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Espelho de três reflexos

by on 3 de Novembro de 2013
 

Luís Filipe Gonçalves CardonaPoesia

Espelho de três reflexos

“Todos nós somos espelhos
de variados reflexos…”

Ainda não morri !

Ainda não morri!
Embora todos os dias
morra um pedaço
e seja cada vez mais duro
o esforço que faço
para me manter inteiro,
direito,
ainda que imperfeito.

Ainda não morri!
Mas todos os dias faleço
quando tomo consciência
dos cruéis e ignóbeis preços
que se pagam à demência
prá conquista do poder,
do dinheiro,
da vaidade,
do prazer,
da exaltação do egoísmo,
descarado e sem pudor
ou mascarado de altruísmo.

Ainda não morri!
Mas vou-me sentindo um estranho,
derivando neste mundo.
Não por achá-lo imundo,
mas por nele ter mergulhado
completamente nu,
desprovido de escudo
da minha salvaguarda.

Ainda não morri!
Mas, dia a dia, é mais árdua
tão erecta caminhada...

Aquilo que me domina

Aquilo que me domina,
Mas que às vezes me anima,
É um fogo interior que me consome,
Dia a dia. Hora a hora. Como a fome.
Fogo lento e corrosivo
Mas cujo resíduo
Não é 'inda a cinza;
Mas apenas um carvão negro e disforme
À espera que o vento sopre e o transforme
Numa brasa ardente e rubra,
Até que eu mesmo descubra
Que afinal se não finou, de todo, a Vida.

Depois do Natal

Pronto. Acabou-se.
Lá se foi mais um Natal...
Trocámos prendas
com sorrisos e abraços.
Mandámos as boas festas
como é tradicional.
Pensámos nos probrezinhos
(coitadinhos!...),
mas enchemos as barrigas,
os olhos e os regaços.

Já podemos estar tranquilos:
Cumprimos a tradição
e aplacámos a consciência.
Podemos voltar aos estilos
de vida de agitação,
egoísmo e violência.

Tirámos a máscara da fraternidade.
Trocámos o sorriso pelo rosto duro,
as palavras doces pela crueldade.
Entre nós e os outros foi reposto o muro
do frio orgulho e da torpe ruindade.

Mas pró ano cá estaremos
a cumprir o ritual.
Nessa altura voltaremos
a usar, de forma igual,
as máscaras do carnaval
atrás das quais escondemos
os sentimentos enfermos
pela febre do consumo,
mais efémero do que o fumo.

Eu pecador me confesso

Eu, pecador, me confesso
Das palavras sem sentido,
De tantos actos sem nexo,
De tanto tempo perdido.

Eu, pecador, me confesso
Dos prantos que fiz brotar
Quando em irados excessos
Violentei o verbo amar.

Eu, pecador, me confesso
Pela minha impaciência
Contra quem não tem ingresso
Na minha benevolência.

Eu, pecador, me confesso
Por não querer (ou, não saber)
Exercer no tempo certo
As primícias do prazer.

Eu, pecador, me confesso
De m'evadir da ternura
Tanto mais quanto mais perto
De quem, em vão, me procura.

Eu, pecador, me confesso
De não saber reagir
Ao sentimento do tédio
E à falsa fé no porvir.

Eu, pecador, me confesso
Pela falta de bom senso
Quando, por vezes, m'esqueço
Daquilo que sinto e penso.

Eu, pecador, me confesso
Pela falta d'humildade
Com que fruo do sucesso,
Fruto da minha vontade.

Eu, pecador, me confesso
Da minha falta de jeito
P'ra manter em alto apreço
Amizades com defeito.

Eu, pecador, me confesso
Não pelo mal qu'exerci,
Nem por ter sido perverso
Mas pelo bem que omiti."

Eu sou a voz que clama no deserto

Eu sou a voz que clama no deserto
da indiferença daqueles que não sonham.
Desnudo-me e ofereço a céu aberto
aquilo de que os outros se envergonham

Mas ninguém me ouve. Ninguém responde.
Só ouço ecos vazios de sentido.
E esta fome de amor mais se me esconde
nas dobras do coração já ressequido.

- Ó áridos ventos que transportais
no hálito sinistro dos infernos
o selo inexorável do fracasso,

levai convosco os meus versos banais,
espalhai-os p'los espaços eternos
e morra eu, imolado ao cansaço!

Recado ao amigo que nunca tive

Meu Amigo tão ansiado:
Já vou perdendo a esp'rança
De ter-te, enfim, a meu lado,
Tão longa é já a tardança.

