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Lendas do Pinhal do Rei

by on 5 de Novembro de 2013
 

José Martins SaraivaProsa

Lendas do Pinhal do Rei

Lenda do Penedo da Saudade

Eram dez horas quando os Marqueses de Vila Real e os Duques de Caminha saíam do Convento de Sant’Ana, depois de terem ouvido missa na capela. Um carro de abastecimento e das malas aguardava a partida dos ilustres senhores. Mais à frente, à saída do Convento, uma linda carruagem, de concepção do século, esperava. Tanto o carro como a carruagem eram conduzidos por criados vestidos a rigor. Ladeando-os, quatro homens a cavalo, devidamente equipados e armados de pistolas e arcabuzes. Três criadas, seguiam, conjuntamente ao abastecimento e às bagagens. Quando os ilustres senhores chegaram, somente a Marquesa e a Duquesa tomaram os seus lugares na carruagem, onde já se encontrava a aia. O Marquês e o Duque, o pai e o filho, montaram a cavalo e colocados à frente, deram início à marcha.Se bem que há mais de uma dúzia de anos, a morte de Francisco Rodrigues Lobo, ainda era sentida. Os Marqueses de Vila Real sentiam-lhe a falta. Habituados ao seu convívio, à elegância e afabilidade do seu trato; porque ele comunicava-lhes a sua grande paixão pelas Ribeiras de pastos verdes; a beleza bucólica da paisagem, onde a natureza se lhe oferecia nos seus dons oratórios; o desaparecimento do poeta sentiram-no, se bem que duma forma de dolorosa saudade, também e acima de tudo, como uma verdadeira ameaça ao seu prestígio, como o desvirtuamento da sua casa, do seu poderio, do seu brasão, pois Rodrigues Lobo não era só um seu protegido, era como que um elemento mais da ilustre família, e a sua morte, envolta em muitas dúvidas, foi recebida como uma real afronta. O poeta era judeu, mas era um exemplo de conduta e de valor: deveria ser estimado e favorecido pelo que representava para o País e como português porque como tal nasceu e viveu.Naquele tempo, O Pinhal do Rei era, se não sinistro, pelo menos como representando alguns perigos. Através dos seus nove quilómetros de largura, não havia feras de temer mas era possível o encontro com grupos de facínoras que ali se acoitavam, guardando os melhores caminhos esperando as presas, ou pela orla, escolhendo o momento propício do assalto aos camponeses das aldeias vizinhas.

De Leiria até à costa de Moer levavam cerca de uma hora e um quarto. A meio do Pinhal, atravessaram a ponte de madeira sobre o rio Moer. O Moer já deixara, há muito, de ir desembocar no pequeno golfo, e este, o golfo, entrara de se assorear estreitando e perdendo a profundidade. Segundo registos, desde 1147 que 17 sismos de significativa intensidade, abalaram a região de Moer, até ao ano de 1531, depois houve o de 1597 e o de 1755. Todos os sismos foram de intensidade entre V e VIII graus, excepção ao de 1755 que foi de grau X. É fácil de calcular que só os sismos anteriores a 1300 tiveram influência na modificação do curso do rio Moer, ou seja, antes do Pinhal ter sido semeado, nessas imediações, por D. Dinis, já que com os pinheiros desenvolvidos as raízes segurariam as terras e teriam evitado grandes modificações. Antes de 1300, se bem que já houvesse pinhal do porto de N. Sr.ª da Vitória para o Sul, do Camarção para Norte a região de Moer era constituída de dunas de areia leve e solta susceptível de fáceis modificações e absolutamente à mercê de sismos de grau VII ou VIII.

Também temos a certeza que essa modificação não se teria dado antes de 1200, pois tanto o Porto de Moer, como o Porto de N. Sr.ª da Vitória eram utilizados pela esquadra portuguesa, sob o comando de D. Fuas Roupinho, Senhor de grandes dimensões de terras, do mar a Porto de Mós: principalmente o Porto de N. Sr.ª da Vitória, onde a esquadra, fundeada, esperava o seu almirante.

Foram os fortes abalos do terramoto de 1531 que destruíram o Porto de N. Sr.ª da Vitória, desfazendo-o de tal forma que esse local passou a ser só paredes, no real e no nome (Paredes). No ano de 1542, como não fazia sentido o povo dos lugares vizinhos deslocarem-se à igreja destruída dum local onde não existia ninguém, pois os habitantes de N. Sr.ª da Vitória eram pescadores e homens do mar, e tomados de pânico, ante a terrível destruição e do número de vidas perdidas, mudaram-se para a Pederneira.

Depois de levantada a igreja de invocação a St. António, Pataias passou a sede de freguesia, passando a fazer-se, todos os anos, no dia 15 de Agosto, uma romagem à Capela da Praia das Paredes de invocação de N. Sr.ª da Vitória. Da mesma forma, os descendentes da população do destruído Porto de N. Sr.ª da Vitória, vão em romagem, após a Páscoa até à quinta-feira da Ascensão do Senhor, da Pederneira para a Praia das Paredes, onde, ao redor da Capela, montam as suas barracas para a longa devoção.

A casa de praia do Marquês de Vila Real, foi edificada na arriba sobre a praia, a Sul da rocha onde se levantou a Capela Velha, cremos que sobre a primitiva e tosca capela onde o Ermitão de S. Pedro viveu e deu nome à praia. Pensamos que a casa do Marquês de Vila Real tenha sido edificada sobre ruínas anteriores e muito mais antigas, e talvez sobrepostas às construções das dominações: fenícia, romana, goda, árabe, ou mesmo dos primórdios da nacionalidade, pois é crível que os fortes abalos que destruíram o Porto de N. Sr.ª da Vitória também tenham destruído as possíveis edificações do porto de S. Pedro de Moel (Moer).

Julgamos que no tempo dos Marqueses de Vila Real, senhores que foram de Moer, existissem mais algumas casas e os barracões do porto, mas tudo, mais ou menos, acabaria por se deteriorar e ruir depois do Marquês e do Duque terem perecido justiçados pelo rei D. João IV, o qual, extinguido os títulos, lhes confiscou os bens incorporando-os na Casa do Infantado, instituição régia de domínio de determinados bens, criada em 11 de Agosto do ano de 1654 por D. João IV, a favor do infante D. Pedro, futuro D. Pedro II, com privilégios semelhantes aos da Casa de Bragança.

Como senhores da região da costa de Moer, teria o Marquês de Vila Real mandado edificar, sobre a rocha e os restos da tosca Capela do ermitão de S. Pedro, a Capela que se designou, posteriormente, de Capela Velha, e aonde afluía muito povo em romaria.

Naquela casa do Marquês de Vila Real, houvera o privilégio de se ter ouvido a voz de Francisco Rodrigues Lobo, declamando e discutindo os seus versos e as suas prosas. Fora, também ali, que correndo e brincando, D. Miguel Luís de Menezes, futuro Duque de Caminha, crescera aos favores do sol e do iodo do mar. Fora ali que D. Miguel se fizera um garboso gentil-homem e onde amara as suas duas primeiras esposas e que, agora, no gozo melífero da sua terceira lua de mel, se rendia á beleza, graça e juventude de sua nova esposa, a Duquesinha D. Juliana Máxima de Faro, filha benquista dos Condes de Faro. Aos 27 anos de idade, tão novo, garboso e varonil, já tinha amado e sofrido de sobra. Mas agora, com a sua nova esposa, tão fresca e tão terna, linda como um anjo, rubra de juventude, de alegria e ânsia de amor, nada mais queria do que partilhar o quanto lhe ia na alma romântica e sonhadora, com aquela deusa de encanto e doçura.

Ao chegar à praia, o jovem Duque correu ao cimo da arriba e soltou os olhos ao infinito, mar fora, à procura do quanto o amor lhe incendiava o peito e propulsava a imaginação.

Depois do Almoço, a Duquesinha sentou-se ao cravo deliciando-o com a sua destreza e a sua delicada sensibilidade. D. Miguel, de olhos semicerrados, voava na alma à altura dos anjos, bendizendo, ao mesmo tempo a esposa prendada que Deus lhe oferecera.

Após um leve repouso, o Duque falou ao ouvido da sua Duquesinha e ambos, rindo e folgando, saíram. O Duque mandara aparelhar dois cavalos, e, exteriorizando uma esfuziante felicidade, meteram os cavalos a trote em direcção ao Norte, pelo cimo da continuada arriba, parando sobre um pequeno promontório.

Sempre a tagarelar, o jovem Duque tirou da cela uma manta que estendeu. Depois, sobre aquele penedo, tão alto e saliente, que se temia que escorregasse e caísse para o mar, envoltos num silêncio estranhamente musicado pelo mar, deram largas aos desejos ardentes e aos sentimentos mais belos que o amor mais puro pode gerar.

Naquela penedia enorme, as ondas debatiam-se num esforço de derreter e alargar aferindo da sua consistência, soltando dos embates miríades de ínfimos salpicos salgados que esvoaçando, desciam e se depositavam. D. Miguel já conhecia aquele retiro paradisíaco, há muitos anos. Vinha ali desde pequeno: primeiro acompanhado de seu pai; mais tarde, a caminho da maioridade, tinha vindo sozinho, cavalgando, depois, horas sem cessar pela borda do mar na dimensão das longas praias a Norte. Ano após ano foi ganhando uma verdadeira paixão àquele rochedo, aonde trouxera, também, as suas duas primeiras esposas.

Ali, no ermo e no belo, esquecia-se das mágoas e aprendia a escolher a beleza. Ali, podia realmente viver: podia amar sem ser visto. Ao redor só o mato maninho e rasteiro, misturado de flores, levemente rosadas, mas tão invulgares que só naquele local as encontravam.

À sua frente, o mar; o mar sem fim, azul, sustentando o céu nos braços do horizonte. Agora, naquela penedia, só eles, os dois apaixonados ainda em plena lua de mel. Por cima, o crocitar das gaivotas desenhando na magia do voo, ou planando ao sabor da brisa morna da Primavera adiantada.

E naquele paraíso da beira-mar de Moer se passavam os mais belos dias dos recém-casados. Uma vida que era preciso aproveitar e dela extrair a fragrância inesquecível que o amor oferece à juventude.

Ao fim de dois meses era mister regressar a Lisboa. Com os jovens Duques, a lembrança feliz das tardes sobre o promontório atirado ao mar, na costa de Moer. Em Lisboa havia outro ritmo, outra forma de vida, outra forma de estar. A Restauração tinha-se dado em Dezembro do ano que passara e a premente necessidade de juntar os mais influentes era reclamada pela corte.

Passados os tempos de euforia, uns estavam contentes com o novo Rei D. João IV, que iniciara o reinado favorecendo uns, desfavorecendo outros. D. Miguel Luís de Meneses que herdara o título de Duque de Caminha por mercê de Filipe II, vira-o confirmado por D. João IV, em 14 Maio de 1641. D. Miguel estava contente, mas seu pai, o Marquês de Vila Real, Alcaide-Mor de Leiria, membro do Conselho de Estado de Filipe III, e a quem D. João IV, confirmando-lhe o título de Marquês de Vila Real, concedeu o lugar de Conselheiro de Estado, não se julgando suficientemente recompensado, entrou de conspirar de parceria com o Arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha, o Inquisidor Geral, D. Francisco de Castro, o Conde de Armamar, Rui de Matos e Noronha, somente com vinte e quatro anos e sobrinho do Arcebispo de Braga, o Conde de Vimioso e outros.

Um dia, em Lisboa, a nova Duquesa de Caminha, D. Juliana Maria, tão jovial e ansiosa de mimos, ainda nas primícias de recentes núpcias, surpreendeu, em sua casa, uma secreta audiência que a encheu de amargura e pavor. Seu sogro, o Marquês de Vila Real, D. Luís de Noronha e Meneses, tentava aliciar seu filho, o Duque de Caminha, e seu marido, que tão cheio de ventura andava e tão alheio aos problemas de Estado, só tendo, até então, olhos e atenções para a sua jovem e doce esposa. Esperando a saída do sogro, a Duquesinha, suplica com veemência ao marido, que não compareça à reunião aprazada. D. Miguel, desgostoso por ela ter ouvido, pois queria resguardá-la de semelhantes aflições, puxando-a a si e beijando-a docemente, jura-lhe que comparecerá na reunião somente para melhor poder afastar o seu pai daquela loucura.

À hora da saída do Duque para a reunião aprazada, a Duquesinha lança-se ao pescoço do marido tentando não o deixar sair. Sorrindo e com algum esforço, o Duque solta-se dos braços de sua linda e jovem esposa, e garboso, desce, de capa negra sobrepondo o gibão de tecido rugoso; de feltro eriçado, as plumas caprichosas mergulhadas nas pregas da capa; a espada de Toledo batendo no cano das botas de cavaleiro; à porta, vira-se, atira-lhe um beijo enquanto ela, lavada em lágrimas, esconde a face nas frescas e rosadas mãos.

Foi impossível ao Duque fazer mudar de ideias seu pai. O Marquês de Vila Real, falava com uma tal ira, esquecendo por completo a honra e a insígnia dos seus antepassados. O jovem Duque, ouvindo seu pai, ficou horrorizado e esperando o pior.

No dia seguinte, Luís Pereira de Barros, não perde tempo e denuncia a El-Rei a conjura. D. João IV dá-lhe ordem para fazer a denuncia por escrito, com o nome de todos os implicados.

