História
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Relato da visita real à Marinha Grande

by on 29 de Julho de 2014
 

Dona Maria I, rainha de Portugal , José Leandro de Carvalho, 1808.Philadelphia Stephens
Marinha Grande, 25 de julho de 1788

            Marinha Grande, 25 de Julho de 1788

            Na segunda-feira, 30, às quatro horas da tarde, Sua Majestade e toda a Família Real chegaram aqui acompanhadas pelas sua Donas, Açafatas, Confessores, Médico, Secretário de Estado (1), Camaristas, Guarda-roupas, Capelães, Cirurgiões, Reposteiros, Moças da Prata, etc., e inúmeras outras pessoas pertencentes aos seus séquitos. Os membros da Família Real foram direitos à igreja, onde passaram alguns minutos em preces, posto o que entraram nos seus coches novamente e vieram até nossa casa. A nossa Praça nesta ocasião teve uma aparição brilhante. De cada lado da casa, os soldados pertencentes à Guarda estavam em formação e, no lado oposto, em frente à porta da Fábrica, todos os artífices pertencentes à manufatura no seu fato de trabalho, o qual não admite nem casaco nem colete, com os cabelos arranjados e empoeirados, as camisas lavadas e passadas a ferro, as mangas atadas ao meio com fitas vermelhas, calças negras e meias brancas lavadas, o que, no seu conjunto, lhes dava uma aparência uniforme muito boa.

            Quando os coches entraram no portão, a Família Real foi saudada com três Vivas das pessoas da Fábrica e quando os respetivos membros saíram à porta de casa foram recebidos pelo Arcebispo (o confessor da Rainha)(2), o meu irmão WIlliam, os meus irmãos Lewis e Jedediah, o Visconde de Ponte de Lima (3) e Camaristas. Esta sua humilde serva teve a honra de beijar a mão de Sua Majestade quando ela entrou e recebeu um sorriso gracioso em troca. A mesma cerimónia foi repetida com a Princesa (4) e cada uma das Infantas (5). À chegada das Donas e das Açafatas, o Arcebispo apresentou-me a elas e recomendou-as à minha atenção particular. Madame Arriaga é uma senhora muito esperta, agradável e de boas maneiras (6). Ela é viúva e grande favorita da Rainha. Eu descrevo-a em particular supondo que já ouviu muitas vezes o nome dela mencionado.

            A Família Real foi imediatamente para o andar de cima e, depois de ver os seus próprios apartamentos no primeiro andar, Sua Majestade foi ao andar do sótão para ver o alojamento das suas ajudantes femininas, relativamente ao qual expressou grande satisfação. Quando acabou de ver os apartamentos, exprimiu o desejo de ver a Fábrica. Por isso, uma procissão constituída pela Família Real e os seus ajudantes caminhou através da Praça de casa até à Fábrica por entre muita gente. Quando entraram na Fábrica, foram novamente saudados pelos manufatureiros com «Viva a Rainha, Viva toda a Família Real) repetido três vezes. Os membros da Família Real sentaram-se num pavilhão preparado para a ocasião coberto de repes verde e de tafetá carmesim, onde passaram cerca de meia hora a divertirem-se vendo as pessoas a trabalhar. A Princesa, com receio de estar perto do calor tão pouco tempo depois de acabar os banhos nas Caldas, imediatamente ao entrar na Fábrica chamou-me e desejou que eu lhe mostrasse o caminho para o andar de cima até ao armazém de empacotamento. Por isso, ordenei que lhe pusessem uma cadeira ao lado da janela, onde se divertiu a admirar avista e a falar comigo e com D. José Lobo, Camarista dela, num estilo familiar muito agradável durante o tempo que a Rainha ficou em baixo no pavilhão. Sua Majestade, depois de satisfazer a sua curiosidade de ver as pessoas a trabalhar e de as aplaudir todas muito, veio para o andar de cima e examinou tudo muito atentamente.

            Depois de passarem algum tempo aqui, foram ver outros departamentos da Fábrica. Na sala de cortar e pintar flores (7), sentaram-se algum tempo a admirarem o trabalho, e a Rainha e a Princesa fizeram várias perguntas acerca dos nossos artesãos, etc. Depois de terem visto tudo o que pertencia à Fábrica, foram para o jardim, onde tinham sido colocadas cadeiras em diferentes locais para descansarem. Aqui divertiram-se até às Ave Marias, altura em que se retiraram para a casa e beberam chá.

