História
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Marinha Grande – Cap. VI – VII – VIII

by on 21 de Setembro de 2014
 

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Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal

Marinha Grande

 

 

 

 

 

VI

      Tem sido emprezarios da real fabrica, desde que foi doada por Stephens ao estado: os srs. barão de Quintella (depois conde do Farrobo), Antonio Esteves Costa e outros, de 1827 a 1847; Manuel Joaquim Affonso, de 1848 a 1859; Casimiro José de Almeida, de 1860 a 1862: Francisco Thomaz dos Santos, em 1863; e Jorge Croft e o commendador Antonio Augusto Dias de Freitas, em 1864. No intervallo de umas a outras administrações ou não houve quasi trabalho na fabrica, ou esta funccionou por conta do estado.

      Em 1866, os mesmos srs. Croft e Dias de Freitas20 e mais os srs. Nuno Paulino de Brito Freire, José Luiz de Oliveira, Miguel Antonio Leitão de Lima Falcão e Antonio Corrêa da Silva Marques, formaram por tempo de trinta annos, com o capital social fixado em 90:000$000 réis, dividido em novecentas acções de 100$000 réis cada uma, a parceria ou sociedade em commandita, que ainda existe, sob a denominação de «Empreza da real fabrica de vidros da Marinha Grande».

      Pondo de parte a apreciação das razões que levaram o governo a mandar proceder em 1859 a um inquerito rigorosissimo, diremos que d'ahi resultou acabarem os privilegios de que tinham gosado até então os emprezarios, sem que por isso a industria tivesse medrado e acompanhado os progressos da sciencia.

      Com effeito, os contratos ultimados depois do inquerito foram tão pouco generosos nas clausulas, que o proprio estado, que favorecêra até alli as emprezas, como é sabido, com avultados subsidios e importantes privilegios, já obrigando-se a ficar com uma certa quantidade dos productos da fabrica, já dispensando as materias primeiras dos direitos de entrada; exigiu que se lhe désse renda annual superior a 1:000$000 réis, segundo consta das condições de arrendamento publicadas na folha official em 1860, 1863 e 1864, sendo apenas concedidas gratuitamente, ou antes, como compensação da renda, e sempre em beneficio dos pinhaes reaes, doze mil carradas de lenha por anno21 em todo o caso debaixo da vigilancia da administração das mattas. E obrigou a empreza a dar conta todos os annos ao ministerio da fazenda do estado da fabrica e numero de seus empregados.

      Antes de entregar a fabrica a novas administrações, tem-se feito inventario e avalição dos prédios fabris e ruraes, utensilios fabris e material movel das abegoarias, para que no fim das emprezas pudessem regular-se as indemnisações por faltas ou deteriorações.

      Consta, portanto, dos inventarios publicados, que em 1827 o fundo fabril e industrial fôra calculado em 104:424$440 réis22; em 1848, avaliou-se quasi por metade, ou 55:000$120 réis; e em 1863, a avaliação deu o total de 58:078$440 réis, accusando assim uma differença para mais, em honra das administrações comprehendidas nos ultimos 15 annos, de 3:078$320 réis.

VII

      Entre os melhoramentos realisados na fabrica pela actual empreza, conta-se, em primeiro logar, a aperfeiçoada construcção dos fornos, conforme as indicações da sciencia moderna, o que, conservando em elevado grau o calor, permitte as fusões em vinte e vinte e quatro horas, e dá em resultado poder cada forno fazer tres ou quatro afinações por semana em cristal, e seis em vidraça. Comparando isto com o que succedia antigamente, e o que consta do excellente relatorio da commissão de inquerito de 1859, vê-se que a producção póde sem dificuldade duplicar-se.

      Deve tambem notar-se o forno (carquèse) de seccar lenha. Este forno é de giganteas dimensões. Entram n'elle doze wagons carregados de lenha, que sécca rapidamente por meio de numerosas bocas de calor; depois os wagons correm em carris, com pequeno impulso, para as respectivas oficinas, e voltam por seu turno para conduzir novamente a lenha por meio de uma plataforma girante.

