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José Moreira

by on 15 de Outubro de 2014
 

JOSÉ MOREIRA (1912 – 1950)_pequenoJOSÉ MOREIRA (1912 – 1950)
Um exemplo sinistro da violência das torturas da polícia política de Salazar e de Marcelo Caetano. Um caso pouco conhecido. Arrepiante.
José Moreira foi submetido a interrogatórios ininterruptos, intensivos e brutais, já que a PIDE queria obter rapidamente as moradas das tipografias do PCP, de modo a evitar que o partido tivesse tempo de as mudar. Recusou-se a falar, a trair os seus camaradas e o seu partido. Entre morrer ou trair, optou por  morrer. A PIDE não lhe arrancou uma única morada, uma única informação. E torturou-o até à morte – que ocorreu no dia 23 de Janeiro de 1950.
Agradecemos a Marília Tojeira Marques ter enviado esta biografia para o grupo «Fascismo Nunca Mais!».
 HP

Helena Pato‎ – Fascismo nunca mais!

José Moreira nasceu há cem anos, em Vieira de Leiria. Quase criança, foi trabalhar para a Marinha Grande, como operário vidreiro. É ali, no contacto directo com a exploração em duras condições de trabalho, que vai formando a sua consciência de classe. É ali, num ambiente de forte tradição revolucionária e de luta do operariado local, que adquire a consciência política que cedo o levará a aderir ao PCP.
Em 1945, logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial, passa à clandestinidade e, enquanto funcionário do Partido, é-lhe confiada a dura, difícil e importantíssima tarefa de responsável pelo aparelho de imprensa – tarefa que exigia uma dedicação extrema, um alto sentido de responsabilidade e de disciplina, uma grande capacidade criativa e, acima de tudo, uma coragem sem limites. Tudo características que José Moreira possuía e às quais aliava um elevado espírito de sacrifício, uma entrega total ao Partido e à luta, uma rígida observância dos cuidados conspirativos – bem como uma impressionante sensibilidade humana, visível no seu trato fraterno e solidário com os que o rodeavam e no estímulo e no apoio que dava aos quadros que, em total isolamento, trabalhavam nas tipografias.
Para se perceber a importância e a complexidade da tarefa de José Moreira, basta ter em conta, por exemplo, as dificuldades para fazer chegar o Avante! às mãos dos militantes comunistas e das massas trabalhadoras e populares. As dificuldades começavam com a aquisição do papel bíblia utilizado na generalidade das publicações do Partido, já que a PIDE obrigava as papelarias a registar o nome de todos os compradores desse tipo de papel e as quantidades adquiridas. Superada, com imaginação, essa dificuldade, tratava-se, depois, de distribuir o papel e as tintas pelas várias tipografias, operação perigosa e arriscada a exigir cuidados extremos. A seguir, era necessário ir buscar os textos elaborados pela Direcção do Partido e entregá-los, para impressão, nas tipografias – o que implicava uma série de encontros e contactos. Depois de impressos, havia que distribuir os documentos – o Avante!, entre eles, com lugar de destaque – pelas organizações partidárias, que os fariam chegar aos trabalhadores e ao povo. Tudo isto colocava enormes exigências: os cuidados a ter nos múltiplos encontros e deslocações que se impunham e o enorme esforço a que tal tarefa obrigava, sabendo-se que, por razões de segurança, os encontros e as entregas do Avante! e dos outros materiais impressos, eram feitos em locais «neutros», isto é, distantes quer das tipografias quer das zonas a que se destinavam. Para cumprir todas estas tarefas, José Moreira deslocava-se de bicicleta, chegando a percorrer 2500 quilómetros por mês, muitas vezes transportando pesadas, pesadíssimas cargas.”
À altura da prisão de José Moreira, incomodava os esbirros da PIDE o facto de o órgão central do PCP ter sido publicado, sem interrupções, desde a reorganização de 40/41 e de, entre 1945 e 1949 não terem conseguido localizar e assaltar uma única tipografia.
Julgavam, assim, que com a prisão de José Moreira iriam vibrar um golpe fatal na rede de tipografias clandestinas do Partido. Bastaria para isso que o preso falasse, que lhes fornecesse as moradas, que conhecia, das várias tipografias existentes.
Tal não aconteceu: submetido aos interrogatórios pidescos – interrogatórios ininterruptos, intensivos e brutais, já que a PIDE queria obter de imediato as moradas das tipografias de modo a evitar que o Partido tivesse tempo de as mudar – José Moreira recusou-se a falar, a trair os seus camaradas e o seu Partido. Entre morrer ou trair, optou por morrer. A PIDE não lhe arrancou uma única morada, uma única informação. E torturou-o até à morte – que ocorreu no dia 23 de Janeiro de 1950.
Com o intuito de esconder o crime, a polícia fascista procedeu à usual encenação do «suicídio», atirando o corpo do militante comunista de uma janela do 3.º andar da António Maria Cardoso. Tinha 37 anos de idade e era funcionário do Partido há cerca de cinco anos. Pouco tempo antes da sua prisão e do seu assassinato, escrevera: «Uma tipografia clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver».
E em Agosto desse ano, pode ler-se no órgão central do PCP: «A melhor homenagem que lhe podemos prestar é levar o Avante!, o seu Avante!, a todos os recantos do país.»
Recorde-se que, cerca de um ano antes, o fascismo rejubilara com a prisão, nos primeiros meses de 1949, de mais de uma dezena de dirigentes e quadros do Partido, entre eles Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira. E que, por essa altura, o governo fascista de Salazar era admitido como membro fundador da NATO, com o apoio do governo dos EUA, que constituía o principal suporte do regime fascista português a nível internacional – suporte que se manteve até ao dia 24 de Abril de 1974.
Registe-se, ainda, que dias antes do assassinato de José Moreira, em 2 de Janeiro, morrera Militão Ribeiro, na Penitenciária de Lisboa, vítima de um crime cruel e perverso.”

Texto retirado de http://www.avante.pt/pt/2038/argumentos/123024/

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