História
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Marinha Grande – Cap. IX

by on 21 de Setembro de 2014
 

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Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal

Marinha Grande

 

 

 

 

 

IX

       Além da fabrica, de vidros, que descrevemos nos capitulos anteriores, a Marinha Grande conta, dependentes da administração das matas do reino, quatro estabelecimentos, um dos quaes é muito importante: 1.° fabrica resinosa; 2.° fabrica de resinagem; 3.° estaleiro para injecção de madeiras; 4.° serraria mechanica.

      A fabrica resinosa só produzia pez e alcatrão, até uma certa época. Depois tratou-se de distillar o alcatrão para produzir a agua-raz, e a agua-russa, mas esta ultima encontrava pouca saida nos mercados.

      Esta fabrica comprehende a officina dos cylindros com 1 apparelho de 8 cylindros; 10 fornos de pez, eguaes aos que são usados em França para aproveitar os residuos do tratamento fabril da terebinthina, e 10 fornos ragusanos.

      Lembrou-se em 1858 o zeloso e intelligente empregado da administração geral das matas, sr. Bernardino José Gomes, depois que o sr. Sebastião Bettanio de Almeida31 esteve na Marinha Grande e incitara a continuação dos trabalhos da fabrica resinosa, aperfeiçoando-se os processos da fabricação; lembrou-se, dizemos, de tentar algumas experiencias com o maior segredo para extrahir a resina, e tão bem lhe correram que tendo sido, para logo, apresentados os productos d'essas experiencias, assim no ministerio das obras publicas, como a algumas respeitaveis pessoas do commercio, foram todos concordes na approvação dos productos e no elogio ao sr. Gomes.

      Conta-se que por essa occasião, ou pouco depois, em abono d'aquelle distincto empregado, tendo-se apresentado a um antigo ministro duas amostras de resina, uma de acreditada fabrica estrangeira e outra da Marinha Grande, pedindo-se-lhe que dissesse qual lhe parecia melhor, o ministro indicou a nacional, na supposição (como foi obrigado a confessar) de que era a estrangeira, de tal modo imperava a incredulidade no seu espirito e tão limitada confiança tinha no engenho de um laborioso portuguez!

      Continuando as experiencias, em 1859, devidamente auctorisado, o sr. Gomes principiou, sob a sua direcção, a erigir um dos edificios, que deviam servir para a fabrica de resinagem32.

      Tendo a administração das matas proposto, attendendo ao interesse que resultaria para a povoação e para o estado do desenvolvimento da nova industria, que fosse uma commissão visitar os mais importantes estabelecimentos resinosos do sul da França, depois de consultar o consul portuguez em Nantes, sr. José Manuel do Nascimento, que visitára esses estabelecimentos, nomeou-se em virtude d'isso uma commissão composta dos srs. Manuel Raymundo Valladas, engenheiro, e Bernardino José Gomes, os quaes se desempenharam do encargo conforme consta do relatorio publicado33.

      Isto foi em 1861. Desde então até hoje a administração geral das matas, e especialmente o sr. Gomes, como solicito funccionario, não tem descurado a fabrica de resinagem, cujos productos apparecem vantajosamente no paiz e no estrangeiro.

      Podemos demonstral-o, transcrevendo de um livro curioso as seguintes interessantes e honrosas linhas: «Estes productos, tendo sido examinados por Mr. Dives, distincto chimico em Mont de Marsan, ficou elle tão surprehendido ao ver a riqueza da gemma e a perfeição com que d'ella eram obtidos os seus productos, que não só confessou serem superiores aos de França, mas até declarou que jámais vira gemma tão rica em oleo, e que apresentada ella no mercado competiria vantajosamente com todos os productos europeus d'aquelle genero, porque os de Veneza e Chio não eram mais bellos. Mr. Ghartes Detroyat (de Bayonna), arrendatario das matas do estado, denominadas Dunas do Sul, fallando d'estes productos, diz: É penoso confessal-o, mas não podemos competir com os productos de Portugal, porque são o melhor que se póde encontrar n’este genero.»34

      Aos 6 de março de 1866, a uns 2 kilometros da Marinha Grande, no sitio de Pedreanes, foi inaugurado um alto forno35 para fundição de ferro, pertencente á «Companhia de ferro e carvão de Portugal, limitada» cujos representantes eram os srs. J. Croft (hoje visconde da Graça), e Dias de Freitas (hoje visconde de Azarujinha), proprietarios da fabrica de vidros, e o duque de Saldanha.

