História
1272 views 0 comments

Vidreiros Bávaros na Península Ibérica

by on 12 de Janeiro de 2014
 
Vidreiros Bávaros na Península Ibérica
As famílias de vidreiros Eder e Hahn, que emigraram por volta de 1740

Georg Paulus

Os vidreiros são conhecidos pela sua mobilidade. Na pesquisa sobre as fábricas de vidro, cujo número, no seu auge, do século XVII ao XIX, chegava às duzentas nos territórios da Baviera e da Boémia, encontram-se sempre as mesmas famílias. Quem se quisesse desenvolver como vidreiro, ou mesmo tornar-se autónomo como arrendatário ou dono de uma fábrica de vidro, tinha de viajar grandes distâncias para isso. Não eram raros estes casos, mas também a falência de uma fábrica de vidro impelia os empregados a mudarem-se para outro lugar. A pesquisa sobre a vida dos vidreiros significa, assim, uma pesquisa sobre a história da indústria.

As fábricas de vidro estavam conectadas para além das fronteiras políticas por uma estreita rede de laços familiares. Os vidreiros casavam entre eles, como era costume no passado nas estruturas rurais. As ligações familiares produziam, ainda, cumplicidades no âmbito profissional, as quais mostravam-se úteis para garantir postos de trabalhos recém desocupados nas fábricas de vidro. Muitas vezes um vidreiro ao mudar-se levava consigo um grupo inteiro de colegas ou antigos empregados para trabalhar com ele num novo lugar.

Nem as fronteiras de país, língua ou confissão podiam impedi-los. A começar pela migração de vidreiros venezianos para outros territórios europeus na baixa idade média até a absorção dos especialistas em vidro crown nas fábricas de vidro da Mogúncia e Francónia no começo do século XVIII,3 só para citar alguns exemplos conhecidos, encontra-se na literatura relacionada um número crescente de casos de migrações de vidreiros que trabalharam para empresas vidreiras em outros países da Europa com o seu conhecimento técnico. Neste movimento de migração, os operários das fábricas de vidro dos territórios da Boémia e Baviera também tiveram sua participação. A este grupo pertenciam todos os vidreiros que são tratados neste ensaio e que tomaram parte no desenvolvimento da indústria de vidro de Portugal e Espanha.

Portugal

Marinha Grande: “Quem não sopra, já soprou.”

Desde 1747, que a Marinha Grande é o centro da indústria portuguesa de vidros. A cidade conta com cerca de 30.000 habitantes, situa-se a 150 km a norte de Lisboa e está 90m acima do nível do mar. Entre a cidade e a costa estende-se uma floresta de pinheiros com mais de 110 km2 chamada “Pinhal do Rei”. Esta região da floresta era fornecedora de madeira para produção de energia e foi um dos requisitos para o estabelecimento da indústria de vidro em Marinha Grande. Ela é, ainda hoje, a principal actividade económica da cidade.

Com o ditado “Quem não sopra, já soprou” torna-se claro que praticamente toda a população da cidade viveu do fabrico do vidro. Desta primeira indústria derivaram outras indústrias modernas, como por exemplo, a de produção de embalagens de plástico, principalmente, a de moldes para a indústria de plástico. Com mais de duzentas firmas que fabricam moldes para a produção de peças plásticas, a região de Marinha Grande é uma das maiores produtoras da Europa. Na raiz desta tecnologia estavam os moldes para os produtos de vidro.

Na Marinha Grande, o centro da indústria portuguesa de vidro, localizam-se actualmente sete fábricas de vidro, três empresas de grande dimensão, e quatro de menor. Uma das maiores empresas é a Firma Ricardo Gallo, fundada em 1899, com mais de 100 empregados e uma produção diária de 2 milhões de garrafas e outros produtos relacionados. O actual Presidente, Victor Manuel Gallo, pesquisou as origens dos seus antepassados, o que se revelou uma empreitada difícil porque os livros paroquiais, a fonte genealógica tradicional, terem sido destruídos durante as guerras napoleónicas e isto obrigou a pesquisa em outras fontes documentais. Os primeiros resultados dessa pesquisa foram publicados em 1999 na forma de um estudo aprofundado sobre a empresa no seu centenário. A partir dessa pesquisa verificou-se que a família Gallo é uma das famílias de vidreiros mais antigas de Portugal. Ela está presente há mais de 250 anos na capital portuguesa do vidro, a Marinha Grande.