            Logo que acabaram o chá, foram para o teatro, onde a galeria estava elegantemente preparada para as receber, coberta de damasco carmesim, a parte da frente ornamentada com cortinas caídas em grinaldas, com as armações cobertas de veludo carmesim com franjas douradas. Ao lado direito da Galeria Real ficava uma galeria lateral para o Arcebispo e, do lado oposto, do lado esquerdo, uma galeria similar para as Donas e Açafatas, por trás da qual havia espaço suficiente para todo o resto das ajudantes femininas verem a peça. A plateia estava destinada às pessoas pertencentes ao séquito que não eram Camaristas ou criados imediatos, como também para os senhores desta vizinhança e os Ministros da Cidade de Leiria. Também havia um camarote privado por baixo da Galeria Real para as principais senhoras de Leiria que estavam aqui para ver os entretenimentos.

            Logo que Sua Majestade entrou na galeria, a orquestra, que consistia em quatro violinos, duas trompas e dois violoncelos, começou a abertura, durante a qual a Família Real admirou o desenho e a pintura da cortina. Ela representa uma senhora sentada numa grande árvore com as Armas de Portugal ao seu lado e um jovem vestido de jardineiro a esvaziar uma cornucópia no seu regaço com o emblema da Abundância e da Indústria. A expulsão da Indolência é representada por um pedinte que é um homem saudável, forte e com ar cordial coberto de farrapos, com os bolsos cheios de pão e com um bastão na mão que serve de arma ofensiva ou defensiva como melhor se adequar às suas intenções. Ele passa lançando um olhar de desprezo à Indústria. A explicação na parte de baixo é composta pelas seguintes palavras: «Lusitânia pelas Artes recebe da Indústria Abundância e desterra a Mendicidade». Por cima da parte da frente do palco, duas figuras femininas representando a Tragédia e a Comédia levantam nas mãos um placa com os seguintes dizeres, «Vinde e descansai porque trabalhais», aludindo aos motivos pelos quais o teatro foi construído.

            Quando acabou a abertura, a cortina foi levantada e a tragédia de Sésostris começou (8). Esta peça deve-se ao particular desejo de Sua Majestade e eu tenho de fazer justiça aos nossos jovens dizendo que, embora não tenham tido duas semanas para a estudar, representaram os seus papéis extremamente bem. Entre os atos, houve várias danças e pantominas durante as quais a Família Real foi servida com gelados de vários tipos (9) e outros refrescos. Depois da peça, a farsa Esganarello foi representada com grande aplauso.

            Assim que os divertimentos teatrais acabaram, a Família Real regressou à casa onde encontraram jantar na mesa e a Praça iluminada com cerca de duas mil luzes, dispostas em quadrícula, penduradas da seguinte maneira [diagrama], que cobriam todas as paredes dos edifícios entre as janelas, com um obelisco no meio da Praça coroado com uma esfera no topo. Dois carros triunfais com música foram puxados em redor da Praça e tocaram sob as janelas durante o tempo do jantar e, logo que a Família Real se levantou da mesa, foi lançado um bonito fogo-de-artifício que os divertiu durante cerca de um quarto de hora, altura em que se retiraram todos para os seus apartamentos e um silêncio total continuou toda a noite.

            Os membros da Família Real jantaram todos juntos na nossa sala grande numa mesa com vinte e dois palmos de comprimento e onze de largura. A Rainha sentou-se no centro de um dos lados da mesa, com a Princesa à sua direita e a Infanta D. Carlota à sua esquerda, a Infanta D. Mariana à esquerda de D. Carlota. No outro lado da mesa, em frente à Princesa sentou-se o Príncipe (10) com o seu irmão D. João à sua direita em frente a D. Carlota. O seu costume em Lisboa e nas Caldas é jantar e cear cada um no seu apartamento; em viagem, em geral eles comem juntos e, nesta ocasião, eles pareciam muito felizes na companhia uns dos outros.

            A mesa e os aparadores foram cobertos com um pano cor-de-rosa; no centro da grande mesa estava um ornamento de vidro muito elegante feito aqui e representando um templo. O desenho foi feito pelo copeiro do Marquês de Marialva, o qual teve a direção de toda a doçaria com a assistência do Doceiro da Rainha o qual se ocupou principalmente da gestão dos gelados, dos quais havia uma grande variedade e muito bons. O costume é pôr tudo na mesa ao mesmo tempo, carne, fruta, doces, etc. Todos os pratos da cozinha são servidos sob a direção do Cozinheiro Principal de Sua Majestade, o qual tinha trinta e três cozinheiros para trabalhar para ele.