      Fez-se esta festa industrial com o esplendor adequado á alta posição e abastança das pessoas que nella tinham o primeiro logar; e assim de Leiria como de Lisboa foram muitos representantes da imprensa,36 altos funccionarios, e outros cavalheiros, convidados, que contaram a solemnidade com as côres mais brilhantes, dando ao quadro tons de embebecimento e sympathia.37

      Era n'essa época um dos redactores da Gazeta de Portugal o sr. Miguel de Bulhões.38 Sendo tambem convidado, não se esqueceu o illustre periodista de visitar todos os estabelecimentos da Marinha Grande, e da boa impressão que lhe deixou a fabrica de resinagem dá-nos elle conta nas seguintes linhas, que transcrevemos da folha citada:

      «Depois de uma visita a todas as officinas da fabrica (de vidros) que durou algumas horas, foram muitas pessoas ver um estabelecimento nacional, commettido hoje á direcção technica do sr. Magalhães, inspector de florestas. Referimo-nos á nossa industria de resinagem, cujos productos tem sido premiados em todas as exposições europeas.

      «Cumpre-nos aqui mencionar especialmente o nome do homem, que tem sido incansavel em promover o adeantamento d'esta industria em Portugal; é o sr. Bernardino José Gomes, perfeito conjuncto de intelligencia e modestia.

      «A industria da resinagem tem meia duzia de annos entre nós; os seus productos concorrem brilhantemente com os estrangeiros e são-lhes até superiores. Sem dotação para a estabelecer em devidas e convenientes condições e dar-lhe o desenvolvimento que as necessidades do consumo dentro e fóra do paiz estão reclamando, tem successivamente medrado a ponto de produzir em um só anno 100:000 kilos de resina, tendo partido de um numero insignificante.

      «Desde que é explorado este ramo de industria, tem-se obtido um producto liquido de vinte contos de réis. A applicação de algumas dezenas de contos a tão importante industria e zelosamente empregados, como ha todo o direito a esperar das pessoas já mencionadas, é para nós ponto de fé que facilitariam a producção de mais de um milhão de kilos de resina, e artigos filhos da mesma industria, dando ao estado, se elle quizer continuar na exploração d'ella, compensação larga para cobrir qualquer despeza que porventura faça de prompto em novos tanques para recolher a gemma, e em novas officinas, etc. Esperamos que o governo olhará com attenção para aquella fonte de receita do thesouro, bem como aguardamos que da parte administrativa das matas e pinhaes do reino, confiada ao sr. Ernesto de Faria, combinada com a parte technica commettida ao sr. Magalhães, resultem grandes melhoramentos que hão de augmentar uma importante riqueza nacional, como é a das florestas.»

      Accrescentaremos a estes testemunhos, aliás valiosissimos, o que nos diz no ultimo relatorio um alto funccionario, o sr. conselheiro Ernesto de Faria, o qual por muitos annos teve a seu cargo a administração geral das matas. Em conta ou relatorio dirigido ao ministro, referindo-se á exposição de Paris de 1867, onde realmente figuraram muito bem, ao par de todas as nações, os nossos productos florestaes, diz-nos pois s. ex.ª o seguinte: 39

      «Cabe-me a satisfação de poder affirmar a v. ex.ª que a nossa exposição florestal, se não rivalisou com as da America ou da Áustria, nem por isso deixou de attrahir a attenção de pessoas entendidas nas cousas florestaes; e como prova d'esta asserção direi que mr. Nanquette, director da escola florestal de Nancy, mostrou vivos desejos de possuir alguns specimens da nossa collecção.

