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Acácio Calazans Duarte

by on 3 de Novembro de 2013
 

Acácio Calazans DuarteAcácio Calazans Duarte nasceu em 15 de Fevereiro de 1889, em Aljezur.

Foram seus pais Luísa da Silva Duarte e José Calazans Duarte, naturais, respectivamente, de Silves e Aljezur. José Calazans Duarte era funcionário público.

Após estudos primários em Aljezur e estudos secundários em Faro e Lisboa, frequenta o ensino superior na Suíça (Lausanne e Genève). já instalado naquele país, a sua actividade de propaganda em prol da República – designadamente a criação do periódico bilingue O Patriota – granjeia-lhe o apreço de Guerra Junqueiro, que lhe obtém uma bolsa da República para prosseguimento dos estudos. licencia-se em Engenharia e. doutora-se em Ciências Físico-Químicas. Obtidos estes graus, trabalha ainda na Suíça durante algum tempo.

Regressa a Portugal em 1919. Ensina na Escola Afonso Domingues, após o que exerce vários cargos administrativos de nomeação governamental. Em 1920, é enviado para a Estação Agronómica do Umbelezi, em Moçambique, onde permanecerá apenas cerca de um ano, por se ter envolvido em polémica com Brito Camacho, então administrador daquela colónia. Em 1924 é incumbido pelo governo de avaliar o estado da então Fábrica Nacional de Vidros, nessa altura enfrentando problemas gravíssimos, na sequência da crise económica geral e de uma administração estatal com participação operária menos bem conduzida e combatida por vários sectores.

A deslocação que Acácio Calazans Duarte efectua então à Marinha Grande é decisiva: radica- se na localidade e permanece ligado à Fábrica – da qual é oficialmente nomeado administrador em 1928 – até 1966, além do próprio limite oficial de idade. O seu trabalho como gestor, dificílimo nos primeiros tempos, foi decisivo para a recuperação do estabelecimento, praticamente arruinado à data da sua chegada.

Algumas vezes Calazans Duarte se manifestou em órgãos de imprensa regionais – do Sul do país – e nacionais a respeito de questões políticas várias. Chegou mesmo a iniciar-se na Maçonaria, embora tenha acabado por não cultivar especialmente essa ligação. Ora, esta mesma personalidade interveniente e a enorme importância económica e social da Fábrica a que presidia fizeram de Calazans Duarte uma figura de relevo no meio local.

Dados o teor ‘ iluminista ‘ da sua formação republicana e a sua permanência na Suíça, Calazans Duarte atribuía à valorização (formação e remuneração) dos recursos humanos a maior importância económica e social. Mostra-o bem o facto de ter sido, até falecer, membro do Centro Escolar Republicano Almirante Reis. Em consonância com estas suas opções, estabeleceu a obrigatoriedade de escolarização dos muitos menores que trabalhavam na Fábrica, foi o primeiro director de uma Escola Industrial marinhense realmente efectiva (onde ensinou também é que durante muitos anos funcionou em instalações do estabelecimento) e apadrinhou a Criação de uma escola liceal privada. Incentivou também a fundação do Clube dos Industriais Vidreiros, assim como foi sócio do Sport Operário Marinhense, do Atlético Clube Marinhense, da Sociedade de Beneficência e Recreio 1º de Dezembro (Ordem) e de outras associações, que apoiou, embora nunca tivesse pertencido aos respectivos Corpos Directivos. Participou muitas vezes, apresentando palestras, em sessões de aniversário de associações.

O interesse de Calazans Duarte pelo passado marinhense decorre logicamente da sua actividade profissional e cívica: interessa-lhe sobretudo o passado da Fábrica de Vidros, em momentos decisivos de cuja história sabe ter intervindo. É acerca dos tempos iniciais da Fábrica, sob os Stephens, que sobretudo escreve, insistindo nas vertentes social e pedagógica que atribui à gestão daqueles proprietários. É, de resto, interessante notar que (como se pode ver pela imprensa marinhense da época) a evocação dos Stephens tivera anteriormente papel de relevo nas lutas pela obtenção da gestão parcialmente operária da Fábrica; ainda em 1922 a Comissão Administrativa inaugurara com pompa um retrato de Guilherme Stephens. Assim, é possível que as primeiras informações obtidas pelo autor acerca da acção do inglês tenham provindo exactamente dos trabalhadores da Fábrica, sobretudo os membros da Comissão Administrativa, com quem mais directamente trabalhou nos primeiros tempos da sua permanência na Marinha Grande; ou seja, é possível que os trabalhos de Calazans Duarte sejam, pelo menos em parte, fixação de tradição oral. Outra fonte de inspiração e talvez de informações terá sido provavelmente o contacto com Alfredo Gândara, que pelo início dos anos 1920 começa também a interessar-se pelos temas vidreiros e com quem desenvolverá relações de grande amizade e colaboração.

