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Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas – Marinha Grande

by on 22 de Dezembro de 2013
 

saulantonio gomesNotícias e Memórias Paroquiais Setecentistas – 2. Marinha Grande

Introdução histórica e transcrição paleográfica

De Saul António Gomes

O actual Concelho da Marinha Grande foi criado em 26 de Março de 1917, sendo constituído pelas Freguesias da Marinha Grande e de Vieira de Leiria, das quais nos chegam notícias e memórias paroquiais setecentistas.

Já em 6 de Novembro de 1836, contudo, D. Maria II havia promulgado um Decreto pelo qual dava o estatuto municipal à povoação, integrando o novel Concelho as Freguesias de Marinha Grande, Monte Real, Carvide, Vieira de Leiria e o lugar da Moita, na Freguesia de Pataias. A sua existência, contudo, seria muito efémera, pois que, em 17 de Abril de 1838, o Governo Setembrista extinguia este Município e reintegrava no Concelho de Leiria todas as Freguesias mencionadas. Em 1892, obteve o estatuto de vila48. Em 12 de Julho de 2001, foi integrada no Concelho da Marinha Grande, a nova freguesia da Moita (Lei 28/2001, Diário da República n.º 160 I, série A). Mas as alusões mais remotas ao lugar da Marinha, pólo de referência para a eclosão histórica da actual Marinha Grande, remontam ao período medieval, integrando-se na área do Pinhal do Rei, mancha florestal do antigo termo de Leiria profundamente intervencionada pela acção régia de monarcas como D. Sancho II, D. Afonso III e, sobremodo, D. Dinis.

Então, como agora, a essência paisagística da Marinha Grande conforma-se a essa extensa mancha florestal que tanto impressionava o poeta leirenense Afonso Lopes Vieira, que o cantou como nenhum outro criador:

“Pinhal de heróicas árvores tão belas
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhes deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a Terra e olhando os novos astros,
oh gótico Pinhal navegador,
em naus erguida levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!…”

O topónimo Marinha, no termo de Leiria, é registado pela primeira vez, no estado actual da investigação acerca desta questão, num documento de 1346. Cremos que corresponderá à povoação mais tarde designada, nomeadamente nas Memórias Paroquiais de 1758, como Marinha Pequena, a qual estará na origem do sítio e topónimo Casal da Marinha, próxima de S. Pedro de Muel, núcleo, julgamos, da futura e actual Marinha Grande51.

Naquela data, efectivamente, habitavam o lugar da Marinha, termo de Leiria, Vicente Batalha e sua mulher, Maria Domingues, os quais se desfazem de algumas propriedades rurais que possuíam de herança junto da aldeia chamada Ribeira, no concelho de Porto de Mós. Por 1376-1379, o Rei cobrava direitos sobre os moinhos da Coroa situados nos lugares de Carreira, Marinha, Carpalhosa e Agodim, no valor de 470 libras. Em 1416, João Cordeiro, morador na Marinha, afora do Mosteiro de Alcobaça certas terras localizadas no Casal da Melvoa ou Melva, freguesia de Maceira, confinante, justamente, com os limites territoriais da futura Paróquia de Nossa Senhora do Rosário da Marinha Grande. O étimo “Marinha”, como outros topónimos localizáveis neste território do antigo termo de Leiria, vai emergindo nalguma documentação tardo-medieval, como sucede em acto de 1431, no qual se regista um tal Vicente Eanes da Marinha.

A “atlantização” do povoamento nesta região estremenha e leiriense foi fortemente apoiada por D. Dinis e D. Isabel de Aragão, sua consorte e donatária de Leiria, impulsionando ambos arroteamentos profundos na área ocidental da campina do Lis e a formação de novas póvoas como Monte Real, Camarinha e Paredes, estas duas últimas desaparecidas nos séculos modernos. Já em inícios do século XIII se regista a povoação marinha e portuária de S. Pedro de Muel, com ermida servida por capelão próprio, sinal de constituir aglomerado populacional de real significado.

Nos séculos XIV e XV, compreensivelmente, a documentação escrita dá sinal do aumento do número de sítios habitados, casais ou pequenos aldeamentos, justamente na zona do Pinhal Real, sintoma do desenvolvimento das actividades económicas em torno da exploração das madeiras e da sua exportação, por via marítima, para centros de consumo distantes57.

