História
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Marinha Grande – Cap. X – XI

by on 21 de Setembro de 2014
 

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Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal

Marinha Grande

 

 

 

 

 

X

      Para completarmos as noticias que deixamos aqui relativamente á Marinha Grande, falta-nos fallar do pinhal de Leiria, que está proximo d'aquelle logar, e cuja administração geral das matas ali tem a sua séde.

      Diversificam as opiniões dos antigos ácerca de quem foi o fundador do pinhal. Querem uns que se remonte ao tempo do sr. rei D. Sancho II, meado o seculo XIII, querem outros que seja do sr. rei D. Diniz, no primeiro quartel do seculo XIV, com o fundamento não só da permanencia da rainha Santa Isabel, que elle muito estimava, em Leiria,41 mas pelo desejo de desenvolver as construcções navaes, coisa que tinha em grande consideração, e pelo amor com que se dedicava aos negocios florestaes e agricolas, que lhe valeu os cognomes com que vem citado nas chronicas.

      Sem entrarmos na averiguação minuciosa de tal especie, não errarão certamente os que disserem que foi com effeito o sr. rei D. Diniz, quem deu aa pinhal de Leiria as proporções com que passou ás épocas subsequentes, com maior ou menor desenvolvimento, conforme os reinados e os governos tem olhado mais ou menos attentamente para assumpto de tamanha importancia.

      Até o brilhante reinado do rei afortunado D. Manuel se conservou o pinhal de Leiria muito prospero, e «a elle deve Portugal uma boa parte da sua gloria maritima, pela abundancia de madeiras que então fornecia, e com que se construiram tão numerosas frotas que, saindo do Tejo, percorriam os mares até as regiões mais longiquas, infundindo em toda a parte respeito e admiração.» 42

      Além dos beneficios que trouxe ao estado, o pinhal trouxe particularmente aos povos que o circundam, o grandissimo de evitar e suster a corrente das areias, que inundavam e destruiam os campos de Leiria. As plantações feitas, desde tempos remotos até hoje, tem sempre tido por principal proposito aquelle beneficio aos agricultores.

      O arvoredo que ali predomina é o pinheiro bravo (pinus maritimo) e o manso (pinus pinea).43 Outras grandes arvores se tem disposto para enriquecer a extensa mata, afim de dar variedade aos seus productos, sobretudo durante as desveladas administrações dos srs. conselheiros José de Mello Gouveia e Ernesto de Faria.

      O pinhal de Leiria tem hoje, pouco mais ou menos, uma superfiicie de 9:531,9000 hectares arborisada, 183,0000 hectares semeada, e 2:103,7000 hectares por arborisar. Calcula-se que a massa florestal vale 702:500$000 réis, e que o solo tem o valor estimativo de 116:230$650 réis. 44

      Esta riquissima e extensa mata confina pelo N. com a foz do rio Liz e a freguezia da Vieira; pelo E. com as freguezias da Marinha Grande, Amor e Pataias; pelo Sul com a charneca dos freires de Alcobaça e valle de Agua de Medeiros; e pelo O. com o Oceano e volumosos montes de areia.

      O edifiicio, onde funcciona a administração das matas, foi começado na época em que o coronel Varnhagem ali geria, no segundo quartel do presente seculo, e concluido no tempo do sr. conselheiro João de Fontes Pereira de Mello, que substituiu aquelle esclarecido administrador.

      O illustrado ministro da marinha Martinho de Mello e Castro, quando no fim do seculo passado reformou as superintendencias dos pinhaes reaes, deu uma administração especial aos de Leiria, compondo então o pessoal d'este modo:

1 administrador — 1 juiz conservador (logar que estava annexo ao de corregedor de Leiria), como fiscal — 1 mestre do pinhal — 1 fiel dos armazens, no porto de S. Pedro de Muel — 1 guarda, na fabrica da madeira — 1 cabo dos guardas do pinhal — 6 guardas — 1 patrão para os saveiros de conduzir madeira para bordo das embarcações do arsenal da marinha.

      O pinhal nacional de Leiria tem actualmente o seguinte pessoal:

1 administrador — 1 thesoureiro — 1 escrivão — 2 amanuenses45— 1 mestre — 1 cabo de guardas — 2 capatazes —13 guardas de numero46 — e guardas extraordinarios (sem numero fixo).47

      Divide-se em duas grandes divisões a administração particular do pinhal de Leiria: l.ª do lado do S., na qual superintende o administrador, com residencia na Marinha Grande; e a 2.ª do lado do N., na qual superintende o mestre, com residencia na Vieira.