Em consequência de todo este processo, referem-se à indústria vidreira marinhense os seus cinco textos mais desenvolvidos; publicados em opúsculo ou separata. O primeiro – A crise vidreira. Resposta ao senhor A. Arala Pinto, de 1932 – Enquadrasse numa polémica que manteve com o responsável do Pinhal a respeito das melhores formas de combate aos problemas então enfrentados pela indústria do vidro. Os restantes (Os Stephens na indústria vidreira nacional, A indústria vidreira na Marinha Grande, e O monumento a Guilherme Stephens) publicam- se entre 1937 e 1943, época em que a Fábrica ia já recuperando – verificando-se mesmo, em 1941, sob impulso e orientação de Calazans Duarte, o restauro do Teatro que lhe é anexo e a inauguração de um busto de, Guilherme Stephens (o último dos opúsculos citados corresponde exactamente ao discurso proferido por Calazans Duarte nessa ocasião). Em 1944 Duarte participa no 1 Congresso das Actividades do Distrito de Leiria, apresentando a comunicação “A indústria vidreira – aspectos gerais”, que não chegará a ter edição em separata.

Anteriormente, logo no início dos anos 1930, dois textos seus na imprensa nacional (A República e o suplemento natalício do Diário de Notícias) apresentam já as ideias principais do seu trabalho sobre o passado marinhense, procurando simultaneamente alertar para a importância do sector vidreiro. Outros órgãos de imprensa, marinhense e nacional – nomeadamente a revista Portugal daquém e d’Além-Mar – reproduzirão mais tarde textos seus proferidos oralmente, em conferências e cerimônias várias. Merece talvez destaque uma grande entrevista, em 1958, ao Diário da Manhã (transcrita, depois n’A Voz da Marinha Grande) na qual, a propósito de questões então na ordem do dia quanto à indústria vidreira e respectivos trabalhadores (mecanização, associativismo empresarial, carreiras, salários) demoradamente evoca o passado marinhense e vidreiro, sobretudo os tempos dos Stephens. A última das suas publicações é um pequeno texto sobre história da indústria marinhense de moldes, publicado já em 1969 no Jornal da Marinha Grande.

Acácio Calazans Duarte casou em 1920 com Alice Vaz Cintra. Tiveram um único filho, José Manuel Vaz Cintra de Calazans Duarte. Faleceu na Marinha Grande, em 31 de Maio de 1970. O seu trabalho foi alvo de reconhecimento público ainda antes dessa data. Em 2 de Agosto de 1959 é homenageado por antigos alunos em sessão solene no Teatro Stephens. Pelos anos 1960 tem já o seu nome um dos prémios anualmente concedidos pela Escola Industrial aos alunos mais classificados. Em 27 de Abril de 1965 a Vereação municipal marinhense delibera atribuir-lhe o título de cidadão honorário do concelho e dar o seu nome à praceta junto à Escola Industrial.

A partir de 15 de Outubro de 1991 é patrono oficial da mesma escola. Finalmente, em 1992, aguando do fecho, determinado pelo governo, da Fábrica que dirigira – fecho cuja data coincidiu com o aniversário do seu falecimento – foi alvo de homenagem póstuma, numa iniciativa promovida pela Comissão de Trabalhadores da mesma Fábrica, em colaboração com a Câmara Municipal e o Sindicato Vidreiro. Na ocasião, foi colocada no seu jazigo uma lápide feita do último cristal a ser produzido antes do fecho da Fábrica.

Bibliografia do Autor:

1920, “O Problema português”, Correio do Sul, 26.09.1920.

1922, “Uma violência”, A Colónia. jornal republicano defensor dos interesses de Moçambique, 14.09.1922. 1931, “Um democrata”, A Voz da justiça, 02.05.1931.

1931,’Uma grande indústria nacional que precisa de ser salva’, A República, 11.05.1931. 1932, “Uma grande democracia”, A República, 06.01.1932.

