História
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Os Stephens da Marinha Grande

by on 25 de Janeiro de 2014
 

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Jane Smith, serviçal no castelo de Pentillie, em Landulph, na Cornualha, registou William sem apelido de família, como sendo filho de pai incógnito, no dia 20 de Maio de 1731. Só doze anos depois, tendo enviuvado, pôde Oliver Stephens, professor, casar com Jane e criar a sua família, na qual nasceram mais quatro filhos, Lewis, Jedediah, John James e Philadelphia.

Vivendo então em Exeter, William frequentou a escola local, onde, sob a orientação de um professor recém – chegado de Oxford, aprendeu matemática e contabilidade, mas também literatura e teatro. O pai, que tivera uma educação cuidada, pôde acompanhá-lo nos estudos, mas a sua situação financeira não permitia uma formação universitária. E assim, com quinze anos, William embarcou num navio mercante com destino a Lisboa, onde iria ser aprendiz de um tio paterno que aqui tinha o que hoje chamaríamos um escritório de contabilidade.

William sentiu -se bem no seio da Feitoria Inglesa, onde os negociantes prosperavam graças a grandes privilégios sancionados principalmente pelo tratado de Methuen, de 26 de Dezembro de 1703. Essa situação, que permitiu a William o convívio com figuras destacadas tanto da comunidade inglesa como da sociedade portuguesa, suscitava má -vontade da parte dos comerciantes nacionais, que ao longo da vida lhe levantaram grandes problemas, que só a protecção do Marquês de Pombal e de outros governantes que se lhe seguiram pôde contornar. Mas o tio declarou falência em 1750, e só no ano seguinte William conseguiu organizar a sua vida como representante de George Medley, um membro da Feitoria que regressou ao seu país e o deixou, juntamente com outro rapaz, responsável pelo seu negócio de exportação de vinho, fruta e sal. A sua prosperidade levou a que fosse eleito membro da Feitoria, em 1752, mas a situação viria a ser seriamente afectada pelo terramoto de 1755, que, por outro lado, abriu nova saída para a sua actividade.

A situação política portuguesa sofrera alterações desde a sua chegada a Portugal, e o terramoto deu um inesperado destaque à figura do ministro de D. José, Sebastião José de Carvalho e Melo, a quem o Rei incumbiu de reorganizar a vida das populações afectadas pelo terramoto e a reconstrução de Lisboa. William, que, como a maioria dos membros da Feitoria, vivia em precárias circunstâncias, tanto de alojamento como financeiras, pois Medley fechara a sua casa de Lisboa, viu no projecto da nova cidade uma hipótese de negócio. Para essa reconstrução iam ser precisas grandes quantidades de materiais, e ele investigou as técnicas necessárias àquele que lhe pareceu mais imediato, a cal, de que havia alguns produtores mas sem grande qualidade. Das suas investigações, ficou a saber que era essencial o tipo de combustível para os fornos da cal. Em vez de madeira de pinho, como então se praticava, devia utilizar -se carvão de pedra, que teria que mandar vir do País de Gales para os fornos a construir em Alcântara, que lhe pareceu a melhor zona, entre outras razões pela proximidade de Lisboa e por dar acesso a um vale que facilitaria o transporte da cal. Entusiasmado com o projecto, o Ministro deu -lhe o seu aval, e o Rei assinou uma concessão por quinze anos, com um empréstimo que permitiu a William alugar uma casa perto do que seriam os fornos e para onde foi viver com o tio, que se encarregaria da contabilidade. Os fornos a construir implicavam uma nova tecnologia e melhores resultados do que os da produção tradicional. Começaram a funcionar em meados de 1758, mas foi complicado resolver a situação do combustível inglês, sobre o qual o Tesouro, pouco informado das circunstâncias, começou por lançar um imposto que tornava o projecto impraticável. Resolvido esse problema, os primeiros resultados foram extremamente positivos, mas a situação política interna e externa obrigou à suspensão das obras em Lisboa, e mais uma vez William se viu numa situação desesperada.

