Palavras
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Contos do Verde Pino

by on 5 de Novembro de 2013
 

José Martins SaraivaProsa

Contos do Verde Pino

O mariscar nos cálices

- Ó António! Um dos nossos administradores quer duas dúzias de cálices iguais a este. Acho que são muito antigos e que se têm partido com o uso.

- Deixe ver, senhor Afonso! - António pegou no cálice. Analisou-o durante segundos e disse:

- Existe algum molde de madeira, para o bojo?

- Existe! Já o mandei fazer! - e o chefe do desenho virando-se para um dos rapazes, ordenou: - Ó Xico! Vai ao senhor Marcos buscar o molde de madeira para os cálices do senhor administrador!

- Se há molde, melhor! Vou eu fazer uma bitola, em madeira, para a haste e para o pé.

António foi à carpintaria. Escolheu um pequeno pedaço de madeira e voltou ao forno.

Pegou na madeira. Aparelhou-a com a navalha. Principiou a bitola. Pô-la na altura da haste: do pegamento do bojo ao pé. Fez-lhe a marca da medida da base. Abriu-lhe a ranhura do calibre da parte mais larga da haste: e outra da parte mais estreita.

Escolheu a matraca.

Entretanto, o Xico chegara com o molde de madeira. António pegou nele: analisou-o. Agarrou numa tira de lixa. Ora lixava ora apalpava com os dedos a superfície interior do molde. Ia passando a lixa por onde achava necessário.

Dando-se por satisfeito, avisou a obragem:

- Rapazes! Vamos a isto que já perdemos muito tempo!

Trouxeram-lhe um bojo moldado. Fez girar a cana entre a mão e o lateral da cadeira. Entretanto chegara a marisa para a haste. Alçou a cana com o bojo do cálice e esperou a marisa. O ajudante que trouxera a marisa na ponta do pontel, colocou o pontel em posição. O vidro escorreu sobre o fundo do bojo. António cortou o vidro indispensável. Ajeitou-o com os ferros de bico, enquanto um dos rapazes soprava no paipo, até o mestre mandar parar.

Ora com as costas dos ferros, ora com os bicos, o mestre trabalhou a marisa transformando-a numa haste precisamente igual à do cálice do administrador. Estava perfeita.

No momento adequado, outro ajudante trouxe a marisa para a manipulação da base. Tal como se fizera com a marisa da baste, este outro ajudante, colocou o pontel em posição e deixou que o vidro, guiado pelos ferros, enrolasse na extremidade da haste. O mestre estirou a porção de vidro. Meteu-lhe a matraca. Girou com rapidez a cana com o bojo já com a haste. Deu-lhe uns toques com os ferros. Chegou-lhe a tábua. O Cálice estava pronto da zona quente. Era necessário o devido acabamento.

O mestre esperou o forcado que o rapaz de levar-a-cima colocou no sítio certo: com as pontas dos ferros, que tinha enfiado na celha de água, apertou o extremo da cacheira, o mais rente à cana que era possível. Com um safanão, o cálice despegou-se da cana e seguiu, suspenso, entre a madeira do forcado até à arca de tempero.

E um a um, os cálices para refazer a bateria do administrador, foram entrando na arca de tempero. As hastes ficaram precisamente iguais à do cálice que serviu de padrão. O vidro ia bem repartido, com as paredes perfeitas para aguentar as facetas que a roda do lapidário iria abrir.

Após o acabamento: separação da cacheira, rebordagem e polimento, os cálices foram lapidados, com facetas largas e profundas.

Ao receber os cálices, o administrador enviou uma carta agradecendo a sua perfeição.

António ficou satisfeito ao receber os elogios do director, que viera especialmente ao forno, acompanhado do chefe da fabricação, para agradecer, em nome do administrador, o perfeito trabalho que se fizera.

António agradeceu mas referiu que o trabalho tinha sido consequência da acção de toda a obragem.

Todos os dias, as produções da obragem de António brilhavam à saída da escolha: pois os poucos cálices apartados para refugo, eram-no por defeito do vidro.

Das suas mãos, saiam as melhores peças para desafiar as exigências da pintura, da gravura a ácido, da gravura à roda, ou da lapidação. E quando assim sucede, todos os componentes da obragem, após o tocar do sino anunciando o final do trabalho, regressavam a casa, confiantes e satisfeitos com o dever cumprido.

 

José Martins Saraiva
Desenho de Guilherme Correia

O Corte do Jarro

- Vá lá, leva!

O rapaz de levar-acima estendeu o pau enfiando-o no jarro. O mestre inclinou um pouco a cana, apertou o pontel rente à cacheira, com a ponta dos ferros e, com um pequeno safanão, sacudiu o jarro.

- Ouve lá, Xico - perguntou o oficial - Quantos jarros temos?

- Ó mestre, com este são quarenta e três!

- Eh, pá! Isto não vai lá muito bem!

- Vá lá rapazes! Temos de acelerar, porque isto vai fraco!

- Ó mestre, e se o Xico se tem esquecido de marcar?