            Quando a Família Real se levantou da mesa, as Donas e Açafatas e a sua humilde serva sentaram-se. É costume em viagens os Camaristas e os nobres sentarem-se à mesa depois da Família Real. É então chamada Mesa de Estado, mas, nesta ocasião, foi julgado mais conveniente que as senhoras ficassem no andar de cima e a Mesa de Estado para os Camaristas e o Secretário de Estado foi colocada na nossa sala de jantar no rés-do-chão. Esta mesa era um pouco mais pequena do que a Mesa Real. Tinha uma pirâmide de vidro no meio decorada com doces e a mesa estava coberta por um pano azul. O Arcebispo tinha uma mesa separada no seu apartamento para si e o companheiro Padre Rocha, Provincial da Ordem de S. Domingos (11), como tinham outros pertencentes a diferentes departamentos.

            No extremo superior da nossa grande álea no jardim havia uma barraca de madeira, com oitenta palmos de comprimento e trinta de largura, com tapeçaria pendurada e coberta de pano de vela. Nesta sala, havia uma mesa contendo cerca de cinquenta ou sessenta pessoas, onde o meu irmão recebia os Cavalheiros da Província, Ministros e Câmara de Leiria e toda aquela companhia que não podia ser admitida nas outras mesas.

            Os membros da família Real e as suas ajudantes femininas estavam todos alojados na nossa casa a qual, nesta ocasião, foi chamada de Paço ou Palácio, o Arcebispo na casa ao lado direito do portão e os Camaristas e Secretários de Estado, etc. na melhor casa do lugar, onde camas muito excelentes foram feitas para eles. Os criados de libré, os cocheiros e os soldados com as suas bestas estavam todos bem alojados sob os telheiros de madeira, com cozinhas e salas de jantar de acordo com os seus vários graus, um abastecimento abundante do melhor bife, arroz e pão que se podia arranjar no país e tanto vinho de Aljubarrota quanto decidissem beber. Apesar disto, para sua honra, não devo omitir de dizer que ninguém ficou bêbado nem aconteceu a mais pequena perturbação durante todo o tempo em que eles estiveram aqui, e, como uma notável prova da sua honestidade, posso assegurar que nesta e na ocasião anterior de eles estarem aqui, nós não perdemos nada a não ser duas colheres de sobremesa que eu suponho que se perderam ou que foram deitadas fora com o lixo da cozinha, não sendo um objeto para ser roubado onde havia a oportunidade de roubar coisas de muito maior valor.

            Pode ter uma ideia mais ou menos do número de pessoas pertencentes à comitiva do Sua Majestade quando lhe disser que nós tínhamos estábulos providos com palha e cevada para seiscentas bestas excluindo as tropas. Para além das pessoas pertencentes à Corte, havia a confluência de todo o lado em redor desta vizinhança os quais a curiosidade tinha juntado para verem a sua Soberana, com a qual eles pareciam muito agradados.

            Na terça-feira de manhã, o Infante D. João levantou-se às quatro horas e levou alguns ajudantes para ver as suas propriedades em Monte Real, o campo de Leiria e os trabalhos na Foz da Vieira a duas léguas de distância (12). Ele examinou tudo muito minuciosamente e regressou muito agradado com a sua excursão entre as oito e as nove horas. Por esta altura, a Rainha e a Família Real estavam levantados e vestidos. Tomaram o pequeno-almoço nos seus vários apartamentos composto por chá e tosta inglesa, posto o que o seu altar de viagem foi instalado no quarto de vestir da rainha e foi celebrada missa por um dos seus capelães.

            Estando isto feito, eles divertiram-se a passear pela casa e a conversarem de forma muito afável com qualquer pessoa com quem se cruzassem.

            Entre a uma e as duas horas, o almoço foi servido da mesma maneira que o jantar precedente. Durante o café, aprontaram-se os coches, altura em que foram dar um passeio com alguns ajudantes para verem a famosa e antiga cidade de Leiria. Depois de passarem por baixo de um Arco do Triunfo erigido pela Câmara à entrada da cidade, foram direitos à Sé Catedral onde foram recebidos com as usuais cerimónias pelo Bispo. Da primeira vez que iam a alguma igreja, era costume o Bispo ou o Padre Principal pertencente à igreja receber a Rainha à porta. Desta maneira ela caminha com a Família Real para o Altar-mor onde são colocadas almofadas de veludo para se ajoelharem. Durante as suas preces privadas, é cantado um curto Te Deum, acompanhado pela música que a igreja puder pagar. Isto acabado, retiram-se da mesma maneira como entraram.