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Entretanto,nunca perdera o contacto com a família e declarara a sua intenção de receber e apoiar os irmãos. Quando os pais decidiram aceitar a oferta, William estava falido, mas sem coragem de o declarar, e fez o que lhe era possível para organizar a vida dos quatro irmãos em Lisboa: Lewis e Jedediah seriam aprendizes em casas comerciais inglesas, e Philadelphia e John James, que fora preparado na escola do Christ’s Hospital de Londres para as actividades profissionais do comércio, ficariam a viver com ele, numa situação só possível pelo apoio que lhederam os membros da Feitoria.

No Verão de 1764, o futuro Marquês de Pombal pôde retomar o projecto de reconstrução de Lisboa e iniciar finalmente um percurso que viria a fazer de William e depois do irmão John James donos de uma considerável fortuna. Sempre atento, William conseguiu renovar os períodos de isenção de impostos, contando com o apoio do Ministro, não obstante a má -vontade que existia entre ele e os ingleses, em torno dos privilégios de que estes desfrutavam e que aquele tentava cercear.

Todavia, a sua relação com William era boa, porque reconhecia as suas qualidades de iniciativa e o modo correcto como sempre correspondera aos seus compromissos. No projecto de modernização do país, o Marquês ultrapassara os desaguisados com os estrangeiros e tentar a obter a colaboração dos mais aptos.

Entre os materiais necessários à reconstrução de Lisboa, falhou um essencial, o vidro, que provinha de uma única fábrica, criada por irlandeses, cujo dono mais recente, John Beare, se vira obrigado a transferi -la de Coina para a Marinha Grande, onde era mais fácil o acesso ao combustível para alimentar os fornos. Mas as dificuldades de toda a ordem que lhe foram levantadas na região obrigaram -no a fechar em 1767. Atendendo à premência da produção de vidraças para as casas de Lisboa, o Marquês aconselhou -se com Edward Campion, o sócio de Beare encarregado da venda do vidro na capital, que indicou o nome de William Stephens, logo aceite. Contudo, William recusou. Com o negócio da cal a correr nas melhores condições e porventura recordando os tempos difíceis que passara, não lhe era agradável a ideia de deixar a família por um lugar distante para um empreendimento para o qual não tinha qualquer preparação. Só ao fim de dois anos de insistência, finalmente do próprio Rei, se dispôs a tentar esta nova aventura. As condições em que se dispunha a corresponder ao convite foram expressas em quinze pontos de um decreto que o Rei assinou no dia 7 de Julho de 1769. Delas constava um empréstimo da Junta do Comércio de oitenta mil cruzados sem juros e, talvez o mais importante, a utilização sem restrições da madeira seca e de ramos do pinhal de  Leiria, além da isenção de impostos na venda do vidro.

William Stephens deixou os fornos da cal entregues ao irmão John James, que se encarregaria também da venda do vidro, e chegou à Marinha Grande no dia 23 de Julho. A mesma celeridade com que tudo foi ajustado manteve -a William na reabertura da fábrica e na organização do trabalho, que se iniciou no dia 16 de Outubro. Os primeiros operários, sete mestres, cinco assistentes e três aprendizes, passaram em breve a 150, como consta do primeiro relatório anual, de Dezembro do ano seguinte. Estes números não incluíam os encarregados de obter e transportar o combustível em carros de bois, que eram já setenta, em vez dos vinte e cinco iniciais.

A Marinha Grande era na altura uma povoação pouco mais que inexistente. Mesmo os antigos empregados de John Beare tinham, na sua maioria, regressado às suas terras, mas alguns voltaram, ao saber que a fábrica ia reabrir. No entanto, formavam uma população desordenada e mal instalada, para cujo bem -estar o novo patrão se encarregou também de tomar medidas. Segundo Jennifer Roberts, a mais recente investigadora da indústria do vidro na Marinha Grande, que publicou um trabalho exaustivo, Glass, em 2003, William Stephens criou um verdadeiro estado -providência na Marinha Grande.

Promovendo possibilidades de melhor alojamento, pagava bons salários, abriu uma escola elementar para os aprendizes, que aí eram ensinados a ler, a escrever e desenhar, importante para o fabrico de consumo, que William iniciou logo a par das vidraças e utilizando os catálogos que Bear e deixara na fábrica, e que desenvolveu até conseguir fabricar cristal de qualidade.

