História
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Marinha Grande – Cap. IV – V

by on 21 de Setembro de 2014
 

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Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal

Marinha Grande

 

 

 

 

 

IV

 

      Dissemos que Guilherme Stephens encontrara já uma fabrica de vidros na Marinha Grande quando alli foi lançar os fundamentos de outra fabrica, em maior escala, com o auxilio pecuniario que lhe dera o marquez de Pombal, além dos immensos e importantes privilegios de que o cercára. Ora, pelas informações que temos podido alcançar a este respeito, não foi a pequena fabrica estabelecida desde todo o principio na Marinha Grande, mas para alli se transferiu da margem esquerda do Tejo.

      Não podendo continuar a laboração de uma fabrica de vidros, que nos fins do seculo XVII se fundára na antiga villa de Coina (Equa-bona dos romanos), por falta de lenhas, pois que os carretos d’este combustivel, seu elevado preço e outras circunstancias tornavam difficil e muito dispendioso o abastecimento da mesma fabrica, lembraram-se os seus proprietarios de a transferir para a Marinha Grande, por ficarem, proximos os pinhaes reaes, e, por consequencia, breve e facil o córte das lenhas para acudir ás necessidades do fabrico.

      Não será esta a verdade; mas é, sem dúvida, a tradição, confirmada pelos restos de alguns fornos e pelos vestigios da fabricação do vidro, que todos podem ver em Coina, na propriedade dos herdeiros da srª. J. Pouchet, onde depois se estabeleceu uma fabrica de zuartes, que se exportaram em grande quantidade para a Africa16.

      Para conhecer a excentricidade dos Stephens, poremos aqui duas anecdotas. São muito curiosas. O caracter singular do inglez em todas as partes e em todos os lances se revela.

      Guilherme Stephens saíra um dia de Lisboa com direcção á Marinha Grande, como era seu costume, para ver com os proprios olhos o andamento das coisas na fabrica, embora tivesse inteira confiança na pessoa que então a administrava. Chegando a Rio Maior, descançou em uma estalagem que alli existia ainda não haverá muitos annos.

      Estava dentro a estalajadeira, a qual, ou porque conhecesse o hospede, ou porque este lh'o pedisse, trouxe-lhe para ao pé um copo grande com vinho. O copo não tinha de notavel senão a fórma colossal e a grossura do vidro. Stephens, depois de observal-o, chamou a estalajadeira.

— Onde comprou este copo, boa mulher?

— Veio da Marinha Grande e não me custou muito dinheiro, meu senhor. É de tão boa qualidade, que já tem caído no chão algumas vezes, e ainda se não quebrou.

— Devéras!

— É tão certo que, se não tivesse agora medo de que não me saísse o dito verdadeiro, pediria ao senhor que o deitasse ao chão.

— Se o quebrar, hei de pagar-lh'o.

Guilherme Stephens atirou o copo ao solo, e a mulher teve o prazer de ver que ficou inteiro.

— É de boa qualidade, não ha dúvida, resmungou Stephens, e accrescentou alto:

— Compro este copo...

— O senhor...

— Sim... Quanto quer por elle?

— Já tem uso e faz-me falta.

— Não importa... Guarde isso.

      E Guilherme Stephens deu uma moeda de oiro á estalajadeira, que a guardou com o prazer de quem ha muito não via nas mãos tão avultada quantia.

— Visto que já o copo é meu, dê-me agora um martello, boa mulher.

      A estalajadeira correu a buscar o instrumento pedido, e Stephens com duas martelladas fez o copo em mil pedacinhos. A mulher estava attonita.

— Então o senhor pagou-me o copo tão generosamente para o quebrar em seguida?

— Não se admire. Vossê ha de vir um dia a saber para que isto se fez.

      Guilherme Stephens dirigiu-se á Marinha Grande, e logo que chegou alli mandou chamar o administrador.

— Disseram-me, e eu vi, que se fazem aqui, para as tabernas e estalagens, uns copos de formas grandes e vidro muito grosso.

— É verdade, e por tal signal que tem extraordinario consumo, pois os almocreves estão sempre ahi a gabal-os pela duração... Affirmam elles que se não quebram.

— Fique sabendo, sr. administrador, que isso é contrario aos interesses da fabrica.