      O caminho de ferro americano, com que se dotou a Marinha Grande, para facilitar a conducção dos productos do pinhal de Leiria ao porto de S. Martinho, começou-se em 1859 e concluiu-se em 1864. N'esta construcção dispendeu-se, salvo erro, mais de 155:000$000 réis, aproximadamente o que se havia contractado com uma companhia hespanhola, cujo contracto houve que rescindir-se antes de terminar o caminho.48

XI

      Poder-se-ha fazer um estudo comparativo do rendimento do pinhal de Leiria e da fabrica resinosa da Marinha Grande, no periodo decorrrido de 1852 a 1859, pelos seguintes algarismos, taes como nos foi possivel extrahil-os dos documentos officiaes:

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      D'esta época por diante, as contas da administração geral das matas do reino foram colligidas e descriptas sob outro modêlo, para serem presentes ao tribunal de contas, conglobando-se em verbas geraes de gerencia as especiaes das administrações subordinadas; por isso, dispenderiamos muito tempo, que seria porventura melhor aproveitado em outras averiguações, se quizessemos separar somente as verbas relativas aos estabelecimentos da Marinha Grande. Ainda assim, poremos aqui mais alguns algarismos que, se evidenceiam que a fabrica resinosa continuou a retrogradar, provam ao mesmo tempo que os productos da officina de resinagem subiram a um notavel grau de desenvolvimento.

      Temos, em quanto á fabrica resinosa, mais:

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     Estas successivas perdas em cinco annos, termo medio 664$777 réis por anno, obrigaram o administrador geral das matas a lembrar ao governo a conveniencia de cessar o trabalho na fabrica resinosa, pois estava mais que muito provado que os seus productos não achavam facil consumo nos mercados nacionaes.

      Pelo que respeita particularmente á officina de resinagem, temos nos mesmos cinco annos:

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      A differença n'este ultimo anno foi sensivel, mas teve como principal causa o estado geral do commercio, que paralysou por effeito da guerra na Europa.50

      No anno passado, segundo informações fidedignas, vemos que o movimento do pinhal e da officina de resinagem foi:

pag_217_a      O augmento da venda dos productos do pinhal foi a consequencia da maior procura, sobretudo de commerciantes hespanhoes, que applicam as nossas madeiras para a factura de caixas, em que exportam as passas e outros fructos seccos. As verbas, representantes deste consumo, avultam bastante nas contas dos ultimos annos, como poderá verifical-o quem se der a tão improbo trabalho.

41) Ha no castello de Leiria as ruinas de umas casas, que parece terem sido residencia da rainha santa. Eram pequenas e quasi nenhum conforto podiam offerecer.

42) Vid. Memoria sobre o pinhal nacional de Leiria, etc, pag, 7 .

A noticia mal digerida dos descobrimentos dos portuguezes, que eccoaram no mundo conhecido, com a de que as nossas armadas se construiam das madeiras de Leiria, tem feito incorrer alguns estrangeiros no erro grosseiro de dizerem em obras volumosas, que correm impressas, que as ditas armadas saiam do porto de Leiria!

43) O pinheiro em 1846 vendia-se por 300 réis, em 1852 por 370 réis, em 1855 por 1$200 réis, e em 1863 por 11450 réis.

44) Vid. Relatorio da Ad. das Matas, etc., 1868, pag. 34 e 55.

45) O thesoureiro, o escrivão e os amanuenses tambem desempenham eguaes funcções na administração geral das matas.

46) Os guardas tem o seguinte uniforme: calça de briche avivada de verde, para inverno, e de lona crua para verão; gravata preta; boné (képi) com as iniciaes G. F. de metal amaretlo; camisolla de zuarte azul, aberta sobre o peito; polaina curta de couro branco, por cima da calça, no inverno, e de lona crua, no verão; sapato de tacão raso; bolsa de couro suspensa a tiracollo, tendo na frente, sobre o peito uma chapa de metal amarello com as armas reaes e a inscripção da «Administração geral das matas»; o armamento é egual ao de que usa a artilheria.