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Aprendiam também geometria e música. Além de um posto de primeiros socorros grátis para os acidentes dos operários, que recebiam também um subsídio de doença, igualmente as reformas foram acauteladas. William desenvolveu a agricultura na zona, tendo inclusivamente trazido a Portugal Thomas Coke, um especialista inglês que conseguiu transformar o solo arenoso e estéril da Marinha Grande em terra produtiva, que fornecia cereais, fruta e hortaliça à população. Conseguiu ainda um fornecimento regular de carne, construindo no complexo fabril um matadouro e um talho. Ao abrigo das medidas que lhe foram concedidas, fechou todas as tabernas da região, mantendo apenas uma, que fornecia, sob controlo e a pronto pagamento, vinho de boa qualidade. Esta disciplina veio alterar o comportamento dos operários, que agora tinham uma alimentação mais saudável e condições novas de vida e distracção: chamou professores de música e dança, e todos os sábados havia concertos em casa de William, que construiu até um teatro, onde se chegou a representar Shakespeare. Nicolau Luís, o dramaturgo português mais famoso do século XVIII, registou a representação de Olimpia de Voltaire, numa adaptação sua.

O transporte do vidro para Lisboa era complicado, porque não havia estradas, pelo que William preferiu utilizar barcos, que partiam do porto de S. Martinho, próximo da Marinha Grande. Quando finalmente se abriu uma estrada de Lisboa para o Porto, William construiu à sua custa, em 1793, uma ligação à Marinha Grande, que ficou conhecida como “a estrada do Guilherme”.

A prosperidade que a indústria do vidro trouxe a William assentou sobretudo nas medidas monopolistas que ele conseguiu renovar constantemente, mesmo depois da queda de Pombal, já que D. Maria I, que por duas vezes o visitou, tendo-se mesmo instalado com a sua corte por alguns dias, o admirava pelas suas qualidades de trabalho e pelo seu êxito.

A manutenção das medidas que o apoiavam eram essenciais à sua indústria, mas despertavam a má -vontade de outros comerciantes, que constantemente tentavam superá -las. Eram essencialmente duas: o corte da vidraça e a venda de objectos de vidro e cristal importados. Quanto à primeira, há que atender às normas que regiam a reconstrução de Lisboa. De modo a facilitar e apressar a sua execução, tinham sido estabelecidas medidas estandardizadas para portas, janelas e varandas. No caso do vidro, ele vinha já pronto da fábrica, sem necessidade de intermediários que o encareceriam. Quanto à segunda, a verdade é que se conseguiam preços mais baixos com a importação inclusivamente de cristal da Boémia, que, além disso, os comerciantes diziam ser de melhor qualidade. Os preços praticados por William eram, por decreto da fundação, os que tinham sido estabelecidos com Pombal, e ele não queria abdicar dessa determinação. Além disto, era imprescindível a isenção de impostos, que William conseguiu manter, com maior ou menor dificuldade.

Tendo estabelecido solidamente a sua indústria, William Stephens, que vivia na mansão que construíra na Marinha Grande, elogiada por todos aqueles que por lá passaram, incluindo o Marquês e figuras inglesas destacadas que visitaram Portugal, como o arquitecto James Murphy e os poetas William Mickle, o mais célebre tradutor inglês de Os Lusíadas, e Robert Southey, chamado o primeiro lusófilo inglês. Todos eles registaram, nos seus relatos sobre Portugal, o modo como foram recebidos na Marinha Grande, em casa do industrial que era já um grande senhor, e a qualidade do empreendimento que ele construira.

Nesta altura, já William construira em 1767 uma grande casa em Lisboa, na esquina da Rua de S. Paulo com a Rua das Flores, no espaço que foi baptizado como Largo dos Stephens. Nela vivia John James, a quem se juntaram em breve os outros dois irmãos, Lewis e Jedediah. Tendo Philadelphia ido viver para a Marinha Grande, onde presidia à organização da casa e ajudava o irmão a receber os visitantes e a superintender às actividades culturais, segundo parece sobretudo à administração do teatro, em 1768 foi viver para a casa de Lisboa a filha de Edward Campion, o amigo que levara ao convite de William para a empresa da Marinha Grande. Jane orientava o movimento da casa e dos criados entretanto contratados.