- Não! Não creio! O Xico não é esquecido! No entanto eu pergunto-lhe!

Nesse momento, chegava o novo jarro caldeado, para abrir e cortar a boca. O oficial ergueu-se sobre as chinelas de corda. Aplicou as petas, abrindo a parte da boca caldeada; pegou nas tesouras e cortou o vidro com precisão e elegância. Acabada a boca, bateu com os ferros no lateral da cadeira de trabalho e o ajudante pegou no pontel, levando o jarro para a "cornua". Nesse instante chegou o corpo moldado do que iria ser um novo jarro. O oficial fez girar a cana entre a mão e os laterais da cadeira; esperou a marisa que lhe chegava num pontel trazido por outro ajudante, com os ferros pegou no pontel, chapando a marisa quente no fundo do bojo; preparou com as costas dos ferros a marisa, estirou-a, fez desandar a cana sobre o lateral da cadeira; pegou na matraca aplicando-a: entalando o vidro entre a madeira da matraca, girando a cana com a rapidez certa e indispensável. Quando a base, ou pé, feita pela matraca, estava no tamanho adequado, o rapaz do paipo soprou na base do jarro para que esta se não deformasse. Então, apareceu o ajudante com o pontel preparado. O mestre pegou no pontel com os ferros e aplicou-o no centro da base do jarro. O rapaz do paipo soprou de novo, agora mesmo no pegamento do pontel com a base do jarro para que o pegamento se solidificasse. O oficial molhou os ferros na água da celha, apertou a cacheira que prendia o bojo do jarro à cana. Sacudiu a cana com um toque certo e seco e o jarro ficou suspenso desta e pegado ao pontel, seguindo, levado pelo ajudante, para ficar suportado pelos ganchos da ferraça, girando, à entrada do forninho de caldear.

Outro ajudante chegou com o jarro de boca já feita, a fim de se aplicar a marisa, que chegava, para efectuar a asa. O mestre fez girar a cana sobre o lateral da cadeira. Esperou a marisa. Levantou-se, colocou o bico do jarro para baixo e chapou a marisa no lado contrário, verificando, numa olhada vertical, de cima para baixo, se a asa ficava certa com a boca, ou seja, do lado absolutamente contrário a esta.

Cortou a marisa. Suspendeu-a com um pau até o vidro endurecer o necessário. Pegou nos ferros e colou a marisa à parte de cima do jarro, junto à boca. Fez girar o pontel com preceito e saber. Deu uns toques adequados, endireitando a asa; quando esta estava pronta, segura e direita com a boca, tocou com os ferros no lateral da cadeira. O rapaz enfiou o pau pelo interior do novo jarro. O mestre levantou um pouco o pontel com o jarro, com um safanão seco e rápido, despegou o pontel do fundo do jarro.

- Ouve lá, Xico! A "escravelha" está boa? Enfia-se bem sem nunca cair? Vê lá bem! Olha se ela cair poderás não a enfiar no furo certo. Percebeste?

- Sim, mestre! Está tudo bem! Tenho marcado sempre bem sem me esquecer. Não tenha cuidado! - respondeu o Xico com a vivacidade convincente.

O trabalho continuou com o mesmo fulgor. Gestos adequados. Dinâmicos. Suores abundantes. Barafunda própria. Elegância e precisão para um trabalho artístico.

Quando o sino tocou já algumas obragens tinham terminado. Ficaram os ajudantes tentando aperfeiçoar as suas possibilidades. Depois, espalharam-se a caminho de casa, satisfeitos ou não com as produções e os objectivos alcançados.

 

José Martins Saraiva
Desenho de Guilherme Correia

A primeira Féria

Em Maio de 1939, morreu o meu pai. Era oficial de cristal na Fábrica Nova (Companhia Industrial Portuguesa).

Fui muitas vezes levar-lhe o almoço: sopas de bacalhau, duas maçãs e um frasco achatado (chamado o frasco do vidreiro) de vinho tinto. Este almoço das onze horas era leve, pois o verdadeiro almoço seria pelas três horas da tarde, no regresso a casa, após um banho reparador.

Com o cesto de verga seguro nos pequenos dedos, passava junto ao gasómetro para entrar o portão do barracão do forno. Perto do gasómetro, erguia-se a alta chaminé puxando fumo negro e viscoso que o vento, soprando do lado do mar, amarrava ao chão, dificultando-lhe a dissipação.

Depois, subia a enorme prancha de acesso ao estrado onde se situava o forno rodeado das cadeiras de trabalho.

Ao lado da prancha, enquanto subia, iam ficando, em baixo, as arcas de recozimento. Nessa altura o recozimento do vidro fazia-se em latões empilhados, onde se amontoavam as peças sobre a cinza e ao calor fornecido por lenha a arder.

No estrado ou plataforma de trabalho, movimentavam-se os vidreiros na sua azáfama.