O cabo de guardas tem o mesmo uniforme, com a differença de um distinctivo de galão de prata no braço esquerdo, de uma casa de prata, tambem de galão, sobreposta em panno verde de cada lado da gola, e calças, botas e esporas como as das praças de cavallaria do exercito. O armamento consiste em espada com bainha de ferro e duas pistolas de arção.

47) O numero dos guardas extraordinarios augmenta ou diminue conforme as necessidades do serviço.

48) A circulação n'esta linha faz-se em todos os dias uteis da semana. Um comboio parte de S. Martinho ás 8 horas e o outro de Pedreanes ás 9 horas, da manhã, gastando o primeiro 8 horas no transito e o segundo 6 horas. Os comboios são em geral de 10 wagons e cada wagon carrega 4.500 kilogrammas.

49) O preço de 60 réis a carrada foi arbitrado no tempo da administração do sr. conselheiro João de Fontes Pereira de Mello (que falleceu a 27 de outubro 1856 e deixou de exercer as funcções de administrador das matas em 1848), mas o sr. conselheiro Ernesto de Faria, no relatorio de 1867, diz que não sendo util continuar a vender-se o combustível por tão baixo preço, ordenou que se vendesse a lenha abandonada por 80 e 140 réis a carrada, e a do ar por 100, 200 até 320 réis, segundo a localidade do córte.

50) Para maiores esclarecimentos ácerca dos pinhaes nacionaes e dos estabelecimentos que dependem da sua administração superior, vejam-se os relatorios insertos nos Bol. do Min. das Obras Pub., de 1854, pag. 239 a 247; de 1856, pag. 335 a 339; de 1857, pag. 37 a 44, 51 a 63, 212 a 256, 391 a 441; de 1858, pag. 298 a 302, 420 a 466; de 1860, pag. 52 a 71, 298 a 351, 374 a 470; de 1862, pag. 34 a 52; de 1863, pag. 274 a 326; de 1864, pag. 92 a 137, 199 a 265, 476 a 549; de 1865, pag. 58 a 110; de 1866, pag. 96 a 159, 286, e 456; e de 1868, pag. 363 a 421.

E além d'estes: Relat. da adm. geral das matas do reino, etc, 1868; Estatistica do districto de Leiria, já citada; Memoria sobre o pinhal nacional de Leiria, suas madeiras e productos resinosos, 1859, por Francisco Maria Pereira da Silva e Caetano Maria Batalha; Informações sobre a estatistica industrial, já cit.; Nolice sur le Portugal par J. J. Rodrigues de Freitas Junior, 1867, pag. 61 a 66; Contas da administração dos reaes pinhaes de Leiria dos annos de 1824, 1825 e 1826; e esboço do estado d'aquelles reaes pinhaes, com reflexões sobre a decadencia em geral das matas d’este reino, e projecto para remediar a mesma (1827, fol. de 18 pag.), por Frederico L. G. de Varnhagen (pae do sr. Francisco Adolpho de Varnhagen, actualmente ministro do imperio do Brasil na côrte do império austro-hungaro); etc.

Alguns d'esles livros devemos á benevolencia dos srs. Luiz Augusto Palmeirim, primeiro official, chefe de repartição, e Tito Augusto de Carvalho, segundo official, chefe de secção, do ministerio das obras publicas.

Em um dos seus minuciosos e bem elaborados relatorios, o sr. conselheiro José de Mello Gouveia (ministro da marinha desde 29 de outubro d'este anno 1870), faz menção especial do relatorio que em 1845 o sr. conselheiro João de Fontes Pereira de Mello (pae do sr. conselheiro Antonio Maria de Fontes Pereira de Mello), enviara ao então ministro da marinha, pelas especies curiosas que continha. Empregámos as possíveis diligencias para vêrmos este documento, impresso ou manuscripto, mas não o conseguimos.

Sendo em 1864 conhecido que no governo civil de Lisboa, ainda existia, em boa ordem, o archivo da montaria-mór do reino, alcançou o administrador geral das matas, que esse cartorio, onde se encontram interessantes documentos para a historia das matas nacionaes, fosse transferido para a Marinha Grande, o que se effectuou no mesmo anno.

FONTE: “Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal”

por P.W. DE BRITO ARANHA –

Livraria de A.M.Pereira – Editor – 1871

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