História
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V. Queimadas.

by on 23 de Março de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

0 PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

V.

Queimadas.

 

      É o fogo o maior inimigo que têm todas as mattas e arvoredos, com especialidade os rezinosos. O nosso pinhal de Leiria delle tem sido victima amiudadas vezes, causando-lhe perdas incalculaveis. Seus estragos são tão rapidos como difficeis de reparar; e em poucas horas elle anniquila a obra em que a natureza assiduamente trabalhou pelo espaço de um seculo, que tanto leva a formação d’um pinhal completo!.. Uma vez que adquira força o fogo n’um pinhal, e haja vento sufficicnte para o encaminhar, frustrados serão os meios de o atalhar se este vento não mudar ou abrandar. Ainda que se façam cortaduras, e outros obstaculos no terreno, as pinhas incendiadas impellidas pelo vento irao em abundancia semear o fogo e destruição a distancias consideraveis. Horrivel e arriscado é na verdade um tal espectaculo!.. Mas no entanto não se devem poupar esforços para demorar tão terrivel inimigo até que mude o vento ou abrande, o que muitas vezes acontece. 0 contra-fogo (7) algumas vezes tem logar nestes incendios; porém precisa-se de muita circumspecção em applica-lo; aliàs póde produzir ainda o effeito de augmentar consideravelmente a queimada.

      Existem todas as cautellas no pinhal de Leiria, para evitar taes acontecimentos. É prohibido o fumar junto a elle, disparar tiros, e fazer outros quaesquer fogos: e mesmo ás quei- madas, que os particulares fazem em toda a charneca que o circumda para rotear o terreno, deve preceder uma licença da Administração Geral das mattas, dando para isso as providencias necessarias.

      Antes das primeiras chuvas é quando ha o maior perigo: o matto então esta resequido, e o mais pequeno contacto com o lume lhe faz produzir lavareda. Neste tempo que alli chamam da defeza, augmenta-se o numero de guardas, e se multiplicam as rondas, havendo tambem alguns guardas a cavallo para este fim.

      O fogo quando se communica a uma matta exteriormente é sempre o mais perigoso, em consequencia do vento augmentar consideravelmente a sua acção; não acontece tanto assim entre os arvoredos onde, existindo o ar mui rarefeito e estaccionado, é facil extinguir qualquer incendio. É para evitar esta communicação exterior do fogo, que em todo o contorno do pinhal de Leiria ha um grande aceiro, a que chamam aceiro geral com 12 braças de largura, além de outro com 10 braças de largo que atravessa o pinhal n’outras direcções, como se vê na planta. Estes aceiros, com particularidade o geral, são lavrados e limpos todos os annos; e se queima o matto da charneca contigua quando se acha crescido. Uma grande parte desta charneca acha-se actualmente cultivada até este aceiro geral, e quanto mais augmentar esta cultura, mais livre estará o pinhal dos fogos exteriores.

     Seria fastidioso e mesmo difficil por falta de noticia, o relatar todas as queimadas que tem soffrido o pinhal de Leiria desde a sua fundação. Assim notaremos as principaes e cujos vestígios ainda se conhecem pelo estado de crescimento em que se acham os pinheiros.

      A primeira teve logar em Agosto de 1806: pegou dentro do pinhal junto á Ponte Nova em consequencia da ponta d’um sigarro ou lume que alli deixaram uns homens empregados no corte das madeiras.

     A segunda foi em Agosto de 1814, e teve origem naquelle mesmo sitio; por ter pegado fôgo n’um grande eixo de madeira que alli existia pertencente ao engenho de serrar, e de que se serviam uns homens que costumavam ir cortar páos para caejados, e os aqueciam alli para os endireitar: o fôgo passou primeiro ao engenho de serrar, e depois ao pinhal.

      A terceira aconteceu em Agosto de 1818 motivada por um raio que cahio no sitio do Pinhal chamado Brejo do Ferro proximo á Vieira; havendo por esta occasião mais alguns pe- quenos incendios causados pelos raios cahidos em varios pontos.

      A quarta finalmente succedeu em Julho de 1824: o fogo veio da charneca a que chamam Camarção, ao sul do pinhal entre o Alto do Facho e S. Pedro; em consequencia d’uma pequena queimada que alli fizeram para semear os chamados covões, ou certas baixas mais ferteis: como o vento estivesse do Sul e muito rijo, chegou o fogo ao aceiro geral; e saltando por cima, se communicou ao pinhal. É este o maior incendio que consta ter havido no pinhal de Leiria, e mais importante seria, se uma grande parte do terreno, por onde elle passou, não tivesse soffrido as queimadas então ainda recentes de 1806 e 1814. Na planta que ajuntâmos a esta memoria, se acham marcados os contornos e extensão destas queimadas que actualmente se encontram todas cobertas de viçosos pinheiros , uns nascidos espontaneamente, outros por meio de sementeiras que posteriormente se fizeram.

NOTAS:
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(7) Chamam ==contra-fogo== ao fogo applicado em sentido opposto ao da queimada, e da parte para onde elle corre: a distancia que não haja receio do fogo, durante o trabalho, se faz um córte em linha recta, e se abre um aceiro em largura tal que não passe a chamma d’um lado a outro; feito isto incendeia-se toda a margem do lado da queimada: então o fogo, não podendo arder para a parte do aceiro, cresce para a queimada. Logo que esta se aproxima, e se encontra com este segundo fogo, tem logar um choque espantoso, que faz atenuar e mesmo anniqillar muitas vezes a queimada, ou pelo menos não encontra alimento para diante, em consequencia de ter já ardido o pinhal pelo fogo deitado de proposito.

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
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LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

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