Os rapazes de levar-a-cima, transportavam a obra acabada enfiada nos paus, ou suspensa dos forcados, ou nas redes de arame das tábuas. Desciam a prancha para colocar as peças na cinza dos latões, nas arcas de tempero, onde o atiçador, com um comprido forcado de ferro, as colocava com a finalidade duma têmpera adequada, consoante as características da fabricação.

O aspecto do atiçador, com o enorme forcado nas mãos colocando a obra na cinza dos latões, lembrava-me as gravuras alusivas ao inferno. A lenha para alimentação das arcas, cortada nas devidas dimensões, e empilhada na parede do Sul, era transportada num carro de mão por um homem de barba crescida, idoso, camisa cor de chumbo e calças de ganga desbotada, fundilhada, calçado de alparcatas rotas que deixavam sair os dedos grandes dos pés, durante o percurso de trabalho.

Ao redor do forno, circulavam vidreiros de dezassete obragens.

Cadeiras de trabalho, cavaletes, mármores, forninhos de caldear, ajudavam à barafunda ante os olhos espantados de quem chegava.

As canas a desandar entre os grossos e calejados dedos, para equilibrar a massa vítrea, na outra extremidade; os ponteis e as cordelinas com as marisas enroladas e aptas à acção; as canas tiradas do caixão e sacudidas para nova colha; os taipais vedando a agressividade do calor expelido pelo forno; todo um formigar intenso e belo, preenchendo os olhos, fixando a memória.

Era ali, que o meu pai trabalhava. Banhado de suor. Camisa e gangas salitradas, em manchas enormes, brancas, inteiriçadas. Era ali, onde ele se derretia para conseguir o sustento dos seus.

Recordo-me de o ver dobrado sobre o trabalho. Recordo-me de o ver cortar o vidro, aplicar os ferros.

Recordo-me de o ver marisar cálices, abrir túlipas de iluminação, festona-las com tarjas azuis ou vermelhas, com uma espantosa destreza.

Era mediano de estatura. Levemente curvado de costas pela continuidade de se dobrar na cadeira sobre as peças que executava.

Uma manhã triste, no fim do mês de Abril, o meu pai regressou do trabalho mais cedo. Tremia. Tremia de tal forma que se lhe emperraram os maxilares. Meteu-se na cama. Mesmo sob uma grande quantidade de cobertores, não aquecia. Adoecera. Eu, com doze anos, fui chamar o médico.

A doença fora implacável. Uma pneumonia rápida, asfixiante. Morreu uma semana depois.

Eu frequentava a Escola Industrial, de dia. Após a morte de meu pai, passei para o curso nocturno.

Empreguei-me. A falta do ordenado de meu pai trouxe muitas dificuldades à minha mãe. Então, fui aprender a profissão de pintor de vidros na Fábrica Nova. A fábrica onde meu pai trabalhara como oficial de cristal.

No dia 1 de Junho de 1939, entrei pela primeira vez, o grande portão da entrada da fábrica para me dirigir à oficina de pintura a fogo e iniciar a minha aprendizagem.

A pintura a fogo, nesse tempo, era dirigida pelo pintor de vidros e aguarelista famosa, João Pereira Correia, já idoso e agarrado à bengala. Um óptimo profissional e um excelente homem, apesar do seu temperamento nervoso, devido à doença que o debilitava.

Desenho de Guilherme Correia
Desenho de Guilherme Correia Desenho de Guilherme Correia
( João Pereira Correia no seu posto de trabalho )

No seu enorme estirador antiquado, João Correia, desenhava e criava os seus esboços variados: costumes regionais e outros de real expressão artística.

Sobrelevado num estrado enorme, de madeira, onde apoiavam as pernas do estirador, João Correia mantinha o respeito na enorme sala, olhando por sobre os óculos descaídos sobre a ponta do nariz. Quando me aproximava e lhe pedia uma explicação, largava o pincel ou o lápis, erguia a cabeça, aliviava o nariz dos óculos, colocando-os sobre a cabeça, e ouvia-me com atenção.

Saturado pelas nossas frequentes solicitações, enervava-se. Agitava-se na velha cadeira de costas em arco e laterais curvos, aonde descansava os braços, murmurava monossílabos de rabugice e, bruscamente, com a energia que o caracterizava mesmo no fim da vida, quando tremelicava dos membros, explicava-nos o que desejávamos saber.

Ser pintor de vidro era uma coisa muito séria. Era essencial firmeza de mãos, destreza técnica e um gosto refinado, muito identificado com a poesia.

Pintavam-se globos e taças de iluminação. Aplicavam-se decorações duma extraordinária beleza. Jarras enormes com figuras e caravelas configurando os descobrimentos. Com a "D. Maria", decoravam-se uma enormidade de conjuntos e de peças separadas. Jarras, frascos de perfume e de bebidas. Esferas marteladas ou lisas, com espigas de trigo e enormes papoilas rubras. Uma variedade de peças decoradas que faziam o orgulho de qualquer fábrica e de qualquer artista.

As muflas eram construídas em tijolo refractário. Somente um indivíduo com muita experiência e saber, conseguia obter cozeduras perfeitas que oferecessem a pureza da cor das tintas.