— Pois eu julgo que similhante fama deve acreditar a fabrica.

— Assim deve ser. Mas de hoje por diante não se hão de fazer mais copos, nem vidros, que se não quebrem.

      Effectivamente, d'alli por diante nunca mais se fabricaram na Marinha Grande copos como o que Stephens sacrificara em Rio Maior.

      A segunda anecdota é mais simples, mas tambem não deixa de ser interessante. O fundador da real fabrica de vidros falleceu em Lisboa, ao que parece, no principio do segundo decennio do presente seculo. Seu irmão e herdeiro, João Diogo, como respeitosa homenagem á memoria do finado, ordenou que ninguem mais entrasse no escriptorio d'elle na rua das Flores, que ficasse fechado como se encontrára na occasião em que o dito seu irmão o deixara para sempre, e que assim se conservasse até que os futuros herdeiros resolvessem o contrario. Quando se tratou de cumprir o testamento de João Diogo, para o que, segundo consta, viera um parente de Inglaterra tomar conta dos haveres e dar a fabrica ao estado, e se abriu o escriptorio, viu-se que se observára com tal escrupulo os preceitos de João Diogo, que alguns papeis de valor estavam em cima da secretária no mesmo logar em que se deve suppor os deixára Guilherme Stephens para os conferir ou para lhes dar o necessario andamento.

      Entre esses papeis havia letras que se venceram, e parece que jámáis foram cobradas! Entremos agora na fabrica.

 

V

      A fabrica acha-se a pouco mais de meio kilometro dos pinhaes de Leiria, e, além de um moinho e de um armazem mais separados, os terrenos e as construcções pertencentes á mesma fabrica, comprehendem-se em uma só peça, cercada de muro, e medindo a léste 553m,75, ao sul 453m, ao oeste 652m,50 e ao norte 301m,55, o que lhe dá a fórma de um trapezio em uma área de 18 hectares17, mas o que alli ha mais notavel, como edificação, é o palacio que o fundador Stephens mandou construir para sua habitação quando se demorasse na Marinha Grande, e para a administração, com jardim e lago; o qual palacio, se não se recommenda pelas bellezas architectonicas, não deixa, todavia, de ser muito regular, e de boa e nobre apparencia. Depois é a casa do theatro18, com diversas salas para concertos e bailes, que se tem ali verificado por vezes com grande esplendor.

      No espaço que se destina propriamente aos labores fabris, comprehende-se o seguinte:

      Um pateo, que é a entrada geral do estabelecimento, com portaria para o nascente, e onde se acham os alojamentos menores, tendo ao sul o palacio, a oéste a officina da vidraça, e ao norte a officina de cristal e as casas de habitação do contramestre e outros empregados.

      Passada a officina de cristal, para o norte, ha um terreiro onde existe o deposito das lenhas, e que tem pelo sul a dita officina e habitações annexas; a léste uma fileira de casas abarracadas, nas quaes trabalham os carpinteiros, serralheiros, oleiros, etc.; pelo norte a officina dos cadinhos; e a oéste differentes construcções destinadas a accessorios do fabrico.

      Tem regularidade e bom aspecto as officinas da vidraça, seguindo o risco do palacio, e n’isto se vê que o architecto quiz conservar em harmonia os grandes corpos d'esta vasta edificação. Estão n'este edificio os fornos para a fabricação da vidraça, e um forno para temperar os cadinhos. E no complemento d'esta officina comprehende-se o saguão a oéste; um corpo de construcções que se communicam por dois puxados ao norte e ao sul, contendo a officina de estender a vidraça, com cinco fornos independentes e isolados entre si; uma casa para seccar os cadinhos; a officina da sécca e da calcinação das materias primeiras, com caldeiras de cobre e de ferro para a refinação do salitre e da potassa do commercio; e ainda para o norte uma pequena casa com um forno para cozer tijolo refractario.

      A officina do cristal é uma grande construcção composta de dois corpos unidos longitudinalmente, e com arcadas de communicação praticadas na parede commum. É de alvenaria e cantaria. Ha n'esta officina dois fornos para a fabricação do cristal, duas pequenas arcas, á parte, para cozer os cadinhos, e mais tres isoladas para temperar o vidro apromptado nas obragens; n'uma divisão de madeira e tabique, uma casa em que se fazem as pesagens e determinam as dosagens; e no pavimento levantado sobre a mesma officina um armazem em que se aparta e acondiciona o cristal que sae para a venda ou para os depositos de Lisboa, Porto, Évora, etc.