Felizmente os livros de contabilidade com a lista de salários da primeira fábrica de vidro de Marinha Grande foram conservados. Daí percebeu-se que os primeiros vidreiros de nome Gallo que apareceram em Portugal originalmente chamavam-se Hahn e vieram da Alemanha. Hahn é a palavra alemã para Galo. Porém, de onde vêm estes vidreiros alemães?

Como eles foram parar a Portugal? E como ganharam seu novo nome?

O início em Coina e as primeiras pistas dos vidreiros alemães em Portugal

Após começo modesto, a fabricação de vidros em Portugal teve um desenvolvimento notável em 1719 com a fundação da Real Fábrica de Vidros pelo Rei D. João V. A localização dessa fábrica era junto a Coina, a sul do Tejo, próximo de Lisboa. Até aquela época o mercado de vidro em Portugal era dominado pelas importações, sobretudo do sul da Alemanha e da Boêmia. A manufactura real em Coina baseou-se, desde o começo, em operários estrangeiros. Os primeiros anos foram plenos de grandes dificuldades técnicas e económicas, que mantiveram a empresa sempre à beira da ruína. De 1737 até 1741, a manufactura foi liderada por Joam Poutz, que sempre procurou aumentar a eficiência da fábrica de vidro pelo uso de mão-de-obra importada. Porém, Poutz não conseguiu evitar a bancarrota da sua firma. Ele mesmo fugiu para o estrangeiro. Como seu sucessor, tivemos o empresário de origem irlandesa, John Beare, um dos que acreditou na manufactura de vidro em Coina.

Do tempo de Beare, cujo nome na língua local foi modificado para João, conservaram-se, felizmente, mais livros de contabilidade. A partir deles podemos concluir que ele quase que exclusivamente só empregava mestres vidreiros alemães, se bem que eles já estavam presentes sob os predecessores de Beare. Entre as 33 pessoas, que constavam numa folha de pagamento datada de 31 de Outubro de 1744, acham-se 13 alemães, dentre os quais os mestres: Valentin Miller, João Miller, Hans Knee, Hans Michael Hann, João George Hann, Adam Eder e João George Hoffer. Como auxiliar encontrámos João Meyer e entre os aprendizes, Francisco Miller e Alberto Meyer. Como alimentador da fornalha estava João Meyer, entre as embaladoras estava uma Catarina Meyer. Os nomes, como se vê, estão parcialmente em língua portuguesa.

O dirigente da fábrica de vidro, John Beare

O dirigente da fábrica de vidro, John Beare

Devido à notória falta de madeira em Coina, a qual compelia Beare a trazer lenha de longas distâncias, ele esforçou-se para transferir a fábrica de vidro para um local mais vantajoso. Em 1747 ele alcançou este objectivo com a mudança de sua empresa para a Marinha Grande, que fica a mais de 150 km para norte, mas que oferecia uma fonte de energia muito melhor. A abundância de lenha do Pinhal do Rei, assim como a expressiva quantidade de areia e salicórnia deveriam colocar a empresa em uma nova condição económica. O longo percurso até Lisboa seria feito por carregadores, que levariam os produtos da Marinha Grande até à capital. Os vidreiros alemães certamente acompanharam esta mudança, pois encontrámos novamente os mestres nos livros de contabilidade mais antigos de 1755/56.

John Beare conduziu a manufactura de vidro como empresa privada com privilégios reais durante 26 anos, dos quais 20 na Marinha Grande. O preço de mercado oscilante da madeira e a constante luta contra a concorrência dos vidros importados de outras nações europeias, sobretudo da Boêmia, levaram a sua empresa novamente a dificuldades financeiras. Em 1767 Beare faliu definitivamente, e sua empresa foi fechada.

