praia da Vieira. Ainda muito depois do séc. XII se carece de notícias sobre esta localidade, apesar da importância que em vários aspectos adquiriu já no séc. XIX, derivada especialmente do desenvolvimento industrial. Assim, esta Vieira pode considerar-se uma povoação moderna, sem tradições históricas propriamente ditas ou mesmo arqueológicas, como já devia deduzir-se do facto de o seu termo haver pertencido talvez totalmente (ao menos de início) à área do famoso “Pinhal de Leiria“, do qual, por outro lado, talvez resultasse precisamente a formação da povoação, por actividades a ele adstritas.

A toponímia também não dá indicações de antiguidade de povoamento local local, pelo menos nos casos que em geral exprimem melhor o facto, os dos nomes de povoação ou até de quintas ou simples sítios habitados por uma ou outra família. Tais nomes são aqui nitidamente modernos ou, pelo menos, posteriores ao primeiro período da Nacionalidade, à única exepcção, possivelmente, de dois: Boco e Vieira. O primeiro aparece frequentemente no norte do Douro em Documentos do séc. XIII (especialmente as Inquirições) com a forma de Baoco, que indica com certeza a existência originária de uma consoante intervocálica, mas que, mesmo assim, não revela a etimologia, devendo concluir-se apenas que é topónimo antigo. Quanto a Vieira, aparece mais vezes, mas no norte de País também (os casos ao sul devem-se ao apelido resultante de uma das povoações deste nome no Minho), sem que nada possa decidir-se, aqui (Vieira de Leiria), o topónimo tem semelhante antiguidade ou o mesmo étimo, isto é, o latino velaria. Na melhor opinião, pode bem tê-lo, pela região florestal onde aparece, cujo despovoamento nos inícios da Nacionalidade era acentuadíssimo (há quem o diga total), pelo recente do povoamento e falta de toponímia inegavelmente antiga, e pela própria localização da Freguesia e suas povoações acerca do mar. Caso não exista origem diversa da dos topónimos iguais no norte do País, onde nenhum lugar de tal nome tem situação marítima, pode aventar-se que, aqui a, designação resulte do apelativo “vieira” , mas a compreensão do topónimo por uma simples “vieira” (que fosse mesmo extraordinário) ressente-se muito de tal étimo, não só pela incompreensão resultante mas ainda porque um topónimo resultou em geral de um facto relativamente permanente e esta Vieira situa-se a alguns quilómetros do mar. De modo que a razão, tão importante na determinação das origens de uma povoação que carece de história, pode procurar-se ainda noutro facto. É de crer que o povoamento de Vieira se tivesse operado no extremo do norte do pinhal de Leiria com o estabelecimento de alguns casais reguengos (dos quais haverá ainda vestígios toponímicos em nomes de povoação que de um ou outro resultou: Casal das Raposas, Casal de Lobos, Casal do Anjo), facto aliás, trivial na Estremadura marítima histórica, aumentando depois a população com a exploração do famoso Pinhal (da parte da coroa, inicialmente). No domínio toponímico, é notável a existência de três espécies correlativas, ou quase: Cais, Praia e Tercenas, – este revelador de indústria marítima já antiga, bem ligado, em sentido, ao primeiro.

A passagem do Lis não teria sido o factor menos importante nos inícios do povoamento por certos casais por ele fertilizados – se é que o antigo Baoco se não relaciona com o seu curso, crendo-se a origem em vadoco, derivado hipotético do latino vadu ” o vau “, mas sem se supor, neste caso, que o topónimo ascenda a antiguidade tal, mas à de um apelativo corrente no séc. XIII, ” baoco “, e para aqui transportado por povoadores do Norte.

O facto também explicaria melhor Vieira, considerado assim topónimo de importação, resultante da colonização interna da quase erma Estremadura do período da Nacionalidade. Parece a melhor interpretação local de Vieira à luz das circunstâncias históricas da região naquela época e perante a dificuldade de explicação toponímica já exposta. Administrativamente, o local foi sempre do termo de Leiria até à erecção do concelho da Marinha Grande (1917).

No ponto de vista paroquial, não há qualquer notícia de freguesia anterior ao séc. XVIII. O que existia antes era uma ermida dedicada a N. Sra. dos Milagres, no lugar da Passagem, que alguns dizem edificada em 1615, como o abade de Miragaia, que explica: ” para mais cómoda administração dos sacramentos, por contar ao tempo a dita povoação (Vieira) já grande número de habitantes e se achar a distância da igreja de S. Lourenço de Carvide, à qual então pertencia “.

No entanto é de crer que essa ermida já existisse muito antes, talvez na Idade-Média, dedicada a Santa Maria, que, então, por reconstrução efectuada, passaria a invocar-se por N. Sra. da Ajuda, ambas citadas ainda na freguesia de Carvide pelo padre Carvalho. O abade de Miragaia diz que a freguesia de Vieira foi criada em 1740, sem declarar em que se baseia.

Devido, especialmente, ao desenvolvimento industrial, a população desta Freguesia duplicou em menos de um século, desde 1860, em que , aliás, já Vieira era uma povoação importante.

É notável a sua extensa praia e as respectivas casas de madeira de varandas apoiadas em estacas colocadas obliquamente com ripas pintadas de variadas cores (verde, azul e zarcão).

Nesta Freguesia nasceram o actor Álvaro, professor Virgílio Guerra Pedrosa e os escritores Loureiro Botas e António Vitorino, estes na Praia de Vieira.

Compreende esta Freguesia os lugares de: Boco (parte), Casal das Raposas, Casal do Anjo e Casal dos Lobos, Galiota, Outeiros da Passagem, Praia da Vieira e Vieira de Leiria.

A Praia da Vieira é na verdade uma antiga praia de pescadores e cada vez mais uma excelente estância turística e de veraneio. Ao longo do seu areal estendem-se as redes dos pescadores, as cores vivas dos chapéus de sol e os barcos de remos longos à espera da aventura do mar e da faina. É nos dias de verão, de manhã bem cedo e com a maré baixa que os pescadores vão ao mar. No areal apenas ficam as mulheres e os mais velhos que dão o último impulso ao barco e seguram as cordas das redes. Á força de remos o barco vai avançando em semi-círculo e as redes vão sendo lançadas ao mar. No regresso a terra todos ajudam os pescadores a alar a rede. Depois, quando o peixe já brilha na praia, faz-se a lota e partilha-se a alegria e a sorte da faina.

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