Também a respeito desta casa o Marquês de Pombal interveio para apoiar William. Não era permitido aos estrangeiros que tivessem a posse perpétua de propriedades, o que foi torneado por dois decretos do Ministro determinando a autorização para “possuir, manter e transmitir as suas propriedades aos herdeiros e sucessores, mesmo se estrangeiros, independentemente de qualquer lei e costume que determinassem o contrário e que são neste caso dispensadas”.

D. Maria renovou todas as condições que tinham sido criadas para os irmãos Stephens desenvolverem a sua indústria e comércio, mantendo a isenção de impostos para a importação de matérias -primas e para exportação dos seus produtos. Tomou ainda uma determinação que viria a ter consequências no século XIX, quando o país se reorganizou depois das Invasões Francesas: as fábricas de vidro nunca seriam divididas por morte de William, John James e dos seus sucessores, nem seria autorizada a nomeação de qualquer sócio estranho à família. Segundo se explicava, diz Jennifer Roberts que “o objectivo era manter a integridade desta útil e bela fábrica para sempre, para benefício deste reino”1.

Entretanto, também os irmãos de William prosperavam. Em 1778, Lewis decidiu expandir o seu negócio, criando a Lewis Stephens & Company, para a qual precisava de colaboradores.

Recordando o primo John Lyne, que o criara depois da morte dos pais, Lewis escreveu -lhe dizendo que estava disposto a encarregar -se de dois dos seus filhos como aprendizes, oferecendo -lhes alojamento na casa de família. John era reitor da paróquia de St. Ive, na Cornualha, e simultaneamente professor na Grammar School em Liskeard, onde vivia com a mulher e os quatro filhos, com grandes dificuldades, porque era difícil a situação económica da Inglaterra nessa altura. Aceitou de bom grado a proposta de Lewis, resolvendo o caso de maneira original. Chamou o filho mais velho e perguntou -lhe “O que preferes ser? Um clérigo pobre ou um comerciante rico?” Richard preferiu a primeira hipótese, de uma vida calma e sem ambições. Contrariamente, os dois irmãos seguintes, Charles e Joseph, escolheram trabalhar no comércio. E assim, o primeiro veio logo para Portugal, trazido por Philadelphia, a quem Lewis pedira que o fosse buscar, para que não fizesse a viagem sozinho. Joseph viria mais tarde, quando terminasse a sua educação.

Mas não ficariam por aqui as alterações na vida de Lewis, que no ano seguinte casou com Mary Bulkeley, filha de um rico negociante americano. Também o casal foi viver para a Casa do Largo dos Stephens, suficientemente grande para acolher toda a família, mesmo quando William e Philadelphia vinham a Lisboa, o que aconteceu por ocasião do casamento. Foi no baile que então teve lugar em honra dos noivos que Sir Robert Walpole, o então Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário da Inglaterra em Lisboa, apresentou Mickle a William. Da conversa destes dois homens nasceu o interesse do poeta pelas realizações do industrial, do que resultou que fossem os dois à Marinha Grande para a visita que já referi. Mickle ficou lá três semanas, durante as quais visitou Alcobaça, Batalha e Pombal, onde se encontrou com o Ministro exilado.

A associação de Charles Lyne à família Stephens veio a revelar-se próspera e, por herança, a reunir as duas fortunas, o que fez de John James, o último sobrevivente, o mais rico plebeu da Grã -Bretanha, como ficou conhecido na época, em Inglaterra.

guilh_stephensEntretanto, John James tinha uma posição destacada na Feitoria. A vida social dessa Instituição, na qual Charles Lyne também passou a tomar parte, era bastante intensa, mas fazia falta o que os ingleses chamavam Assembly Rooms, ou seja, um espaço de reuniões onde se realizassem também as festas e bailes tão do agrado dos seus membros. As reuniões de negócios faziam -se em casa do cônsul, e há a tradição de que teria havido instalações da Feitoria provavelmente na zona entre S. Paulo e o que é hoje o Largo de Camões, ao longo da Rua do Alecrim, zona essa onde se desenvolviam principalmente as actividades da Feitoria. Mas nada ficara depois do terramoto, e a situação económica não era propícia a investimentos de lazer. Até que, numa época mais estável, em 1783, os membros da Feitoria aproveitaram a construção em curso de uma grande casa “que dava para a Rua do Loreto, entre a Rua do Norte e a das Gáveas” para promoverem a instalação condigna da sua Assembleia.