Depois de dois anos de inactividade a empresa foi retomada sob a direcção do inglês William Stephens (1731-1803), com a garantia de condições favoráveis de investimento e com privilégios reais extensivos. Também Stephens contou com a mesma força de trabalho que já havia servido sob John Beare. Na sua primeira folha de pagamento, de 1769, encontrámos a maioria dos vidreiros alemães conhecidos. Os seus nomes com o passar dos anos mais e mais se ajustaram à língua local e foram encurtados em parte, e pelas folhas de pagamento do período de 1744 a 1769 e pelas poucas mudanças entre os mestres vidreiros, é evidente que se tratavam das mesmas pessoas. Finalmente, em 1769, Johann Georg Hann aparece como João Jorge e Johann Michael Hann como João Miguel, e assim por diante. Aparentemente eles fizeram de seus segundos nomes, o sobrenome. A família Hahn já estava na segunda ou terceira geração na Marinha Grande. Um filho desta família, Johann Hahn, também traduziu seu sobrenome para o português e passou a chamar-se João Gallo. Ele era o mais jovem dos mestres e era o único que não havia trabalhado em Coina. Outros membros evidentes da família Hahn foram citados em 1769 entre os aprendizes: Joaquim Miguel, como filho do mestre João Miguel, assim como João Gallo, filho do mestre de mesmo nome. Este último é o patriarca da dinastia de vidreiros Gallo, que até hoje permanece activa.

Na família de vidreiros Hahn também havia um “Olorik Hon”, falecido em 1746 em Coina, o qual trata-se claramente de Ulrich Hahn, o irmão mais velho de Johann Georg Hahn. Isto é comprovado pela junção do nome de sua mulher, Margarethe Müller e dos filhos Johann Michael e Johann Paul. Todos os membros citados dessa família em Portugal podem ser encontrados nos livros paroquiais da sua terra natal. Ambos os filhos de Ulrich Hahn trabalharam em Coina como vidreiros. O mais novo, Johann Paul, encontrou seu fim trágico na idade de 20 anos. Ele foi esfaqueado até a morte em 12 de Janeiro de 1747. Assim apenas restou o filho mais velho de Ulrich, Johann Michael, que após a mudança para Marinha Grande podemos reencontrá-lo como vidreiro.

O novo empresário da fábrica de vidro, William Stephens, foi claramente mais bem sucedido que os seus predecessores. Isto deu-se também por conta da nova política industrial proteccionista do monarca português, D. José I, que estava no poder desde 1750. Sob o governo do seu primeiro-ministro, o qual seria conhecido mais tarde como Marquês de Pombal, foram tomadas inúmeras medidas intervencionistas para se tentar diminuir a dependência económica de Portugal do exterior. Parte deste programa era por um lado a cobrança de pesados impostos de importação e outras barreiras alfandegárias, e por outro lado a fundação e a promoção da produção nacional, às quais pertencia a fábrica de vidro.

Este dirigismo mostrou logo os seus sucessos: O reino de Portugal e suas colónias – sobretudo o Brasil – seriam supridos com toda a espécie de vidros da Real Fábrica de Vidros na Marinha Grande. Ela foi, por muito tempo, a única fábrica de vidro em Portugal, como está indicado no relato de 1795].

A terra natal dos vidreiros portugueses Hahn/Gallo

 Na procura da origem alemã dos seus antepassados, Victor Manuel Gallo foi impulsionado por uma pista de que existiam vidreiros com este nome em certas fábricas de vidro bávaras. Este sobrenome é muito frequente na Alemanha, porém ele não se encontra entre os mais famosos nomes de famílias de vidreiros e também quase não o encontramos entre os menos famosos. De facto, os nomes dos vidreiros que emigraram para Portugal por volta de 1740 encontram-se nas fábricas de vidro a oeste da cidade imperial livre de Ratisbona (Regensburg). Ali existe uma área florestal densa, que era, e ainda é dividida em várias regiões nos âmbitos políticos e administrativos. Dentro das maiores encontram-se a Floresta de Painten, com cerca de 2.300 hectares, e a “Frauenforst” (Floresta de Nossa Senhora), com mais ou menos 2.000 hectares de área. Do início do século XVII até o início do século XX havia nestas florestas, entre os rios Schwarze Laber, Altmühl e o Danúbio, várias fábricas de vidro. Muitas tiveram uma vida curta. A que sobreviveu por mais tempo foi uma empresa na aldeia de Rothenbügl, localizada na floresta de Painten. Existiu de 1665 até 1878. Rothenbügl, ainda é citada como “Gloshittn” (fábrica de vidro) pelo povo. A povoação recebeu o seu actual nome (Rothenbügl) principalmente porque nas regiões vizinhas existiam outras fábricas de vidro – como, por exemplo, em Irlbrunn – era necessária uma nova denominação para diferenciar o local.

