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Guilherme Stephens

by on 6 de Novembro de 2013
 

Alfredo Ferreira de Oliveira GândaraProsa

“Guilherme Stephens”

“Guilherme Stephens” (Correio da Marinha Grande (1941)
Escolhido pela Dra. Emília Margarida Marques *

Aqui te deixo esta flores, como penhor da minha permanente veneração. O vento ou a vassoura municipal levá-las-ão em breve. Porém, ficará o seu perfume e, confundido com ele, uma presença não menos invisível, ma real e fiei: a emanação mais pura do Espírito de um sincero amigo teu.

(…)

Poderia lá faltar! Aqui me tens, mais vibrante do que nunca, na firmeza dos meus sentimentos quási religiosos para contigo; no orgulho da velha estima que nos liga e no contentamento de verificar que te prestaram, finalmente, parte da justiça que mereces. (…)

Esta situação é multiplicada pelo facto de poder sentir, diante do teu monumento, a alegria da paternidade. A idéia desta homenagem ninguém a lançou antes de mim. E, para lhe dar o humus em que devia ‘criar raízes, desenvolver-se e desentranhar-se no fruto que tanto hora hoje a terra formada à volta da Fábrica (como na Idade Média se constituíam os burgos em tôrno de um castelo ou de um convento), fiz uma coisa a que só não chamo sacrifício máximo por ter sido realizado por amor de ti: renunciei a todas as minhas legitimíssimas aspirações intelectuais e meti-me nos arquivos e bibliotecas, à procura de elementos de estudo da tua vida e da tua obra.

Com o que sorvi directamente na fontes virgens e com o que pude apurar nos livros da mais completa colecção bibliográfica portuguesa sôbre assuntos relacionados com a indústria do vidro em Portugal – essa colecção é a minha – foi-me dado traçar-te o perfil em vários artigos. A mim se deve o que se sabe hoje a teu respeito e de teu irmão, além do pouquíssimo que vem nas enciclopédias e no livro do nosso amigo Joaquim Barosa – para quem também já propus a merecida e barata homenagem da colocação do seu nome à esquina de uma rua da Marinha Grande. E foi com o que divulguei (e divulguei menos do que sei, porque não desisto de publicar um livro em que sonho apresentar-te, se Deus me der vida, saúde e talento, de corpo inteiro e num pedestal digno da tua estatura) que se justificou a consagração que te fizeram. Sinto-me desvanecido, meu querido Guilherme!

Há quem o ignore, mas tu, Guilherme, sabes perfeitamente que fui eu quem salvou algumas vezes as tuas venerandas oficinas. Salvei-as de serem vendidas em hasta pública, em 1922, depois de um govêrno ter tomado uma decisão a êste respeito e a haver solenemente anunciado numa “nota oficiosa”. Salvei-as, pouco depois, de uma conspiração parlamentar, cujos fautores, com então me disse o próprio deputado que chefiava o ataque, pretendiam O arrazamento puro e simples das históricas construções, sempre cheias da tua sombra dominadora, “para, no espaço por elas ocupado, se edificarem casas”. Salvei-as de conjuras locais. Salvei-as.

(…)

Uma coisa te quero prometer ainda: não faltarei à chamada, quando fôr necessário acudir, à tua Fábrica. As flores que aqui deponho teem o valor simbólico de um pacto.

*) Autora de ” Representações do vidreiro e do marinhense num autor local ”

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