      A estufa, onde se seccam as pedras para a construcção dos fomos, e os potes ou cadinhos, é egualmente hoje obra digna da especial attenção do visitante. A estufa é aquecida methodicamente, a fim de conservar sempre o mesmo grau de calor, o que é necessario para tornar as pedras e os potes aptos para entrarem nos fornos de tempero.

      Além d'isso, não devemos deixar de mencionar a arca corrente de tempero, pois é a primeira que se constroe em Portugal segundo o systema francez. Em doze pequenos wagons, que estão assentes em carris de ferro, vem a mercadoria fabricada desde o forno até a galeria que conduz ao grande armazem de escolha e approvação da obra, atravessando assim as seis graduações de calor que constituem a arca de tempero. D'esta fórma, a mercadoria entra fabricada na boca da arca ainda incandescente, e sae depois na sexta graduação já temperada e resfriada.

      Outros melhoramentos se tem introduzido nos ultimos annos, que deixámos de enumerar, porque daria ainda a este capitulo maiores proporções; mas, entre esses, citaremos ainda, o novo systema da lavagem da areia; a machina importada este anno (1870) de Inglaterra, para britar instantaneamente os materiaes rijos e de maior volume, reduzindo-os quasi a pó; a galga, recebendo a impulsão da machina de vapor que serve na officina de lapidação; e o peneiro mechanico, tambem movido por vapor; etc. etc. O ultimo melhoramento trouxe grandes vantagens ao fabrico, pela quantidade de pós que produz; e ao operario, por livrar este do perigo da absorpção pela aspiração, o que na verdade affectava grave mas lentamente a saude do pobre operario 23.

VIII

      O processo da fabricação do vidro é conhecido, e não se nos figura ser aqui o logar proprio para tratar d'este assumpto, nem para entrar na comparação com o que seguem nas mais importantes fabricas da Allemanha, de Inglaterra, da Belgica e da França, sobre tudo porque não nos achamos habilitados para isso; mas, ácerca da qualidade, é nossa opinião, com franqueza, que, posto não possam ainda os productos da real fabrica de vidros da Marinha Grande pôr-se ao lado dos da Bohemia, tão estimados e apreciados em todos os mercados europeus, figurarão hoje, comtudo, sem receio entre os productos das demais nações; e não temos dúvida que apparecerão até muito bem, logo que á boa qualidade do vidro se juntar o primor da fórma, em que se nos avantaja a industria estrangeira. Tem com effeito apparecido, porque é certo que os productos da fabrica já foram premiados nas exposições internacional do Porto em 1865 e universal de Paris em 1867.

      Em o novo deposito, que a empreza ha pouco tempo mandou abrir na praça D. Pedro24, já se vêem objectos de muito valor, não só com relação á qualidade do cristal, mas tambem á variedade das fórmas, com o que provam os fabricantes que tem para elles sido util incentivo o augmento da procura dos artefactos da Marinha Grande.

      Em outros tempos, o trabalho não era convenientemente dirigido na Marinha Grande. A comissão de inquerito de 1859 tanto o reconheceu, que, na proposta submettida á consideração do governo, estabeleceu que se devia exigir das futuras emprezas que o trabalho fosse dirigido por homem habilitado com sufficientes conhecimentos theoricos e praticos em fabricas de vidros de primeira ordem25. Attendeu a isto a actual empreza, contratando para a Marinha Grande mestres francezes, que alli permaneceram por algum tempo, não sem grandissimo sacrificio, mas com proveito da fabricação.

      Os mestres francezes, que tinham sido contractados para o ensino dos operarios portuguezes, aperfeiçoando-os nos processos da fabricação, deixaram n'esses operarios quem dignamente os substituisse. Na offícina da fundição de vidro conserva-se todavia o mestre suisso, que nos informam ser um habilissimo artista.

