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O Vidro

by on 26 de Outubro de 2013
 
O que é o Vidro

Sob a denominação genérica de vidro considera-se uma substância mineral que à temperatura ordinária é sólida e transparente, resultado da fusão controlada, a alta temperatura (à volta de 1300ºC), de uma mistura perfeitamente doseada de várias matérias-primas, como:

• Sílica (areia), tão pura quanto possível e proveniente das areias ou das rochas de quartzo – considerada, pela sua natureza, o vitrificante, ou seja, o verdadeiro esqueleto do vidro;
• Fundentes, como o carbonato de sódio, o carbonato de potássio e o óxido de chumbo, cuja função principal é fazer baixar o alto grau de fusão da sílica;
• Estabilizantes, como o carbonato de bário, carbonato de cálcio, carbonato de magnésio e óxido de alumínio, que lhe dão a resistência química a factores do meio ambiente como a humidade, o calor, a
luz e gases naturais;
• Afinantes, como o óxido de arsénico, o óxido de antimónio, e o nitrato de sódio, que têm por função a formação, na massa vítrea em fusão, de grandes bolhas gasosas que, ao fibertarem-se para a superfície, arrastam o gás retido sob a forma de minúsculas bolhas (a que os vidreiros chamam “murça”), sem força ascensional para vencer a resistência da massa vítrea no cadinho (Pote) ou na bacia (Tanque), os quais têm normalmente 90 a 120 cm de altura. Para esta operação, a que os antigos vidreiros chamavam “fervura do vidro”, antes de serem conhecidos os afinantes químicos os mestres fundidores utilizavam uma batata, um cubo de madeira ou um, pedaço de piteira para obter
os mesmos resultados;
• Descorantes, como o arsénico, o óxido de manganês, o nitrato de potássio, utilizados nos vidros brancos para compensarem a cor esverdeada ou amarelo-esverdeada da massa fundida, resultante das impurezas das matérias-primas naturais como o ferro, o níquel e o cobre;
•Corantes, matérias-primas que, misturadas à composição dos vidros brancos, lhes dão a coloração pretendida. Por exemplo: óxido de prata para obtenção de vidros amarelos; cobalto para vidros azuis;
manganês para vidros ametista; óxido de ferro para vidros verdes; púrpura de Cássio para vidros vermelhos; criolite para vidros opala; etc.;
• Casco (vidro partido em pedaços), utilizado normalmente em grandes percentagens na leitura da composição para embaratecimento desta, depois de seleccionado de acordo com o tipo e cor do que se pretende fabricar.

É da arte do Compositor, baseada normalmente em larga experiência na dosagem de cada uma das matérias primas a utilizar, aliada ao bom trabalho do mestre fundidor, conseguindo homogeneizar criteriosamente a composição através de uma boa fusão, que se obtêm os bons vidros, os quais devem obedecer às seguintes características:
• Boa estabilidade, isto é, resistência ao ataque permanente dos agentes atmosféricos;
• Máxima transparência, sem cordas, sem bolhas e sem infundidos (pequenas pedras);
• Máximo grau de brancura (que se obtém usando somente matérias-primas de boa pureza);
• Sonoridade musical, consequente, da acção dos elementos de alta densidade como o chumbo e o bário.
Pela Marinha Grande passaram bons e vários compositores vidreiros, cuja fama ainda perdura:
António José de Magalhães Júnior, João de Magalhães, José Vieira, Manuel Lavos, eng.º Francisco António Rodrigues, Acácio das Neves Morais Matias, António Gomes, eng.º Artur Alves Pinto, eng.º Sidónio Oliveira da Silva, etc..