            Depois de verem a catedral, foram no seu coche para o Palácio do Bispo, o qual é muito espaçoso e bem mobilado. Está situado numa elevação e tem uma vista muito bonita sobre a cidade. As ruínas de um velho castelo mouro, o rio e as terras adjacentes, viram tudo com grande prazer e, depois de terem partilhado uma merenda elegante, deixaram o palácio e foram para o Convento das freiras da ordem dominicana. Depois de verem a igreja, entraram no Convento e examinaram todos os cantos com satisfação. Deixaram as pobres freiras altamente impressionadas com gratidão, não apenas pela honra da visita, mas também pela graciosa oferta de Sua Majestade de vinte moidores que ela deixou para o seu sustento. Foi também ordenado que dessem trinta moidores aos pobres da cidade. À porta do Convento, entraram nos seus coches vastamente deliciados com a Cidade de Leiria, a qual, nesta ocasião, fez uma grande figura, estando as casas todas pintadas de branco, as ruas cobertas de areia e as janelas com cortinas penduradas da mesma maneira que em dias de grande procissão. Por altura das Ave Marias, todos chegaram aqui outra vez em segurança.

            O Príncipe e o seu irmão deixaram Leiria algum tempo antes da Rainha. Fizeram parte do caminho numa liteira, depois montaram os seus cavalos e foram ver a Fábrica da Madeira e a Floresta (13), que ficam perto da nossa casa, mas chegaram aqui ao mesmo tempo que a Rainha. Depois de beberem chá, foram outra vez ao teatro com as mesmas cerimónias que no dia precedente e viram a comédia Dom José de Alvarado, Criado de Si Mesmo. É uma peça para rir e foi representada com muito humor. No fim do segundo ato, foi tocado um solo de violoncelo por um jovem de Leiria que está a estudar física em Coimbra, como um curioso. Ele toca muito bem e a Familia Real aplaudiu muito a sua interpretação. Entre os outros atos, houve várias danças e pantominas, concluindo-se tudo com a farsa Letrado Avarento.

            O teatro estava iluminado com cera e os vestidos em cada noite eram novos de acordo com os papéis. Os atores cumpriram com honra e receberam aplauso universal, não apenas da Família Real, mas de toda a audiência a qual achava impossível que um rude local de província tivesse produzido tão bons atores. A surpresa aumentou muito quando souberam que a maior parte nunca tinha estado a mais de duas ou três léguas da sua paróquia e que todos trabalhavam na Fábrica. Eles representavam apenas para seu divertimento, o que é muito diferente dos teatros públicos onde os atores não têm outro emprego para além de estudarem as suas partes e toda a sua subsistência depende da opinião favorável do público.

            Tendo acabado os divertimentos do teatro, a Família Real regressou à casa, onde o jantar, iluminações, carros triunfais e fogo de artifício concluíram as diversões da mesma maneira que na noite precedente.

            Na manhã seguinte, quarta-feira, 2, a Família Real levantou-se cedo, vestiu-se e ouviu a Missa da mesma maneira que já foi mencionada, durante a qual tudo foi aprontado para a sua partida entre as oito e as nove horas. O Príncipe e a Princesa (14) entraram no seu coche e foram direitos para as Caldas, tendo receio de parar e almoçar na Nazaré por causa da varíola que andava por ali, sendo duvidoso se o Príncipe já tinha tido essa doença ou não. Ao despedir-me de Sua Alteza Real, eu beijei a sua mão e agradeci-lhe a honra que nos tinha dado com esta visita e desejei-lhe boa viagem. Em troca, ela deu-me um abraço, agradeceu-me pelos divertimentos hospitaleiros que tinha recebido e desejou-me saúde e felicidade. O meu irmão despediu-se do Príncipe da mesma maneira e foi com ele até à porta do coche.

            Ao passarem pelo portão, foram outra vez saudados com três Vivas. Sua Majestade e o resto da família Real ficaram durante uma hora depois do Príncipe e da Princesa terem partido. Quando a Rainha deixou o seu apartamento, eu beijei-lhe a mão e ela agradeceu-me pela distração que lhe tínhamos dado, uma expressão que indicava que estava agradada com tudo o que tinha visto. Depois, despedi-me das Infantas D. Mariana e D. Carlota. A primeira deu-me um abraço e repetiu os seus agradecimentos da mesma maneira que a Rainha e a Princesa.

            No fundo da escada, o Administrador da Fábrica, com dois Contabilistas e o Pagador-Mor, foram apresentados e beijaram a mão de Sua Majestade, que os recebeu muito graciosamente e aplaudiu muito a indústria das nossas pessoas, a boa ordem e gestão da Fábrica e a harmonia que subsistia entre as pessoas que pertenciam à Manufatura. Depois, eles fizeram a cerimónia com o Infante D. João e as duas Infantas, que também os receberam muito graciosamente. No vestíbulo estavam o Bispo de Leiria e os seus ajudantes assim como os Ministros e a Câmara de Leiria que se despediram da mesma maneira.