El-Rei, recebe novas denúncias. Ordena a prisão de todos os conjurados. Nem o moço e inocente Duque de Caminha escapa ante a sofreguidão de vantagens do delator.

O Arcebispo de Braga é encarcerado em S. Julião da Barra. O Marquês de Vila Real e o Duque de Caminha, presos no Paço da Ribeira, são levados para as masmorras de Belém. O Conde de Armamar é metido na terrível enxovia do castelo de S. Jorge. Outros membros do clero, da nobreza e do povo, são fechados nas fortalezas de Setúbal e de Cascais. O povo, incitado, vem para a rua vociferar, tentando castigar a fidalguia e o clero: esquecendo que foram fidalgos que aclamando D. João Pinto Ribeiro, generosamente libertaram Portugal do jugo estrangeiro.

Entretanto, à voz da desgraça, a Duquesinha corre a casa de sua mãe, a Condessa de Faro e, entre soluços, jura a inocência de seu marido, o Duque de Caminha. A Condessa de Faro, D. Magdalena de Lencastre, intervém: - Socega! - O nosso Arcebispo, D. Rodrigo da Cunha, que goza de mui valimento no Paço da Ribeira, e como tem um alto afecto pelo Duque de Caminha e pelo Condes de Faro, certamente irá connosco jurar a inocência e solicitar o indulto de teu marido, D. Miguel Luís de Meneses.

O bom do Arcebispo, oferece-se para defender tal causa e acompanha ao Paço a Condessa e sua filha, a Duquesinha. E ante El-Rei, D. João IV, proclama a inocência do Duque, solicitando o seu perdão, entregando ao Rei, a declaração que o jovem Duque escrevera, com o seu próprio punho: clamando que unicamente sobre ele existe a culpa de não ter denunciado aquele que lhe deu vida. Mas denunciá-lo, seria o mesmo que se tornar parricida, pois que, tendo renunciado a tamanho horror mal se sentia para com o Rei e para com o seu pai.

Sofrendo a terrível ansiedade, a Duquesinha, vendo a impassibilidade de El-Rei e a rigidez da Rainha, ouve pronunciar o monarca: - Bandeou-se com traidores!

A Duquesinha, quase louca, lança-se aos pés da Rainha, suplicando-lhe o perdão do seu inocente e jovem marido, apelando para o seu coração de mulher e de esposa.

A Rainha, olhando o sofrimento daquela linda criança, esposa tão moça do Duque sem culpa, mesmo assim, insensível, surda a quaisquer rogos, não se demove e, fria e arrogante, não tendo em conta, sequer, o parentesco, contesta com arrogância: - Não! as injustiças... pedem justiça!...

Assim, decorridos que foram breves dias, a justiça condena á decapitação os fidalgos implicados. O Inquisidor Geral e o Arcebispo de Braga, a prisão perpétua. Os burgueses e os plebeus, a serem enforcados e esquartejados.

À uma hora da tarde do dia 29 de Agosto do ano de 1641, o Rossio, guardado pelos homens de D. Francisco de Noronha, encheu-se de nobreza, de clero e de povo. As janelas cheias. Empoleirados pelos telhados, sem escrúpulos nem dó, deliciam-se as gentes no antegozo do macabro espectáculo.

Ao aparecimento do fúnebre cortejo, o povo contorce-se, ante frades com cruzes, ante os mosquetes aperrados, os chuços alçados. Seguindo a bandeira da Misericórdia, as tumbas para receber os despojos. No passadiço, o Marquês de Vila Real, de negro, em vez do gibão de cor, os polegares ligados sobre o peito. Um frade atirando-lhe as palavras de contrição. Seguem-no, o Duque mais dois fidalgos e quatro plebeus. Estão todos no patíbulo. O povo protesta contra os traidores.

Pescoço à vista, à mercê do carrasco, o Marquês de Vila Real, com a sua acostumada sobranceria fidalga, solicita o perdão do povo.

- Morra o traidor! - Vociferam milhares de vozes.

O Marquês curva-se. O carrasco levanta o cutelo, desce-o, rápido, reflectindo no aço os raios de sol espavoridos. A cabeça do Marquês rola, separada do tronco.

Dobram sinos a finados. Por cada cabeça solta, no patíbulo, se junta o tronco recolhido na tumba.

Os sinos continuam: dobram, arrepiantes. Um horror. Encomendam-se as almas.

De repente, faz-se silêncio. O moço Duque de Caminha, em trajo de corte, avança, sereno, para o carrasco. A turba até ali rugidora e impiedosa, completamente silenciada. O povo sente. O povo adivinha onde a justiça falha. Os corações batem mais apressados. Os peitos respiram com interferências, e mais fundo. Pressente-se o drama. Mais um inocente sacrificado à impassibilidade, à arrogância, à cólera do trono. Na presença do jovem Duque, o povo sofre, sufoca ante a injustiça da sentença. Todos esperavam a desejada absolvição. Mas não. Em vez disso, vêem, amargurados, presos do remorso e da ansiedade, o Duque ajoelhar, mãos ligadas, oferecendo o alvo pescoço ao golpe do carrasco. Fecham-se os olhos. Espera-se o momento crucial, sem se respirar. O impacto do cutelo. Os sinos dobram. Dobram. Dobram. Choram. Estridentes. Patéticos. Angustiados. Ninguém compreende a sentença, a crueldade, a injustiça sobre uma alma nobre e sem pecado.

A todos colhe, sem se saber porquê, sem se compreender, uma dor surda, terrível, como um pavoroso remorso vindo do espaço, apertando os corações, deixando os peitos sem ar. É a enorme dor saída em grito, sensibilizando o infinito, do tão moço e sofredor coração da linda Duquesinha, recente noiva e logo viuvinha pelo trágico quão iníquo martírio do marido jovem, inocente, flor ainda em botão a abrir às belezas da vida, drasticamente cerceado. O coração da Duquesinha, cheio de tanto amor para oferecer, abriu ao vento, espalhou a dor.

A Duquesinha e a sogra, saem para Leiria. No dia seguinte para a praia de Moer. Ela, a criança linda e viuvinha, num nunca esperado e doloroso martírio da tragédia, com os olhos perdidos, estagnada no sofrimento. Somente, somente a saudade aceitava como pretexto a simples refrigério.

Fora ali, naquela praia, que a flor mais bela e mais perfumada se lhe abriu no peito, ávido de amor e doçura, esperando colher a Primavera da vida, mas que o acto impensado e tresloucado dum pai fez soçobrar, drasticamente. Agora, só ali, junto da praia e da penedia que ele adorava e onde passaram os mais belos momentos, saudosamente o poderia recordar. Era só ali que o poderia recordar, onde ele lhe dera a sublime ventura de aprender a amá-lo. Era ali que melhor poderia reconstituir, mentalmente, a sua figura varonil, o rosto correcto, os olhos em que ela se mirara, os lábios ardentes que a beijaram. Então, tomou uma resolução: - enquanto vivesse e enquanto pudesse dispor daquela casa, daquele ninho de amor, iria, quando o tempo permitisse, gozar em saudade, a lembrança, agora amarga, mas antes doce, das tardes passadas com o seu Amor, sobre o pequeno promontório aberto ao mar e ao céu.

Quando o tempo deixava, mandava aparelhar dois cavalos e ia, mais a sua aia preferida, matar as saudades sobre aquele sítio ermo e maravilhoso.

Tal como o Duque fazia, tirava a manta da cela e estirava-a sobre a rocha, aqui e ali, coberta de fina verdura.

Miríades de folículos de espuma, esvoaçando, caíam sobre ela. Sob o espaço azul, gaivotas caprichosas, crocitavam. Até o longe se encostar ao horizonte, o mar, recebendo o céu. Em volta, quase junto dela, maciços de flores, rosa-pálido, com um aroma vago e selvagem. Era daquelas flores que ele colhia e que, num raminho, lhas oferecia, cheio de candura.

Levantou-se. Colheu algumas daquelas flores estranhamente belas; pensou um instante e, com um novo clarão nos olhos e um leve sorriso triste, deu-lhe o nome de Saudades.

A Tarde estava no fim. O sol avermelhava. As nuvens, esfumadas, ganhavam, lentamente, uma tonalidade sanguínea. As gaivotas continuavam a sua dança suave, crocitando de quando em vez mais gritante. Ermo absoluto. Um silêncio onde mal se ouvia a respiração do mar. Saudade. Só saudade naquele peito ferido de frágil viuvinha amando o que jamais volta, mas que a lembrança, a todo o custo, tenta ter presente.

A Duquesinha levantou-se. Dobrou a manta e colocou-a na cela. Depois, por momentos, estática, virada ao horizonte, murmurou, enquanto as lágrimas rolavam daqueles belos olhos magoados:

- Meu querido marido e Duque de Caminha!... Em recordação aos momentos mais belos da minha vida, que será sempre e somente tua, este penedo ficará a chamar-se: Penedo da Saudade!

E assim, duma terrível tragédia e duma amarga-e-doce saudade, nasceu uma história quão triste, quão linda, que nos doou o nome do mais belo penedo da costa de Moer (Moel).

 

Lenda do Penedo da Saudade - desenho de Guilherme Correia
Lenda do Penedo da Saudade - desenho de Guilherme Correia

Lenda da Garcia

No opúsculo compilado pela investigação de "Os Escolhidos - Grupo de Jovens", de A-do-Barbas, que José Ribeiro, residente nesse mesmo mesmo lugar, fez o favor de me oferecer, diz-se, entre outras coisas de reconhecido mérito, que o nome de A-do-Barbas advém duma quinta que a família Barba Alardo possuía nesse lugar. É preciso notar que os Barba Alardo eram fidalgos dos primórdios da nacionalidade, de origem francesa, a quem D. Afonso Henriques fez doação de Vila Verde dos Francos, no concelho de Alenquer.Devemos ter em atenção que a região entre Alenquer, Lourinhã, Atouguia, Óbidos, fora povoada por gente francesa, vinda para cá quando das cruzadas que auxiliaram na tomada de Lisboa e a quem D. Afonso Henriques fez mercê.Na igreja de Nossa Senhora da Pena, que D. Afonso Henriques mandou edificar no Castelo de Leiria, ainda antes de ser Rei, existe, do lado do Evangelho, uma sepultura cuja inscrição está ilegível, mas que Silva Araújo copiou, e que dizia: - Sepultura de que fez mercê o Sr. Rei Manuel I a Pero Barba Alardo, Alcaide Mor do Castelo de Leiria, Capitão de Ceuta. Que foi filho de Rui Barba Correia. Do Cº. dos Reis. D. A.5º. E Delº. 2º e Ntº de Fernão Sousa Alardo que foi Alcaide deste Castelo e do da Vila de Óbidos. E bisneto de Rui Miz Barba e de Eria Miz Alardo o Srº......... D. Alardo Sr. de Vila Verde. Por M. Delrei D.A.º 1º. Anno de 1160.

No entanto, esta data de 1160 não pode ser exacta. Vitorino da Silva Araújo, ao copia-la duma gravação danificada e quase ilegível, teria, quanto a nós, tomado o algarismo das dezenas "0" por "6" e o algarismo das centenas, talvez em pior estado, de "5" por "1". Pois aventamos como mais certa, a data de 1500. Para esta conclusão temos que: - D. Pedro Correia Barba Alardo, aparece como alcaide do Castelo de Leiria, em 23.06.1474, pelo Conde de Vila real, durante o reinado de D. João II, e, como tal se manteve até à sua morte durante o reinado de D. Manuel I. Se D. Manuel I, que subiu ao trono em 27.10.1495 e reinou até 13.12.1521, fez mercê da dita sepultura, teremos que a data mais provável seria a do ano de 1500 por ser a que melhor se poderia confundir, por deficiência de leitura na pedra danificada, com a data de 1160.

Verificamos que fidalgos, de origem francesa, Barba Alardo, Senhores que foram de Vila Verde dos Francos, do concelho de Alenquer, também foram Alcaides de Óbidos e de Leiria. Pensamos que os Barba Alardo tenham sido Alcaides de Leiria, desde o reinado de D. João I ou desde o de D. Duarte, visto a inscrição da sepultura mandada fazer por D. Manuel I, mesmo ao findar do século XV, nos falar do avô do sepultado, e que foi Fernão Sousa Alardo, Alcaide de Óbidos e Alcaide de Leiria durante a Alcaidaria-Mor de D. Gonçalo de Albuquerque, que foi pai de D. Afonso de Albuquerque, vice-rei da Índia.

Das duas hipóteses oferecidas na "História de A-do-Barbas, esta primeira, já enunciada, é a mais lógica e fundamentada. A segunda hipótese: - A toponímia do lugar poder derivar de, em tempo anterior, ter existido uma proprietária duma taberna, com barbas: - uma mulher com barbas tal qual um homem. Pensamos que, se a toponímia do lugar tivesse essa proveniência, o lugar não se chamaria de: - A-do-Barbas mas, antes, A-das-Barbas. Logo que a toponímia é A-do-Barbas, isso nos poderá levar a que nesse local teria existido a quinta do Barba (Alardo); o que, no decorrer do tempo, e por lhe soar melhor, o povo transformaria em: - A-do-Barbas.

Nesse opúsculo de "História de A-do-Barbas", aventa-se a possibilidade de Santo António, de Lisboa, ter passado pela A-do-Barbas, então sem essa designação, depois de ter pernoitado em Alpedriz, no ano de 1212, quando ia para o Mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra.