Era exigível, a esse experimentado indivíduo, saber onde e como deveria dar calor às zonas carenciadas para que, ao abrir da mufla, a obra tivesse as tintas vitrificadas e com as cores legítimas, sem que o vidro tivesse sofrido qualquer dano ou empeno.

O Tio António era uma autêntico senhor nas muflas. Com um pedaço de cortiça embebida em aguarrás, ia, com mestria, fazendo a sua manhosa acertada distribuição de lenha pelos cantos da grelha. Enfiava a cortiça num arame que introduzia pelo buraco do visor. Então, a cortiça embebida em aguarrás incendiava-se ao contacto com o calor e ele podia verificar a zona onde as tintas não estivessem vitrificadas. Era com este processo e com o seu saber e experiência que ele dominava as dificuldades da cozedura.

Em Setembro desse ano de 1939, eclodiu a Segunda Grande Guerra. As tropas alemãs, depois de anexarem a Checoslováquia, invadiram a Polónia sob o pretexto duma abertura para Danzigue, (GDANSK) capital da Prússia Oriental, que nessa altura fazia parte do território alemão.

Durante a guerra, as embaixadas dos países beligerantes, despejavam pelo País montanhas de propaganda ilustrada, tentando dar a noção do seu poderio bélico e a razão por aquilo que se batiam.

Faziam-se partidários. Mas a inclinação para o lado dos aliados era esmagadora.

O Tio António das muflas, fora combatente em Angola durante a Primeira Grande Guerra e tentava demonstrar os seus conhecimentos de causa. Contava estórias das suas façanhas durante a sua estadia em África.

Iniciavam-se as discussões: acesas mas cordiais. Eu, seguia todas essas peripécias com interesse, dentro da minha concha de rapazinho.

Devido à guerra, as fábricas passaram a ter muitas encomendas. Vinham, geralmente, dos Estados Unidos da América, do Brasil e da África do Sul. E, começamos a fazer horas extraordinárias até à meia-noite.

Três anos após ter entrado, pela primeira vez, a porta da pintura a fogo, numa rápida ascensão, guindei-me a pintor credenciado e usufruía dum belo ordenado já que, no trabalho de tarefa, era eficiente e rápido.

Mas, nem sempre a vida me foi fácil. Até chegar a ser um pintor capaz, tive muita dificuldade de adaptação. Quando se iniciava a aprendizagem, o neófito não usufruía de qualquer vencimento até que o Chefe da Secção o desse apto para o serviço. Assim, até esse momento, passei algumas semanas sem ver um tostão.

Havia a contrariedade das muflas avariarem com frequência. Os refractários eram corroídos pela intensidade das chamas e era rara a semana em que não houvesse uma ou duas muflas para reparar. Isto, era quase uma tragédia.

A obra acabada esperava, amontoada, nas bancadas junto à porta para o barracão das muflas, onde era coberta com folhas de papel fino, para não apanhar pó.

Como as muflas aptas não davam para as necessidades, tinha primazia, nas cozeduras, a obra pintada pelos casados e, só depois, a dos restantes pintores, por escala de categorias.

E foi por isso que a minha primeira féria foi atrasada por um tempo que me pareceu uma eternidade.

Eu ardia na impaciência de receber. Era uma féria reduzida mas era a minha primeira féria e, quanto mais ela tardava mais eu desesperava.

Foram difíceis momentos para um rapazinho ansioso, quase revoltado, ante as sucessivas dificuldades que protelavam o recebimento dessa minha primeira féria. Mas, por tamanha ansiedade de tão grande espera, quando a recebi, senti no coração um imenso prazer, uma enorme alegria. Essa minha primeira féria era dinheiro ganho por mim, isso dava-lhe a importância duma coisa merecida.

Quando peguei nesse primeiro e pequeno envelope, deu-me vontade de rir e de chorar. Deu-me vontade de sair, disparado, e correr para casa. Não o fiz para não servir de bobo perante os meus colegas, mas tive de fazer um esforço extraordinário para o evitar.

Foi um momento inolvidável. Mas que sufoco enorme que tive de aguentar, para não deixar transparecer a minha emoção... e Deus sabe, com que frenesi aguardei o toque do sino!

Mal saí o portão, atravessei a estrada e desatei a correr. Comunicava ao ar e ao sol uma felicidade tão grande que, num ápice, me achei à porta de casa a gritar:

- Mãe, já recebi!

E entreguei-lhe, orgulhoso, o envelope que, pelo caminho, apertara nas mãos, com carinho, por ser a coisa mais preciosa que, até então, recebera.

Vinte escudos e cinquenta centavos.

Nada me deu mais alegria e me fez parecer maior.

José Martins Saraiva

Desenho de Guilherme CorreiaDesenho de Guilherme Correia

( No dia 1 de Junho de 1939, entrei pela primeira vez o grande portão )

S. Pedro de Moel

Pinheiros, pinheiros e pinheiros. De repente, a entrada em S. Pedro de Moel.