Para negociar o aluguer de dois andares desse edifício com o seu proprietário, o 4.º Marquês de Marialva, foram designados três membros da Feitoria, um dos quais era John James, a quem coube também o que então se chamava o risco, ou seja, o projecto do que se pretendia construir. Todas as condições fazem parte do contrato de arrendamento guardado na Torre do Tombo (Cartório Notarial n.º 1, maço 129, Livro “6 de Agosto de 1783 – 31 de Outubro de 1783).

Além de um salão para baile com o pé direito dos dois andares, havia uma sala para banquetes e outras para bilhar, cartas e chá, além das estruturas de apoio como a cozinha. Talvez este encargo tenha sido dado ao mais novo dos Stephens, que recebeu uma placa de prata pelo seu trabalho, pela experiência social que tinha da sua grande casa de S. Paulo. O certo é que o resultado foi brilhante, a avaliar pelas palavras que o Embaixador francês em Lisboa, 1786 -87, o Marquês de Bombelles, registou no seu diário, sobre “a assembleia tão luzida e imponente” que frequentava o long -room inglês, onde dançou o Embaixador Sir Robert Walpole, num grupo que às vezes acompanhava.

Quanto a William, o apoio da Rainha não o fez esquecer o que devia ao Marquês, que visitava regularmente no seu exílio de Pombal. É de 1777 um episódio que vale a pena referir.

Sabendo que tinha sido publicada em Londres uma obra que se lhe referia, o antigo ministro, ou antes, a Marquesa, segundo John Smith, Conde da Carnota, conta nas sua Memoirs of the Marquis of Pombal, mostrou interesse na sua tradução, o que Philadelphia se ofereceu para fazer. Esta intervenção nunca foi completamente esclarecida. As cartas que constituem esta obra são anónimas, tendo sido por vezes atribuídas a Philadelphia ou até ao próprio Marquês, tendo então sido ela a traduzi -las para inglês. Esta confusão levou a que a tradução francesa de 1796 cite Philadelphia Stephens como autora, embora a edição original, de 1777, tenha sido também atribuída a John Blankett, secretário do Duque de Manchester.

Nos últimos anos do século XVIII, William já tinha contratado um novo administrador para a fábrica, José de Sousa e Oliveira, que iria manter o nível do empreendimento, contratando um professor de música que assegurou concertos e peças semanais, além de uma ópera por mês. Também lhe coube atravessar os anos mais difíceis da história desta indústria, com as Invasões Francesas.

William, com mais de sessenta anos e pouca saúde, retirou -se para junto da família em Lisboa, onde Lewis morreu subitamente em 1795. Apesar de que os irmãos Lyne lhe tinham sido pouco leais nos últimos tempos, Lewis deixou-lhes em testamento boa parte da sua fortuna, para além do que legou aos irmãos e doou a uma escola para crianças pobres em Exeter, recordado do apoio que recebera na infância.

Quase ao mesmo tempo, os irmãos Lyne casaram com filhas de membros da Feitoria e, donos de uma boa situação financeira, acabaram por regressar a Inglaterra, nos primeiros anos do século XIX, numa altura em que a situação europeia começava a complicar -se, levando muitos dos ingleses residentes em Portugal a enviar grandes somas para o seu país natal, onde esperavam ter maior segurança.

Em 11 de Maio de 1802, em vésperas de fazer 72 anos, William morreu na sua casa de Lisboa. O seu testamento fez de John James o único herdeiro e executor, com uma cláusula possivelmente inédita. Reforçando as disposições de D. Maria I quanto à posse da fábrica, dizia ao irmão que, na altura própria, “pedisse à Rainha que comprasse a fábrica com tudo o que lhe pertencia”, explicando a razão por que o fazia: “Como a Coroa é a proprietária do pinhal de que a fábrica depende, a sua perpetuação em mãos privadas precisaria da protecção contínua da monarca para evitar a maldade e inveja de que frequentemente ele fora vítima”.