A evolução da ciência química vidreira e da técnica aplicada à produção do vidro, nos últimos 50 anos, permitem o domínio completo, em todas as fases do processo, de todas as variáveis que influenciam a qualidade que se pretende obter. Dispõe-se hoje em dia de todos os meios para se
obter um vidro leve como o alumínio e resistente como o aço, sob a forma de folha transparente ou de fio flexível, que pode ser tecido como material têxtil, moldado como chumbo, serrado como madeira,
transformado em lã para isolamento do calor, do frio e da electricidade, etc..
Crescem anualmente a produção e consumo de vidros para todos os fins: desde unia pequena lâmpada do tamanho de um grão de arroz para uso da medicina até à grandiosa lente do observatório astronómico Palomar, que tem 5 metros de diâmetro, passando pelas enormes chapas de vidro utilizadas na construção civil e pelos pequenos frascos para embalagem; desde os pára-brisas inestilhaçáveis até aos pequenos farolins em cores; dos componentes dos aparelhos electrodomésticos, como os canais dos televisores e das máquinas de lavar, aos complicados aparelhos de laboratório; desde os vidros usados na farmacologia e na medicina, com características especiais, resistentes à esterilização e impermeáveis à luz até aos inúmeros artigos para uso
doméstico, como copos, cálices, pratos, chávenas, espelhos, peças decorativas, etc., etc. – tudo é feito em vidro.
De tal maneira o vidro se implantou no quotidiano da sociedade moderna que hoje em dia seria difícil viver sem ele.

De entre os muitos tipos de vidro conhecidos, só se fabricam em Portugal alguns deles, os mais vulgares, como os Calco-Sódicos, mais conhecidos por vidros comuns, os Potasso-Baríticos, os Sonoros e os Cristais. Seguindo as normas da CEE, são assim classificados:
• Vidros Calco-Sódicos – São os vidros mais usados e também os mais baratos. Normalmente usados no fabrico de vidraça, embalagem (garrafas e garrafões), artigos para a construção civil (tijolos, blocos, ladrilhos e telhas) artigos para iluminação doméstica e pública (globos, lâmpadas, candeeiros, etc.). Não levam óxido de chumbo nem outras matérias primas ricas e caras.
• Vidros Boro-Silicatados – São caracterizados pela grande resistência às variações bruscas da temperatura, suportam a chama viva e resistem bastante aos choques mecânicos e químicos. Este tipo de vidro (Pirex) não está industrializado em Portugal, não por se desconhecer o fabrico mas porque o seu consumo não justifica a, montagern de um fomo próprio e também porque, em parte, é já substituído por vidros Calco-Sódicos tratados termicamente por máquinas de arrefecimento brusco (por ar frio conduzido através de um canal próprio) o que lhes dá grande resistência ao choque mecânico e térmico – como os da marca Cristalex, produzidos pela CRISAL, ou os Ividur, produzidos pela IVIMA, ambas na Marinha Grande.
• Vidros Potasso-Baríticos – Normalmente usados no fábrico de artigos em cor ou opala, para iluminação e decoração.
• Vidros Sonoros – Geralmente utilizados no fabrico de artigos para uso doméstico, possuem já certo valor, pois têm um teor mínimo de 10% (em conjunto) de bário (Ba0), potássio (K20) e chumbo (PbO).
• Vidros Sonoros Superiores – Também utilizados no fabrico de artigos de uso doméstico, num mínimo de 10% (em conjunto) das seguintes matérias-primas: bário, zinco, potássio e chumbo.
• Cristais de Chumbo – Também utilizados no fabrico de peças para uso doméstico, possuem um teor mínimo de 24% de chumbo.
• Cristais de Chumbo Superiores – Dada a riqueza do teor de chumbo (PbO), no mínimo 30%, são de todos os melhores e mais ricos em pureza, brilho e sonoridade.
Só duas fábricas em Portugal produzem cristal superior: a CRISAL, de Alcobaça, com a marca Atlantis, e a Fábrica Escola Irmãos Stephens, da Marinha Grande com a marca Stephens.
Todos os vidros, ricos ou pobres, brancos ou de cor, foram desde tempos remotos enriquecidos com decorações, isto é: lapidados, gravados a ácido, a areia ou à roda, e pintados, a frio ou a quente, por
artistas famosos.
A título de curiosidade, damos a seguir a composição usada no fabrico de Vidros Calco-Sódicos (vidro branco comum):

Matérias Primas Quantidades (em kg)
Casco branco 100
Soda 28
Potassa 8
Calcário 14
Carbonatos de Bário 5
Carbonatos de Magnésio 1,5
Bórax 1
óxido de Zinco 0,3
Nitrato de Sódio 4
Antimónio 0,2
Sulfato de Bário 0,4
Espatofluor 1
Areia 100
Arsénico 0,4

Condensado de: Cidade de Marinha Grande – Subsídios para a sua História
autoria de:
João Rosa Azambuja
edição de Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Marinha Grande
edição integrada nas Comemorações dos 250 anos da Indústria do Vidro
data de edição – Dezembro de 1998

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