História
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VI. Sementeiras.

by on 2 de Abril de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

0 PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

VI.

Sementeiras.

 

        Sendo a plantação de arbustos e arvoredos, com especialidade os pinhaes, o unico meio de suster e demorar as arêas moveis que constantemente tendem a innundar os continentes; não podem com tudo as mattas sobre estas formadas deixar de soffrer os damnos de tão forte inimigo; e se a mão do homem as não auxiliar, ellas pelo andar do tempo, ainda que disputando palmo a palmo o terreno que occupam, irão cedendo o campo ao seu adversario até ficarem totalmente submergidas.

        Tal é a marcha que se observa no nosso pinhal de Leiria; e como a força de innundação das arêas está n’uma razão progressiva das distancias que estas se affastam da costa maritima, são espantosos os progressos que annualmente fazem para dentro deste pinhal. Á vista da planta, em que existe a linha de limite, se pode conhecer o quanto têm entrado as arêas para dentro do pinhal; tendo-o havido até á borda do mar: de que dão indícios nada equivocos alguns troncos e raizes que se têm encontrado nas excavações que produzem as tempestades. De summa importancia e necessidade urgente é na verdade o olhar para este objecto, fazendo uma sementeira desde a Foz do Rio Liz até ao Ribeiro de Muel; aliás crescerão a um ponto tal as dificuldades disto se conseguir, que será este objecto mais uma calamidade para este paiz, e com justiça seremos alcunhados de barbaros pelos nossos vindouros, por uma incuria tão imperdoavel, deixando crear força as arêas em toda a nossa costa marítima. Martinho de Mello e Castro não deixou de conhecer a importancia deste objecto; e no seu Ministerio, sendo Administrador do pinhal o Tenente Coronel Ricardo Luiz Antonio Rapozo, se deu começo a este interessante trabalho; bem como na Administração do Coronel Warnhagen; porém a falta de meios que tem experimentado o cofre das mattas, e a reducçao que soffreu a sua receita em 1834, passando de 1:800$000 r. mensaes a 1:200$000, deixou infructuosa esta tentativa.

        Muito convinha applicar annualmente uma quantia certa e determinada para o entretenimento destas sementeiras, podendo esta talvez deduzir-se com facilidade de qualquer onus que se impozesse nos muitos productos do pinhal que gratuitamente delle sahem; pois sendo o pinhal de Leiria uma propriedade nacional, e não se podendo estender estes benefícios a todo o reino, justo é que concorram para a sua conservação aquelles que unicamente o disfrutam.

        Quanto ao methodo que se emprega nas sementeiras dos pinhaes, nada diremos á vista do que sobre isto ha escripto, tanto na interessante == Memoria sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal, por Jose Bonifacio de Andrade e Silva, impressa em Lisboa na Tipographia da Academia Real das Sciencias, em 1815 ==; como no insinuante == Manual de instrucções praticas sobre a sementeira, cultura e corte dos pinheiros, etc., escripto por ordem do Ministerio da Marinha, pelo ha pouco fallecido Coronel F. L. G. de Warnhagen, então Administrador Geral das mattas, impresso em 1836 na Typographia da mesma Academia.

        Depois das extensas sementeiras que mandou fazer ElRei D. Diniz, e que deram o nome e formação ao pinhal de Leiria, não nos consta ter havido alli outras em ponto grande, principalmente nos areaes: as que se conhecem hoje pelo estado de crescimento dos pinheiros, são as seguintes: – A sementeira da praia, durante a Administração do Tenente Coronel R. L. A. Rapozo em 1791 : teve principio junto á barraca do Infantado na praia da Vieira, e acabou onde hoje chamam cabo do matto (8). Por fora desta teve logar a mandada fazer pelo Coronel Warnhagen em 1830; porém não podendo entreter-se esta, em consequencia dos poucos meios pecuniarios que dissemos ter a Administração das mattas, acha-se inteiramente coberta de arêas, e perdida. A sementeira do pinhal manso junto á Cabeça Louzã feita tambem no tempo da Administração do Tenente Coronel Rapozo; mas a escolha do terreno foi má; e por isso não fez progressos em vegetação. Em consequencia da grande queimada de 1824, fizeram-se sementeiras mais espaçosas para cobrir todo aquelle terreno queimado onde, não podia chegar a semente ou pinhõcs despedidos dos pinheiros velhos que ficaram; e teve isto logar na superficie comprehendida entre a lagôa da Sapinha e de S. Pedro de Muel.

NOTAS:
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(8) Consta-nos que esta sementeira foi mal dirigida; e ainda que exista uma grande tira coberta de pinheiros já altos, e fizesse por isso grande beneficio ao pinhal, com tudo metade ficou submergida pelas arêas.

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
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LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

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