Quanto à capela que se aventa ter sido construída pelos peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela mas, sem se definir a data da sua construção, cremos, ter muitas possibilidades de ter sido assim. Depois da conquista de Lisboa, no ano de 1147, praticamente toda a região acima do Tejo ficou libertada dos infiéis, depois, repovoada Lisboa e as zonas da Estremadura e do Ribatejo, é natural que, com o fervor religioso do século XIII, os peregrinos a Santiago, saídos do Sul, preferissem os caminhos do Norte, por Sintra ou Alenquer, Torres, Óbidos, Alfeizerão, Alpedriz, A-do-Barbas, Garcia, Camarreu, Soure, etc., e que, movidos pelo cansaço da viagem, que faziam a pé, tenham construído, naquele local, uma pequena e tosca Capela de invocação a Santiago, onde lhes fosse permitido pernoitar e orar perante o altar do Santo protector.

É natural que o lugar da Garcia estivesse, nesse tempo, também na rota de Santiago. Pois, segundo consta, trata-se dum lugar muito antigo, cuja toponímia se deve ao habitat das garças, e que, por isso, era muito procurado pelos fidalgos da região, mormente de Leiria, para os favores e gozo da caça (de acordo com Joaquim Barosa, autor das "Memórias da Marinha Grande").

Quando eu era um rapazinho, fui algumas vezes pescar com o meu pai ao rio Moel. Como eu gostava muito de ouvir histórias antigas, o meu pai contava-me algumas enquanto andávamos pelo Pinhal, entre elas, contou-me que ouvira ao pai dele, que foi Mestre Florestal, que se dizia que tinha existido há centenas de anos, no lugar da Garcia, lugar mais antigo do concelho de Marinha Grande, uma casa solarenga ou apalaçada. Quando o meu pai morreu, eu empreguei-me na Companhia Industrial Portuguesa, na pintura a fogo. Tinha doze anos. Com essa idade, lia tudo o que me viesse às mãos. Com o dinheiro que ia amealhando todos os meses comprava um livro: os livros passaram a ser os meus melhores amigos. Pouco a pouco nasceu em mim uma ânsia de saber, e por isso, fui ganhando muitos conhecidos e alguns amigos ao longo dos anos. Conversando com toda a gente, pois fui sempre humilde e igual a mim mesmo, vim a saber por um homem já idoso e que era da Garcia, que, segundo os antigos, essa casa solarenga ou apalaçada, teria pertencido à família de Rodrigues Lobo. Alguém me disse que, quando se procedia a abertura dum poço, nas imediações onde se chegaram a ver alguns restos de alicerces, encontraram-se algumas vigas de madeira aparelhada, em bom estado, e restos de cerâmica.

Havia mesmo quem afirmasse que Rodrigues Lobo, tinha nascido ou pelo menos vivido nessa dita casa solarenga da Garcia. Sabe-se que Rodrigues lobo descendia duma família de judeus, que antes abastada, fora perdendo a sua opulência e, ao tempo da adolescência do poeta, poucos meios tinha de subsistência.

Essa casa de judeus, na Garcia, não deixa de ter uma certa consistência. No romance histórico "O Arco de Sant’Ana", de Almeida Garrett, podemos constatar que: - durante a guerra civil, entre os partidários do rei D. Afonso IV e os partidários do Príncipe D. Pedro, eclodida em 1355, (após o assassínio de Inês de Castro, em Coimbra, em 7 de Janeiro de 1355, mandado efectuar pelo Rei, aproveitando a saída para a caça de D. Pedro), um grupo de cavaleiros afectos ao Rei, quando seguia a caminho do Norte, sofreu uma emboscada dos partidários de D. Pedro. Nessa refrega, vencida pelos partidários de D. Pedro, os vencidos pereceram quase todos: - só um escapou mas, com ferimentos tão graves que certamente morreria se não tivesse sido socorrido, casualmente, por um velho judeu, de nome Abraão Zacuto, que, ao alvorecer da manhã, regressava de casa duns parentes que estavam doentes e habitavam à orla do Pinhal. Abraão Zacuto, de longas barbas e de longas vestes, com uma pequena touca cobrindo-lhe a calva, facilmente denunciando a sua origem, apoiava-se a um bordão branco, e trazia, pendentes, rolos de pergaminhos, e à cinta, uma bolsa de couro onde retiniam utensílios de vidro e de metal, que pelo som se faziam adivinhar. Voltando duma aldeia perto, aonde fora acudir a um velho parente que morria de febres malignas, recolhia, àquela hora, nos subúrbios de Leiria, aos barracões de sua casa que, por fora, não passavam duns ordinários barracões, mas por dentro, faziam uma casa tão confortável e rica como muitos poucos palácios; então, deparando com aquela horrível mortandade, parou atentando ao débil gemido ouvido. Verificando que o ferido ainda vivia, o bom judeu, transportou-o com dificuldade, ora aos ombros cansados, ora arrastando-o, conseguindo chegar, a casa, quase extenuado. Pedindo auxílio aos criados, depôs o ferido numa cama. Abraão Zacuto, com o desvelo da mulher e da filha, conseguiu salvar o homem: - o homem que o cobriu de opróbio, violando-lhe a filha enquanto esta, cansada, dormia. Abraão Zacuto e sua mulher morreram de desgosto. A filha, que se chamava Ester, teve um filho desse pecado, e que o homem que a violou e que acabou por ser Bispo do Porto, um dia roubou ao seu amor de mãe, ainda mais a amargurando. Mais tarde esse Bispo foi mandado despir das suas vestes por D. Pedro I, que lhe castigou as costas com o azorrague, devido às sua infâmias.

Por este trecho, mesmo que nunca tivesse sido real, fica provada a existência duma família judia habitando na orla do Pinhal do Rei, numa pequena aldeia e que, se não houvesse possibilidades dela ter existido, Almeida Garrett não a teria ali situado, mesmo que o conteúdo da história tenha fugido dos factos.

A história do romance de Garrett situa-se no tempo de D. Afonso IV, acabando por abraçar o final do reinado de El-Rei D. Pedro I, o Cru, e que, neste caso, nos assegura a realidade da existência duma família judia numa pequena aldeia à orla do Pinhal do Rei. Partindo da sua existência, não nos custa a acreditar que os seus descendentes, mesmo com menos possibilidades, tenham chegado aos anos de 1573 a 1620, precisamente entre o nascimento e o desaparecimento do poeta nas águas do rio Tejo.

Com o 1º Marquês de Vila Real (3º Conde de Vila Real e 7º Conde de Ourém), D. Pedro de Meneses, filho dos 2ºs Condes de Vila Real, D. Afonso de Noronha e de D. Isabel (bastarda do rei D. Fernando), Capitão Donatário de Ceuta, Senhor de Almeida, Freixiel e das ilhas Canárias e Alcaide de Leiria, casado em 6 de Agosto de 1462 com D. Beatriz, filha dos 2ºs. Duques de Bragança, D. Fernando de Noronha e de D. Joana de Castro, iniciou-se a ligação da Casa de Bragança à vila de Leiria (quando da entrega desta, em 1463, por D. Afonso V à Casa de Vila Real).

Foi a filha do 2º Duque de Bragança, D. Catarina, Condessa de Loulé, viúva do 3º Conde de Marialva, D. João Coutinho, morto a 24 de Agosto de 1471, na tomada de Arzila, e sem descendência, que resolvendo consagrar-se a Deus, fundou em Leiria o extinto e desaparecido Convento de Sant’Ana, de religiosas da observância de S. Domingos. D. Manuel I, doou-lhe 126$000 (reis) e 75 alqueires de trigo no almoxarifado de Leiria, e mais 180 alqueires de trigo no almoxarifado de Vila-Franca e Malveira. Isabel de Lemos, que foi a primitiva dona dos terrenos onde se levantou o Mosteiro, legou-lhe todos os seus bens. Em 1626, a Duquesa de Bragança, D. Brites, deixou-lhe vários bens, com o ónus de uma missa dominical. Esta Duquesa de Bragança, D. Brites, segunda mulher do 5º Duque de Bragança, D. Teodósio I, e sua filha, D. Isabel, primeira mulher do 1º Duque de Caminha e 6º Marquês de Vila Real, D. Miguel Luís de Meneses, foram sepultados no dito Convento de Sant’Ana, em cujos epitáfios se lia: - "Sepultura da Duquesa de Bragança, Dona Brites, mulher do Grão Duque de Bragança, Dom Teodósio, Quinto Duque de Bragança. Falecida a 5 de Junho de 1626". E a outra: - "Sepultura de Sr.ª D. Isabel Dalencastre, Duquesa de Caminha, mulher do Duque de Caminha D. Miguel de Meneses. O Prº. Falecimento na era de 1625" (esta data está errada, a Duquesa de Caminha morreu a 21 de Maio de 1626). Na Casa do Capítulo, havia, também, uma outra sepultura: - "Sepultura da I11mª Sr.ª D. Filipa de Meneses, filha do Marquês e Duque de Vila Real. Faleceu a 16 de Agosto de 1644".

No cimo do monte a sudeste de Leiria levanta-se o templo de Nossa Senhora da Encarnação, bem defronte do Castelo que lhe disputa a excelência de ser o mais venerado. A voz indecisa duma lenda diz-nos que talvez remonte ao século VI a existência, nesse monte, duma pequena Capela. Já como certo temos que, D. Fr. Aimaro, primeiro Bispo de Ceuta (1421-1443) e confessor da Rainha Dª. Filipa de Lencastre, levantou, sobre as ruínas ali existentes, uma Ermida da invocação do Anjo S. Gabriel. No tempo de D. Fr. Brás de Barros, Organizador da Fundação da Diocese de Leiria e seu primeiro Bispo, Prelado de vigorosa personalidade, grande humanista do seu tempo, estava a Ermida danificada, pelo que, o Bispo a mandou reedificar, ficando a obra acabada no ano de 1554.

No dia 11 de Julho de 1588, estando presente a Marquesa de Vila Real, e algum povo, nossa Senhora fez um famoso milagre em Susana Dias, do lugar das Cortes, que havia vinte e oito anos era aleijada das pernas. Conta-se que, Susana Dias veio num carro puxado a animais, estribada em muletas e ajudada por braços humanos, subiu o monte; entrou na Ermida e deitando-se por terra, mandou dizer missa. Levantando o Prelado a hóstia e indo a levantar o Cálix, a entrevada se pôs de joelhos e, com algum esforço, se colocou de pé; lançou fora as muletas e passeando publicamente pela Ermida, proclamou em voz alta o milagre. Este milagre em Susana Dias, foi aprovado, e o Cabido da Catedral, no dia seguinte, subiu à Ermida em procissão, para dar graças à Senhora. Com a ajuda das famílias de Leiria e de todo o povo, iniciou-se a construção do templo actualmente existente, do qual se lançou a primeira pedra a 24 de Setembro do ano de 1588, sendo então bispo, D. Pedro de Castilho, que estava presente, assim como o Cabido e o Duque de Vila Real, D. Manual de Meneses. Com a contribuição do Bispado, que mandou fazer o projecto, com as esmolas e com a aplicação dos dinheiros da justiça, esta obra fez-se com extrema rapidez. Logo se constituiu a Confraria, que teve como primeiro juiz, Dª. Brites de Lara, filha dos duques de Vila Real.

Pelo que ficou provado, e mais não é necessário, foi enorme a influência da Casa de Bragança sobre Leiria e a sua região. Pois nada se fazia sem a presença desses ilustres Senhores e sem a sua valiosa contribuição.

Como a caça era abundante, tanto no Pinhal do Rei como nos campos do Lis, era natural que os Digníssimos Membros das Ilustres Famílias corressem o Pinhal do Rei e a sua orla efectuando abundantes caçadas. Dentre esses Ilustres Senhores, e principalmente, fariam parte, possivelmente até as dirigiam, o Marquês de Vila Real e os fidalgos mais chegados; não seria, então, difícil aos ilustres senhores escolherem a casa apalaçada dos judeus da pequena aldeia da orla do Pinhal do Rei, para os seus descansos e para o momento das refeições. Pelo convívio originado pela continuação das caçadas, teria nascido a indispensável amizade que tivesse movido o Marquês de Vila Real a aparecer como protector dessa família. Pelo que se sabe, foi pelos favores do Marquês de Vila Real que Rodrigues Lobo, sua irmã e seu irmão, frequentaram a Universidade de Coimbra. Principalmente, Rodrigues Lobo, por quem a Casa de Bragança tinha uma particular afeição se não mesmo devoção, já que o poeta passou a maior parte da sua vida gozando da convivência dessa Ilustre Família.

Francisco Rodrigues Lobo estudou Direito e tomou Ordens Menores: foi o maior poeta de raiz camoniana, do principio do século XVII. Entre as suas obras, realçamos a Corte na Aldeia, escrita numa linguagem pura da mais genuína veia clássica, moldada de forma perfeita à essência do diálogo e da discussão, num estilo de sensatez corrente. É uma obra original, na realidade do homem no ambiente do seu tempo, deixando transparecer a saudade da corte, numa manifestação de desgosto da que se perdeu e o anseio da corte que se deseja. Pela sua estrutura paira a simplicidade duma vivência na aldeia e a essência duma corte ante o diálogo do dono da casa, dum doutor, antigo magistrado, um fidalgo, um velho muito crítico e dum estudante dado à poesia (talvez ele mesmo).

