História
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X. Descripção dos fornos d’alcatrão e pez, existentes na fabrica pertencente á Administração Geral das Mattas, estabelecida junto á Marinha Grande, e meio pelo qual se obtéem os productos rezinosos.

by on 1 de Agosto de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

O PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

X.

Descripção dos fornos d’alcatrão e pez, existentes na fabrica pertencente á Administração Geral das Mattas, estabelecida junto á Marinha Grande, e meio pelo qual se obtéem os productos rezinosos.

PRIMEIROS.

Fornos raguzanos.

     Os fornos que nesta fabrica mais trabalharam, foram os chamados raguzanos: o alcatrão que delles se colhia, era sem duvida excellente: porém seu amanho era tão penoso, que foi forçoso pôl-os de parte, por haverem outros que suppriram sua falta, sem estarem sujeitos a taes inconvenientes. No entanto estes fornos, pelos simples meios empregados na sua construcção, estão ao alcance de todos, podendo-se estabelecer com facilidade junto a qualquer matta. Para, a collocação destes fornos exigem-se duas condições essenciaes: a saber:

1.ª Um terreno elevado, e com alguma queda d’um lado, ou propriamente encosta.

2.ª Agoa perenne nas suas proximidades.

       Dadas estas circumstancias, fazem-se as competentes excavações, dentro das quaes, antes de principiar o forno, se fará algum alicerce d’alvenaria na base, para não abaterem depois as paredes com o grande peso da pilha. Construído o forno todo d’alvenaria, menos o fundo e bordas, que devem ser de tijolo; colloca-se a calha, que deve tambem ter de tijolo os dois primeiros palmos junto ao fundo do forno, para se não queimar, sendo o resto de madeira, bem como o recipiente do alcatrão; pois os acidos desenvolvidos durante a destillação atacam e gastam fortemente tanto a pedra, como o ferro e outros metaes. Feito tudo isto, se deixa enxugar o forno, e então se principia a carregar ou enfornar pela maneira seguinte: Abaixo do nivel da boca do forno um palmo, se porão barrotes atravessados com intervallo de meio palmo, formando uma especie de grelhas: por cima destas grelhas se deitará uma camada de seixos lizos (de tamanho tal que não cayam pelos intervallos das grelhas), que encherão toda a boca do forno até estarem ao nivel do terreno superior: começa-se de pois a empilhar a acha, que deve ter tres palmos por menos de comprido, e duas pollegadas de grossura; para se fazer esta pilha principia-se no centro da boca do forno com um feixe a prumo, e se vai acompanhando de roda, com certa inclinação para dentro da parte superior, até dizer com toda a circumferencia da boca do forno: repetem-se do mesmo modo as outras camadas, sempre com alguma inclinação para dentro da parte superior até fechar. Na altura de nove palmos para cima até arrematar a pilha, se póde meter acha mais miuda, ficando a altura total da pilha com quatorze a quinze palmos.

     Concluída a pilha da acha, que deve ficar uniformemente cheia por dentro, sem grandes intervallos, e bem acabada por fóra, se passa a sua cobertura ou camiza, assim chamada pelos da arte: para isto cobre-se primeiro a pilha com uma camada de matto (9) de espessura d’um palmo pouco mais ou menos, posto todo por igual, e com as raizes para cima e encostadas á pilha. Começa-se depois a cobrir com terra toda a pilha desde a sua base, da maneira seguinte: – Tendo préviamente preparado esta terra, amassando-a com um pouco de barro, sendo este em tal quantidade, que a argamassa resultante não rache com o calor; principia-se esta capa de terra ou abobada, em roda da boca do forno na largura de tres palmos; alguns homens em cima a vão calcando com os pés, e chamando-a para dentro com ancinhos devendo concorrer em roda do forno agoa necessaria, vindo conduzida para alli por um cano metido na parede , e dalli cabe por meio de aberturas feitas em frente de cada forno, n’umas tinas collocadas por baixo, as quaes, transbordando, fornecem a agoa precisa para este trabalho. Quando os ancinhos ja não podem trabalhar, lança-se mão de pás para deitar a terra para cima até ao vcrtice. Esta capa exterior de terra, deve ser feita com muita igualdade em roda da pilha, indo sua espessura a diminuir para cima até fechar, ficando com a superficie exterior bem liza.

     Acabada desta maneira a coberta, applica-se no vertice da pilha, a que chamam esponte, uma ferraça ou rodella de ferro, que ficará em contacto com a acha, e por meio d’um furo, que deve haver no centro, se introduz então o fogo; e começará assim a pilha a arder interiormente.

     Quando se conhecer ter ardido mais d’um palmo d’altura, se faz nesta distancia uma secção a que chamam banco, e se applica outra ferraça. Tendo ardido mais dois palmos em altura, se faz outra secção a que chamam córte rente, e se applica tambem outra ferraça. Finalmente ardendo mais cinco palmos em altura tem logar a ultima secção, a que chamam desenforne, e na abertura da qual se applica a grande ferraça. Advertindo, que antes de collocar estas ferraças, se limpa a pilha de todo o carvão existente.

     Estando concluída a combustão de toda a acha do forno, se taparão os buracos da ultima ferraça com pedras, e se cobrirá toda com terra humedecida. Logo que se julgue estar frio o forno, se desmancha a pilha, e tira todo o carvão, bem como se destapa a caldeira inferior ou dorna que encerrará todo o alcatrão que correu da acha durante a sua combustão, tempo em que esta caldeira deve estar muito bem tapada e coberta com terra humedecida.

