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Maria da Luz Silva (Luz da Guia)

by on 31 de Outubro de 2013
 

Maria da Luz Silva (Luz da Guia)A ÚLTIMA DAS EMPALHADEIRAS

NASCEU no Seixo, “Guia – Oeste”, a 5 de Agosto de 1930.
Chama-se Maria da Luz Silva, a nossa “Ilustre Desconhecida”.
0 pai, era serrador mecânico, na serração da estação da Guia.
A mãe, era padeira, fazia pão, broa e bolos, que vendia: em casa e levava para as feiras.

Chegam a ter dias, de fazer 15 alqueires de pão de milho.
A nossa Ilustre, tendia a broa e punha-a na pá para a irmã a colocar no forno, “parecia que tinha a medida na mão”, diz, porque se as pesassem tinham todas o mesmo peso.
Numa família de sete irmãos, Maria da Luz, andou na escola primária do Seixo, mas “era sempre a correr” porque tinha que ajudar a mãe. Aprendeu a ler e a escrever e não passar da 3ª classe, é motivo para ter muita pena, porque o seu grande desejo era chegar à 4ª classe.
Com perto de 9 anos, foi apanhar azeitona e diz que, “era pior do que as galinhas”, apanhava mais azeitona do que as mulheres e ganhava tanto como elas.
Aos 10 anos, “ganhava o dia”, nas terras, a pôr estrume.
Com 13 anos, vem para Vieira de Leiria, por isso chamarem-lhe Luz “da Guia”, foi trabalhar para, a empresa de limas, onde esteve apenas 15 dias.
Quando recebeu o primeiro salário de 9$30 por dia, ficou bastante desgostosa e decidiu mudar-se para a fábrica de vidros, onde a irmã, empalhadeira, que ganhava à peça, recebia mais do que o dobro.
Desde muito pequena que queria ser empalhadeira, profissão de uma sua tia, que ela tanto queria aprender e para isso, apanhava o vime nas terras, com uma faca e enrolava-o em volta dos garrafões.

Ao entrar para a Dâmaso, davam-lhe apenas garrafões de 5 litros, porque era muito pequena, no entanto, não descansou enquanto não trabalhou nos grandes, porque “para ser empalhadeira tem de saber fazer todos os tamanhos”, diziam as outras.

Ali, trabalhou até aos 63 anos e “saiu com as lágrimas nos olhos”.

Casou, teve 5 filhos, e os três mais velhos, chegaram a ir com ela para a fábrica, porque o Dr. Belmiro deixava que as mães levassem as crianças.

Tinha um berço a seu lado e muitas eram as vezes em que o bébé levava com o vime ao retorcer.

Depois do Dr. Belmiro falecer, foi proibido levar as crianças para a fábrica e foi feita uma barraca cá fora para as colocar, mais tarde começou a deixá-las sozinhas em casa.

Há cerca de 50 anos, quando faleceu o sr. Dâmaso, a empresa encerrou durante, cerca de 3 meses.

Durante esse tempo, a Luz da Guia, foi. para a Beira Alta com o marido e a filha mais velha, ainda bébé, empalhar garrafões num armazém de vinho.

De vez em quando, na empresa, tinham paragens e ela arranjava o vime que levava numa cesta à cabeça, com a filha e o marido e ia para o Grou e para o Coimbrão empalhar garrafões que as pessoas lhe levavam a umas salas que lhe colocavam à disposição. Ali, ganhava mais do que durante uma semana da fábrica.

É do tempo em que a empalhação, de um garrafão de 5 litros, custava 7$50, de 10 litros 10$O e de 20 litros 20$00.

Tem muita pena da profissão que está em vias de extinção, porque ninguém quer aprender a empalhar e “nem todas as pessoas têm mãos para isto”.

Na sua família, apenas uma das netas se interessa e “até dá um geitinho”, mas como está a estudar, é difícil ter tempo para aprender.

Agora, vai-se entretendo a fazer algumas peças para vender na feira de Artesanato e Gastronomia, onde trabalha ao vivo todos os dias da feira. Desde a última FAG não consegue estar sentada muito, tempo e não tem feito quase nada por motivos de saúde.

Por vezes é procurada por professoras e outras pessoas para lhe fazer uma ou outra peça, para oferecerem, desde garrafões a garrafas, jarras e copos, em trabalhado fino.

Tem pessoas que lhe guardam o vime, que ela corta com o marido e “embacela” no seu pátio, para depois preparar.

Apesar de adoentada, todos os dias inventa novos desenhos e diz que, enquanto puder “dar a volta no garrafão não vai deixar de empalhar”.

A.C.

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
(edição de 17 de Fevereiro de 2000)

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