      Ha ainda annexos a esta officina dois pavimentos, um dos quaes serve para armazem geral da venda do cristal, e o outro para guardar diversos materiaes.

      A officina dos cadinhos consta apenas de uma casa com algumas bancas fixas, nas quaes os operarios, andando em volta, fabricam os cadinhos á mão e a maço.

      O edificio chamado das flores é a officina d'onde sae o trabalho da lapidação. Consta de uma sala envidraçada, tendo montados quatorze engenhos de lapidar, os quaes se movem por meio de um eixo horisontal com quinze communicações de movimento. O motor é da força de seis cavallos-vapor. A machina, que é de alta pressão, foi assente em uma casa contigua a este edificio, e a caldeira estabeleceu-se em um telheiro annexo.

      Além d'estas construcções que se mencionaram, ha os estabelecimentos que o relator da commissão de inquerito chamou subsidiarios, e os quaes são: 1.° A casa da composição da vidraça, ao poente do palacio, em que dois operarios pesam e misturam as principaes materias primas da vidraça. 2.° Os telheiros que se seguem, em que se faz a lavagem das areias, a apartação e preparo do vidro quebrado, etc. 3.º A forja, convenientemente mobilada, para o serviço da fabrica. 4.º A olaria estabelecida na fileira de casas abarracadas, de que acima se fez menção, e onde se preparam os barros para os tijolos, cadinhos, mesas de estender, etc. 5.° A carpinteria, contigua pelo sul á officina do cristal, com pavimento superior, onde não ha outra mobilia senão a que trazem os operarios que n'ella trabalham. 6.° A casa dos pisões, onde se acha estabelecido um bocardo de mineiro composto de seis pilões de madeira com sóccos de ferro fundido, pesando cada um 75 kilogrammas, e servindo de motor a agua do aqueducto por meio de uma roda. 7.° A casa do forno, sob a forma cylindrica e com abobada de tijolo, de 14 metros de diametro interior, a que se podia dar o nome de forno colossal. 8.° A amassaria, que ainda serve para os ultimos preparos para os cadinhos. 9.° O armazem dos vidraceiros, onde se corta a vidraça. 10.° A cavallariça. 11.º O curral. 12.° Os palheiros.

      Ao nascente e ao poente do palacio ainda se vêem uns telheiros sobrecellentes, que tem servido para arrecadações; e uma casa de dois pavimentos, a que chamam celleiro.

      Fóra do terreno murado, a real fabrica possue tambem um bom armazem, que a administração geral das mattas destinou para as experiencias de resinagem; e um aqueducto de quasi tres kilometros, que tem abastecido copiosamente a quinta, as officinas, e um moinho de agua que vae aviar o quartzo e vidro em pó que se consome19.

16) Os herdeiros da sr.ª. Ponchet transferiram a fabrica de Coina para Sacavem, onde não sabemos se ainda funcciona.

17) Relatorio, pag. 85.— Informações, pag. 71.

18) O estabelecimento do caminho americano, em frente do edificio da fabrica, para o serviço da administração das mattas, tem damnificado alguns corpos d'estas construcções; notando-se sobre todos, como mais prejudicado, o theatro, porque se acha á beira do dito caminho.

 19) Loc. cit., pag. 87 e 73.

O sr. Mousinho de Albuquerque, chefe da repartição de pesos e medidas do districto de Leiria, diz-nos nas Informações citadas que em 1862 o aqueducto estava bastante arruinado, e que carecia de reparos, orçados em mais de 2:400$000 réis. Não sabemos quaes os concertos que se lhe fizeram desde aquella época, mas podámos assegurar que a actual empreza da real fabrica de vidros já tem feito despezas avultadas com o dito aqueducto, desentupindo os canaes e limpando as nascentes, corrigindo assim a direcção da agua, que ia escasseando por causa de frequentes desvios, sobre tudo nas propriedades visinhas.

FONTE: “Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal”

por P.W. DE BRITO ARANHA –

Livraria de A.M.Pereira – Editor – 1871

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