Cantor do Lena e do Lis, ficamos sem saber, de facto, onde nasceu. Lembramos que o Lena nasce na serra dos Candeeiros e vai desaguar no rio Lis entre a freguesia da Barosa e a cidade de Leiria. O rio Lis, nascendo nas Fontes, nas faldas da Serra D’Aire, passa pelas Cortes, por Leiria, pelos campos verdes até Monte Real e vai desaguar no oceano Atlântico, a Norte da Praia da Vieira. Antes de ordenada a irrigação dos campos, o Lis perdia-se, mais a Sul, abrindo os braços nos campos de arroz para se juntar já a caminho do mar. E se ele, o insigne cantor de estilo limpo de arrevesados conceitos, de perfeição e harmoniosa frescura de verso, não nos aponta com clareza os sítios onde nasceu ou viveu, deixando-nos percorrer a vista e o pensamento por toda esta bela região dos campos verdes do Lena e do Lis, imaginando-lhe a vida no século distante, á procura duma solução que nos esclareça, leva-nos à consideração que: se ele tivesse nascido a Sul, nas margens do Lena, estaria bastante longe para pastorear nas "ribeiras do Lis o manso gado". Toda esta distância e a voz do poeta nos fazem pensar na possibilidade de haver duas residências: e se havia duas famílias aparentadas, como descreve Almeida Garrett no seu romance "O Arco de Sant’Ana, na possibilidade de uma ter desaparecido na voragem do tempo, isso nos daria que a família judia da aldeia da orla do Pinhal do Rei, poderia ter vindo a possuir as duas por herança. Desta forma se explicaria a voz do poeta, repartindo o início de sua vida pelas ribeiras do Lena e do Lis, onde os campos são verdes e o pasto abundante para o pastoreio do "manso gado".

A vida duma língua, a verdade duma região, é a força e a realidade dum povo. O que a voz do povo nos oferece, através dos séculos, poderá ser uma lenda mas será sempre a única verdade: será sempre a fonte poderosa da vida, pela simplicidade na crença, na ingénua e virtuosa forma de ser essência e vida, a matéria-abstracta que nos constrói a história com a fluidez do sonho que se transmuda na saudade dum passado-presente. E se a beleza duma lenda, florescendo, numa aldeia á orla do Pinhal do Rei, no perfume do tempo nos dá a Garcia, nada será mais que o perpassar do eco do passado confirmando o povo na realidade de que a sua voz é uma língua, a definição dum presente que nos vem do passado.

De Francisco Rodrigues Lobo, na realidade, pouco se sabe além do que ele nos canta e nos diz na sua prosa. Verifica-se que uma grande dúvida envolve a totalidade da sua vida. Desde o seu nascimento, com variadas datas: - 1573 - 1574 - 1579 - 1580 (não há uniformidade nas pesquisas), assim como na sua morte: - 1620 - 1621 - 1622 - 1623 - 1624 - 1627 (também não há uniformidade na data da sua morte), até à forma e o porquê da sua morte, pois se se diz que pereceu afogado no rio Tejo, denúncias posteriores parecem provar, como tal, as causas do judaísmo, embora se saiba que a inquisição não lhe tenha movido nenhum processo, ao contrário do que sucedeu a seu irmão Miguel (1626) e a sua irmã Paula Luisa (1632), assim como com os seus restantes familiares, tendo alguns, para escapar a essa terrível perseguição, fugido do País.

Nos problemas levantados ao judaísmo pela inquisição, poderemos basear a causa do abandono e desaparecimento das duas casas da família de judeus de Francisco Rodrigues Lobo. Sabemos como as forças duma Nação, sabidas e aproveitando a ignorância e ingenuidade do povo local, poderão, indirectamente, conseguir os seus fins poupando-se a qualquer exposição. Lembremos, por exemplo, o facto de Guilherme Stephens ter tentado construir a sua fábrica, primeiro na Vieira de Leiria e depois na Garcia, antes de a construir na Marinha Grande, em virtude da impossibilidade de o fazer perante a agressividade do povo dos anteriores lugares.

O facto é que tanto as casas como os familiares de Francisco Rodrigues Lobo não chegaram aos nossos dias, deixando-nos uma enorme dúvida ou um enigma por solucionar. Somente, ele nos deixou uma certeza: - Que na sua poesia bucólica há páginas que nos permitem os favores da paisagem, de pastos verdes, e branda até nas pedras banhadas pelas ribeiras do Lis e do Lena, das quais, enamorado, se mostra grato enaltecendo a Natureza, na exaltação daí ter nascido e vivido a sua infância. Já nos seus romances ele se desdobra, também, na biografia dum pastor, Lereno, que, tal como ele, sobe das ribeiras do Lis, onde nasce, até às águas do Mondego. O que nos leva a supor que se trata da sua própria biografia, além de nos dar aqui a certeza de ter nascido nas ribeiras do Lis, o que está em perfeito acordo com a casa da aldeia da orla do Pinhal de Leiria: - Garcia, pois as ribeiras do Lis também passam por lá, principalmente a ribeira da Escoura que acaba por desaguar nas águas do rio Lis.

 

Lenda da Garcia - desenho de Guilherme Correia
Lenda da Garcia - desenho de Guilherme Correia

Lenda da Fonte do Rei

Quando D. Dinis mandou efectuar importantes beneficiações tanto no muralhamento como no castelo de Óbidos, esta vila fortificada, que vem já do tempo dos romanos, passou a ter como senhora a Rainha Santa Isabel. É de crer que, nas suas viagens para Leiria e para o Monte do Paço da Rainha, quando da sementeira que delimitou o Pinhal do Rei, o séquito real, a ordens da Rainha, pernoitasse em Óbidos, pois a Rainha Santa gostava muito daquela sua vila.D. Dinis casou com D. Isabel de Aragão, por procuração, em Barcelona no dia 11 de Fevereiro do ano de 1282, tendo celebrado a boda na vila de Trancoso, 26 de Junho do ano 1282, e por esse motivo, fez dessa vila doação à sua Rainha. Nasceram desse casamento, primeiro D. Constança, que foi Rainha de Castela; depois, D. Afonso que, na altura devida, foi Rei de Portugal. Sempre gentil com a sua novel e doce Rainha, D. Dinis, doou-lhe, também, a vila de Leiria e a antiga vila de Camarreu, à qual, por foral de 1310 suprimiu o nome inestético, dando-lhe o de Monte do Paço da Rainha, que depois se veio a chamar de Monte Real. Mas a paixão real foi para o Castelo da vila de Leiria, onde permaneceram por largas temporadas, embelezando-o e dando-lhe, mais ou menos a aparência que tem hoje.Segundo se pensa, após a descoberta das ilhas Canárias por navegadores portugueses, D. Dinis, talvez com grandes visões de futuro, mandou vir, por mercadores, sementes de pinho bravo, com as quais ordenou, delineou e acompanhou a sementeira do Pinhal do Rei. Sabemos que já existia a Mata de Pataias, possivelmente até ao Camarção, que uns a dão semeada no reinado de D. Sancho I, mas que, na realidade já existia desde os tempos da dominação árabe: mas no entanto, essa Mata era constituída por pinheiros mansos; árvores de lento crescimento e sem a altura desejada para a construção e para os mastros dos barcos adequados às grandes navegações.

D. Dinis realizou na região de Leiria duas acções muito meritórias: a primeira, de menor relevo, a secagem do Paul de Ulmar; a segunda e de maior projecção na história, a sementeira do Pinhal do Rei.

Rei poeta e sedutor, D. Dinis, não podia ver uma carinha bonita. Se a Rainha Santa lhe deu dois filhos, fora do matrimónio o Rei acrescentou-lhe mais seis: D. Afonso Sanches, D. Pedro Afonso (Conde de Barcelos), D. João Afonso, D. Fernão Sanches, D. Maria Afonso e, mais outra D. Maria Afonso. Sabedora desse predicado do marido, D. Isabel de Aragão, fazia o esforço por acompanhá-lo nas longas e cansativas viagens dessa época. Na febre de semear e ver crescer o Pinhal, D. Dinis deslocava-se ora de Lisboa, ora de Coimbra, amiudadas vezes. Quando vinha de Coimbra faziam a viagem directa. Mas quando saíam de Lisboa, paravam e pernoitavam na vila da Rainha, Óbidos, a que, mais tarde, foi denominada de vila das Rainhas por ter sido doada a algumas delas.

Partindo, no dia seguinte, de Óbidos, ora tomavam o caminho mais junto á costa, ora o caminho de Alcobaça, Azoia, principalmente quando viajavam para Leiria; mas algumas vezes, de Azoia derivavam por Alpedriz e Arnal, a caminho do Monte do Paço da Rainha.

Alpedriz era uma povoação anterior à ocupação árabe, mas onde estes se instalaram, dando-lhe nome à sua feição e fazendo-a progredir. Era uma vila com certa projecção quando D. Afonso Henriques a conquistou em 1147. Teve foral de D. Manuel I e foi pertença da Ordem de Aviz. Foi terra natal de Pedro Hispano, filósofo e médico português de nome verdadeiro Pedro Julião que foi eleito Papa, em Setembro de 1276. Nesta antiga vila passou, segundo a lenda, o então Santo António de Lisboa, o qual pernoitou na sua igreja, antes de iniciar a viagem para Coimbra.

Arnal, fora antigo castro de denominação romana, que ali deixaram notáveis vestígios: um cipo e valiosos mosaicos e donde o Dr. Russel levou para o estrangeiro a apreciada "Fábula de Orfeu". Junto à ermida de Santo Amaro, que data de 1526, foi descoberta uma pequena vila romana, em cujo pavimento se encontrou uma pequena cruz de chumbo, originária do início da cristianização da Península Ibérica. Também ali surgiram indícios duma primitiva indústria de ferro. Foi, em 1517, criada a freguesia com o nome de Nossa senhora da Luz, cuja igreja enquadra, exteriormente, peças arquitectónicas entre o românico e o manuelino, sendo as portais fortalecidas com contrafortes cilíndricos que acabam em pináculos.

Numa tarde quente de Maio, o séquito real, vindo dos lados de Azoia, resolveu, com certeza por vontade de El-Rei, derivar pelo Arnal e tomar o caminho do Monte do Paço da Rainha; depois de atravessar a vetusta povoação, escalaram uma longa encosta a cerca de quinhentos metros para o Norte, já apontando ao caminho da orla da sementeira que os deveria levar ao Paço. A sede era imensa. O sol apertava. Os cavalos espumavam. D. Dinis, a cavalo, olhou para trás para o resto do séquito: de repente, gritou: - Alto! - Nem os cavalos nem as pessoas estavam em estado de aguentar mais tempo aquela ardência implacável do sol. De súbito, ordenou: - Escarva, cavalo! Escarva! - E o cavalo, obedecendo às suas ordens, escarvou com violência, rompendo a rocha calcária onde esta se mostrava humedecida. Então, como por milagre, espontaneamente, elevou-se um forte jorro de água fresca e límpida. Ao lado, retirada uns metros, a Rainha Santa sorria. Teria sido mais um milagre da Rainha predestinada à santidade, ou somente um mero acaso da natureza?...

Logo ali se formou um forte curso de água que, ainda hoje, escorrendo encosta abaixo cai em cascata pela Senhora da Barroquinha, precisamente por sobre uma pequena reentrância onde se acolhe uma pequena imagem de N. Sr.ª de Fátima. Ao lado desta pequena cascata, jorra livremente uma fonte, bem junto à capela donde a Sr.ª da Barroquinha, postada no seu escuro altar, nos suplica o olhar através duma pequena janela gradeada. Este lindo local é um pequeno paraíso concebido pela mão do homem com o generoso auxílio da sábia natureza.

Acima da Sr.ª da Barroquinha ergue-se a igreja de N. Sr.ª da Luz, que, prezada por D. Afonso, filho de D. Manuel I, foi depois licenciada a Sebastião da Fonseca que a reedificou e armou a velha capela com o seu brasão, sobre o altar lateral de valioso retábulo.

Assim, naquela tarde ardente de Maio, debaixo das patas do cavalo de D. Dinis, jorrou a Fonte do Rei, que se soltando formou um farto regato por vales prometedores e atravessando as terras que foram de Mousinho de Albuquerque, cuja casa apalaçada ainda se vê, à distância, da estrada da Costa para a Batalha, sem se deter, prossegue, ganhando reforços, até encontrar o leito do esquecido e desgraçado rio Lena, que, outrora navegável, se vê reduzido, actualmente, a um desprezo e a um desrespeito angustiantes.

 

José Martins Saraiva
Lenda da Fonte do Rei - desenho de Guilherme Correia

Lenda de Moher (Moer-Moel)

Desde a Aeminium dos romanos que Coimbra se tornou uma cidade dominadora da vastidão entre o Douro e o Tejo, desde os Hermínios ao Atlântico, por onde passaram diversos povos. Essa predominância mais se acentuou após a destruição de Conimbriga, em 468, pelos suevos, e que, apesar de continuar habitada, foi entrando em progressiva decadência. acabando a sede episcopal por ser transferida para Aeminium, no século VI. Se bem que a tenham tentado restaurar, Conimbriga, sem se saber ao certo porquê, foi pouco a pouco abandonada e o seu nome transferido para Aeminium, ficando com esta alteração, a ser conhecida por Coimbra, numa pequena deformação de Conimbriga.Foi então, Coimbra progredindo, rapidamente; e convertida num centro nevrálgico para a manutenção da sua jurisdição, tornou-se uma cidade fortificada. Mas não se pense que, mesmo assim, Coimbra se converteu numa cidade calma. Nada disso. Através dos tempos, como era a chave duma vasta região, foi sempre preponderante a sua posse: e assim, foi tomada alternadamente por islamitas e por cristãos. Só quando o Conde Sesnando, o Conde Moçarabe, então convertido e ao serviço da cristandade, a tomou para o Rei Fernando Magno, em 9 de Julho de 1064, a cidade se manteve sempre dentro das suas fronteiras, as quais acabariam, mais tarde, por ser as do Condado Portucalense.Por tal feito, a conquista de Coimbra aos infiéis, o Rei Fernando Magno, confiou a governação de Coimbra e da sua vasta região, ao Conde Sesnando que com esforço e sabedoria a valorizou, não só como praça forte mas, também, no aspecto religioso e cultural. Tão bem foi fortificada e engrandecida que, com tamanho poderio, se levantou sempre ante a invasão das ordas de infiéis que, sedentos da sua opulência, não deixavam de tentar reconquistá-la. Mas bem guardada, ora perdendo ora recuperando algumas das terras de sua jurisdição, pôde chegar cristã ao reinado de D. Afonso Henriques, o qual, desde o seu casamento com D. Mafalda, nela se albergou e a manteve como capital do então reino da Portugal.