Os olhos sofrem a mudança, espantados da luz, sôfregos da beleza, de visão adestrada à nascente de imagens, coloridas, alegres, onde a graciosidade das casas, descendo, alindam as ruas até ao mar.

Uma entrada inesquecível.

Logo à direita, na primeira rotunda, as estátuas da Rainha Santa e do Rei Lavrador. Há sempre, ramos de flores na base do monumento. Flores agradecidas pelo Monumento Verde do Pinhal do Rei, à beira do qual, cresceu a Marinha Grande, a Nascente, S. Pedro de Moel, a Poente e Vieira a Norte.

S. Pedro de Moel é, no seu todo, uma linda concha engastada no Pinhal do Rei, fazendo o encanto de quem chega, e desce, enamorado, olhos cheios de luz até ao mar, onde o azulverde e o rendilhado branco do recorte das ondas, vêm prestar homenagem à sua querida jóia, sob a musicalidade do murmurante baloiçar dos longos e volumosos braços, verde-negro, entre o Liz, o Mar e o Facho, no aconchego da flexibilidade romântica do Moel.

Não há nada melhor, para descobrir S. Pedro de Moel, do que descer, a pé, desde o cimo da estrada até à Praça, após a manhã abrir com a esperança do sol nas pontas das árvores, nos brilhos do molhado das paredes e dos telhados, nas sardinheiras floridas, encantadas, no silêncio húmido do sal.

Há sal e iodo suspensos do ar da manhã, deste princípio de Março, aonde um barco de luz navega no mundo líquido da claridade sobre o burgo ridente.

As casas, simples, abrindo, como flores, numa variedade de cores e em graça, são a realidade superior comandando a beleza que nos enche a alma.

Descendo, lentamente, até ao mar, apreende-se a magia da água: o marulhar vivo, ansioso por nos levar sem remos. Basta o descobrir da manhã; o descobrir do cintilar da ponta dos dedos do sol acendendo o brilho sobre as coisas, passando o para lá do quebrar das ondas.

A esquerda, enquanto se desce, o que resta do Olho. O que resta do antigo porto de Moer. Já foi horta com verduras bastantes para o abastecimento das suas gentes. Já foi olho de água pura, água límpida, leve, movendo a enorme azenha junto à praia, mesmo encostada ao antigo e pequeno casino.

Enquanto se caminha, compassadamente, para fixar na retina o aspecto da hora, onde as janelas, após o apagar das luzes nocturnas, se aprestam para abrir os braços líquidos dos vidros ao despontar dos sorrisos das coisas, S. Pedro de Moel, fresco e resplandecente, desliza, suavemente, ao encontro do mar.

Na Praça, o busto do poeta Afonso Lopes Vieira. Um busto familiar. Um busto que nos deveria falar, dia a dia, um novo poema, um novo "Bartolomeu Marinheiro", mas nada diz. E, quando as pessoas passam, ele está triste, despido de sorrisos, despido de ilusões.

Um poeta sofre e ama e, pelo amor que dá, nada mais pede do que um pouquinho de lembrança... Mas, quem passa, passa e não olha. Passa desprendido e incapaz dum gesto de graciosidade ou de recordação. Pois nem os olhos lhe volve.

Passem mas reparem no pequeno busto. Vejam como ele chora saudades das "Ilhas de Bruma", dos sons dos búzios que nunca mais lhe trouxeram "Novas da minha Pátria, além... além". Vejam como ele sofre por não poder, da varanda de sua casa "Onde a terra se acaba e o mar começa / há uma casa onde amei, sonhei, sofri / encheu-se-me de brancas a cabeça / e debruçado para o mar envelheci" tornar possível embarcar no sonho, pelo mar sem fim, à descoberta dum "País Lilás"...

Vejam nos seus olhos verdes e baços do tempo no bronze, o sofrer das saudades de não visitar os seus "Pinheiros marinheiros, gajeiros da tempestade" feitos serpentes, retorcidos. Pinheiros sofredores das tempestades de sal que, na beleza da dor, abnegadamente ajudam os outros, seus irmãos, sustendo os ventos marinhos, a crescer, grandiosos, na constituição da "Catedral verde e sussurrante, aonde / a luz se ameiga e se esconde / e aonde ecoando a cantar / se alonga e prolonga a longa voz do mar".

Das grades, de madeira pintada, apoiada nos marcos de pedra, debruçados, enchem-se os olhos e a alma de mar.

A praia, cortada ao Sul pelo riacho que lacrimeja forte, do Olho, está uma praia da hora do inverno, aonde as águas, mais atrevidas, avançam e recuam deixando um pouco de si, na areia, molhando-a.

De costas encostadas às grades, voltadas ao mar, os olhos abrem, desenhando o rectângulo onde as árvores antigas têm um ar de fadiga e de fraqueza, e os bancos de pedra e madeira esperam quem venha ocupá-los. Em volta, separando o rectângulo das casas, uma estrada estreita que não tem forças para empurrar as casas, para ganhar espaço. As varandas de madeira pintada, levantam a lembrança dum estilo próprio que na Praça se tem perpetuado. Casa desmoronada: cada renovada, mas no mesmo estilo de varandas de madeira pintada. Uma beleza que sabe bem, aqui, em baixo, constatar, porque são um gosto de sempre, da história de S. Pedro de Moel.