As raízes familiares da família de vidreiros Hahn/Gallo

Na fábrica de vidro de Rothenbügl eram empregados vários artífices de diferentes origens geográficas. Muitos vinham da Boémia ou da “Bayerischer Wald” (Floresta Bávara), mas também de outras regiões nas quais o vidro era produzido. Encontravam-se ali vários nomes de vidreiros famosos como Bock, Greiner, Kiesling, Nachtmann, Preisler, Reichenberger, Thumbs e outros. Em contraste com a maioria dos vidreiros empregados neste local, Johann Georg e Ulrich Hahn não tinham as mesmas origens, trabalhando já em Rothenbügl, na década de 1730. Eles não descendiam de uma família tradicional de vidreiros, mas eram sim filhos de um casal de agricultores da vizinha vila de Painten. Ulrich, o mais velho dos dois irmãos, nasceu ainda na velha moradia dos pais em Bügerl, um vilarejo nas proximidades, e foi o primeiro da família a aprender a arte da fabricação de vidro. Seu irmão Johann Georg, que veio ao mundo em Painten no ano de 1700, deve ter-se destacado por um especial talento, aplicando-o no ofício de fundidor de vidro. Nesta função ele sucedeu a Wilhelm Greiner na fábrica de vidro de Irlbrunn. Os Greiners pertenciam, ao contrário dos Hahns, a uma velha família de vidreiros. A profissão de fundidor encontrava-se entre as mais importantes e mais visadas funções numa fábrica de vidro.

A família camponesa Hahn chegou à comarca de Hemau, na região de Palatinado-Neuburg, durante a Guerra dos Trinta Anos. A sua origem é desconhecida e até aquele momento o nome Hahn não era encontrado nas proximidades. Em 1640, Leonhard Hahn e sua futura esposa Bárbara adquiriram uma propriedade na aldeia de Eckertshof. Esta era uma das inúmeras fazendas cujos os donos, no caso um tal de Georg Weinzierl, haviam morrido durante a guerra. De Eckertshof a família expandiu-se pela região de Hemau. Um ramo dela mudou-se, durante três gerações, por Langenkreith e Bügerl, chegando finalmente a Painten. Enquanto os dois irmãos mais velhos ocupavam-se na indústria do vidro, o mais novo, Joseph, herdou a fazenda dos pais, que continuou como propriedade da família Hahn até 1818 possuindo o nome de “Leitenbauer”.

O vidreiro Ulrich Hahn já era adulto em 1720, quando do nascimento de um seu filho bastardo, registado no livro de baptismos da paróquia de Painten. Esquivou-se aparentemente da pena aplicada através da fuga. Porém, nos livros da comarca de Hemau não se encontram quaisquer registos do acontecimento. Viemos a encontrar o Ulrich Hahn, ainda no mesmo ano, na fábrica de vidro de Schleichach, localizada a 150 km a norte de Painten, no príncipebispado de Würzburg. Nesta fábrica de Steigerwald já estavam empregados vários vidreiros de Rothenbügl, para ali levados sob a égide de Jakob Kiesling, que dirigia a fábrica. Entre Schleichach e Rothenbügl era comum o intercâmbio tanto de pessoal como de tecnologia.

Em Steigerwald, Ulrich Hahn casou-se ainda no mesmo ano, 1720, com Margarethe Müller, filha de um vidreiro. Depois, aparentemente foi contratado pela fábrica de vidro de Eisfeld, Turíngia (Ducado de Saxônia-Hildburghausen), onde ele aparece no mesmo ano como “fazedor de garrafas, católico, casado com Margarete Müller”. Porém, a fábrica de vidro em Eisfeld interrompeu sua produção por volta de 1723 e Ulrich Hahn encontrou um novo emprego na fábrica de vidro de Schleichach, em Steigerwald. Ali, em 1723, nasceu a sua filha, Maria Sophia.

Pelo baptismo de cinco crianças entre 1723 e 1734, identifica-se o seu nome naquela localidade antes de ele ser encontrado novamente em Rothenbügl no ano de 1737, onde o casal Hahn teve outro filho. Os padrinhos não foram nem mais nem menos do que os então proprietários da fábrica de vidro vizinha de Irlbrunn, UIrich Fux e sua esposa, Benigna Felicitas.

