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Cronologia Geral da Marinha Grande e Suas Terras

by on 15 de Novembro de 2013
 

Abel Monteiro_CRONOLOGIA GERAL DA MARINHA GRANDE E SUAS TERRAS“CRONOLOGIA GERAL DA MARINHA GRANDE E SUAS TERRAS”

de Abel Fonseca Monteiro

 

Excelente contributo para o estudo da história marinhense.

 

Prefácio

A Marinha Grande constitui hoje um dos pólos mais dinâmicos do país, a merecer a devida atenção por parte dos investigadores. Em pouco mais de dois séculos e meio, transformou-se de uma aldeia insignificante – como sucedia em 1747, quando João Beare para ali transferiu a sua fábrica de vidros de Coina – num centro urbano de grande dinamismo, no qual se encontra sedeado um importante cluster, fundamentalmente alicerçado nas indústrias vidreira, dos moldes e dos plásticos.

Por tal motivo não surpreende que vários estudiosos se tenham debruçado sobre a sua história, elegendo-a como um interessante “estudo de caso”, com o objetivo de compreenderem melhor a sua evolução, excecional e invulgar.

Com a Cronologia Geral da Marinha Grande e Suas Terras temos mais um excelente contributo para o estudo da história marinhense, desde os seus tempos mais remotos, no século XII, até quase ao presente.

Antes de tecer considerações acerca do trabalho, impõe-se que dedique algumas palavras ao seu autor. Abel Fonseca Monteiro (1945-2003) faleceu prematuramente, em novembro de 2003, numa altura em que da sua ação – profissional, cultural e cívica – muito havia ainda a esperar. Natural de Carapinheira (concelho de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra), deambulou por diversas paragens por motivos de estudo, serviço militar, atividade profissional ou laser. Destacam-se Coimbra, Angola, Figueira da Foz e Marinha Grande.

A sua profunda motivação pelo conhecimento e pela cultura e o seu permanente interesse pelo estudo, levaram-no a concluir com assinalável sucesso, o curso da Escola do Magistério Primário de Coimbra e a Licenciatura em História, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Ao longo de mais de três décadas, dedicou-se denodadamente ao ensino como docente do 1º e 2º ciclos, mas sem nunca deixar de aprofundar os seus conhecimentos, quer através de leituras diversificadas e da investigação, quer por meio de recolha de elementos que, posteriormente, viria a utilizar nos seus trabalhos. Tudo lia e por tudo se interessava. Também ele adotou a máxima de Terêncio (poeta latino): «Sou homem, pelo que nada do que é humano me é estranho».

Sensivelmente ao longo da última década da sua existência, dedicou-se também à escrita, deixando as seguintes obras: O Ciclo do Café: De Angola ao Brasil; um livro de poesia “Versos de Perdição”; “Palavras Marginais” (Dicionário) (Inédito em preparação para uma próxima publicação) e a Cronologia Geral da Marinha Grande e Suas Terras.

O primeiro, sobre o café – cuja motivação não poderá deixar de associar-se à licença sabática, como concretização de um projeto apresentado ao Ministério da Educação, ao qual foi remetido para eventual consulta. O segundo e terceiro mantêm-se inéditos. O quarto é o que ora se publica.

Independentemente do valor, da dimensão e do interesse colocado nos três primeiros, julgo poder afirmar que foi na Cronologia Geral da Marinha Grande e Suas Terras que o autor mais investiu e o qual, por certo, lhe foi mais querido. Tal deveu-se, em meu entender, às seguintes razões. Em primeiro lugar, por se tratar daquela que foi a sua terra adotiva, na qual residiu e trabalhou a maior parte da sua existência, ou seja, ao longo de 32 anos. Em segundo, pelo facto de, durante décadas, ter recolhido um impressionante volume de informação, utilizando os mais diversos tipos de fontes, desde os jornais a folhetos, de livros a opúsculos, de fotografias a manuscritos, sem descurar, obviamente, os testemunhos orais. Em terceiro, pelo facto de se ter dedicado à elaboração e redação do mesmo durante quatro anos (1998-2002) – embora interrompidos por uma paragem, por motivos de doença -, como se comprova, aliás pelas próprias informações que nos fornece. Finalmente, pela empatia, identificação e até cumplicidade que sentia pela localidade e seus habitantes, como se deduz das palavras com que conclui a respetiva nota introdutória:

Com a consciência das limitações que esta seleção e ordenação de factos da história da Marinha Grande contêm, deixo-a aos leitores que a queiram consultar a às gentes da Marinha Grande – a quem faço uma vénia – como um registo da sua vida ao longo dos tempos para que, futuramente, possa constituir uma fonte que forneça em síntese uma visão diacrónica até ao final do século XX, completada com uma visão sincrónica da sua inegável e incomparável vitalidade dos inícios do século XXI.

Após alguma hesitação, o autor confessa ter-se decidido por uma cronologia. Em meu entender, foi acertada a decisão. Além de se tratar de um instrumento de consulta de grande utilidade, inclusive para um público mais alargado e avesso a aparatos de erudição, foi possível, no pouco tempo que lhe restou, deixá-lo concluído, o que se tornaria muito difícil ou mesmo impossível, se tivesse optado por outra solução mais complexa.