1932, Sem título (conferência sobre instrução, proferida no Sindicato Vidreiro), A Voz da justiça, 28.05.1932. 1932, “Nacional Fábrica de Vidros da Marinha Grande’, O Notícias Ilustrado, 11 série, n.’ 238, Natal 1932. 1932, A crise vidreira. Resposta ao senhor A. Arala Pinto, s. 1. [Figueira Foz], e . autor.

1937, Os Stephens na indústria vidreira nacional (palestra proferida no Teatro de Leiria, na “XV Hora de Arte”, promovida pela Associação Escolar do Liceu Rodrigues Lobo e retransmitida pela Emissora Nacional), s. I., ed. autor. Transcrito n’ A Voz da Marinha Grande, 28.05.1959.

1941, Sem título (discurso na inauguração do Teatro Stephens restaurado), manuscr..

1941, Sem título (discurso na inauguração do medalhão de homenagem a Joaquim de Carvalho no teatro Stephens restaurado), manuscr..

1942, A indústria vidreira na Marinha Grande. Conferência na Casa do Distrito de Leiria, Marinha Grande, Nacional Fábrica de Vidros da Marinha Grande. Marinha Grande, Nacional Fábrica de Vidros da Marinha Grande.

1943,’Palavras justas! Discurso proferido na assinatura do acordo colectivo de trabalho’, Portugal daquém e d’Além-Mar, Março 1943. Também separata, “dedicada e oferecida por esta publicação a todos quantos labutam na nobre indústria vidreira’, 1943. Também transcrito n’ A Voz da Marinha Grande, 01.04.1943.

1943, “O monumento a Guilherme Stephens’, Portugal daquém e d’Além-Mar, Dezembro, 1943. Também opúsculo, Lisboa, Bertrand.

1944, “A indústria vidreira – aspectos gerais”, Livro do 1 Congresso das actividades do distrito de Leiria.

1947, Sem título (discurso na apresentação da Tuna Académica de Coimbra), Portugal daquém e d’Além-Mar, Junho 1947.

1944, Sem título (conferência sobre Pasteur no Teatro Stephens), A Voz da Marinha Grande, 24.06.1944, 08.07.1944.

1947,”Afonso Lopes Vieira e o povo “,AAVV, 1947, Afonso Lopes Vieira, 1878 – 1946 In memoriam, Lisboa, Sã da Costa: 255-56.

1947, Sem título (discurso na inauguração do Colégio Afonso Lopes Vieira), Portugal daquém e d’Além-Mar, Dezembro1947.

1948, Sem título (apresentação de um conferencista: Alfredo Gândara), Portugal daquém e d’Além-Mar, Junho 1948.

1954, sem título (discurso em homenagem ao presidente da Câmara Municipal), A Voz da Marinha Grande, 11.11.1954.

1954, sem título (discurso na apresentação do Grupo de Teatro de Tavarede), A Voz da Marinha Grande (sob o titulo ‘Comemoração Garrettiana’), 18. 11. 1954.

1957,”Com vista ao Congresso das Indústrias – para fazer reviver a arte do vidro na sua plenitude [ … ]’ (entrevista a Jorge Simões, publicada no Diário da Manhã).Transcrito n’ A Voz da Marinha Grande, 01.08.1957, 22.08.1957, 05.09.1957, 12.09.1957, 19.09.1957.

1958, Sem título (discurso na inauguração da escultura Orfeu),A Voz da Marinha Grande, 01.05.1958,08.05.1958. 1959, Sem título (discurso em homenagem que lhe foi prestada por antigos alunos), manuscr..

1961, Sem título (discurso na inauguração do busto de Afonso Lopes Vieira), A Voz da Marinha Grande, 24.08.1961.

1966, Sem título (discurso em sessão solene na empresa Manuel Pereira Roldão), Jornal da Marinha Grande, 30.07.1966.

1968, “Comentário”, Jornal da Marinha Grande, 17.02.1968.

1968,’Evocação’ (de Carlota Tinoco e Dr. Agostinho Tinoco, palestra proferida no teatro de Leiria, na ‘XXXV Hora de Arte’), manuscr..

1969, “A indústria de moldes na Marinha Grande’, Jornal da Marinha Grande, 01.08.1969.

1969, Sem título (discurso no almoço comemorativo dos 200 anos da Fábrica Stephens), Jornal da Marinha Grande, 24.10.1969. Também n’ A Voz da Marinha Grande, 15.11.1969.

in: VIDAS PASSADAS OBRAS PRESENTES
(pinhal do rei – documentos concelhios)
Exposição Documental e Bibliográfica
Câmara Municipal da Marinha Grande
(projecto Núcleo de Arquivo e Documentação)

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