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Gente da Vieira

by on 6 de Novembro de 2013
 

António Gomes VitorinoProsa

Gente da Vieira

“Um trecho de ‘Gente da Vieira (1938)'”
Escolhido pelo Dr. Francisco Neto Nunes *

– Mãe, tenho esta dor imensa de ser pobre! Os pobres, ou deviam morrer todos quando nascem… ou… não sei… não sei… Mas isto assim não está bem. Ser pobre é desgraça grande demais para que possamos andar sempre com ela.
A velha murmura:

– E há tantos anos que eu sou pobre…

– É verdade, vossemecê há sessenta e oito anos; eu há quarenta e dois; os meus filhos, o mais velho há doze e o mais novo há quatro, e sê-lo-ão por tôda a vida. Mas isto é castigo, mãe, isto é castigo? Sessenta e oito seus, quarenta e dois meus e doze do meu filho são cento e tantos anos de pobreza! cento e tantos anos de miséria!

E, levantando-se, põe-se no meio da casa, como se acusasse alguém:
– Mais de cem anos de fome e de sacrifícios! e sempre termos de morrer! Não mãe, não! Ou devíamos morrer todos à nascença.. ou… não sei…. não sei…
A velha quer sufocar aquela explosão de desespero:

– Cala-te filha. Deus é muito grande e saberá quem sofreu neste mundo.
E ela, ainda mais erguida do que até ali, deixando sair as palavras com tôda a força, em catadupa:

– Deixe-se disso mãe, deixe-se disso! Qual Deus?! Então ele vê cento e tantos anos de miséria – não contando os de sua mãe e os de sua avó, que também foram pobres, segundo vossemecê me diz – cento e tantos anos de aflições, de desespero a filhos seus; cento e tantos anos aguardando que lance sôbre nós um pouco da sua piedade, e que nunca, nunca se comoveu, nem sequer nas horas mais negras em que os meus filhos choram por não ter pão!
– Ó filha, Cristo disse que o seu reino não era dêste mundo.

E ela trágica, imensa, avançando para a mãe:

– Mas nós vivemos cá e cá é que precisamos ser amparados. De que serve um Deus que não vive connosco?! Qual é então o dêste mundo? diga! Êsse é que eu preciso que me valha.

E a mãe como que a querer segurá-la para que não se despenhe:
– Filha!…

E ela ainda mais terrível:

– Deus?!… É tudo mentira o que vossemecê me ensinou. O que eu lhe tenho pedido! em rezas e orações!… E nunca, nunca por nunca se, êle me valeu! O que existe é a fome! O que existe é muita fome, fome negra, em casa dos pobres!
E, avançando um passo, desce a voz para lhe dar mais convicção:
– Diga: qual era o Deus, ainda que não fôsse tão bom como êsse, qual era o Deus, diga que consentia semelhante horror: Sempre fome em casa dos seus filhos?
É já por um esforço enorme que ela ainda se mantém de pé. Os filhos olham-na aterrados. Nunca viram a mãe assim. A velha treme e quere sossegá-la, mas não o consegue. É que aquele bramir medonho não eram só as queixas de cento e tantos anos de miséria, eram tôdas as queixas dos miseráveis; era como que um protesto, que vinha talvez do princípio do mundo, contra esta monstruosidade, contra a existência de ricos e pobres debaixo do mesmo céu, de famintos e bem jantados a orar pelo mesmo Deus.

*) Autor de Vieira de Leiria. A história, o trabalho, a cultura (Vieira de Leiria, Junta da Freguesia de Vieira de Leiria, 1993).

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