John James, que tudo devia a William, ficou destroçado com a sua morte e teve uma atitude que viria a complicar a sua situação quando as circunstâncias políticas praticamente destruíram a obra da Marinha Grande: fechou à chave o escritório do irmão, proibindo qualquer pessoa de lá entrar.

O resultado foi que lá ficaram documentos importantes que garantiam os benefícios concedidos à família Stephens e que só foram conhecidos vinte e três anos depois, quando da morte de John James e quando já todos eles estavam ultrapassados pelas circunstâncias políticas do país. Pouco depois morreu Jedediah. Quanto a John James, tendo acompanhado Philadelphia a Inglaterra na iminência da invasão francesa, regressou a Lisboa em 1804, recusando -se a partir mesmo quando o cônsul inglês aconselhou todos os membros da Feitoria a abandonar a capital portuguesa e quando o Regente lhe ofereceu um lugar na sua comitiva. Todavia, levara para Londres grande parte da sua fortuna, o que voltou a fazer dois anos depois. Ao regressar em 1807, veio encontrar alguns dos seus privilégios revogados e mostrou-se incapaz de lidar com a situação. O futuro D. João VI, então Príncipe Regente, na iminência da ida para o Brasil, não chegou a ter oportunidade de atender – ou talvez mesmo de ter conhecimento – das petições que ele lhe dirigiu. Com estes problemas e a dificuldade em escoar a produção da Marinha Grande, John James, sem querer alterar de qualquer modo a situação em que William deixara a fábrica, foi acumulando caixotes nos armazéns da Marinha Grande e de Lisboa e foi pagando do seu bolso as despesas da fábrica em laboração e todos os salários.

Nos tempos difíceis da invasão de Lisboa pelos franceses, chegou a estar preso durante mais de quatro meses no que fora o hospital inglês, tendo antes disso sido sequestradas a fábrica, onde trabalhavam 500 operários, e a sua casa no Largo dos Stephens, onde entretanto se tinham instalado oficiais franceses e que foi vítima do saque levado a cabo pelos franceses em retirada nas condições altamente favoráveis da infausta Convenção de Sintra. Nesta altura, a fábrica recomeçou a funcionar, mas em circunstâncias precárias de que não voltou a recompor -se, mesmo a partir de 1812, reconstruída depois da devastação provocada pela última invasão francesa.

Na sua cegueira de manter tudo exactamente como o irmão deixara, John James não compreendeu a evolução dos tempos e da tecnologia provocada pela Revolução Industrial que deveria ter alterado o modo de funcionamento e a baixa de preços que provocou em toda a Europa. Em vez disso, continuou a política de pedir a manutenção das regalias que tinham promovido a fundação da fábrica, pedidos a que já ninguém dava atenção, tão complicada era a situação política. Depois da sua morte, a fábrica foi -se modernizando e melhorando a qualidade da sua produção, de tal modo que os seus cristais receberam uma menção honrosa na Grande Exposição Industrial de Londres, em 1851.

Solitário na sua grande casa, pois toda a família, incluindo Philadelphia, tinha regressado definitivamente a Inglaterra, John James viveu os últimos anos da sua vida de um modo que um dos primos Lyne que o visitou descreveu como muito estranho. Todos os dias abria a sua casa para o jantar a todos os que o quisessem acompanhar. Proporcionava também a leitura de jornais e pouco dizia, ouvindo mais do que falando.

No seu testamento dispôs que este hábito se mantivesse durante um ano. Morreu no dia 12 de Novembro de 1826, tendo testemunhado ainda os primeiros tempos das lutas liberais em Portugal. Deixou todas as suas propriedades à nação portuguesa, esperando que o Governo nomeasse um administrador que soubesse orientar a sua indústria “para o bem do país em geral e para sempre”.

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1 ROBERTS, Jennifer – Glass. The Strange History of the Lyne Stephens Fortune.

Chippenham: Templeton Press, 2003.

FONTE CONSULTADA

– Trecho extraído de: Famílias inglesas e a economia de Portugal Fundação Robinson

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