            O meu irmão acompanhou Sua Majestade à porta do coche onde ela repetiu outra vez os seus agradecimentos pela sua hospitalidade e partiu entre aclamações de um grande número de pessoas que permaneceram penetradas com amor e respeito pela sua Soberana e toda a Família Real, pelo seu comportamento agradável e afável durante a sua estadia neste lugar. Da nossa casa foram para a igreja.

            Após alguns minutos de oração ali, foram até à fronteira da Floresta e, daí, para a Nazaré onde prestaram as suas devoções habituais a Nossa Senhora (15), almoçaram e foram à praia ver as redes a serem puxadas com peixe, e daí foram para as Caldas onde dormiram nessa noite e descansaram no dia seguinte, quinta-feira.

            Na sexta-feira, 4, regressaram a Lisboa onde falaram com altos encómios do entretenimento que receberam aqui. Em suma, o meu irmão atingiu aquilo de que mais ninguém no reino se pode orgulhar que é a honra de receber a Família Real e toda a corte durante dois dias e de ter dado satisfação universal a todos, da Rainha até aos moços de cozinha e aos rapazes dos estábulos. A primeira vez que Sua Majestade veio aqui não foi tão surpreendente, porque a curiosidade de ver a Fábrica de Vidro era supostamente o motivo, mas que ela tenha vindo uma segunda vez e tenha dormido duas noites na casa de uma pessoa privada, um inglês e protestante, é uma coisa que nunca entrou na ideia dos portugueses e que atingiu todas as pessoas com estupefação. Sua Majestade gostou tanto da sua situação que lamentou partir e ficaria por mais tempo se não fosse a necessidade inevitável de regressar a Lisboa. Tinham já sido passadas as ordens para a mudança dos animais na estrada e para tudo estar pronto para a receção na Praça do Comércio (16), e era agora demasiadamente tarde para retroceder. Ela deixou cem moidores para serem distribuídos entre o povo da Fábrica e vinte moidores para os pobres da paróquia.

            Logo depois da partida de Sua Majestade, a nossa casa foi aberta para toda agente que a quisesse ver. Tínhamos uma grande companhia de Leiria e da vizinhança que jantaram connosco na Mesa Real e, à noite, as mesmas iluminações foram repetidas. A tragédia de Sésostris, com os mesmos vestidos novos, danças e pantominas como na primeira noite, foi representada com aplauso universal perante uma audiência numerosa, sendo dada entrada livre (como é nosso costume para com todas as pessoas de todos os níveis e denominações). Depois da peça, a nossa companhia jantou connosco na Mesa Real, bebeu à saúde de Sua Majestade e concluiu o nosso festival de três dias com não pequena satisfação para nós próprios e para todos os nossos vizinhos, sendo tudo isso uma visão que eles nunca tinham visto antes.

            Alguns dias antes da chegada de Sua Majestade aqui, o Chefe da Casa Real veio com o Armador que trouxe cinco camas para a Família Real e cortinas para as portas e janelas dos quartos principais. Elas eram de damasco carmesim com renda dourada e cortinado de veludo carmesim com franjas douradas. A cama do Príncipe e da Princesa era muito grande e elegante. A cabeceira e os pés da cama eram feitos de ferro forjado, as tábuas eram pintadas de branco com uma cobertura carmesim e um damasco carmesim. A cabeceira estava coberta com damasco carmesim, por cima da qual havia uma armação coberta com a mais bela musselina fina trabalhada com pequenos pontos de prata, as bordas cortadas com rendas de um elegante louro prateado em dobras muito espessas. O primeiro colchão era de pano de linho muito bom, o qual eles trouxeram vazio e encheram aqui com palha de centeio. Sobre este havia dois colchões de linho irlandês muito bom, cheios de lã. Estes eram cobertos com um lençol de pano de linho muito bom que era puxado com toda a força por quatro homens e entalado por baixo do colchão de palha. Depois, um lençol de linho irlandês muito bom era entalado da mesma maneira. Duas almofadas achatadas eram depois colocadas uma sobre a outra, cheias de lã e forradas da mesma maneira que os colchões. As fronhas eram lisas, mas de linho melhor do que o dos lençóis. O lençol de cima feito de bom linho irlandês era então colocado com uma coberta de damasco. Por cima disto, em vez de um cobertor, estava uma coberta branca delimitada por uma fita. Esta coberta era para ser tirada ou posta conforme agradasse. Por cima disto, havia outra coberta de damasco carmesim que também era muito bem entalada debaixo do colchão de palha, e o conjunto era coberto com a mesma musselina elegante e com pontos de prata como a cabeceira, com um folho que ia do colchão de cima até ao chão, com o conjunto delimitado por renda. A grande almofada era então colocada na cama, com as extremidades atadas por grandes nós da melhor fita inglesa. Uma coberta de tafetá carmesim era depois lançada sobre o conjunto para manter o pó afastado.