D. Afonso Henriques, na impossibilidade de alargar as fronteiras pela Galiza, Astúrias e Leão, cuja cobiça lhe trouxe fracassos, incluindo o de Tuy, só um pouco amenizados pelo torneio de Arcos-de-Valdevez e pelo tratado de Zamora, sentia nas costas o azorrague muçulmano que, investindo com fúria em continuadas sortidas, animados pelos fracassos do jovem monarca, tentavam, a todo o custo, reaver os territórios cristãos do centro. Em sequência, foram os muçulmanos tomando Soure e outras terras da cintura de Coimbra, desde o mar às Beiras. Isso deu lugar a uma luta encarniçada e sem tréguas, de tomar e largar, até à batalha de Ourique, que , segundo novas versões e muito mais aceitáveis, se teria dado num local denominado Campo de Ourique, pertencente à freguesia das Cortes actual, na região da antiga Leirena, onde se têm encontrado vestígios de armaduras e elmos, etc..

Libertada a cintura de Coimbra, foi D. Afonso repartindo e fortificando várias terras, desde Soure a Avô, onde nas margens do Alva, Egas Moniz teria mandado edificar um castelo que doou a seu neto, Pedro Afonso, a quem D. Afonso Henriques tinha dado em casamento sua filha D. Urraca. Por tal motivo, Pedro Afonso deu o nome de Avô, à terra que seu avô lhe doara, em homenagem ao velho guerreiro.

Nesse tempo de insegurança, D. Afonso, para dar continuidade à manutenção e à conquista dos territórios a sul, desde Soure a Leiria e até às proximidades de Santarém, dividiu o exército em diversas hostes entregando-as à chefia de fidalgos de sua inteira confiança.

Partindo geralmente de Soure, essas hostes do exército cristão, tinham a finalidade de manter o máximo território sobre controlo, até que D. Afonso achasse o tempo propício para a tomada definitiva de Leiria e, depois, de Santarém para se lhe seguir a conquista de Lisboa, o que daria o domínio da bacia do Sado e lhe deixaria mais livre o caminho para o Al-Garb.

Uma dessas regiões, entre a costa e o centro, no eixo de Coimbra, Soure, Leiria, estava sob o comando do neto de Egas Moniz, Mem Ramires, a quem chamavam, também, Mem Ramires de Gandarei ou Menendo. Um dia, partiu de Soure para uma incursão em território muçulmano, a hoste comandada por Mem Ramires, chegando às terras de Leiria (antiga Lerena ou Leirena) entre esta vila e o mar, mais exactamente nas terras de Moher, que ficavam um pouco mais a Oeste. Terras, a esse tempo, de moinhos de cereais e regadas por águas largas e profundas, vindas de vários quilómetros até ao mar, por onde as águas salgadas, nas marés altas, se infiltravam e se espalhavam, terra adentro, formando diversos núcleos de salinas.

Essas terras de Moher e toda a vasta região de Leiria a Santarém, estavam sob o domínio do temível ou terrível Abu-Zacaria, cujo poderio, partindo da praça forte de Santarém, levava a sua audácia, por vezes, para lá da cintura formada por Soure e Avô.

Mem Ramires, falava correctamente a língua arábica, pelo que D. Afonso Henriques o utilizava para parlamentar com o inimigo: assim, deu ordem a Mem Ramires para procurar saber a posição exacta do inimigo, e a partir daí, tentar um acordo de tréguas que lhe permitisse fazer os devidos preparativos, para um dia, aproximando-se de surpresa, mandar quebrar o acordo, e tomar, com a devida rapidez, a vila acastelada de Leiria.

Mem Ramires sabia que o grande Abu-Zacaria devia de manter as avançadas hostes muçulmanas entre Moher e Leiria, pois além de manter Leiria no seu poderio, tinha, também, uma pequena fortificação na região da costa de Moher, onde um golfo servia de ancoradouro e protecção aos seus barcos; e por se tratar duma zona de boa água e de muito sol, a pouca distancia de Leiria, era-lhe fácil vir desta vila ou mesmo de Santarém, por caminhos bem guardados, e permanecer ali, aos benefícios do sol e do mar nos meses de Verão.

Como durante todo o dia não tivessem contactado o inimigo, Mem Ramires resolveu bivacar, pelo fim da tarde, junto ao rio, onde um maciço de árvores os resguardava e camuflava a posição. Montou guardas. Depois, capitaneando um pequeno grupo, foi procurar saber, com as devidas cautelas, a posição da forças infiéis; precavendo-se, sempre, de alguma sortida ou de alguma cilada fatal.

O avanço desse reconhecimento foi feito sem qualquer anormalidade, no entanto, e sem terem a menor suspeita, já de regresso ao acampamento foram atacados por uma numerosa hoste de infiéis que lhe surgiram de todos os lados.

Perante a violência e a surpresa do ataque, Mem Ramires e os companheiros ficaram rodeados de inimigos. Bateram-se valorosamente até a noite cair. Quando a refrega terminou, só Mem Ramires se mantinha de pé. À sua volta, jaziam, misturados, numa amalgama de corpos em gemidos de estertor, companheiros e inimigos. Ainda um ou outro murmúrio mais débil, mas a noite fechava-se e ele, quase a desmaiar, sem forças e muito ferido, não pôde prestar a devida atenção. Ao redor, corriam cavalos espavoridos, esperando os donos ali jacentes.

Cambaleando, Mem Ramires chamou o cavalo, que lhe obedeceu. Montou dificilmente. Tomou as rédeas mas, dada a sua debilidade, deixou que o cavalo o levasse de acordo com o seu instinto. Ainda se manteve muito tempo consciente, depois, de repente, tudo escureceu. Sem sentidos, caído sobre o pescoço do animal, acabou por escorregar e estatelar-se no solo.

Aixa, princesa muçulmana, filha do alcaide de Chantireyn (Santarém), todos os dias dava com as aias, um passeio matinal pelas margens das águas de Moher, que nesse tempo possuía diversas manchas florestais, com predominância de pinheiros mansos, pinheiros naturais desta região, de tronco de fraca envergadura, de agulhas miúdas e de muito lento crescimento. Quase todas as manhãs o pequeno grupo saía da zona do pequeno golfo, sob os olhares cautelosos e reprovativos dos guardas.

Em determinada altura da manhã e já de regresso à praia, uma das aias, que mais se infiltrou pelo pequeno maciço arborizado, encontrou o cavaleiro cristão, desmaiado. Alertada pelo seu chamamento, a princesa Aixa aproximou-se. Verificando que o cavaleiro cristão ainda respirava, ordenou que o transportassem aos seus aposentos. Contra a vontade de todos os que a rodeavam e que asseguravam a sua protecção, ela chamou o seu físico e ordenou-lhe que tratasse o cavaleiro cristão.

Mem Ramires estava muito ferido e lutou com a morte durante alguns dias.

Quando Mem Ramires abriu os olhos, ficou estupefacto. Pouco a pouco foi reconhecendo que estava acomodado em aposentos árabes.

Quando a princesa Aixa entrou no quarto, Mem Ramires dormia. Mas pressentindo-a, abriu os olhos. Com os olhos magoados, denotando as dificuldades físicas porque passara, percorreu, lentamente, aquela face levemente trigueira, aqueles olhos negros, negros, que queimavam e que, sem saber porquê, lhe tocavam o coração. Como Mem Ramires era um bom conhecedor da língua arábica, depressa entre eles nasceu uma afinidade invulgar, atormentada e apaixonante que lhes fazia um grande temor: porque ele era cristão, um inimigo do povo dela e do seu Deus. E a princesa, sentindo o impossível, não deixava de chorar, quando estava a sós, a sua grande paixão.

Mem Ramires sentia-se bem naquela cama redonda, atafulhado de almofadas de variados tamanhos e em tal quantidade que se espalhavam pelo chão, sobre as peles brancas. Aquele era, sem dúvida (pensava o cavaleiro cristão), o quarto da princesa, cedido, gentilmente, ao cristão convalescente, já que, pela luz forte que entrava por uma ogiva protegida de tules e vidros, se iluminava um precioso móvel encastoado de madrepérola, onde um espelho em oval, bizelado, reflectia vários objectos de embelezamento feminino.

Oscilando entre o sonho e a realidade, Mem Ramires foi-se prendendo àquela aparição de sonho, cujos olhos, negros como amoras silvestres maduras, quase sempre de véus de tule afastados, lhe enchiam a alma de luz e o peito de amor. Senhora duma figura esbelta, paradisíaca, ela acompanhava-o em pequenos passeios. De princípio breves e lentos e sempre com a presença das aias: depois, mais longos, pela orla do mar, onde ficavam, sentados, doces momentos, sonhando, desejando o impossível, que fingiam não entender. Loucos de amor, iam-se deixando prender, cada vez mais, ante a preocupação das aias e a perplexidade dos responsáveis pela segurança da princesa.

Mas tudo o que é bom passa depressa: a beleza, a juventude, a Primavera, e muito mais a felicidade - tão fugaz senão inexistente... E, um dia... Esse dia terrível para a separação dum amor tão puro, tão devastador como invulgar, chegou.

Mem Ramires estava completamente restabelecido: feliz, ante aquele ser de sublime beleza; infeliz, porque se apartava daqueles olhos negros que se gravaram nos seus, que lhe fizeram nascer no peito um sentimento tão forte e tão estranho que arrasa qualquer mortal, porque mal nos afastamos, logo se transforma na mágoa duma saudade atroz.

Mem Ramires beijou louca e demoradamente aqueles lábios quentes, tomando nos seus possantes braços o corpo esbelto daquela linda princesa. Como rapidamente a tomou nos braços para a beijar, tão rapidamente a largou. Sem mais a olhar, montou o adestrado cavalo, largando à desfilada. Levava o coração apertado. As lágrimas, lágrimas rebeldes, teimosamente escorrendo-lhe dos olhos.

Durante muito tempo, Mem Ramires não deu conta do que fazia. Saltava barrancos, atravessava dunas, furava matagal, torneava salinas. Só longe, muito longe da costa, conseguiu saber onde se encontrava. Então, tomou a direcção adequada e continuou a viagem. O coração batendo forte, nervoso, amargurado. A cabeça, confusa, escaldava.

Ao findar do dia, entrava em Soure. Soure era, nessa altura, governada pelos templários, possivelmente por Gualdim Pais, amigo e companheiro de armas de D. Afonso Henriques e amigo de Egas Moniz e de seus netos. Logo que o governador soube da chegada de Mem Ramires (quase por todos tido como desaparecido) teve uma imensa alegria, pois se ele era muito querido de D. Afonso Henriques, era, além do mais, um amigo e um valoroso guerreiro. Imediatamente o mandou chamar albergando-o num dos melhores aposentos do castelo, dispensando-lhe cuidados familiares.

Para Cima...

Mem Ramires acabou de convalescer em Soure. Poucos dias após a sua chegada, estava forte, são de corpo mas continuava triste. Os olhos negros e lindos da princesa Aixa não deixavam de o mortificar: quanto mais longe estava do que desejava, mais queria estar perto do que estava longe.

Foi de Soure que, D. Afonso Henriques, estando em Coimbra, soube da boa nova, congratulando-se por Mem Ramires estar vivo e de boa saúde. Foi igualmente em Soure que, um dia, pela tardinha, chegaram os homens que restavam da hoste de Mem Ramires e que, ao sabê-lo vivo, exultaram de contentamento.

No entanto, foi em Soure que soube, pelos seus homens de armas, da tomada de Leiria. Estava-se no ano de 1144. Leiria fora tomada, mais uma vez, após várias vezes ser perdida. Parte das hostes que tomaram Leiria, foram para Coimbra ao encontro de D. Afonso Henriques, que os esperava, ansioso pelo relatório sobre a investida pelos domínios muçulmanos.

Mem Ramires quis saber como tudo se tinha passado. Um fidalgo amigo, o que comandava os seus homens quando Mem Ramires não estava, pô-lo ao corrente da reconquista. Depois, ele tinha dado ordens para se efectuar uma limpeza pela região. A intenção não era só dar uma limpeza, era, acima de tudo, verificar se encontravam alguma pista sobre o seu desaparecimento. Sabendo o sítio onde tinham bivacado, entraram nas imediações de Moher onde se tinha efectuado o combate. Os corpos tinham sido devorados pelos vermes e pelas aves e feras. Das armas dos despojos, nenhumas identificavam Mem Ramires. Então, desbarataram um vasto grupo de infiéis que, depois de terem perdido Leiria, se dirigiam para o Sul, possivelmente por Porto de Mós a caminho de Santarém. Nesse grupo seguia uma princesa e as suas aias, que os infiéis tentaram proteger mesmo a custo da própria vida. Deveria ser uma princesa muito importante. Ela mesmo pegou em armas: e exausta e ferida ordenou a um muçulmano que a matasse. Depois, esse homem valente e muito bom guerreiro, lutou, rodeado dos nossos, até cair sem vida.

