MEMÓRIA
SOBRE
O PINHAL NACIONAL DE LEIRIA
SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.
Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.
Anno de 1843.
Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.
Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.
Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:
1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.
2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.
É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.
Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.
XIII.
Calculo dos preços por que sahe á Administração Geral das Mattas cada barril de productos rezinosos, praticando os processos que ficam indicados.
1.°
Barril de alcatrão, pelos fornos ragusanos
| 250 @ d’acha rezinosa, que leva cada forno, a 25 r.s a @ | 6$250 |
| Por traçar esta acha a 2 r.s a @ | 500 |
| Matto para a camiza do forno | 300 |
| Pelo jornal de cinco homens para formar a pilha, cobril-a, e cortal-a, a 300 r.s cada um | 1$500 |
| Pelo desenforne | 300 |
| Envesilhamento do alcatrão | 70 |
| 8$920 | |
| Abatendo 12 fangas que produz de carvão, que se vende a 140 r.s cada uma | 1$680 |
| Custo de 28 @ d’alcatrão | 7$240 |
| Custo de 8 @ d’alcatrão que deve levar cada barril | 2$068 |
| Custo do barril novo na fabrica, e que póde servir para mais vezes | 600 |
| Importa 1 barril com alcatrão |
|
2.º
O mesmo empregando os fornos cylíndricos.
| 600 @ de acha que levam os 10 cylindros a 25 r.s cada @ | 15$000 | |
| Por traçar esta a 2 r.s por @ | 1$200 | |
| Pelo jornal de 5 rapazes em 3 dias, sendo 2 dias para carregar, e 1 para desenfornar, ou tirar o carvão de dentro dos cylindros, a 120 r.s cada um por dia | 1$800 | |
| Por 15 carradas de lenha, ou combustivel necessario para a distillação dos 10 cylindros a 200 r.s cada uma | 3$000 | |
| Por 4 dias a um trabalhador que chega o fogo a 200 r.s por dia | 800 | |
| Por 3 noites a 1 dito dito | 480 | |
| Por 1 dia de trabalho a envasilhar | 200 | |
| 22$480 | ||
| Abatendo 40 fangas de carvão que fica de cada distillaçao, e que se vende a 80 r.s cada uma por ser inferior á dos fornos ragusanos | 3$200 | |
| Custo de 104 @ d’alcatrão, ou 13 barris, que produz cada distillação | 19$280 | |
| Dito de 8 @ dito | 1$483 | |
| Dito do barril novo | 600 | |
| Importa cada barril d’alcatrão |
|
|
3.º
O Barril de pez cozido ou pixe.
| 36 @ de acha, que leva cada forno, a 25 r.s por @ | 900 | |
| Por traçar esta acha a 5 r.s por @, em consequencia de ser quasi toda de noz | 180 | |
| Por enfornar e desenfornar | 100 | |
| 1$180 | ||
| Abatendo 1 fanga de carvão que dá cada forno, a 140 r.s | 140 | |
| Custo de 4 ½ @ de breu | 1$040 | |
| Por 56 @ de breu que leva a caldeira | 13$000 | |
| 1 carrada de lenha para a distillação | 200 | |
| Jornal de 1 rapaz por 2 dias a 120 r.s cada um | 240 | |
| Custo de 40 @ de pixe | 13$440 | |
| Dito de 8 @ | 2$688 | |
| Envasilhamento | 20 | |
| 2$780 | ||
| Valor do barril velho, que pôde ter servido d’alcatrão | 200 | |
| Custo de 1 barril de pixe |
|
|
N. B. Sahem mais caros estes barrís de pixe, porque se lhes não desconta a agoa raz que se devia purificar.
____________
Importe das conducções.
A conducção por terra, dos barris d’alcatrão e pez, até aos portos d’embarque sahe, para S. Martinho a 45 r.s por @, ou (devendo ter cada barril 10 1/2 @ por causa de 2 1/2 @ de tara) por barril a 475 r.s
Para a Vieira fica a 20 r.s por @, ou a 210 r.s cada barril.
____________
Indicação dos Mappas que acompanham a Memoria.
Posto que da simples inspecçção dos mesmos mappas se deva facilmente concluir o que pertendem mostrar, julgamos todavia dever por ultimo fazer sobre os mesmos esta indicação, a qual, juntamente com eles, servirá de conclusão a esta Memoria.
Os de n.° 1 e 2 mostram o valor das differentes peças de madeira.
O n.° 3 é o que no titulo do mesmo claramente vai indicado.
O n.° 4 indica as remessas de productos rezinosos que desde 1805 têm sido dirigidas para o Arsenal de Marinha de Lisboa, apresentando com tudo algumas lacunas devidas a cir- cumstancias que no mesmo mappa se referem.
O mappa n.° 5, contendo a receita e despeza da fabrica dos productos rezinosos no anno de 1807, bem claro mostra o interesse que se pode tirar com a manufactura destes productos; não nos esquecendo por ultimo satisfazer a curiosidade publica apresentando o Orçamento Geral das mattas e pinhaes a cargo do Ministerio da Marinha para o anno corrente de 1843 a 1844, o qual occupa as ultimas paginas de todos os mappas que acompanham esta memoria.









ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
________________________________
LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.




























Comments are closed