     Haviam dezeseis destes fornos na fabrica da Marinha Grande; e agora ainda alli existem dez: cada um levava de 220 a 250 arrobas d’acha, que precisava de cinco a seis dias para arder, e de quatro a cinco homens para o seu amanho. Seu producto era:

  • Em alcatrão, 24 a 28 arrobas ou 10 a 12 por cento.
  • Em agoa russa, 3 almudes.
  • Em carvão, 12 fangas.

     A grande difficuldade nestes fornos raguzanos consiste em fazer arder igualmente a acha; pois o vento, sendo forte, chama a combustão toda para um lado. Para evitar este inconveniente, ha uns varões de ferro aguçados na ponta, a que dão o nome d’agulhas, e que servem para abrir alguns furos na abobada, afim de chamar o fogo para onde elles se praticam.

     Todo o processo empregado nestes fornos, até se obter o alcatrão, tendo que se renovar em cada fornada, torna-se mui trabalhoso; e não pode ter logar com chuva ou demasiado vento. Assim, posto que elles sejam uteis, pela facilidade dos meios empregados na sua construcção, para se estabelecerem temporariamente junto a qualquer matta, todavia para uma manufactura d’alcatrão constante e permanente, como deve conservar a fabrica da Marinha grande, devem-se preferir os fornos cylindricos que alli existem; mesmo por serem mais productivos, como se verá.

SEGUNDOS.

Fornos cylindricos.

     De todos os fornos que se tem imaginado para o extracto do alcatrão são estes cylindricos os mais perfeitos, mesmo por que se obtêm delles certas substancias que nos outros se vo- latilisavam em gazes, ou se consumiam pelo fôgo que nelles ardia interiormente. Sua invenção é moderna, e na fabrica da Marinha grande data o seu uso de 1822. Os que actualmente existem alli foram montados em 1838 durante a administração do Coronel Varnhagen que se esmerou na sua construcção.

     Cada um destes fornos compõe-se d’um eylindro de ferro, dentro do qual se mette a acha com as hastes verticaes, dando-se a estas tres ou quatro palmos de comprimento e duas pollegadas de grossura pouco mais ou menos. Posta a primeira camada no fundo do cylindro, apertada com um maço, mas não demasiadamente a fim de poder correr o alcatrão, se sobrepõe segunda, terceira, etc., até á boca; estando assim cheio o cylindro, se fecha hermeticamente com uma tampa de ferro, barrando as juntas com uma argamassa de grêda e cal, ou de algum barro conveniente. Por baixo de cada cylindro ha umal fornalha, onde se applica o fogo, e este vai circumdar todo o cylindro até a boca, passando pelas recamaras, etc., construídas em roda. No fundo de cada cylindro ha uma grélha de ferro, acabando depois o forno em fórma de funil. A acha, em consequencia do intenso gráo de calor, que exteriormente gira em roda do cylindro, vai largando todos os succos rezinosos, até ficar reduzida a carvão. Estes succos, atravessando as grélhas, se precipitam no fundo afunilado do cylindro; e d’alli, correndo por uma calha de madeira, vai entrar n’uma dorna, enterrada conveniente, e que deve estar bem tapada, com terra humedecida por cima, durante toda a distillaçao. Estando esta concluída, o que leva ordinária- mente dois dias, fecha-se a boca da fornalha. Destapa-se então a dorna, que encerrará primeiro uma agoa quasi pura, depois o alcatrão, e por baixo de tudo agoa russa ou acido pyrolenhoso, e d’alli se vai tirando o alcatrão para barrís. Tira-se tambem todo o carvão existente dentro de cada cylindro, e ficam estes desde então aptos para outra fornada.

     Na fabrica da Marinha Grande são 10 os cylindros, cada um destes fornos leva 60 arrobas d’acha, ou 600 arrobas para os 10; precisam de quatro dias e tres noites para arder, e produzem:

  • Alcatrão ………….. 12 a 13 barris de 8 arrobas cada um, ou, termo medio, 100 arrobas    d’alcatrão; isto é, 17 por cento a respeito do pezo da acha.
  • Acidopyrolenhoso… 12 almudes.
  • Carvão …………… 40 fangas.

 TERCEIROS.

Fornos de pez.

       Estes fornos, têm uma figura proximamente parabolica; e parecem-se com uma talha enterrada: são construídos todos de tijolo, e antes de se principiarem a construir, sempre se lhes submette algum alicerce d’alvenaria. Assentado o fundo, se prepara uma taboa ou molde, que tenha por um lado a curvatura interior do forno, e que seja igual a meia secção longitudinal do plano que se imaginar passar verticalmente pelo eixo do forno. Este molde se fará girar em rodado eixo, e assim se irão pondo os tijolos até á boca. Junto ao fundo se deve abrir um canal, com alguma inclinação para o recipiente, que deve ser de madeira.

       Construído assim o forno, aproveita-se toda a acha miuda e nós, e se vai metendo dentro do forno deitada com alguma inclinação, e em fórma de raios. Cheio o forno se lhe lança fogo por cima, e se tapa com uma ferraça, que terá alguns buracos para entrar o ar, e entreter a combustão. Concluida esta, se tapa a boca do forno com a mesma ferraça, pondo-lhe pedras nos buracos e terra humedecida por cima; o que se fará tambem á boca do recipiente antes de se ter deitado fogo a acha. Logo que esteja frio o forno, se destapa para tirar o carvão que dentro existe, fazendo-se outro tanto ao recipiente, que conterá o pez extrahido, a que chamam breu.

     Um forno com as dimensões leva 40 a 45 arrobas d’acha, e precisa dezoito horas para arder; produz:

  • Pez ou breu . . . . 4 ½ arrobas ou 12 por cento.
  • Carvão . . . . . . . . 1 fanga.

NOTAS:
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(9) O matto mais empregado, por ser mais maneavel, é um a que chamam marganíça.

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
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LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

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