O interesse régio pela exploração económica deste Pinhal manifesta-se pelo número crescente de nomeações de oficiais e vigilantes dessa mancha florestal. Entre vários casos, podemos citar a carta de monteiro da Matas da Mouta das Pereiras, da Galiota, da Mata Gorda e do Pinhal do Concelho de Leiria, concedida pelo Regente D. Pedro, em nome de D. Afonso V, no ano de 1441, a Gonçalo Vasques do Pinhal, genro de João do Pinhal, então aposentado desse mesmo ofício.

Em 1450, o mesmo Soberano confirmará a todos os mateiros e guardadores do “nosso pinhall que está acerca da villa de Leirea”, os privilégios e isenções fiscais de que usufruíam, conforme lhes fora já outorgado por cartas reais de D. João I, de 1401 e 1408, e de D. Duarte, em 1434. João Peres, filho de Pêro Salvado, residente no Vale da Gunha (Maceira), foi nomeado para o ofício de monteiro da Mata do Pico, em 1471, a qual partia com Porto de Vai-te-Lá, Campo do Rio, Lagoa das Trutas e lugar de Pêro Vaz60. Em 1472, Pêro Mantas, das Chãs de Regueira de Pontes, Afonso Eanes, de Carvide, e João Dias, de Riba de Aves, foram nomeados guardas do Pinhal do termo de Leiria.

No ano de 1483, D. João II apresentaria Álvaro Fernandes Belo, morador em Leiria, para o ofício de monteiro da Mata Ruiva, “como parte”, revela a carta real, “com o Campo del Rei e com a estrada que vay pera Sam Pedro de Muell do termo do dicto loguo, em logo e vagua de Joham Fernandez seu pay já finado”.

Próximos desta época, dois episódios mostram-nos momentos quotidianos de alguns vizinhos deste território. É assim que, em 1475, o Rei perdoou a Pêro da Marinha, do termo leiriense, os ferimentos que causara a Gil Eanes Conqueiro, pois que este o “fora aguardar a huum caminho pera o matar. E que elle suplicante, em defendimento de seu corpo, lhe dera duas cuitelladas por partes de seu corpo, das quaes era saam e sem cajam, pella quall razom o dicto Gil Eanes querelara delle e fora por ello preso”, com pena de dois anos de degredo no couto de homiziados de Marvão. Contudo, a pena foi-lhe comutada, atendendo o Monarca a que era homem pobre e que “tynha muytos filhos pequenos”. De 1555, data a carta de perdão real em favor de Isabel Eanes, moradora em Porto de Carro (Maceira), a qual se defendera, com violência, da penhora que lhe pretendia executar Jorge Peres, porteiro da cidade, em virtude de Pêro Fernandes, seu marido, ter desobedecido ao mandado de João Vaz da Costa, guarda-mor do Pinhal, não tendo ido “serrar ao dito Pinhal ou cortar madeira nele”.

O censo populacional de 1527 enuncia, na área territorial próxima da actual Marinha Grande, a aldeia da Marinha e lugar de Vale da Gunha, com 10 fogos, a aldeia de Coucinheiras com S. Pedro de Muel, Casal da Marinha e de Álvaro Gil, com um total de 19 fogos e a aldeia de Carvide com os Casais da Vieira e da Passagem, contanto 30 fogos.

Por essa altura, contudo, existiam já os lugares de Picassino, hoje Picassinos e de Pêro Neto. De facto, data de 29 de Outubro de 1580, uma quitação passada por Luís Dias, morador em Setúbal, a Fernão Pires, lavrador e morador na Marinha, “no casal que foi de Pero Neto, termo desta cidade de Leyrya”, sobre o valor dos renovos das terras dos filhos de Domingos Francisco, “homem do mar, natural da vyla de Buarquos e morador na vila de Setuvel”, o qual “fora casado com Brytis Anes sua molher já defunta, natural do Casal de Piquasyno, termo da cidade de Leirya, en o qual Casal viverão muitos annos de suas portas adentro fazendo vyda marital, a qual Brytes Annes sua molher hera filha de João Fernandez e de Ilena Fernandez, sua molher, já defuntos, moradores que forão no dito lugar de Piquasyno”.