No chão, cinzento chumbo, os paralelos de granito, rijos, indesgastáveis. Paralelos que não são belos nem são feios. São os paralelos a que nos habituamos.

Ao fim da Praça, inicia-se, para o Sul, a rampa para a piscina de água salgada, mesmo onde se situa a esplanada, em leves degraus, rodeada de grades, sobre o café. Foi aqui o antigo casino. Foi aqui, quando a barreira cheia de bálsamo verde-gordo, subindo, vedava o acesso ao Sul, que existiu a grande azenha movida pelo regato do Olho, que livremente corria para o mar.

Aberto o acesso da Praça para o Sul, construíram-se novas moradias limitando as ruas. Mas sem o estilo amoroso e antigo das varandas de madeira pintada. Esta fuga arquitectónica, às varandas de madeira pintada, em nada beneficiou S. Pedro de Moel. Pelo contrário, com as construções de concepção deplorável, iniciou-se o desvirtuamento da beleza, tão simples e agradável, que o primitivo estilo nos oferecia.

A casa do poeta Afonso Lopes Vieira, continua bem conservada, mesmo após a sua doação, pelo poeta, para uma colónia de férias dos filhos dos operários marinhenses.

Para o Norte da casa do poeta, segue uma esplanada: a primeira esplanada que S. Pedro de Moel teve, agora com a parte acrescentada posteriormente, erguendo-se desde a praia onde sustem o avanço do mar que, encarniçadamente, se debate de encontro ao sopé da muralha.

Demarcando o arruamento que sobe para o Norte, lateral ao mar, segue-se um passeio resguardado por um baixo murete, até à embocadura da avenida que nasce na segunda rotunda. Esse arruamento, como quase toda a parte Norte de S. Pedro de Moel, foi guarnecido de construções sem o estilo desejado das varandas de madeira pintada e pena foi que, pelo menos, não se tivesse exigido a obrigatoriedade de vedações de jardim em madeira pintada. Com isso ter-se-ía evitado um desvirtuamento do estilo original, e próprio, de S. Pedro de Moel.

No fim da tarde, ao sol-pôr, é fascinante percorrer pela beira-mar, pisando, com os pés descalços, o rebentar das ondas, desde S. Pedro até Água de Madeiros. Excepção ao estrangulamento logo ao sair da praia, junto ao fim da piscina, logo o espaço abre alargando numa imensidão de areia fina e loira.

Em tempo límpido, consegue-se divisar as Berlengas.

Caminhamos. Sente-se o contacto das águas penetrando fundo, refrescando a alma, e, na volta do percurso, poderemos deliciar-nos com o aspecto aconchegado e lindo de S. Pedro ao longe, cujo enquadramento aumenta, consoante o lento somar dos passos.

Caminhar, pela beira-mar, na hora privilegiada do sol-pôr, delicia-nos, enternece-nos, faz-nos desejar e bendizer a vida. Porque, é uma visão de sonho. Um limpar a alma. Um esquecer de agruras. Um momento perfeito de aproximação com Deus. Este sentimento, de se ser meio do mar e meio da terra, faz-nos entender a fronteira entre a terra e o céu, no afago delicioso dos avermelhados braços do sol que sustêm a visão do céu ao aconchegar aveludado, do corpo etéreo da noite silenciosa que, paulatinamente, se entrega e fecunda a beleza da terra com o mar.

É intransmissível, pela particularidade especial de cada indivíduo, o sentimento do belo na hora do sol-pôr em S. Pedro de Moel. É um deslumbramento que vale a pena viver.

Depois, a beleza calma e enternecedora da noite, como o acabar de... Era uma vez!... estende-se num manto com pontinhos de luz, tremeluzindo, na abóbada sobre o sal e a humidade crescente, onde ténue serpenteia o brilho das águas.

Desenho de Guilherme Correia

Desenho de Guilherme Correia

O Último Dia

Homenagem a Joaquim Barosa oficial de cristalaria.

Quando lhe trouxeram o corpo fechado do que havia de ser um jarro, pegou nos ferros, estrangulou o vidro rente à cacheira, esperou o pontel trazido pelo ajudante, pegou nele com a ponta dos ferros e chapou-o no fundo do bojo em transformação. Sacudiu a cana onde o bojo fora moldado e este ficou soldado ao pontel.

Um ajudante levou o bojo, no pontel, a caldear.

Na velha cadeira, negra do fumo e queimada do vidro, o oficial repetia, com outro futuro jarro, a mesma operação do anterior.

Quando o primeiro bojo voltou com o cimo macio da caldeação, o oficial introduziu-lhe as pontas dos ferros e abriu uma larga garganta. Largou os ferros e pegou nas tesouras. E cortou, habilmente, uma boca elegante, tal como o melhor alfaiate recortaria o pano para um casaco. Mas temos de salientar que, no caso do vidro, trata-se de cortar uma massa pastosa com uma elevada temperatura.