Ao ouvir o amigo, Mem Ramires levantou-se dum salto. Meio trémulo, deixando transparecer na voz a sua emoção, perguntou-lhe:

- Então, e o pequeno forte de Moher, o que lhe sucedeu?

- O pequeno forte tinha sido abandonado à pressa. Quando a nossa hoste lá chegou, não havia ninguém. Como não levava gente suficiente para o guarnecer, o que, pensando bem, não nos serviria de nada, mandei incendiá-lo após ter sido destruído no mais que pudemos.

- Mas, não escapou ninguém? Não haveria mais nenhuma princesa que se pudesse ter salvo?

- Não! ... Não sei bem! Mas julgo que não!

Ao ver Mem Ramires tão pálido, o amigo perguntou-lhe:

- Mas porque é toda essa preocupação?

- Porquê? Porque enquanto vocês não lhe pouparam a vida... Ela, a princesa Aixa, salvou-me duma morte certa. Foi lá, nesse pequeno local fortificado, onde eu estive entre a vida e a morte... Foi aí que, graças ao seu cuidado e desvelo, me curei e convalesci... E daí, parti... um dia... com o coração destroçado pelo grande amor que aqueles doces olhos negros e aquela grandeza de alma fizeram nascer.

Mem Ramires de pé, chorava.

Num repente, saiu sem dizer mais nada. Procurou o cavalo e partiu de Soure.

Durante muitos dias foi procurado. D. Afonso Henriques, como ele falava tão habilmente o arábico, queria incumbi-lo duma importante missão. Mas toda a procura era em vão. Ninguém o encontrava.

É claro que Mem Ramires se dirigiu à região de Moher, para, com os próprios olhos, verificar a destruição do forte e tentar encontrar o corpo da sua amada princesa.

É possível que Mem Ramires tenha encontrado o corpo da princesa. É possível que, com ela nos braços, a tenha mantido, bem junto a si, por tempo indefinido, até que a sua loucura de amor lhe tenha permitido entender que aquilo que tinha nos braços nada mais era do que um destroçado corpo a apodrecer.

É possível que ele próprio a tenha sepultado, e que, ali, naquele ermo, nas costas daquela desoladora ruína, onde, pouco tempo atrás, tivera os dias mais felizes da sua vida, numa tão grande dor, no amargor terrível dum amor perdido, se tenha demorado, adorando o sítio: o túmulo onde repousavam os restos da sua princesa amada. Naquele sítio, ele sepultava o coração.

Para Mem Ramires, aquele sofrimento era pior do que a morte. Era um sentimento tão atroz que se lhe tornava impossível suportar mas, do qual, não podia nem se queria libertar. Era como uma mágoa que adoça: um sofrer que se ama; e se por vezes sentia que deveria sair dali, também o retinha uma saudade que lhe dizia que estando ali, menos sofria. Era um prazer feito de dor ou uma completa loucura de amor, amarga, cruel, mas, ao mesmo tempo, um resquício perfumado que lhe embriagava os sentidos e o fazia estar, sem dormir e sem comer, agarrado àquele túmulo, à certeza do que adorava mais do que a própria vida.

A solidão é um fardo suportado pela fé, pelo amor, pelo sonho. É da solidão que se colhe toda a força espiritual que nos suporta, onde o sonho é mais sonho e o amor é mais amor: um amor para além da morte. Em solidão o tempo passava e Mem Ramires, não vivia: pairava em visões, nas belezas mais inconcebíveis num estado normal, - mais entre o sonho do que na realidade, ele misturava-se na loucura da ilusão, numa exaltação duma vivida e falsa felicidade... e sorria: praia fora, bordejando as ondas, os dois amantes, entrelaçando as mãos, não andavam, moviam-se suspensos duma bruma de luz e tenuemente azul -. Mem Ramires, estático, de olhos fechados, sorria enlevado, como se sustentasse nos braços a formosa princesa de olhos negros. De facto, Mem Ramires sorria enquanto estendia os braços e os puxava de encontro ao peito como se neles sustentasse o seu maior tesouro.

Um dia, levantou-se a custo. Conseguiu apanhar algumas ervas. Comeu-as. Deitou-se junto dum pinheiro manso, um pouco distante da sepultura. Adormeceu.

Dormiu um dia inteiro. Ao acordar sentiu-se mais forte. Embrenhou-se no mato: matou um coelho à paulada. Fez fogo, assou o coelho e comeu-o com ervas. Adormeceu novamente.

Sonhava e acordava. Tinha momentos de delírio: de miragens. Umas vezes punha os olhos no céu e sorria. Outras vezes, tremia, tremia, gemia e chorava. Quem o visse não o reconheceria: tão mudado estava; tão alquebrado de corpo e alma. Um louco. Um quase morto.

Mas por mais que se sofra existe o tempo e o tempo é um grande sábio: ajuda a minorar a dor: oferecendo os lenitivos possíveis para os terríveis momentos da nossa vida. Só quem passou por estes momentos os sabe compreender. E quando o bom senso volta, pouco a pouco e sabiamente, sem se saber como, aprende-se a viver com a mágoa, porque uma lembrança benigna nos ameniza e adoça a alma, numa mistura de saudade e amor que nos manda bater o coração, na esperança duma outra vida aonde nos possamos encontrar segundo o nosso desejo.

Mem Ramires estava mais forte. Acordava; alimentava-se; apanhava flores, aquelas flores rosa-pálido, tão lindas que existem na costa da região de Moher, e oferecia-as á sua amada.

Um dia, entendeu que tinha chegado o momento de partir. Era um cavaleiro cristão. Tinha jurado a Deus defender e aumentar a sua Pátria. A sua religião, a sua linhagem, o seu caracter, o seu dever, chamavam-no. E acabaram por demove-lo daquela letargia, se bem que aprendendo a guardar num talismã de saudade, aquela imagem tão íntima, tão verdadeira como a própria alma.

Passaram dois anos sem ele dar por isso. E se alguns ainda o esperavam com uma secreta esperança, outros havia, que já não contavam com ele. Mas D. Afonso Henriques ainda o esperava, sentindo uma secreta certeza de que ele apareceria. Nunca se esquecia de mandar saber dele pelas praças fortes mais perto de Coimbra.

Um dia, Mem Ramires, apareceu em Soure. Magro, quase irreconhecível. Foi em Soure que soube que o avô estava a morrer. E aí vai ele sem descanso, para o Norte. Quando chegou, ainda encontrou Egas Moniz com vida. No dia seguinte, depois de se ter despedido dele, o avô morreu. O seu corpo foi a sepultar no Mosteiro de Paços de Sousa, de que era patrono, onde já se encontrava, desde 1137, seu filho Mendo. O seu túmulo é celebre pelas esculturas: baixos relevos representando uma lenda épica, numa forma primitiva da canção "Renaud Montauban", provavelmente relacionado com a procedência de sua família.

Era o ano de 1146. O Rei, D. Afonso Henriques, chama-o para Coimbra. Não o quer perder de vista, pois tem para lhe entregar uma importante missão. Sabedor do que se passara com Mem Ramires, era mister mantê-lo por perto e prepará-lo para o que dele desejava. Daí em diante, ou no Paço ou em qualquer incursão a terras da moirama, jamais o dispensava. Queria-o sempre a seu lado.

Mem Ramires, de semblante entristecido, esforçava-se por se adaptar às exigências do Rei, embora a alma lhe pedisse a solidão, mas o Rei que ordenava e, contra isso nada podia nem queria fazer. D. Afonso não gostava de o ver daquela maneira: nostálgico, sombrio, fugindo das companhias e das palavras. Assim que tinha uma oportunidade escondia-se nos cantos ou refugiava-se nos bancos dos jardins. Mas D. Afonso, adivinhando-lhe os problemas, deixava-o em boa companhia. E se o tratava como se seu filho fosse, escolhia-lhe as moças mais lindas e nobres da corte. Mas nem assim Mem Ramires despertava.

Pensando não haver outra saída, um dia chamou-o e pediu-lhe que se casasse: propondo-lhe uma donzela da mais alta linhagem. Mas Mem Ramires, com muita pena, recusou:

- Meu Senhor, muito me penaliza não poder atender o vosso pedido. - Parou, visivelmente desolado - Senhor, mandai-me combater, onde quiserdes, os infiéis! A minha espada e a minha vida são vossas! Sabeis que, a uma ordem de V. Majestade, darei de mim quanto puder! Mas, Senhor, não mandareis que faça infeliz uma linda donzela que o não merece! - Parou e olhando de frente o seu Rei, continuou, ajoelhando-se.

- Mandai-me para a morte, Senhor! Mas não ordeneis que venha a arrastar uma donzela tão pura e inocente, na minha dor!

D. Afonso, estupefacto, esteve uns momentos sem falar. Depois, erguendo suavemente a mão direita, pousou-a na cabeça do cavaleiro, ordenando-lhe:

- Mem Ramires, levantai-vos! Não gosto de ver humilhar-se um cavaleiro! Levantai-vos e fazei o melhor que vos aprouver! Quanto disse e queria fazer, pensava eu que era para vosso bem. Se não o desejais... eu, respeito a vossa dor. Mas, peço-vos que aprendeis a reagir. Um cavaleiro, valoroso e de tão alta linhagem, não é para andar a morrer pelos cantos! Incomodais-me a mim e incomodais a corte! Pelo vosso bom nome vos peço; deveis uma explicação à donzela que, de tão bom grado, aceitou a minha combinação! - Dizendo isto, El-Rei afastou-se, visivelmente contristado.

Foi doloroso, a Mem Ramires, o concertar-se com a donzela prometida, mas esta, amavelmente o desculpou, desobrigando-o de tal combinação. No entanto, frisou-lhe:

- Mem Ramires, sei que sois generoso e como gentil homem deveis de ter em conta a minha e a vossa linhagem. Não será demais exigir-vos que, quando pensardes em consorciar-vos, não o devereis fazer com outrem se eu não estiver casada.

Mem Ramires, rendeu-lhe as suas homenagens, comprometendo-se no que a donzela lhe pediu.

Mem Ramires, a custo, obteve autorização para percorrer as terras doadas por seu avô. Depois de alguns meses a percorrer as suas propriedades às margens do Douro, e de determinar os cuidados indispensáveis, regressou a Coimbra, conforme o determinado por D. Afonso.

Estava-se no ano de 1147 e chegara o momento de Mem Ramires se aprestar para a preciosa e perigosa missão. Em Fevereiro, dirigiu-se, sozinho para Chantireyn.

Mem Ramires, entrou em Chantireyn para parlamentar com Abu Zacaria, senhor daquela praça fortificada sob o jugo muçulmano. Chantireyn era, nesse tempo, o baluarte da permanência arábica a Norte do Tejo. Era dali que saíam todas as investidas pelas terras cristãs. Abu Zacaria era um extraordinário e valente alcaide, sabedor da inexpugnável fortaleza que representava Chantireyn. Por isso, e sabedor da grande paixão que Mem Ramires nutrira pela princesa Aixa, transformada agora numa permanente e dolorosa saudade, Abu Zacaria recebeu-o com afabilidade e respeito, oferecendo-lhe a melhor hospitalidade.

Uma das coisas que primeiro, Mem Ramires, falou a Abu Zacaria, foi sobre a princesa Aixa. Lamentou a sua morte, pedindo-lhe as maiores desculpas pela acção dos companheiros de armas, recriminando-os, por tão grande perda, que lhe destruiu o seu grande amor, transformando-lhe a existência numa dor terrível e insuportável.

Abu Zacaria ouvia-o, perscrutando-lhe no fundo dos olhos a sua sinceridade. Quando Mem Ramires acabou de falar, Abu Zacaria continuou a olhá-lo em silêncio. Por fim, como que sacudindo os pensamentos, disse-lhe, pausada e tristemente: que tivera conhecimento do seu grande amor pela princesa, pelos poucos homens que conseguiram escapar do morticínio de Moher e da batalha pela posse de Leiria que as forças de Ibn-Errik conseguiram recuperar. E, quando dias mais tarde, enviou uma pequena força, com as devidas cautelas, ao local de Moher para procurar o corpo da princesa Aixa, esses homens presenciaram, a certa distância e recatadamente, o que se estava a passar, aguardando, com respeito, que Mem Ramires chegasse ao fim da sua loucura e depositasse dos seus braços, o corpo da princesa na terra que lhe serviu de túmulo. Depois, aproveitando o cansaço e o adormecimento de Mem Ramires, esses homens, desenterraram o corpo da princesa, deixando a terra tal como Mem Ramires a tinha deixado, com uma cruz e algumas flores. Envolveram o corpo numa manta adequada e, escondidos por serras e matos, trouxeram-na para Chantireyn, onde ela está agora sepultada.

Mem Ramires, ao ouvir da boca de Abu Zacaria o relato da transladação do corpo de Aixa para Chantireyn, ficou desgostoso, mas não o deixou transparecer; convinha-lhe, até, que Abu Zacaria pensasse que ele, Mem Ramires, tivesse ficado muito satisfeito, aprovando a sua determinação.