            A cama da Rainha era igual à da Princesa, mas mais pequena, e os colchões, almofadas e lençóis eram os mesmos que já foram descritos. Em vez de uma coberta de pano cor de laranja, o dela era branco, a cabeceira estava coberta de damasco carmesim, sem qualquer outro ornamento para além de ser preso com renda de seda da mesma cor.

            As camas das Infantas D. Mariana e D. Carlota e do Infante D. João eram as três em pau-brasil, com os colchões, almofadas e cobertas iguais às da Rainha, exceto a Infanta D. Carlota, cuja cama era feita no estilo inglês. Os lençóis que ela trouxe de Espanha eram notavelmente finos, mas lisos, a almofada era redonda com uma fronha câmbrica delimitada em cada ponta por uma musselina florida muito fina. A colcha era de cetim branco acolchoada à inglesa, sobre a qual se estendia uma coberta de tafetá carmesim para evitar o pó.

            A cama tinha suporte e rede para mosquitos. As camas da Rainha e da Princesa tinham dosséis e cortinas que lhes pertenciam, mas Sua Majestade, lembrando-se muito graciosamente de que os nossos quartos estavam elegantemente acabados com estuque, os dosséis não podiam ser suspensos sem pôr ganchos no teto, por cuja razão ela deu ordens positivas para que as camas fossem feitas sem cortinas porque ela não consentiria de maneira nenhuma que a mais pequena coisa fosse feita para estragar a casa que ela muitas vezes admirara pela sua limpeza. Ela aproveitou educadamente todas as oportunidades para elogiar tudo. Depois do almoço, ela disse-me que tinha comido muito bem, que tudo estava extremamente bom.

            O Marquês de Pombal (17) era a única pessoa que trazia a sua cama, com a exceção dos cinco da Família Real. Tudo o resto foi proporcionado por nós, o que no seu conjunto deu algumas centenas que nós obtivemos de Leiria e das suas vizinhanças, sendo impossível obter um número tão grande neste lugar. Os criados de libré e os soldados ficaram deliciados por descobrirem que tinham camas decentes para dormir. Era um luxo de que desfrutavam pela primeira vez desde que tinham deixado Lisboa a 3 de maio. Durante todo o tempo da sua estadia nas Caldas, tinham sido obrigados a dormir em palha solta nos estábulos, no chão ou onde quer que encontrassem um lugar para se deitarem, tal é a dureza que estas pobres pessoas sofrem quando viajam com a Corte e é provavelmente a razão porque cometem muitos ultrajes, mas eu devo repetir outra vez que o bom comportamento deles aqui lhes dá direito a todas as indulgências.

            A Família Real é servida à mesa pelos Camaristas e Reposteiros. Quando a Rainha entra na sala de jantar, é presenteada pelo seu Camarista ajoelhado com água e uma toalha para lavar as mãos e, depois de isto estar feito, senta-se e o Camarista fica de pé atrás da sua cadeira. A mesma cerimónia é observada com o resto da Família Real. Depois, o Camarista trincha a comida que eles escolherem comer e, quando é preciso alguma coisa dos aparadores, os Reposteiros levam-na ao Camarista que a põe em cima da mesa. Quando é pedido água ou vinho, o Reposteiro tira a rolha e leva a garrafa e um copo numa salva ao Camarista, o qual, ajoelhado, verte o líquido e o apresenta à Rainha, pondo-se na mesma atitude para receber o copo quando ela acabou de beber.

            Quando o jantar acaba, lavam novamente as mãos e retiram-se para beber café. Eles são muito exigentes a respeito da água que bebem a qual é trazida de Lisboa em garrafões, alguns do Chafariz da Praia (18) e alguns da Ajuda. Um dos Reposteiros, que era o Provedor das Águas, reparei que não tinha mais nada que fazer do que guardar a chave dos armários de água e garantir que havia sempre uma garrafa cheia de água no aparador e numa mesa em cada um dos apartamentos. A garrafa de Sua Majestade era distinta por ter uma fita branca atada em torno do gargalo. O clarete era o vinho mais usado e mesmo assim só numa quantidade muito pequena.