      «Considerando que é n'aquelle estabelecimento scientifico que se tem formado alguns dos distinctos engenheiros que hoje servem na administração geral das matas, que ali têem sido acolhidos e tratados no pé de igualdade com os alumnos nacionaes, pareceu-me que o governo não me levaria a mal, como em tempo tive a honra de dizer a v. ex.ª, que eu dispozesse da collecção toda em favor da escola imperial de Nancy, dando assim um testemunho de consideração a mr. Nanquette, e poupando aos nossos commissarios o incommodo de fazer conduzir para Portugal objectos, cujo valor não equivalia ao custo do transporte.

      «Na Revue des eaux et foréts, n.º 9 de 10 de setembro de 1867, se dá noticia d'este donativo, a paginas 299, nos termos seguintes:

      «Mr. de Magalhães, inspecteur des forêts en Portugal, ancien élève libre de 1'école forestière de Nancy, a été autorisé par mr. le conseiller E. de Faria, administrateur général des forêts en Portugal, a offrir á l'école de Nancy les collections de produits forestiers portugais qui figurent á 1'exposition universelle.

      «Ces produits, d'un véritable intérêt, viendront enrichir encore la collection, déjá si riche, d'objets d'enseignement que possêde 1’école de Nancy, et dont les visiteurs de l'exposition peuvent apprécier le mente et la valeur scientifique.»

      «Não foram só os francezes que admiraram e apreciaram a nossa collecção florestal. Um negociante de Londres, que viu os nossos productos resinosos, escreveu immediatamente para a direcção da fabrica da resinagem, encommendando 15:000 kilogrammas de agua-raz, e 5:000 kilogramraas de terebinthina, que lhe foram vendidos a 43 réis o kilogramma de agua-raz, e 135 réis o kilogramma de terebinthina, ficando por conta d'elle todas as despezas de conducção e transporte desde a fabrica da Marinha Grande até Londres.»

      «... a fabrica da resinagem é um estabelecimento industrial que está em via de prosperidade, dando lucros á administração, como se verá das contas, e annunciando-se com um futuro auspicioso. A fabricação da resina, essencia e terebinthina tem já coberto todas as despezas feitas até hoje com aquelle estabelecimento, e apresenta um saldo a favor da administração, o que de certo é devido ao empregado que o dirige, e que tem elevado a fabricação destes productos ao maximo grau de perfeição, como o provam as medalhas que a administração tem recebido em todas as exposições onde tem concorrido, e a que ultimamente foi conferida na exposição de Paris ao dito empregado, na sua qualidade de cooperador.

      «Esta superioridade dos nossos productos sobre os estrangeiros tambem é attestada pelo grande numero de encommendas que diariamente se recebem na Marinha Grande, não só do paiz como tambem do estrangeiro, comprehendendo n'este numero a muito recente de um negociante inglez, que tendo visto os nossos productos ultimamente em Paris, mandou logo pedir 15:000 kilos de essencia e 30:000 kilos de terebinthina.

      «A fabricação da gemma já hoje se eleva a mais de 100:000 kilos todos os annos, e é para sentir que a administração não possa dispor de mais alguns meios para ultimar as obras projectadas, fazendo tambem no edifiicio da fabrica mais armazens de deposito, e dando maior desenvolvimento á exploração da gemma, para o que está hoje habilitado o estabelecimento com o novo apparelho que acaba de ser ali montado.

      «Se se elevar a fabricação annual a 1.000:000 de kilogrammas, poderemos satisfazer a todos os pedidos que se fazem, não só do paiz mas tambem de fóra.

      «Esta minha opinião já eu tive a honra de apresentar a v. ex.ª no primeiro relatorio que lhe dirigi, datado de 24 de março de 1866, pouco depois que tomei conta da administração geral das matas.

      «Com uma despeza menor de 20:000$000 réis a fabricação poderia elevar-se a 1.000:000 de kilos, que vendidos termo medio a 100 réis, daria um milhão de tostões, ou 100:000$000 réis de productos que annualmente se lançariam nos mercados, o que já faria um grande giro commercial, e suppondo que esta industria deixasse livre 20 por cento á administração, chegavamos facilmente a um resultado muito lisonjeiro, qual o de auferir um rendimento de 20:000$000 réis, que poderiam ser vantajosamente empregados em sementeiras e operações de cultura e exploração florestal.»