Bateu as tesouras no lateral da cadeira e o ajudante levou o jarro a caldear, enquanto outro ajudante lhe devolvia o segundo jarro para executar a mesma operação.

Quando o primeiro jarro chegou à cadeira, após a segunda caldeação, o serviço estava tão bem montado que, nesse preciso momento, o quinto ajudante chegava com a marisa, nas voltas necessárias a ser utilizada. O oficial colocou o jarro em posição, fazendo rolar a cana entre a palma da mão e a cadeira. Levantou-se. Prendeu o pontel com a tesoura e chapou a marisa no sítio exacto. Cortou a porção de vidro suficiente. Rodou o jarro com a marisa para baixo, para esta esticar. Depois, rapidamente, virou a marisa para cima e, agora com o pau queimado, chapou a outra extremidade da marisa junto à boca do jarro. E surgiu a asa.

Agarrou no ferro das petas, introduziu-as pela boca do jarro. Deu-lhe os últimos toques fazendo girar a cana entre as mãos e a cadeira.

Uns retoques mais, com os ferros de bicos e, ao som duma pancada com as costas dos ferros no lateral da cadeira, o rapaz enfiou o pau pelo jarro. A um safanão dado pelo oficial, o jarro desligou-se do pontel e foi levado ao alto no pau, para a arca de recozimento.

Levou todo o dia a fazer jarros.

As mãos gretadas e doridas do esforço de cortar as bocas dos jarros, os pés magoados, cansados, entumecidos pela continuação de suportar aquele corpo pesadão, as pernas doendo, os movimentos doridos e pesados. Eis o que ficou daquela batalha de trabalhar o vidro e de enfrentar o calor sob um barulho característico, enervante, que derretia o corpo e se infiltrava nos sentidos.

Tentou endireitar as costas. Doíam. Tirou de baixo da cadeira de trabalho, os sapatos e as meias. Trocou as alparcatas por aqueles. Vestiu o casaco. Pegou no cesto onde trouxera o almoço. Foi à escolha dar a olhadela da praxe.

O trabalho correra bem. O vidro limpo. Os bicos dos jarros certos com as asas. As asas direitas. Nenhum jarro estalara. Tudo se tinha aproveitado. Um trabalho em cheio.

Desceu as escadas. Foi buscar a bicicleta. No jardim olhou para trás, para as escadas que acabara de descer e o trouxeram do edifício do forno até ali. Esteve uns momentos parado, olhando aquelas escadas. Depois, lentamente, continuou a atravessar o jardim. Tirou o lenço e levou-o à cara. Sem querer, pois fizera o maior esforço para não chorar, as lágrimas desciam-lhe dos olhos como duas nascentes.

Um pensamento terrível, pressionante como o medo, dominava-lhe o entendimento. Estava reformado.

Fizera sessenta e cinco anos havia três meses. Começara a trabalhar aos oito anos. Antigamente começava-se a trabalhar com idades tão verdes! Era uma criança! Mas houve tempos em que, alguns, começaram a trabalhar aos seis anos. Era um crime! Mas foi verdade. A necessidade a isso obrigava. E os pais, sem educação e sem possibilidades, mandavam os filhos, tão meninos! para a fábrica, assim que os pudessem aceitar.

Trabalhara durante cinquenta e sete anos. Nem um só dia faltara ao trabalho. Graças a Deus, tinha sido rijo.

Entrara aos oito anos ... Fora há tanto tempo! Tudo foi há muito tempo! Tinha sofrido muito naquela fábrica. Mas, depois de se passar... o sofrimento, também deixa saudades. É um paradoxo mas é assim. Anos depois, tudo é lembrado como uma saudade.

Tantos e tantos anos de trabalho. Angústias. Sofrimento. Alegrias. Uma vida inteira de metamorfoses: de criança a velho.

Mas amava aquela arte. Uma arte que se sofre e quanto mais se sofre mais se ama. Desde sempre tentara cumprir. Esforçara-se por aprender, por se aperfeiçoar. Nele a perfeição esteve primeiro. Primeiro a arte. Só assim se pode fazer justiça, com honestidade, ao íntimo sentido de perfeição. Neste último dia de trabalho, cansou-se mas sentia-se de bem com a consciência. Esmerara-se por fazer o melhor trabalho da sua vida. Um trabalho valioso. Um trabalho perfeito. Nem um jarro estalara. Nem um só jarro tinha sido posto de parte pela escolha. A perfeição tinha sido sempre a sua glória. Nunca tinha tirado benefícios disso mas a arte era a arte. Um trabalhador digno nem outra coisa deveria de querer, se não a perfeição do que produzia.

Sempre vivera para a arte. Fora por isso que se fizera um excelente oficial.

A meio do trabalho recebera um pedido do Engenheiro, para ir falar com ele ao gabinete da Direcção. Iria. Mas já sabia o que iria ouvir, mas o povo costuma dizer: depois de cavalo morto, cevado ao rabo!