            Quanto a Sua Majestade, achei-a muito melhorada no seu aspeto desde que aqui estivera no ano de 1786, estando agora mais gorda, com melhor cor e com uma expressão mais alegre. A Princesa é algo mais magra, mas mesmo assim mantém um aspeto agradável. A Infanta D. Mariana é mais gorda e, embora não seja elegante, tem algo de agradável e majestoso na sua aparência. A Infanta D. Carlota parece igual em relação a quando esteve aqui na última vez, viva mas muito pequena, nem o seu aspeto indica que ela venha a crescer muito mais. Já vi crianças tão grandes com nove anos de idade; ela agora tem catorze.

            A Rainha, a Princesa e as Infantas estavam vestidas de seda, e cada dia tinham um vestido diferente. Sua Majestade usa o cabelo entrelaçado e levantado na parte da frente terminando numa peruca lisa e apertada, na parte de trás terminando num saco como o dos senhores. Ela usa um chapeuzinho fora de moda com a aba virada para cima que leva na mão ou debaixo do braço. É raro pô-lo na cabeça a não ser quando anda a cavalo. A Princesa tinha o cabelo frisado à frente e apanhado atrás. Ela usava um chapéu grande à moda inglesa, em redor de cuja coroa havia uma fita com um nó de um lado. As duas Infantas estavam quase ao mesmo estilo da Princesa. Todas tinham cintos largos de veludo preto em torno da cintura, apertados à frente com dois monstruosamente grandes medalhões de aço, que acredito que fossem ingleses.

            As Donas e Açafatas não são autorizadas a usar vestidos de andar a cavalo ou chapéus, mesmo que a viagem seja longa e o vento, o sol e a poeira sejam incómodos. Elas são obrigadas a viajar em liteiras vestidas da mesma maneira que nós ingleses fazemos nas noites de sexta-feira quando vamos para a Sala Comprida (19). Ninguém é autorizado a sentar-se na presença de qualquer membro da Família Real, exceto o Arcebispo que é confessor da Rainha. Os Camaristas, quando estão cansados de estar de pé, podem descansar prostrando-se sobre um só joelho enquanto conversam ou jogam às cartas. As Donas e as Açafates têm por vezes autorização para se sentarem no chão.

            A despesa deste entretenimento foi de cerca de uma quinta parte do que é calculado pelas pessoas em geral, apesar de o meu irmão ter amplamente recompensado os Cozinheiros e os Copeiros pelo seu trabalho. Antes de chegarem, tudo estava pronto para eles de tal forma que, quando chegaram, não tinham mais nada a fazer à exceção de começarem o seu trabalho. Não pedimos nada da Casa de Sua Majestade a não ser os damascos de pendurar nas portas e janelas e os grandes cobres de uso na cozinha. Louça, Damasco, Mesa e Pratos, nós tínhamos o suficiente para o serviço das várias mesas. Tendo tido alguma razão para esperar esta visita no ano passado, nós arranjámos um grande abastecimento de facas, garfos e colheres de prata de Inglaterra, da melhor qualidade e da moda mais nova, tudo isto sendo cuidadosamente preservado para a próxima ocasião, que provavelmente será no próximo ano porque a Família Real tem a ideia de ir a Coimbra.

            Aconteceu uma pequena anedota que quase não vale apena mencionar a não ser como prova da resolução determinada de Sua Majestade de se agradar com tudo o que ela encontrasse. A Rainha e a Princesa têm cada uma delas uma chaleira, uma chávena e um pires particulares de que sempre fazem uso. A Princesa trouxe o conjunto dela. A criada que empacotou as coisas perguntou à Rainha se devia empacotar também o conjunto dela, ao que Sua Majestade disse «Não», porque sabia muito bem que Stephens tinha proporcionado tudo o que era preciso e estava determinada a só usar o que pertencesse a esta casa.

Notas:

1- Visconde de Ponte de Lima.

2- Inácio de São Caetano, arcebispo de Tessalónica.

3 -Secretário de Estado dos Assuntos Internos e primeiro-ministro em exercício.

4- D. Benedita, princesa do Brasil, irmã de D. Maria I e mulher do príncipe D. José.

5 -D. Mariana (irmã de D. Maria I) e D. Carlota Joaquina (mulher do príncipe D. João).

6- Madame Arriaga era uma açafata sénior e a ajudante feminina favorita de D. Maria I.

7- A sala onde o vidro era cortado, gravado e pintado com flores.

8- Sésostris (1695) de Hilaire Bernard de Longepierre (traduzida para português).

9- Gelados e sorvetes.