      Para entrar, pois, em concorrencia com as outras fabricas, principalmente estrangeiras, que traziam ao mercado productos, se não mais bem fabricados, ainda que de vidro inferior, como dissemos, de certo muito mais baratos, e de mais variados feitios e lavores, no que primam as industrias franceza e allemã, os actuaes directores pensaram, com razão, que deviam dar aos productos da real fabrica as mesmas vantagens, e por isso na antiga tabella de preços fizeram consideraveis diminuições.

      Vende-se actualmente o vidro liso com o desconto de 30%, e o vidro lapidado com o de 25%; a vidraça delgada, cujo preço nas anteriores administrações era de 200 réis por kilogramma, tem hoje o preço de 140 réis por kilogramma, e este abatimento fez-se proporcionalmente assim para a vidraça grossa, como para a de cordão e de cores, etc.

      Aos compradores por grosso, e em geral aos lojistas revendedores, foi concedido o desconto de 35% sobre a vidraria lisa, e 30% sobre a lapidada ou gravada; e outro tanto com respeito á vidraça. Se o pagamento for prompto, o que, segundo as praxes commerciaes, se póde effeituar dentro de um mez, o comprador goza, além d'isso, do beneficio de 2%26.

      O desenvolvimento, ou antes as alternativas da producção da fabrica, podem julgar-se pelos seguintes dados, que se nos deparam em dois livros publicados em épocas diversas, e á vista de informações officiaes que devemos suppor fidedignas.

      Temos, pois, que a producção annual foi:

Em 1855—555:480 peças de cristal; 43:344 ditas de lapidação; e 90:000 kilogrammas de vidraça27.

Em 1863—668:812 peças de cristal; 36:300 ditas de lapidação; e 96:874 kilogrammas de vidraça28.

Em 1867—Só a producção das peças de cristal excedeu o numero de 800:000.

Em 1870—A producção subiu a 1.200:000 peças de cristal, aproximadamente. O augmento provém de estarem funccionando agora na fabrica dois fornos para aquelles artefactos.

      Isto em quanto à importancia da producção. Agora, em quanto ao numero dos operarios, vêmos, em primeiro logar, que o pessoal da fabrica se divide nas seguintes classes:

      Pessoal da administração economica e technica, officiaes e ajudantes de cristal, ditos de vidraça, lapidados, floristas, rolhistas, machinistas, officiaes da construcção de fornos (olaria), carpinteiros, estendedores, trabalhadores da composição, cinzeiros, atiçadores, calcineiros, escolhedores de casco, empalhadeiras de vidro, lavadeiras de areia, carreiros para transporte dos productos da fabrica, ditos para transporte da lenha, etc.;

      E em segundo logar:

      Em 1813 (primeiro anno de que rezam as contas officiaes) havia 273 empregados na fabrica; de 1818 até 1826, 500; em 1846, 286, incluindo 100 carreiros; em 1847, 264; em 1855, 304; em 1862, 213, não contando os carreiros; e de 1868 a 1870, occupam-se no fabrico do vidro não menos de 600 pessoas de ambos os sexos.

      O ultimo quadro dos empregados da fabrica, segundo as folhas de um anno que tivemos occasião de vêr, é o seguinte, termo medio:

Administração (incluindo os empregados superiores na Marinha Grande, os do escriptorio e dos depositos e agencias em Lisboa e outras terras) ......................................… 24

Officina de cristal  ................................. 120

Empalhadeiras de cristal    ....................... 18

Officina de vidraça .................................... 48

Empalhadeiras de vidraça  ......................... 6

Officina de lapidarios  ................................24

Officina de foquistas, lavrantes e desenhadores ............... 8

Officina da composição .................................. 23

Officina da olaria   .......................................... 26

Officina de accessorios  ...............................…10

Trabalhadores na cerca da fabrica ..................…11

Fachineiros ..................................................…60

Carreiros em conducções de fazenda fabricada para os depositos de Lisboa e Porto ........… 25