      As distincções concedidas particularmente á fabrica de resinagem tem sido na exposição industrial do Porto, de 1861, medalha de prata; na exposição universal de Londres, de 1862, medalha com louvor; e na exposição de Paris, de 1867, medalha de prata como cooperador (uma das maiores distincções que se podiam conceder a um laborioso e talentoso industrial) ao director da fabrica, o sr. Bernardino José Gomes.

      Os productos da resinagem são vendidos pelas preços indicados na tabella seguinte:

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      O estaleiro para a injecção de madeiras, pelo systhema Boueherie, foi construido em 1864. Tinha-se em vista satisfazer as necessidades da administração geral dos telegraphos, que parecia dever fazer importantes acquisições de postes injectados, e com effeito se aprestára tudo para produzir 12:000 a 15:000 por anno, em condições favoraveis; mas, não sabemos porque circumstancias, foi exactamente a administração dos telegraphos a que não consumiu na escala em que se tentava, e isto causaria de certo grave perda. Cremos que actualmente pouco serviço tem o estaleiro.40

A fabrica de serragem è hoje de pequena importancia. Tem duas machinas de vapor, mas só hoje funcciona uma, por estar desmontada a outra. O pessoal consta de 1 empregado de escripturação, 1 machinista, e 6 operarios.

Em 1812 esta officina, que então não tinha motor a vapor e em que se comprehendia a fabrica resinosa, tinha o seguinte pessoal: 1 administrador, 1 juiz conservador (fiscal), 37 serradores, 29 carpinteiros e 47 pegueiros. Estavam então no serviço d'ella 140 carros de transporte.

31) Fôra ali em commissão ofiicial para examinar o estado da exploração dos productos resinosos. Vid. Bol. do Min. das Obras Publicas, de 1860, pag. 52 a 71.

32) Esta fabrica tem já dois edificios, de boa apparencia, com vinte e tantos tanques para a gemma, da capacidade de 8.400 litros cada um, e poço arteziano.

33) Vid. Boi. do Min. das Obras Publicas, de 1862, pag. 34 a 52.

34) Vid. Roteiro do viajante no continente, etc., 1865, pag. 98.

35) O alto forno construido segundo o systema moderno, obra colossal de tijolo e ferro, em que se aproveitou o ar, calorificando-o por meios mechanicos, elevando-se a temperatura a 700 graus Farenheit, trabalhava com duas machinas da força de 30 cavallos-vapor cada uma, e calculava-se que daria por semana 80 toneladas de ferro. Esta empreza não tirou porém lucros, ao que parece, pois foi abandonada passado pouco tempo, posto que ali ainda se conservem as machinas, com o intuito de tomarem mais cedo ou mais tarde a funccionar.

36) Estiveram representados os seguintes periodicos: Gazeta de Portugal, Diario de Noticias e Nação. O Centro promotor dos melhoramentos das classes laboriosas de Lisboa, tambem ali teve representação na pessoa do então seu presidente, Francisco Vieira da Silva (fallecido aos 10 de junho 1868.)

37) Vid., além de outros, os artigos minuciosos que publicaram: Gazeta de Portugal, n.° 986, de 9 de março 1866; Revolução de Setembro, n.° 7134, do mesmo dia (artigo de Vieira da Silva); Commercio do Porto, n.° 54, do mesmo dia (correspondencia do sr. João Chrysostomo Melicio); Jornal do Commercio de 10 do mesmo mez e anno; Conimbricense, n.° 1265, de 13 do mesmo mez e anno.

38) Presentemente desempenha as funcções de chefe da repartição de contabilidade do ministerio da marinha e do ultramar.

39) Vid. Relatorio da Ad. G. das Matas do Reino, etc., 1868, pag. 8 e 126

40) No fim do mez de novembro d'este anno (1870), a administração dos telegraphos contractou com a administração das matas um fornecimento annual de postes injectados, o que reanimou o trabalho do estaleiro. Fez-se este contracto, segundo nos informaram, por se haver reconhecido que os postes fornecidos na Marinha Grande eram superiores aos que em tempo se pediam á industria hespanhola

FONTE: “Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal”

por P.W. DE BRITO ARANHA –

Livraria de A.M.Pereira – Editor – 1871

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