Provavelmente Ulrich Hahn introduziu o seu irmão Johann Georg, que era 5 anos mais novo, na guilda dos vidreiros. Ele aparece em 1732 na fábrica de vidro de Rothenbügl quando se casou com Maria Lehner de Viehhausen. O casal instalou-se em Rothenbügl, onde teve dois filhos, até que o pai de família se tornou fundidor na fábrica de vidro vizinha de Irlbrunn. A sua permanência é confirmada lá até 1739, quando ele baptizou o seu terceiro filho, Johann, sobre o qual falaremos adiante.

Entre 1740 e 1741 a produção da fábrica de vidro de Irlbrunn foi interrompida. Pelo menos um dos irmãos, Johann Georg, teve que mudar-se para um novo posto de trabalho. Os rastos de ambos perdem-se após este acontecimento. Mesmo quando as fontes documentais nos falham, pode-se, devido à contínua sequência de nomes e sobrenomes, dos laços familiares, assim como da ligação aos desaparecimentos temporários, presumir que os irmãos foram para Portugal com suas famílias e são os vidreiros alemães “Johann Georg Hann” e “Olorik Hon”, os quais foram registados em Coina no ano de 1740. Em relação aos vidreiros com o mesmo sobrenome mencionados posteriormente, tratam-se dos filhos ou sobrinhos destes irmãos.

A Família de Vidreiros Eder

Entre os vidreiros alemães que apareceram em solo português ao lado dos irmãos Hahn estavam os Eder. Eles têm sua origem nas imediações da fábrica de vidro de Rothenbügl. Os Eder que emigraram para Portugal agruparam-se em torno de Johann Eder, nascido em 1694, e de sua esposa, Úrsula. A esta família pertenciam os filhos Johann Joseph e Lorenz, assim como dois sobrinhos de Johann Eder: Adam e Balthasar Eder.

O Eder mais antigo referenciado em Rothenbügl é o pai de Johann Eder, que também se chamava assim. Este Johann Eder “pai” casou-se em 1672 com Barbara Degenmayer, uma filha do fundador e proprietário da fábrica de vidro de Rothenbügl. No seu registo de casamento Eder é denominado “Vitriflator Natus Haylingbrunnensis”. Ele deve, assim, ter origem de uma localidade boémia produtora de vidro chamada Heilbrunn, domínio de Gratzen. Desde 1623 em Wilhelmsberg, perto de Heilbrunn, os condes de Buquoy dirigiam a fábrica de vidro Neuhütten, que era uma das mais famosas e avançadas do seu tempo.

Johann Eder “pai” trabalhava numa fábrica de vidro do seu sogro em Rothenbügl juntamente com os outros que vinham da Boémia ou da Floresta Bávara. Mas Eder, como genro de Degenmayer era um potencial herdeiro da empresa. O seu dote deve ser devido à sua maestria e aos seus conhecimentos técnicos trazidos da fábrica de vidro da sua terra natal.

Bárbara Degenmayer deu à luz nove crianças ao longo dos 18 anos de casamento. Ela morreu na ocasião do nascimento do seu filho Michael Jakob, em Janeiro de 1690. Um ano e meio após a morte da sua primeira mulher, Johann Eder “pai casou-se novamente com Margarethe Ittel de Neunburg vorm Wald. Pouco depois candidatou-se ao posto de mestre da fábrica de vidro do Conde Wolf Heinrich Nothaft, no domínio de Eisenstein, onde foi referenciado a partir de 1694. O seu predecessor neste posto era Johann Christoph Fiedler,

um mestre vidreiro de reconhecida capacidade. Fiedler tentou em vão conseguir a autorização para construir uma segunda fábrica de vidro em Painten. Antes disso ele havia liderado a fábrica de vidro “eleitoral” (propriedade do príncipe-eleitoral) em Lehel, junto a Munique. Já naquela época, Fiedler recrutava vidreiros de Rothenbügl. Provavelmente, Fiedler ainda tinha contactos em Painten, e deste modo Eder deve ter ouvido falar do posto de trabalho que estava livre em Eisenstein.

Mas Eder manteve-se neste posto de trabalho somente até 1697. Os motivos da sua demissão não são conhecidos. Será que teve problemas neste emprego? De qualquer forma, encontrava-se um Johann Weber no seu lugar em 1697. Eder voltou para Rothenbügl com a sua família, onde ele trabalhou novamente como vidreiro.