Ditos em ditas de areia e barro para a fabrica ............................. 7

Ditos em ditas de lenha para a fabrica   ...................................150

Serradores ..........................................................................… 12

                                                                                              572

Aposentados e enfermos29  ..................................................… 12

                                                                                             584

      Estes ultimos algarismos evidenceiam ao mesmo tempo as vicissitudes por que tem passado a fabricação do vidro na Marinha Grande, e os esforços empregados, apesar de não haver já nenhum dos antigos privilegios, a fim de estabelecer a industria nas melhores e mais solidas condições, para o que não lhe faltam elementos. O proprio relatorio da commissão de inquerito o affirma: «Não é possivel deixar de concluir positivamente que (a fabrica da Marinha Grande) está em excellentes condições industriaes30

      Com verdade, a fabrica de vidros de que temos tratado é o primeiro estabelecimento do seu genero em Portugal. Isento de regalias officiaes, que ás vezes são um grande estorvo para o desenvolvimento das industrias, póde attingir o maximo aperfeiçoamento, compensando os enormes sacriflcios de seus emprezarios e administradores, e honrando a nação.

20) Em 11 e 25 de agosto 1870 foram agraciados estes cavalheiros, o primeiro com o titulo de visconde da Graça e o segundo com o de visconde de Azarujinha. (Vid. D. do Gov. de 27 e 28 de outubro.)

21) Em 1855, segundo a Estatística de Leiria do sr. D. Antonio da Costa, o transporte de cada carrada de lenha custava, pouco mais ou menos, 300 réis. Hoje o córte, a factura e o transporte custam 500 réis, e os fornos consomem mais de 15:000 carradas annuaes.

22) Vem a pag. 29 e 30 do Relatorio os inventarios feitos em 1827 e 1848; e a differença que se nota entre a totalidade que pomos aqui e a que lá se encontra provém de um erro nas sommas, que não pôde emendar-se na impressão, mas se acha corrigido nas Informações.

23) A mistura das composições fazia-se n'outro tempo com tamanho perigo para os operarios, que admirava como elles podiam resistir ao veneno que aspiravam constantemente.

24) Este deposito é na praça de D. Pedro, n.º 22 e 23.

25) Relatorio, pag. 135.

26) A actual empreza, para alargar o seu commercio, não so, como se viu, barateou os productos da fabrica, mas tambem estabeleceu depositos importantes em diversos pontos do paiz. Os principaes depositos são: em Lisboa, na rua direita de S. Paulo, nº. 70 e 72, onde, depois da exposição internacional do Porto, fez uma exposição aos productos que alli levara, e onde se encontra sempre abundante variedade de coparia, frasearia, etc.; na praça D. Pedro, nº. 22 e 23; no Porto, rua de Sá da Bandeira, nº. 26 e 28; em Évora, praça da mesma cidade; e na ilha da Madeira, casa de Camacho & Irmão.

Nos depositos de Lisboa e Porto recebe encommendas assim para o continente do reino, como para as ilhas adjacentes, possessões ultramarinas, e para o Brasil. Segundo as informações que temos, a empreza obriga-se a executar quaesquer encommendas em cristal liso, florestado e lapidado; ou em vidro branco, verde e azul para frasearia de todas as dimensões adequadas aos usos da pharmacia e drogaria, ou em vidraça, quer em chapas, quer em vidros cortados por medidas regulares.

27) Vid. Estatística do districto de Leiria, pelo sr. D. Antonio da Costa, pag. 336 e 337.

28) Vid. Informações, pag. 64.

29) A actual empreza, por vontade propria e caritativos sentimentos, e seguindo os bons exemplos de anteriores administrações, manda em folha separada abonar os vencimentos dos operários valetudinarios e enfermos, que á data de escrevermos estas linhas eram 12.

30) Vid. Relatorio citado, pag. 127.

FONTE: “Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal”

por P.W. DE BRITO ARANHA –

Livraria de A.M.Pereira – Editor – 1871

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