Terá sido por finais de 1587 ou no início de 1588 que um grupo de moradores dos lugares da Marinha, Garcia, Picassino, Vale do Torneiro, Ordem “e outros casaes adjacentes”, então da freguesia religiosa de Santiago de Leiria, se dirigiram ao bispo D. Pedro de Castilho, solicitando-lhe autorização canónica para se edificar “na Marinha, por ser mais povoado e comodido lugar, huma irmida”. Argumentando com o facto de se tratar de uma “terra tam pobre”, pediam escusa de pagamento de custas e, ainda, que o Prelado lhes fizesse também esmola para comparticipação na dita “ereyção do alltar”, obrigando-se a sempre fabricarem a ermida em tudo o que “puderem e for rezam”.

Entre as razões, os proponentes alegavam que “os moradores da Marynha, Garcia, Piquasino, Vale do Torneyro, da Ordem e outros casais adjacentes (…) serão trinta fogos e que a destamcia da freguesia e parochia por espaço de duas grandes leguoas pella quall distamcia e por outros imconvinyentes que ha de camynhos e por os nados e os velhos e os moços e gente doente muitas vezes nam podem vir a parochia e allem diso nam comungão em suas doemças e velhices tanto como fariam se tiverem irmida; posto outrosim que tendo-a, avendo os tais impedimentos e nam os avendo teriam muitas vezes misas de devação e por as tais necesydades e acodyryam a suas adoraçois e devaçois com muito fervor e com muito proveito de suas allmas porque se allembrarão polla hocasiam mais ameude todos em geral de dar graças ao Senhor e da continua adoração a que estam obrigoados pello que se fará consollação spritoall de suas allmas”. Argumentavam, em aditamento, o “quão oportuna ser[ia] pera os que vam a Sam Pedro he pera os senhores que alli vam follgar a casa”.

Era S. Pedro de Muel, por então, estância de recreio, de caça e de lazer de fidalguia e honrados eclesiásticos e burgueses, como atesta Brito Alão de Morais na Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora da Nazaré (1628), escrevendo: “Mais adiante há outro vale e sítio formoso junto ao mar, a que chamam S. Pedro de Muel, mui cursado de Principes, e senhores eclesiásticos, e senhores, por ser a terra de muita caça de veados, e o mar de muito peixe, com penedos de muito marisco, e tem casas, porém não vive nelas senão o ermitão da ermida de S. Pedro”69.

51 De registar, contudo, que, no termo de Leiria, se assinalam, ainda em 1527, as aldeias

de Marinha junto de Vale da Gunha (Maceira) e, ainda, os lugares da aldeia da Coucinheira com S. Pedro de Muel e Casal da Marinha e de Álvaro Gil e, ainda, os Casais da Marinha, Santa Maria de Leiria e Cornegainha, nas imediações do lugar dito Coimbrão.

57 Em 1455, por exemplo, os procuradores municipais de Leiria queixavam-se ao Rei

de que os lavradores residentes no Concelho abandonavam as lavouras para se dedicarem ao comércio mais rentável das madeiras, exportadas para Montemor-o-Velho e para Santarém, diminuindo a produção de cereais. Cf. Arala Pinto, O Pinhal do Rei. Subsídios,

2 vols., Leiria, 1938-1939; S. A. Gomes, op. cit., pp. 85-86, 34-335.

60 TT — Chancelaria de D. Afonso V, Livro 16, fl. 53v.º (Note-se que, em 1758, se

menciona o lugar de Trutas, no termo da Marinha, e que o sítio de Pêro Vaz, registado

neste diploma medieval, poderá identificar-se como correspondendo ao lugar posteriormente designado de Pêro Neto)

69 Citado por João de Magalhães Júnior, “Marinha Grande”, Guia de Portugal. II.

Estremadura, Alentejo, Algarve (Apresentação de Sant’Anna Dionísio), Lisboa, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1927, pp. 646-652: 651 [nova edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1983].

FONTE: Excerto retirado de : “Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas – 2. Marinha Grande – Introdução histórica e transcrição paleográfica de Saul António Gomessite: www.palimage.pt

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