Mem Ramires, todos os dias, de manhã e ao entardecer, ia junto do túmulo da princesa Aixa fazer as suas orações.

Sabedor da devoção do cavaleiro cristão, Abu Zacarias, chegou a propor-lhe que ficasse com ele, e se o ajudasse a reconquistar Leiria, entregava-lhe o comando da praça de Chantireyn. Desta forma, ele poderia estar perto da sepultura da sua amada Aixa. Mem Ramires agradeceu e prometeu-lhe pensar na sua generosa oferta.

Com a liberdade que lhe foi dada ou ganha por inteira confiança, Mem Ramires pôde conhecer toda zona fortificada e, mentalmente, fixar os pontos possíveis e mais desguarnecidos, tidos, a priori, como inacessíveis para uma escalada pelo lado de fora.

Mas Mem Ramires não se sentia bem com a sua posição. Havia ali um homem que acreditava nele e ele, Mem Ramires, um cavaleiro da mais alta linhagem, que viera como um amigo necessitado de conversar com alguém ligado à mulher que adorara, achava-se numa situação insustentável. Achava-se um miserável sem escrúpulos, zombando e traindo quem nele acreditara. Só uma coisa o retinha: o túmulo da sua amada princesa; mas quando dele se aproximava para as suas orações, parecia-lhe que do fundo da terra uma profunda recriminação o atingia. E até o túmulo lhe passara a doer, numa mistura estranha e desconfortável de amor, saudade e traição.

Angustiado, foi com um certo sentido de libertação que, um dia, se dirigiu a Abu Zacaria dizendo-lhe que era urgente resolver o que faria dos bens doados por seu avô e que, o mais depressa que pudesse, lhe daria notícias sobre a sua generosa oferta.

No dia seguinte, de manhã, depois de ter ido ao túmulo de Aixa, despediu-se de Abu Zacaria, agradecendo-lhe a estadia. Foi com um grande alívio de consciência que deixou para trás Chantireyn.

Mem Ramires chegou a Coimbra por volta do dia seis de Março. Na véspera, tinha nascido o primogénito do monarca. Logo que D. Afonso Henriques soube da sua chegada, chamou-o à sua presença, em privado. Foi um dia inteiro de conversação.

No dia seguinte, D. Afonso Henriques, convocou os seus homens, para a margem deserta do Mondego, para ter a certeza do que ficasse concertado, não chegasse a outros ouvidos.

No dia 10 de Março, a pequena hoste cristã, saía de Coimbra. A marcha era lente e feita de madrugada, para que dela os mouros não tivessem conhecimento. Fora escolhido um trajecto desabitual e o mais oculto possível. Na primeira noite ficaram em Alfafar. Na segunda em Dornelas. Daí, de Dornelas, despachou, D. Afonso Henriques, Martim Moabe, com a incumbência de ir a Chantireyn quebrar as tréguas, tal como mandava a ética guerreira desse tempo.

Martin Moabe voltou de Chantireyn com a maior rapidez, vindo encontrar a hoste cristã, na quarta-feira, em Adbegas (Ourém).

Na quinta-feira, de madrugada, chegavam à serra de Albardos (Alvados), onde passaram a noite., Prosseguindo a viagem, pararam em Pernes. Aí, em Pernes, D. Afonso Henriques ordenou a escolha de 120 soldados e que se fabricassem dez escadas e que cada uma dessas escadas fosse dada a doze homens. Assim, com menos gente, a escalada seria mais fácil porque não haveria a atrapalhação de muitos homens a querer subir, nesse derradeiro momento.

Tudo feito e combinado, seguiram para Chantireyn, o mais depressa possível, pois a noite chegava e D. Afonso Henriques queria apanhar os muçulmanos desprevenidos, pela madrugada.

Chegados à Ribeira, os homens com as escadas subiram a íngreme ladeira, alapardados, para erguerem as escadas, às muralhas, sem serem pressentidos. Mas, ao içarem as escadas, a primeira resvalou e caiu com certo estrondo. Temendo o pior, todos ficaram estáticos esperando que as poucas sentinelas postadas nesse lado não os vissem.

Passados esses instantes de perigo e de aflição, içou-se uma nova escada, aquela em que seguia Mem Ramires. Mas ao chegar aos últimos degraus, Mem Ramires verificou que a escada não dava altura para chegar às ameias. Rapidamente içou um moço alto, chamado Moqueime, sobre os seus ombros e este pôde atar a escada às ameias. Erguida a bandeira do Rei, imediatamente duas dezenas de homens, degolaram duas sentinelas e Mem Ramires quebrou a golpes de machado, os ferrolhos das portas. Portas escancaradas e D. Afonso entra de tropel com os demais cavaleiros.

Apanhados de surpresa, os mouros não ofereceram resistência. Aqui e ali, viam-se homens, donzelas, velhos e crianças, em roupa de dormir, correndo espavoridos em várias direcções, tentando de qualquer maneira fugir às espadas dos cristãos.

Em Santarém, D. Afonso Henriques foi cruel. Mandou que não fosse poupado quem quer que fosse. Passadas duas horas, Chantireyn estava tomada. Enquanto, nas muralhas, a bandeira cristã se agitava ao vento, pelas ruas jazia uma enormidade de corpos e deles, o sangue escorria como se de fontes escorresse. Estava-se ao fim da madrugada de sábado. O dia 15 amanheceu na vitória dos cristãos.

Mem Ramires, fora o grande herói da tomada de Santarém. Mas Mem Ramires ficara desolado com o morticínio e a crueldade dos companheiros de armas. Depois da vitória, afastou-se, sozinho, e ajoelhando à sepultura de Aixa, chorou copiosamente a sua desdita, recriminando-se pelo que se tinha passado.

D. Afonso Henriques quis agraciar o herói: quando deram por ele, estranhamente o foram encontrar, rezando, ajoelhado, aos pés da sepultura. D. Afonso compreendeu e não o perturbou.

Depois da tomada de Santarém, pouco ou nada se sabe de Mem Ramires. Nem sequer se fala dele durante a tomada de Lisboa.

Após a tomada de Chantireyn (Santarém), Mem Ramires ficou com raiva dele próprio. Era um ilustre guerreiro, um cavaleiro justo e leal, e detestou a missão que lhe fora pedida. Fiel ao seu Rei, fiel à sua condição de nobre e de cristão, não se escusou, por mais que lhe tivesse custado, de fazer quanto estivesse nas suas possibilidades. Sabia quanto valia. Fora igual a si próprio; valente como os seus antepassados; só pela sua audácia fora o primeiro a penetrar nas muralhas, a responder às sentinelas degolando a que se interpôs no seu caminho até às portas, para lhe quebrar os ferrolhos. Ferrolhos quebrados e a tomada de Santarém foi consumada, com a maior rapidez e com o mínimo de baixas do lado cristão. Todos tinham reconhecido o seu heroísmo. Mas agora, cumprida a sua missão, só lhe apetecia fugir... fugir de si mesmo se isso lhe fosse possível. Depois, montou a cavalo e saiu das muralhas. Encaminhou-se para a região de Moher. Um dia nas costa de Moher, enchendo-se de maior saudade e amargura: tomou uma resolução.

Recolhido nas distâncias das suas terras, terras que lhe foram doadas por seu avô, Egas Moniz,. viveu a solidão pura do Alto Douro, nas cercanias de Cinfães, onde fundou uma pequena povoação com o seu nome, pois ainda hoje a povoação ostenta o nome de Mem Ramires, não muito longe da igreja Conventual de Santa Maria de Cárquere, que o seu avô, Egas Moniz, mandara erguer em memória do milagre concedido ao pequeno Príncipe, D. Afonso, que de pernas tolhidas recebeu a graça duma cura instantânea, ficando logo ali, completamente normal, passando a ser um escorreito, forte e formoso Príncipe de quatro anos de idade. Segundo consta, quando D. Henrique entregou o seu primeiro filho varão para Egas Moniz o educar, ele era enfezado e tolhido de pernas. Uma noite, sonhou Egas Moniz: aparecera-lhe N. Senhora, que lhe ordenou que mandasse construir um altar, no sítio que lhe indicou, e que sobre o mesmo colocasse o príncipe doente. Mas, com a promessa de que, logo que o Príncipe estivesse bem, Egas Moniz ali mandasse edificar uma igreja de invocação a Santa Maria de Cárquere. Egas Moniz obedeceu e assim que o pequeno príncipe foi colocado no altar, se concedeu o milagre ficando o futuro Rei de Portugal, completamente curado.

É natural que Mem Ramires tivesse voltado a cavalgar pelas ribas e dunas de Moher. Tudo é possível. Como possível é, segundo o meu avô paterno, ouvir-se, pelas noites de luar, o tropel dum cavalo, rápido como o vento, cavalgando pela beira-mar, levando no dorso um cavaleiro e a sua dama coberta de véus. Como também se ouvira dizer que, em noites especiais, se viram, pelas margens de Moher, mouras encantadas que, mal a vista humana as alcançava, imediatamente se desfaziam. Tudo é possível. Será verdade? Será mentira? Será uma lenda que, como todas, ficará à espera que a desfaçam. Mas, uma lenda transforma-se numa verdade quando nela se acredita. Será o sonho uma lenda? O sonho anda muito ligado ao amor: e o amor é a fonte das mais lindas histórias da humanidade. Nós, portugueses, temos tantas para recordar, louvar, honrar e amar, mantendo nos tempos a essência duma realidade, feita de lendas, que sempre perfumou a nossa Terra.

É claro que me poderão acusar de fugir à realidade. Talvez tenham razão!... Mas, quem sabe?... Teria mesmo fugido à realidade?... Não seria Mem Ramires o cavaleiro cristão que se teria apaixonado pela princesa moura!?... Mas, então, quem seria? Quem melhor do que ele se entrosaria com a finalidade e com o conteúdo desta história... nesta lenda perpetuada ao sabor da realidade da palavra que passa de boca em boca?...

Se nasce uma lenda para se embelezar, o que fica pelo favor do tempo, num doce sentimento de dúvida que nos sabe bem, é algo que nos enleva e nos enriquece como povo, e que desta maneira se constitui como história na realidade da nossa nacionalidade. Toda a nossa história tem ligações ao irreal, pois há factos que se nos escaparam dos compêndios e calhamaços, e somente nos foram legados pela memória do povo, humilde, anónimo, padecendo sempre de mais ou de menos um ponto.

É natural que dum povo de heróis e poetas, os guerreiros se transformem em imagens sublimes, enaltecidas ou deformadas pelas névoas do sonho ou da idolatria, o que nos dá a sua parte de ficção. Mas isto, longe de nos diminuir antes nos enobrece, já que em tantas batalhas se misturam paladinos aos milagres - e temos tantos exemplos! - e ás espadas fulgentes se enleiam a fé, as aventuras e os amores.

Somos donos dum País belo, maravilhoso, onde a rudeza das serras fez pastores corajosos, hábeis no manejo da espada, mas outros, muito mais na palavra de Deus porque a levaram, à custa da própria vida, através de gente inculta, gente que nunca tinha visto um homem branco: gente de florestas quase intransponíveis; gente de terras pobres sem possibilidades de existência. Povo de heróis e santos, a tudo resistiu e fez: fez a epopeia constituída em história; de lendas e realidades vivas. , com um tal poder, como uma tal força, que uma auréola perfumada se nos colou iluminando para sempre a nossa Pátria.

Como porto, o golfo de S. Pedro de Moel (Moher) foi utilizado por diversos povos que escalaram ou permaneceram nas nossas costas. Os celtas, os gregos, os fenícios, os cartagineses, os romanos e os árabes, utilizaram os nossos portos. Uns como pontos de apoio. Outros como pontos de defesa e manutenção. É natural que, desde há muitos séculos, tenha existido uma povoação, de maior ou menor importância, de acordo com as necessidades dos povos dominadores.

No tempo da dominação árabe, Moher era um golfo, praticamente sem praia, que servia de ancoradouro aos barcos que o demandavam. Foi devido ao rio, antes de águas largas e profundas, e a algumas ribeiras, ainda hoje existentes mas débeis, que irrigando as terras lhes proporcionaram a colheita de cereais, e, em sequência, a existência de inúmeros moinhos para os moer. E desta acção indispensável de moer (Moher), nasceu a designação da região de Moher.

Acreditamos que seria o rio Moher a sustentar e a manter o pequeno golfo de Moher, no qual deveria de penetrar pelo lado do Nascente. Devido ás dunas e a alguns terramotos, o curso do rio foi alterado e então, sem sustentação, o pequeno golfo foi pouco a pouco desaparecendo. Eu, sustento que, sem a conjugação do rio, seria impossível a existência do pequeno golfo de Moher. De minha casa, na Praia do Bom Sucesso (Praia dos Belgas), no lado Sul da Foz do Arelho, tenho constatado a luta, a grande dificuldade da Lagoa de Óbidos em se manter. E não tenho dúvidas que sem o Arelho e os pequenos regatos a ajudá-la, já não haveria hoje uma das mais belas Lagoas do nosso País. É esta uma das mais firmes sustentações para a eventualidade do rio Moher ter desaguado no pequeno golfo. As outras, têm a concretização de alguns terramotos, pois se anterior a 1147 nada se sabe, depois de 1147 há conhecimento de 17 abalos intensos, para a alteração do seu curso, além da ajuda do movimento da terra solta das dunas que também podia ter tido muita influência para essa alteração.