- Dá-me licença, senhor Engenheiro?

- Entre!

- Boa tarde, senhor Engenheiro! Como está?

- Estou bem, obrigado! E você, está bem? - olhou-o, profundamente.

- O senhor Engenheiro, chamou-me?

- Sim. Queria despedir-me de si. Queria agradecer-lhe o empenho e a perfeição que sempre nos ofereceu no seu trabalho. E dizer-lhe que foi uma honra e um prazer ter contado com a sua ajuda e o seu saber!

- Obrigado, senhor Engenheiro! Mas não fiz mais do que o meu dever! Eu sempre trabalhei com o gosto de fazer o melhor. Creia que tenho pena... Muita pena de me reformar.. Mas a vida é assim! O que se há-de fazer?!

Quando entrou em casa, ia triste. Agarrou-se à mulher a chorar.

- Mulher, acabou ! Estou reformado! Agora, não presto mais para nada...

- Não me digas isso, homem! Não me faças chorar também!

O almoço estava na mesa. Sentou-se. Mas não tocou sequer, no talher.

Esteve mudo. Minutos após, levantou-se.

Pegou na bicicleta e foi até à beira-mar. Ali, podia chorar à vontade, sem vergonha, sem incomodar ninguém.

Depois, com o tempo, tudo foi entrando em rotina: trabalhava no quintal; dava voltas pelo pinhal e pela praia, ia à lenha e à caruma: visitava os colegas na fábrica, para matar saudades.

Juntava-se aos colegas na taberna do costume, onde mandavam preparar a merenda. Bebiam uns copos. Jogavam as cartas. Matava saudades. Mas tudo em paz. Tudo em glória do hábito, em memória do passado, duma vida de sacrifícios e de problemas.

Após o 25 de Abril, as coisas alteraram-se vertiginosamente. Houve imprescindíveis molharias sociais. Houve uma alteração essencial dos direitos do homem. Mas, para uma perfeição que se pretendia, houve, infelizmente, muito erro e muito exagero. E foi pena. No entanto, temos de considerar que, sempre que tem havido um revolução, a história ensina-nos que, nos primeiros tempos, as coisas ficam incontroláveis. Com o tempo, muita coisa se altera: umas que se perdem, outras que se ganham. E depois das águas recolherem ao mar.. ficam as coisas boas mas também ficam as coisas más.

A indústria era frágil. Não estava preparada para transformações drásticas e rápidas. E entrou-se num estado profundamente triste. As fábricas começaram a vacilar...

Os anos pesavam. Mas pesavam mais as mágoas por tudo o que se estava a passar. A fábrica. A fábrica, a sua fábrica... a fábrica onde trabalhara o seu pai e onde ele começou a sua vida, estava a vacilar. Tudo estava a vacilar. Era como se a reforma tivesse transformado toda a gente e todas as coisas. Começara a sentir-se mal. Adoecera. Também a sua mulher adoeceu e de tal gravidade que, poucos meses bastaram para a levar.

Ficara ele. Só. Doente. Triste. Mas para quê?

Não teria sido melhor ter partido também? Algumas vezes, conseguia montar a bicicleta e ia matar saudades até à fábrica. Mas ele não gostava de ver a fábrica assim: toda a gente barafustava... Dava-lhe a impressão de que ninguém tinha a sensatez de saber o que estava a suceder. E a cada dia que passava, o mal estar e a incompreensão faziam a ruína do que fora uma das melhores unidades fabris.

Um dia, de visita à fábrica, o Engenheiro dissera-lhe:

- É pena, mas a fábrica vai fechar dentro dum mês.

O oficial reformado, ficara desesperado: - Então a "sua" fábrica ia fechar?! Mas como? Como era possível? - E tudo à sua volta girou. A caminho de casa, teve de se encostar, por vezes, às paredes, para se segurar. Não se sentia nada bem.

Após a morte da mulher, a filha é que lhe tratava das coisas. Mais duma vez instara com ele para que fosse viver com ela mas, ele não queria, estava demasiado agarrado à casa que ajudara a construir, há mais de cinquenta anos.

- Pai, era melhor ir viver comigo! Escusava de eu vir aqui todos os dias.

- Não, filha, não vou! Desculpa-me, mas não vou! Sabes, tenho aqui as minhas coisinhas... a minha casa... o quintal... Tu compreendes, filha! Desculpa o trabalho que te dou mas, para mim é melhor.. Sinto-me aqui mais à vontade!

Um dia, a filha, ao entrar em casa para lhe tratar da comida, estranhou não o encontrar sentado à porta de casa ou no quintal, como era seu hábito nos dias em que não chovia.

Subiu ao quarto e encontrou-o morto.

O velho oficial não resistiu ao fechar da "sua" fábrica. Porque ele era um oficial que amava a sua arte, a "sua" fábrica e tudo o que acabara por ajudar a construir, incluindo a beleza do que fabricara.

Desenho de Guilherme Correia

Desenho de Guilherme Correia
( Levou todo o dia a fazer jarros )

 

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