Com a sua segunda esposa, Margarethe Ittel, Eder teve mais sete filhos; dois deles nasceram no período em que viveu em Eisenstein, e os outros em Rothenbügl. Ele morreu de idade avançada nesta cidade em 14 de Junho de 1723.

O filho de Johann Eder, que tinha o mesmo nome, foi quem emigrou posteriormente para Portugal. Ele nasceu no período em que seu pai era mestre da fábrica de vidro de Eisenstein e foi baptizado em 24 de Maio de 1694 em Lam. Nós não sabemos se os seus anos de aprendizagem foram em Rothenbügl, ou mesmo onde ele se casou com a sua esposa Úrsula.

De 1718 a 1723 foi identificado como vidreiro em Rothenbügl, onde o casal teve três filhos.

Depois deve-se ter empregado em outras fábricas de vidro e ascendido à posição de mestre de fábrica de vidro, e em 1738 ele aparece como arrendatário de uma fábrica de vidro em Vogelsang, perto de Bergreichenstein, na zona oeste da Boémia. Esta era uma das fábricas de vidro mais velhas da região de Šumava, que naquela época estava na propriedade do convento dominicano de Klattau (Klatovy).

Josef Blau relata, que a empresa de Eder estava em dificuldades devido a uma praga que atingira o gado e ele estava com as prestações atrasadas. Eder foi preso na torre de Bergreichenstein em 1738. Quando verificaram que, enquanto Eder estivesse preso, ele não poderia ganhar nada e, consequentemente, não pagaria nada, os dominicanos concordaram em libertá-lo se ele jurasse não fugir e pagar seus débitos. Eder prestou juramento e deixou a prisão, tornando-se logo de seguida “furtivo e invisível”, como foi relatado.

Ainda no mesmo ano encontrámos Johann Eder em Schleichach, na região de Steigerwald, onde foi padrinho de casamento em 22 de Outubro de 1738. Como vários outros vidreiros de Rothenbügl, ele manteve bons relacionamentos com a fábrica de vidro em Steigerwald, onde os outros conterrâneos, entre eles o próprio irmão de Eder, Benedikt, estavam empregados. Johann Eder encontrou ali refúgio e trabalho.

De lá fez novamente a petição para obter um arrendamento de outra fábrica de vidro, desta vez em Eisfeld, Turíngia, por nós já conhecida da vida de Ulrich Hahn. Porém, Eder não foi bem sucedido nesta petição.

Depois destes infortúnios, a sua fuga de Bergreichenstein e a petição mal sucedida do arrendamento em Eisfeld, Eder decidiu pela emigração. Nós não sabemos quantos filhos ele tinha até ali, e quantos deles ainda estavam vivos. De qualquer modo, foram 2 filhos, Johann Joseph e Lorenz, que juntamente com o seu pai e a sua mãe Úrsula, foram para Portugal. Em Março de 1739 o irmão mais velho de Eder, Benedikt, morreu com a idade de 47 anos em Schleichach. Johann Eder responsabilizou-se pelos dois filhos de Benedikt e levou-os consigo na viagem. Assim, a família contava com pelo menos 6 pessoas, dois adultos e quatro jovens, que deveriam de ter entre 15 e 20 anos de idade. Provavelmente existiam mais crianças que fizeram o caminho para Portugal junto com seus pais, e tios.

Em 1740 nós encontramos Johann Eder na Real Fábrica de Vidros de Coina, ao sul de Lisboa, como mestre do vidro. Eder trabalhava ali juntamente com os seus 2 filhos, Johann Joseph e Lorenz, assim como com os seus sobrinhos Adam e Balthasar Eder. Os Eders eram registados nos documentos portugueses como Eder ou Edra, ou ainda Hedra. O último termo aproxima-se da forma Ederer, sem H, visto que este não é pronunciado na língua portuguesa.

Esta forma para Eder também se encontrava na origem alemã.

A família de vidreiros Müller/Miller

 Havia na colónia de vidreiros em Coina também uma família Miller. “Valentin Miller” ou “Milla” era casado com “Margarida Hedra” (Eder), cujo parentesco com os outros Eders ainda não pode ser esclarecido.