Não há duvida, também, da existência de alicerces antigos sob o local onde se levantou, pelo avô do poeta, a casa que Afonso Lopes Vieira doou ao povo da Marinha Grande. É claro que naquele local já existira, no século XV, uma casa que foi do Marquês de Vila Real. E, se os árabes ali se estabeleceram e ancoraram os seus barcos, não haverá dúvidas de ali terem erguido uma pequena fortaleza de defesa e manutenção.

Portanto, esta lenda, com os seus pontos de sustentação, não deixa de ter a sua maior força na magia poética que a transportou de boca em boca, para ter chegado aos meus ouvidos em tempos de menino, e que a mantém na essência perfumada entre a dúvida florida e a realidade.

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Nota:

Santarém foi fundado por Abidis XXIV, rei de Espanha, em tempos muito remotos, cerca de 1 100 anos antes de Cristo, com o nome de Esca-Abidis. Mais tarde, Júlio César deu-lhe o nome de Proesidium-Jullium, concedendo-lhe o título de Colónia e convento jurídico, título que correspondia à 3ª Chancelaria da Lusitânia. O nome de Esca-Abidis, que continuou resistindo, transformou-se em Scalabis-Castrum. Só depois do século VII, por se ter encontrado, nas margens do Tejo, a imagem de Santa Iria dentro duma caixa, se passou a chamar de Santa Iria e, por corrupção, Santa Eyria: o que veio a dar, mais tarde, em Chantirein e depois em Santarém.

 

Lenda de Moher (Moer-Moel) - desenho de Guilherme Correia
Lenda de Moher (Moer-Moel) - desenho de Guilherme Correia

Lenda das Camarinhas

À entrada de S. Pedro de Moel, podemos ver a estátua de D. Dinis e da Rainha Santa erigida em agradecimento à grande e bela mata que o Rei Lavrador nos ofereceu. Tudo nos leva a crer que, para D. Dinis mandar efectuar essa enorme sementeira com tamanho interesse, diremos mesmo paixão, já teria a previsão ou o sonho de que um dia, os seus descendentes tivessem a possibilidade de mandar construir os barcos adequados à procura de novas terras para além mar. Depois dos nossos mareantes terem chegado às ilhas Canárias, com umas embarcações tão frágeis, é muito possível que D. Dinis, um Rei culto, empreendedor, bom político, poeta e sonhador, tivesse em mente proporcionar aos Reis vindouros a mensagem do seu desejo e a possibilidade de o levar por diante, oferecendo-lhe a matéria prima para as adequadas embarcações. A certeza é que o bom Rei Lavrador se dedicou a esta tarefa de alma e coração e com tal generosidade que, para poder estar ao corrente dos trabalhos e mesmo poder dirigi-los com a constância possível, mandou reconstruir e alindar o Castelo de Leiria, doando o Castelo e a vila de Leiria à Rainha Santa Isabel; assim como mandou edificar um pequeno Paço em Camarreu, à qual vila, por ter um nome inestético, por foral de 1310 o mudou para Monte do Paço da Rainha. De igual maneira, como pernoitavam em Óbidos, quando das suas viagens para Leiria, Monte do Paço da Rainha ou Coimbra, fez doação dessa linda vila à Rainha Santa, pelo que Óbidos através dos tempos e por sucessivas doações a diversas Rainhas de Portugal, ficou conhecida por vila das Rainhas.Quando D. Dinis mandou vir, pelos mercadores que vinham a Lisboa, sementes de pinho bravo da Flandres, já existia a Mata de Pataias, talvez até ao sítio denominado de Camarção, e algumas manchas de arvoredo pelas margens de Moher. A Mata de Pataias era de pinheiros mansos, um pinheiro lento a crescer e sem a altura desejada para os mastros dos navios: ele sabia que o pinho da Flandres lhe daria a madeira indispensável a uma boa construção dos barcos necessários para se aguentarem em grandes viagens e resistirem o melhor possível aos temporais. Durante a sementeira do Pinhal do Rei e durante o seu crescimento, D. Dinis, não esmoreceu o entusiasmo a que se votou: acompanhando e dirigindo os trabalhos indispensáveis até à conclusão da sementeira da enorme área por ele determinada. Em sequência, durante todos esses longos anos, passava a maior parte do tempo no Castelo de Leiria e no Monte do Paço da Rainha; tendo muitas vezes resolvido os assuntos do reino ora num ora noutro lado. Quando os assuntos urgiam, El-Rei deslocava-se a Coimbra e a Lisboa.A Rainha Santa Isabel, sabedora da galantaria do Rei para com as damas, mesmo para com as de condição humilde, pois bastava-lhe que tivessem uma figura atraente e graça feminina, acompanhava-o nas suas longas estadias pela terra de Leiria, por mais cansativa e penosa que fosse a viagem. Mas, mesmo assim, D. Dinis não deixava os seus créditos por mãos alheias!... Onde houvesse um palminho de cara que o tentasse lá estava ele, varonil e garboso, cavalgando léguas e léguas, ou não fosse um poeta trovador!... Quanto de belo o rodeava, o inspirava. A sua verve sensibilizava-se ante o céu, o voo da águia, o baloiçar do pequeno pinhal crescente, o azul-safira do mar bonançoso ondeando pela praia loira. Não ficava indiferente perante a amizade. Era cortês, galante, apaixonado. Procurava ser justo. Punha o futuro do País acima de todas as coisas. Não tolerava abusos, desrespeitos, nem mesmo ao próprio filho, quando este, por inveja ou ciúme dum irmão bastardo, se insurgia injustamente contra o pai.

Onde D. Dinis estivesse estava a cultura. Por isso a sua corte foi o principal centro cultural da Europa. Cantava-se, bailava-se, jogava-se (segundo a época), estudava-se, declamava-se. D. Dinis foi o melhor poeta do seu tempo. Os seus célebres "cantares de amigo" do seu Cancioneiro, atestam-no como um dos líricos que melhor soube cantar o amor e as suas penas. Os seus versos, de incontestável beleza, têm o tom ameno de quem gosta de cantar um humor feliz que nos sabe bem.

Diz-se que D. Dinis foi: um bom Poeta, um bom Rei, um bom Marido mas um Pai infeliz (pelos desgostos que o príncipe D. Afonso lhe causou).

Amante da cultura, D. Dinis ousa acabar com o latim como a língua dos doutores e dos escritos de então. Para isso, cria em 1290 a Universidade, evitando a saída dos estudantes para fora do reino, criando uma língua própria da Nação Portuguesa que veiculasse as produções literárias da corte, e tornasse acessíveis, pela tradução, textos selectos, colocando-os fora da área da elite clerical.

Com a ampla visão digna dum Grande Rei, atendendo a uma ordem pontifical, extinguiu os Templários mas integrando-os, com todo o seu vasto e rico património, na ordem de Cristo, obstando a que o País perdesse uma autêntica riqueza, não só material como, também, de vastos e valiosos conhecimentos. Não poderemos esquecer que o Infante D. Henrique foi investido por Martinho V, nas funções de Administrador-Geral e Governador da Ordem de Cristo. A Ordem de Cristo, fixou-se, tal como os extintos Templários, em Tomar: O Infante D. Henrique, após ter sido empossado nas suas funções. fixou-se, também, em Tomar onde aparelhou os seus Paços a par do castelo reconstruído e ampliado: depois, tudo lhe foi proporcionado em vastos conhecimentos e grandes recursos e a sabedoria essencial à realização do seu grande sonho.

Ressalta, portanto, que se D. Dinis plantou o Pinhal do Rei na esperança de um dia ser possível traduzi-lo em caravelas, também, com a sua argúcia, fundou a Ordem de Cristo possivelmente na certeza de que a sabedoria e os recursos da Ordem proporcionassem ao país o essencial para a sua expansão ultramarina. - Quem sabe?...

O certo é que D. Henrique aproveitando as riquezas e a sabedoria dos Templários, então integrados na Ordem de Cristo de que era Administrador-Geral e Governador, fundou a Escola de Sagres e deu inicio ás Grandes Navegações: acabando por ser D. João II, o Príncipe Perfeito, aquele que teceu e impulsionou Portugal na sua verdadeira Epopeia; mas quem veio a usufruir dos frutos de tanta imaginação e esforço, foi o Venturoso, que sem nada fazer, tudo colheu, pois foi com as caravelas mandadas construir por D. João II, com os planos aprovados e com a escolha dos Capitães, com todo o sonho elaborado pelo Príncipe Perfeito, que se chegou à Índia e ao Brasil.

Do que não há duvida é que o princípio desta Grande Epopeia se ficou a dever à sementeira de pinho bravo do areal de Moher e á fundação da Ordem de Cristo: portanto, ao nosso Rei Lavrador, D. Dinis de Portugal. Consequentemente, poderemos afirmar que D. Dinis foi o primeiro rei verdadeiramente culto. E que a par dessa cultura e duma imaginação extraordinária tinha o sentido da realidade e do progresso, olhando com clareza e profundidade para o futuro: dando uma língua de que o País carecia, e uma Universidade indispensável para os homens de saber e para a concepção dos grandes pensamentos.

Se D. Dinis foi grande poeta e amante da cultura, também possuía um espirito folgazão a que se lhe juntava e amalgamava um sentido apaixonado pela beleza, fosse ela da Natureza: as paisagens, o mar, o céu e as nuvens, ou... uma beleza feminina, fosse esta loira ou trigueira, mas sempre dum eflúvio que o embebedasse. E assim o Rei se perdia. E assim deixava passar as doces tardes nos ardorosos favores duma linda burguesa ou duma simples mas graciosa camponesa.

Sabedora das virtudes e dos pecados do marido, a Rainha Santa, que apesar de Rainha e Santa não deixava de ser mulher e ciosa das suas credencias, sentia a par dum normal ciúme, um particular estímulo de defesa. Quando o rei não chegava à hora acostumada, por mais esforço que fizesse para se não notar, ficava inquieta, pensativa e nervosa. El-Rei não mudava. Por mais que lhe prometesse, voltava sempre ao mesmo. Não sabia que fazer daquele Rei esbelto, cavalheiresco e culto, que a apaixonava e por quem o seu paciente coração pulsava mais forte quando o tinha perto: que se angustiava quando o via partir, pois logo ao vê-lo sumir na curva seguinte, uma acerba dúvida vinha, sem ela querer, apontar-lhe o inquietante ferrete.

Ainda não se tinha extinguido o eco de Cegodim e já El-Rei rompia todas as promessas e se perdia nos confins da Mata, ou à orla dos seus limites, nos seus habituais delírios ou idílios insaciáveis.

É claro que a voz do povo brejeiro, subtil e maliciosa, infiltrava-se pelo Paço da Rainha. Ela, a Rainha Santa, bem entendia: bem entendia aqueles olhares simultaneamente indiscretos e de pena, que as aias deixavam subentender. El-Rei, novamente perdido por alguma camponesa mais fresca e ladina!...

Ficara para trás o idílio com a camponesa da pequenina aldeia a que, devido ao desvario de El-Rei, o povo apodara de Amor.

Aos primeiros indicio notados, a Rainha tentou não ligar, mas a constância com que presenciava o ciciar das aias fê-la entender que o caso era mais sério. Então recordava Amor: quando sabedora de que o idílio perdurava, resolveu, com o seu pequeno séquito, ir em demanda da alcova do amor. Saindo ao começo da noite, ordenou que se prendesse, pelo caminho, archotes de resina e pez a arder, para que o Rei encontrasse a luz, ou seja, o remoque dum caminho iluminado a quem, num estado de cegueira, não via o desvario que o tomava.

El-Rei, na sua alcova alertado, pôs-se a caminho do Paço, vindo encontrar a Rainha, no sítio onde o povo ficou a chamar de Cegodim, porque D. Dinis, ao encontrar a Rainha com todo aquele aparato de luminosidade, lhe disse: - Senhora minha! Vindes com tamanha luz!... E eu que tão cego vim!...

De "Cego Vim", a voz do povo, pelo tempo fora, transmudou em Cegudim, sendo com este nome que o lugar hoje se denomina.

Chegada a noite, Isabel de Aragão, pressentia naquela tardança, novos e sérios pecados de El-Rei. No dia seguinte, ela partia em busca do local do novo idílio, tentando surpreender El-Rei consumando o pecado. Assim, pelo começo da tarde, a Rainha, a cavalo, na companhia de duas aias e de alguns guardas, pôs-se a caminho aonde as aias, sabedoras lhe indicaram.

A meio da tarde, Isabel chegara ao local. Mandou parar o pequeno séquito e, sozinha, com o coração destroçado, encaminhou-se para junto do rochedo, entre Pinhal e mar, até dar com D. Dinis em flagrante delito amoroso. Ao vê-la, D. Dinis abriu os olhos espantados... Enquanto, dos belos olhos da Rainha Santa, as lágrimas abriam, cristalinas, pelo rosto abaixo, perdendo-se sobre o mato em verdadeiro aljôfar, branco, tão branco, que logo todo aquele mato, à orla do Pinhal se alindou.

E assim se fez a lenda das camarinhas... Desde esse dia que esses pequenos arbustos: as camarinheiras, florescem em homenagem às lágrimas santas da Rainha, por essa época do ano, em Setembro, cobrindo-se de pequenos frutos brancos, agridoces, pelo imenso Pinhal do Rei, mais intensamente à orla da beira-mar.

 

José Martins Saraiva
Lenda das Camarinhas - desenho de Guilherme Correia

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