A Cronologia que se segue encontra-se estruturada em cinco capítulos e um anexo. Cada capítulo abre com uma introdução, na qual se esquematizam algumas características mais relevantes do respetivo período. Foi seguida a ordem cronológica. Todavia, com esta se entrecruza a importância de certos eventos, desde logo destacada no próprio título dos capítulos.

Assim, no capítulo I contemplam-se factos decorridos de meados do século XII – isto é, desde os inícios da Nacionalidade – até aos finais do século XVI. São focadas, por exemplo, questões relacionadas com o povoamento e a administração, civil e religiosa.

Do capítulo II constam eventos ocorridos no século XVII e em parte do XXVIII, até à instalação da Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, em 1769. Neste período, a história regista eventos de um núcleo de pequenas povoações localizadas nas imediações do Pinhal do Rei e cujas atividades, em parte, dele dependiam, pelo que a Marinha Grande ocupava ainda um lugar modesto no conjunto daquelas.

O capitulo III, por seu lado, tem como balizas cronológicas o arranque da Fábrica de Guilherme Stephens – a qual entre 1769 e o seu encerramento, em 1992, viria a marcar, indelevelmente, a história marinhense – e a restauração do concelho da Marinha Grande, em 1917. Trata-se de um percurso recheado de acontecimentos desde a relevância alcançada pela Real Fábrica, primeiro em regime de monopólio e, desde finais de Oitocentos, como alfobre de empresários e vidreiros, até às movimentações políticas e laborais, dos alvores da Monarquia Constitucional até à I República, com a sua dinâmica própria.

O período seguinte (1917-1974), abordado no capítulo IV, apesar de mais curto, foi decisivo para a transformação da Marinha Grande num grande centro socioeconómico. Além de se ter transformado na capital do vidro por excelência – com a modernização e especialização do setor vidreiro -, a partir dos inícios dos anos de 1930 também a indústria dos moldes ali se concentra maioritariamente, primeiro induzida pelo vidro e, depois, também pela de plásticos.

Por fim, os eventos mais recentes da «Restauração da Democracia em 25 de Abril de 1974 até à atualidade», encontram-se no capítulo V. Como curiosidade, recordo dois registos, com data de dezembro de 2002. O primeiro refere-se ao anúncio da inauguração iminente do Arquivo Municipal, edificado precisamente no local onde se instalara a fábrica de vidros de John Beare, em meados do século XVIII. O outro, em ar de lamento: «A Marinha Grande, Terra de Vidro, Terra dos Moldes, mas também, e antes do mais, Terra do Pinhal do Rei, não tem de momento nenhuma serração de madeira».

Aos capítulos referenciados segue-se o anexo. De grande utilidade como referência histórica – cujo verdadeiro significado e importância  só daqui a anos poderão ser devidamente avaliados, a exemplo do que sucede hoje, com as insubstituíveis Memórias da Marinha Grande, de Joaquim Barosa -, é-o também como guia e obra de consulta, devido ao extraordinário manancial de informação que contém. O seu título é, a propósito, elucidativo: «Lista de Entidades de Serviços e de Firmas Comerciais e Industriais estabelecidas no Concelho da Marinha Grande em 2002».

A concluir, encontra-se uma vasta lista de fontes e bibliografia consultadas, revelando a grande probidade do autor, através da qual confere credibilidade e rigor à respetiva cronologia.

Antes de concluir, gostaria de sublinhar duas breves notas. A primeira, para lembrar que o autor, Abel Fonseca Monteiro, não era apenas um colecionador de eventos ou de dados e, muito menos, um “antiquário”. Ao invés, o interesse que prestou ao período mais recente da História da Marinha Grande revela como era um cidadão, crítico e participativo, atento ao que se passava à sua volta e do que não desejava aliar-se.

Além do já referido lamento acerca da ausência de fábricas de madeira na localidade – tratando-se das imediações do Pinhal do Rei, “catedral verde e sussurrante”, como lhe chamou Afonso Lopes Vieira – e de outras passagens do presente trabalho, atente-se no seguinte comentário, relativo aos anos de 1917-974: «Urbanisticamente, a Marinha Grande continuou durante todo este período a ser uma grande aldeia, de casas térreas e rústicas, sendo algumas típicas como as casas de alpendre – duas delas ainda de pé no largo Ilídio de Carvalho – ou as de telhados de forte inclinação de estilo nórdico, na atual Avenida 18 de janeiro ou junto ao cruzamento da Avenida 1º de maio com a Avenida Eng. Arala Pinto».

A segunda nota, que desejaria deixar registada – e perdoe-se-me a inconfidência, mas como a chamada ego-história atualmente já não choca! – é para declarar a profunda  amizade e grande admiração que me ligavam ao autor desta cronologia, desde há mais de 40 anos. A sua inteligência e o seu caráter, bem como o seu amor ao trabalho e sensibilidade humanista, não podiam deixar indiferentes, quem com ele convivia e contactava. Também presentemente, como aliás no passado – devido a circunstâncias várias -, a distância física como que contribui para reforçar a amizade, pelo que presto aqui a minha singela homenagem à sua memória.

José Amado Mendes

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