Tanta vez te procurei,
Qual Diógenes aflito,
Mas a lanterna que usei
Tinha um brilho tão restrito...

Vejo o tempo a extinguir-se
E tu longe, sempre ausente
Da minh'alma, a esvair-se
Em nostalgia pungente.

Não me olhaste nos meus olhos
Procurando adivinhar
A dureza dos escolhos
Que fizeram o meu penar.

Não tentaste suavizar
A aridez do meu deserto
Quando só, sem me cuidar,
Da loucura estive perto.

Não quiseste rir comigo
Nos meus, tão raros, momentos
Em que tinham curto abrigo
As razões dos meus tormentos

Não vieste ouvir, atento,
Meus lamentos e queixumes.
Deixaste que fosse o tempo
A adoçar-me os azedumes.

Não me deste a tua força
Quando me vi vacilar,
Como a assustadiça corça
Ao sentir que a vão caçar.

Nem sequer vieste secar
Tanta lágrima vertida,
Quando senti soçobrar
A juventude traída.

Não vieste tomar parte
Na minha louca ansiedade
Quando foi meu estandarte
A luta p'la Liberdade.

Meu amigo inexistente:
Nunca mais terei sossego
Pois que, morta, ainda sente
A minh'alma o teu desprezo!...

Repulsa

Pões sorrisos nos teus lábios de carmim
Cheios de ávidos desejos de agradar,
Sem dares conta que eu sei bem qual é o fim
Que pretendes, com tais jeitos, alcançar.

São tão falsos e tão vis os teus intentos
Que nem mesmo a sedução t'os dissimula.
Não t'iludas quanto aos meus bons sentimentos
Pois nem sempre quem mais cuida, bem calcula.

A elástica consciência sem moral
E as falhas mais sensíveis da memória
São, dos reles e dos tolos, apanágio.

Vai-te pois pr'a sempre embora, ó ser venal!
Não suporto a ostentação dessa vanglória
Nem eu quero em mim sentir o teu contágio.

Retrato de mulher (1)

Retrato de mulher (1)

Olhos d'esmeraldas.
Boca de rubis
com pérolas dentro.

Que bela grinalda
como eu nunca vi,
mesmo quando invento.

Caem-lhe os cabelos
em cascatas de ouro.
A ternura, ao vê-los,
transforma-se em choro.

Assomam-lhe os seios
sob as vestes brancas.
Que ardentes enleios
sugerem as ancas!...

Tem a ligeireza
da branca açucena.
Porte de princesa
esbelta e serena.

Um doce sorriso
percorre-lhe o rosto.
Frescura de rio
num dia de Agosto.

Sob as sobrancelhas
arde sem queimar
o brilho d'estrelas
que há no seu olhar.

Vê-la é um privilégio
de poucos mortais, Tem o sortilégio
das mulheres fatais.

Mas é tão ingrato
ser-se bela, assim!

É só um retrato...
Moldura em marfim.

Sede

Ah! Quanta sede me atormenta,
Com tanta água à minha volta...
Quando é que a minh'alma sedenta
Sacia, enfim, toda a revolta?

Revolta, sim! Que não mereço
De Tântalo, o suplício eterno,
Pois já paguei um alto preço
Pela descida aos meus infernos.

Já bebi, do cálice o fel
Que a vida me serviu. Tão cheio!
Quero agora o sabor do mel
Na minha boca. Sem receio.

Estou farto de apenas olhar
De longe, qual pobre faminto,
Tanta iguaria, sem provar
O gosto que nelas pressinto.

Quero tomar lugar à mesa
Dos filhos dilectos da vida;
Nem que seja só p'ra surpresa
De quem me levou de vencida.

E vós, inibições das minhas trevas,
Vinde comigo par'o banquete!
Basta de tantas ânsias cegas.
Basta de miséria, o ferrete.

Vem ilusão !

Não perturbem este momento breve!
Quero ouvir a música docemente,
A embalar-me a alma calma e leve,
Sem nada a ensombrar a minha mente.

Deixai que estenda a mão em gesto lento
E afague com meus dedos a miragem
Que à noite, pontual, surge com o vento,
Rasgando as trevas com a sua imagem.

Eu sei que és falsa, ténue ilusão!
Mas irradias tão suave calor
Que aqueces o meu frio coração.

Quem dera que fosse botão de flor
Que abrisse aos raios do Sol de verão
P'ra nele entrar por fim, doce, o amor.

 

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