10- D. José, príncipe do Brasil, filho mais velho de D. Maria I.

11- Padre Rocha, frade dominicano, confessor e companheiro de lnácio de São Caetano.

12- Foz da Vieira, foz do rio Liz, onde engenheiros estavam a remover areais, que estreitavam o canal de entrada.

13- A serração de propriedade estatal e o pinhal real de Leiria.

14- O. José e O. Benedita, príncipe e princesa do Brasil.

15- Nossa Senhora da Nazaré, com a respetiva capela.

16- Uma receção para dar as boas-vindas à Rainha quando o bergantim regressasse à cidade.

17- 2.º marquês de Pombal, cavalheiro do quarto de dormir.

18- Uma das fontes altamente decoradas de Lisboa que abasteciam o povo de água.

19- Sala de baile das Salas de Reunião Britânicas, em Lisboa.


 

Outros Dados (Elenco):

Maria I (1734-1816)

Filha mais velha de D. José I e de D. Mariana Vitória de Bourbon. Casou com o seu tio D. Pedro em 1760. Herdou o trono em fevereiro de 1777. Foi declarada louca em 1792. Acompanhou a sua família até ao Brasil em 1807/8 e morreu aí em 1816. O seu corpo foi trazido para Lisboa em 1821 e sepultado na basílica da Estrela.

Stephens, Philadelphia (1750/1-1824)

Vivia com o irmão na Marinha Grande. Escreveu um relato da visita real em 1788.

Stephens, William (1731-1803)

Proprietário da Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande. Recebeu a visita de D. Maria I e da sua família em 1786 e, durante três dias, em 1788.

Ponte de Lima, visconde de (1727-1800)

Também conhecido como 14.º visconde de Vila Nova de Cerveira. O seu pai morreu na prisão em 1762. Nomeado secretário de Estado em 1777. Tornou-se presidente em exercício do Tesouro Real depois da morte do 3.º marquês de Angeja em março de 1788. Tornado marquês de Ponte de Lima em 1790.

São Caetano, Inácio de (1719-1788)

Confessor de D. Maria I e um dos seus principais conselheiros. Recebeu o título de arcebispo de Tessalónica. Nomeado para o gabinete de D. Maria I em agosto de 1787, tornando-se informalmente no ministro principal. Morreu em Queluz em novembro de 1788.

Benedita (1746-1829)

Irmã e nora de D. Maria I. Quarta filha, e a mais nova, de D. José I. Casou com o sobrinho, príncipe herdeiro D. José, em 1777 (tornando-se conhecida como princesa do Brasil). Morreu em Queluz em 1829.

Mariana (1736-1813)

Irmã de D. Maria I. Segunda filha de D. José I. Morreu (solteira) no Brasil em 1813.

José (príncipe herdeiro, 1761-1788)

Filho mais velho de D. Maria I. Primeiro filho de D. Maria I e de D. Pedro III. Casou com a tia, Benedita, em fevereiro de 1777 e tornou-se príncipe herdeiro três dias depois. Morreu com varíola em setembro de 1788.

Pombal, 2.º marquês de (1748-1812)

Filho mais velho do 1.º marquês de Pombal. Autorizado a permanecer na corte quando o seu pai caiu do poder em 1777. Presidente do Senado de Lisboa e cavalheiro camarista.

Carlota Joaquina (de Bourbon, 1775-1830)

Nora de D. Maria I. Filha de Carlos IV de Espanha. Casou com o príncipe D. João em 1785. Tornou-se rainhaconsorte quando D. João herdou o trono em 1816. Morreu em Lisboa em 1830.

Doroteia (1739-1771)

Irmã de D. Maria I. Terceira filha de D. José I. Morreu (solteira) em janeiro de 1771.

João V (1689-1750)

Avô de D. Maria I. Casado (1708) com Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo I. Depois de uma grande trombose em 1742, sofreu de má saúde crónica durante o resto da sua vida. Morreu em Lisboa em 1750.

João (mais tarde João VI, 1767-1826)

Segundo filho de D. Maria I. Casou com uma princesa espanhola, D. Carlota Joaquina, em 1785. Tornou-se príncipe herdeiro pela morte do seu irmão mais velho D. José em 1788. Começou a assinar documentos em nome da sua mãe em 1792. Tornou-se príncipe regente em 1799. Herdou o trono em 1816.


 

Roberts, Jenifer, 2012, D. Maria I – A Vida Notável de Uma Rainha Louca, Alfragide, Casa das Letras

Roberts, Jenifer, 2012, D. Maria I – A Vida Notável de Uma Rainha Louca, Alfragide, Casa das Letras

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