História
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VII. Productos rezínosos.

by on 28 de Abril de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

0 PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

VII.

Productos rezínosos.

Da rezína, sua extracção das arvores, e applicações.

      De tempos mui remotos consta ter-se empregado a rczina de varias arvores, mais ou menos preparada, como meio de vedar da agoa as embarcações; e parece datar seu uso desde que houveram os primeiros corpos fluctuantes de madeira. Os gregos e syrios, segundo Theophrasto, bem como os romanos conforme Plinio, já davam nas suas embarcações um pez liquido a que chamavam Apochyma. Entre os selvagens d’America do Norte observaram os primeiros viajantes, ser elle applicado nas fendas de suas canôas. E até a sagrada escriptura nos menciona = Que a grande arca da salvação das especies era breada por dentro e por fóra.

      Longa e fóra do nosso alcance seria a narração de todos os usos das rezinas: é com tudo inquestionavel serem uma das mais ricas producções da natureza, pela immensidade d’appli cações que tem nos diversos ramos da Sociedade. Á Marinha ellas fornecem o alcatrão, o pez e o Breu, substancias bem preciosas, tanto para a conservação das madeiras, como do maçame dos navios. Á pintura ellas dão a agoa raz, diversos oleos e o espirito de terebenthina, e são base essencial de brilhantes vernizes e tintas, como o preto chamado = pós de çapatos, etc. Á medicina ellas offerecem uteis usos, taes como balsamos, emplastros, unguentos, e o creosote modernamente descoberto por Reichembach de Blansko, tão efficaz para sarar ulceras carcinomatosas, affeções de peito, etc. Nas tinturarias e estamparias bem conhecido é o vinagre de ferro ou calda preta, que já se preparou em 1807, na fabrica da marinha grande, e hoje se não faz, a pezar da facilidade de o conseguir; pois se compõe de oxido de ferro com a agoa russa ou accido pyrolenhoso, de que ha alli muita abundancia, por não ser procurado pelos nossos fabricantes, podendo estes aliàs compra-lo por muito mais baixo preço, do que nos vem do estrangeiro. Finalmente a rezina, quer seja por si só, quer fazendo parte de muitas drogas, tem entrada em grande numero de operações chimicas, e em quasi todas as artes e officios.

      É o pinheiro, d’uma ou d’outra especie, a arvore geralmente escolhida por todas as nações, pela abundancia e qualidade da rezina que produz, para delle se extrahir o alcatrão e pez maritimo. Não obstante, muitas outras arvores encerram substancias rezinosas, e algumas mui ricas e procuradas; nenhuma com tudo as contém em maior quantidade, nem offerece tão facil extracção como o pinheiro.

      A rezina, sendo um dos chamados succos proprios das arvores, apresenta-se ou isolada exteriormente, vertendo dos troncos, ou interiormente, adherente ás fibras lenhosas, prin- cipalmente nos nós e raizes. Para chamar a um determinado ponto local este liquido, a fim de se poder facilmente colher, empregam-se varios meios, que passamos a descrever.

Methodos adoptados para obter a rezina dos pinheiros.

      Para a extracção da rezina liquida dos pinheiros, em quanto elles vegetam, são tres os methodos empregados por varias nações, especialmente pelos povos do Norte.

      O primeiro methodo consiste em tirar levemente, com um machado ou outro instrumento cortante, uma porção de casca no tronco do pinheiro, logo acima do pé ou proximo á raiz: faz-se depois um entalhe na parte lenhosa, que tenha menos de duas pollegadas de profundidade, seis a sete d’altura, e tres de largo. Em toda a superficie deste entalhe brevemente começa a sahir o liquido rezinoso, que correrá para uma pequena cova, que préviamente se deve ter preparado por baixo e no chão, bem batida por dentro, a fim de não deixar sahir a rezina; e daqui se passa com colheres proprias para baldes que se conduzem a tinas ou outros recepientes maiores. Esta ferida, que deve ser feita com um instrumento bem afiado, e nunca profunda, nem de maneira que dilacere o lenho. (aliàs cessaria a vegetação da arvore por esta parte, e não daria rezina,) renova-se amiudadamente para que não deixe de correr sempre a rezina, o que acontece facilmente solidificando-se esta, e formando em toda a superficie do entalhe uma crusta, que impede totalmente a sahida do liquido rezinoso. Em cada anno se faz novo entalhe por cima do anterior, e quando estes chegam a uma altura demasiada, se principia nova ordem ao lado das primeiras.

      O segundo methodo reduz-se a fazer uma ferida longitudinal na superficie do tronco, de trinta pollegadas d’alto e quatro ou cinco de largo, a qual tambem se deve renovar de vez em quando: apanha-se com um ferro proprio toda a rezina existente nesta extensão, e se vai deitando n’um balde conduzido pela pessoa encarregada deste trabalho, que, em elle estando cheio, o vasa em tinas convenientemente collocadas. N’alguns paízes ha homens tão adestrados neste serviço, que tratam de mais de 1.000 arvores por dia.

      No terceiro methodo pratica-se do seguinte modo: abre-se com um trado um canal até á medulla da arvore, e introduz-se-lhe um canudo, a fim de por elle escorrer a rezina para celhas postas no chão, nas quaes se colhe esta todos os dias: quando estes furos já nao deitam rezina, se tapam com uns tacos de madeira, e passados 15 dias se tornam a abrir; o que produz uma sahida de liquido mais abundante.