Este Valentin Miller pode ser um neto do famoso mestre vidreiro Michael Müller, que morreu em 1709. Michael era mestre da fábrica de vidro em Helmbachhütte perto de Winterberg, na Boémia ocidental, e entrou na história do vidro como um dos inventores do chamado “Cristal da Boémia”. O seu filho Valentin, falecido em 1720, teve um filho com o mesmo nome. Este Valentin Hilarius Müller nasceu em 1704 e aprendeu a arte da fabricação do vidro com o mestre vidreiro Georg Högl em Neudorf. Depois disso, perdemos o seu rasto. Sua identidade com o tal Valentin Müller que se encontrava em Portugal no ano de 1744 não pode ser comprovada, mas, por causa da raridade do seu primeiro nome, é de se presumir que a sua provável linhagem ilustre também se conforma ao facto de que Valentin Müller serviu como 1º mestre tanto em Coina como na Marinha Grande sob a direcção de John Beare.

Em Coina foram detectados dois dos filhos de Valentin Müller: João e António. O tal Francisco Miller que aparece em 1744 em Coina como aprendiz trata-se de um sobrinho de Valentin Müller. Com excepção de António, podemos encontrar todos os nomes citados após a transferência para a Marinha Grande. Valentin Müller aparece no livro de contabilidade de 1758 como mestre, técnico responsável da fábrica de vidro, tendo o maior salário.

Possivelmente Valentin era parente dos vidreiros com este sobrenome que actuavam em Schleichach, dos quais a esposa de Ulrich Hahn descendia.

Outros vidreiros alemães em Coina e Marinha Grande

Ao lado das famílias Hahn, Eder e Müller encontravam-se em Coina outros alemães.

Entre eles, Johann Georg Hoffer. Também eles podiam ter laços profissionais com Eder e Hahn antes da sua emigração. Um vidreiro com este sobrenome, Franz Michael Hoffer, nascido em 1716 em Solnhofen (Altmühltal), possivelmente um irmão de Johann Georg Hoffer, trabalhou tal como Eder e Hahn em Schleichach, e posteriormente em Spessart com Scheinast, que, por sua vez, vinha de Rothenbügl. Outro indício para uma ligação entre o Johann Georg Hoffer de Portugal e o de Schleichach é o facto que o nome de baptismo Johann Georg também foi encontrado na família de Franz Michael Hoffer.

Por detrás do nome transcrito como Jacob Fusques pode estar Jakob Fuchs, que foi detectado até 1738 em Schleichach e, sendo assim possível, a sua emigração para Portugal no ano de 1740. A família Fuchs (Fux) forneceu os mestres da fábrica de vidro em Irlbrunn por muitos anos.

Para os restantes alemães na folha de pagamento das fábricas de vidro de Coina e Marinha Grande não há registos biográficos ou genealógicos disponíveis. Eles não puderam ser encaixados em nenhuma família de vidreiros conhecida, e não se sabe de quais fábricas de vidro alemãs vieram.

Juntamente com os vidreiros alemães empregados nas fábricas de vidro de Coina e Marinha Grande havia outros trabalhadores estrangeiros: ingleses, flamengos, catalães, venezianos e de outras origens.

270 anos da tradição bávara de vidros em Portugal

Os imigrantes da Baviera pertenciam, desde o começo, ao resistente rol da guilda dos vidreiros em Coina e Marinha Grande. Descendentes de Johann Hahn ou João Gallo, como foi chamado mais tarde, permaneceram fiéis à sua vocação e trabalharam nas várias fábricas de vidro de Marinha Grande, até que um deles, Ricardo Gallo (1861 – 1912), fundou sua própria fábrica de vidro no ano de 1899. Ela ainda hoje funciona sob seu nome. O seu bisneto, o dirigente actual da empresa, Victor Manuel Gallo, representa a sétima geração desta dinastia de vidreiros desde sua chegada a solo português há 270 anos..

…………………………………………….………

 

Consideração final

 As fábricas de vidro de Rothenbügl e Irlbrunn pertencem ao passado há muito tempo. A primeira interrompeu a sua produção no ano de 1878. Irlbrunn já estava fechada desde 1741.

A última fábrica de vidro a produzir na floresta de Painten, a de Walddorf, fechou suas portas em 1932. Mas na Marinha Grande e San Ildefonso ainda se vive a tradição da fabricação de vidro das florestas de Painten e Nossa Senhora!

Morada do Autor: Georg Paulus, Kapellenstr. 22, 86558 Hohenwart, Alemanha. Traduzido do original em alemão por Rita Teodoro, revisto por Herlander Miguel Francisco.  Georg Paulus

 

Outras áreas da História
 
Esboço Histórico