      Este ultimo methodo é muito usado nas mattas dos pinheiros larizes em França, dos quaes se tira a chamada terebenthina de Veneza, preferida ás outras no mercado pelas suas propriedades, com especialidade na medicina. A rezina obtida por estes tres processos, costuma-se cozer a fogo lento em grandes caldeiras, mechendo-a continuadamente; e filtrada depois por palhas compridas, como as do centeio, para a limpar d’algumas impurezas; dá um pez secco e louro, ou colophonia; destillada por um alambique dá a melhor agua raz, e a mesma colophonia fica em residuo.

      Tadavia, sahindo esta rezina das arvores separada da seiba, não involve agua raz sufficiente para produzir um pez liquido como o que chamamos alcatrão. Para este se alcançar, é necessario empregar a adustão da acha em fórnos apropriados, que adiante descreveremos.

      O nosso pinheiro maritimo, contendo uma rezina menos liquida que a das differentes especies dos pinheiros do Norte, presta-se por isso com mais difficuldade á sua extracção pelos methodos anteriormente apontados: assim é mais conveniente empregar a sua acha do que a rezina tirada separadamente; mesmo por causa do alcatrão.

      Para obter esta acha em dadas partes da arvore, tambem ha dois meios artificiaes, a que chamam rechéga.

      1º Faz-se uma ferida longitudinal na superficie do tronco do pinheiro, não muito acima do seu pé, que tenha de comprimento cinco palmos e de largura oito a dez pollegadas; em todo este ambito começa então a madeira a entear, e passados tres ou quatro annos se escava toda a porção enteada do lenho. Esta acha é ordinariamente a mais rica em rezina; e as experiencias feitas no pinhal de Leiria mostraram que se podiam tirar 20 a 30 arrateis d’acha a cada pinheiro no fim de cada periodo de quatro annos. Para ter a acha todos os annos por este modo se deveriam ferir em cada anno do primeiro periodo tantos pinheiros quantos fossem necessarios para um determinado fabrico d’alcatrão. D’então por diante não haveria mais do que ir cortando a acha naquelles pinheiros que concluissem o periodo. Os pinheiros para este fim escolhidos de vem ter cinco palmos para cima de circumferencia no tronco, e a experiencia mostra quaes são os mais susceptiveis de crear acha, já pela qualidade do terreno, já por terem a casca mais. delgada e liza, etc. A ferida deve ser feita com um instrumento bem cortante, e nunca offenderá o borne com golpe transversal; porque, interceptando este a passagem da seiva ascendente e descendente, cessa por isso de vegetar a porção do tronco assim interceptada, seccando a madeira mais proxima, e até apodrecendo depois por causa da chuva. No pinhal de Leiria se feriram em 1807 mais de 100.000 pinheiros para este fim; porém em consequencia de serem a maior parte destes pinheiros já muito velhos e podres, ou talvez por algum motivo que ignoramos, ficaram muitos sem produzir acha, como hoje se observa; nem se olhou mais para este meio de ter a acha. Todavia este processo esta muito em uso n’outros paizes, e é de summa necessidade em todas as mattas que não abundarem em tantos pinheiros podres e cardidos, como tem o nosso pinhal de Leiria, nos quaes em algumas partes se lhes encontra a acha. Estas feridas devem ter logar na parte do tronco mais exposta aos raios do sol; porque, influindo o calor consideravelmente no desenvolvimento da seiba e outros líquidos, é por toda esta parte do tronco que ella circula mais; e escolhe-se para as abrir o tempo da primavera, visto começar então a ceiba a girar, e sahir de certo lethargo que lhe suscita o inverno, acudindo com mais promptidão àquelle logar da ferida.

      A madeira destes pinheiros, segundo dizem pessoas experientes, não soffre em qualidade, quando seja preciso aproveital-a para construcção; e até querem alguns que os pinheiros por este meio fiquem isentos de certas molestias que os costumam atacar; com tudo, havendo receio, têm muitas outras applicações; e mesmo, se elles hão de apodrecer na matta sem proveito algum, ao menos tire-se-lhes este; além de que os cardidos tambem criam rechéga.

      O 2º methodo, que esta actualmente em pratica no pinhal de Leiria , é deixar na terra até á altura de cinco palmos todos os troncos dos pinheiros que se cortam , e que se presume terem communicação pelas raizes com outros que ainda vegetem, conhecendo-se muitas vezes visivelmente esta communicação naquelles pinheiros que sahem com duas ou mais hastes da terra. Então a ceiba ascendente, tendendo sempre a subir no tronco cortado, chega até a sua extremidade, e alli se vai acumulando e formando a rezina em camadas horizontaes. No fim de tres ou quatro annos póde estar enteado um palmo deste tronco; o que produzirá acha muito rica.

      Este meio porém d’obter a acha falha muitas vezes, por não se darem nos troncos cortados as circumstancias exigidas, e que acima apontámos. No entanto o primeiro methodo das feridas longitudinaes é quasi infallivel, e com elle se póde contar para um determinado consumo de alcatrão. — Em consequencia dos poucos meios pecuniarios de que pode dispor a Administração Geral das Mattas para este objecto, tem sido sufficiente até agora a acha formada naturalmente, e que se encontra nos pinheiros já velhos e cardidos, e naquelles sãos que são de natureza de a crearem sem artifício algum; mas este recurso deve soffrer grande diminuição, e não será sufficiente, logo que se limpe o pinhal de tanto pinheiro podre que nelle existe em prejuizo da reproducção da especie.

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
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LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

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