História
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Marinha Grande – Cap. I – II – III

by on 21 de Setembro de 2014
 

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Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal

Marinha Grande

 

 

 

 

 

I

      O logar da Marinha Grande, a que deve mais propriamente dar-se o nome de Nossa Senhora do Rosario da Marinha Grande, é mui antigo.

      Indo quasi no termo o ultimo quartel do seculo XVI, e sendo bispo de Leiria D. Pedro de Castilho, reinando o rei intruso Filippe II de Castella, em cujas boas graças estava aquelle prelado,1 pediram os moradores da Marinha Grande ao seu chefe espiritual que lhes permittisse erguer uma capellinha sob a egide de Nossa Senhora do Rosario2, e, sendo-lhes concedido, veio então a dar-se ao logar a denominação com que o encontramos indicado em antigas memorias.

      Quem sabe se o laborioso povo da Marinha Grande, não vendo ainda despontar no horisonte a aurora da restauração da patria independente e livre, quereria erguer a capellinha para implorar á Virgem que houvesse por bem influir para que terminasse a funesta dominação castelhana?

      Está situado o logar da Marinha Grande em uma planicie bem povoada de arvores de diversas qualidades, e extensos e valiosos pinhaes. Dista de Leiria uns 10 kilometros; e de Lisboa, pela estrada velha 110 kilometros, e pelo caminho de ferro uns 200 kilometros. Fica aos 39° 45' de lat. N. e 9o 12' de long. 0. do meridiano de Greenwich.

      A agradavel impressão que nos produziu a Marinha Grande quando a visitámos ha bons dezeseis annos, augmentaria por certo hoje, pois em geral tem melhorado muito desde então, como pôde verifical-o quem, observando-a presentemente, se lembrar do que era n'aquella época3. Confessámos com franqueza e satisfação que isso nos encantou, e tornou mais vivas as saudosas recordações do bello tempo que passámos em Leiria.

      O caminho que d'esta cidade segue para a Marinha Grande é pittoresco e deleitoso, assombrado de altos freixos, e n'elle se observa não sem suave e intimo alvoroço, a juncção dos rios Lena e Lis, tão cantados e engrandecidos na Primavera de Rodrigues Lobo4.

Formoso rio Lis, que entre arvoredos

Ides detendo as aguas vagarosas,

Até que umas sobre outras de invejosas

Ficam cobrindo o vão d'estes penedos5.

      É o insigne cantor do Lis que nos faz assim a descripção d'estes apraziveis sitios:

      «Entre as fragosas montanhas da Lusitania, na costa occidental do mar Oceano, onde se vêem agora, com mais nobreza levantadas, as ruinas da cidade antiga de Colippo6 ha um espaçoso sitio, partido em verdes oiteiros e graciosos valles, que a natureza com particulares graças povoou de arvores e de fontes, que fazem n'elle perpetua primavera, em meio do qual se levanta um monte agudo de penedia, cercado como ilha de dois rios, que pela falda vão murmurando, até que, ajuntando-se no extremo da sua altura, levam ao mar em companhia a vagarosa corrente; e assim da parte do rio Lis, que na cópia das aguas é principal, como pela do claro Lena, que, escondido entre arvoredos, faz o caminho, é cultivada a terra de muitos pastores, que n'aquelles valles e montes apascentam, passando a vida contentes com seus rebanhos, e com os fructos que a terra em abundancia lhes offerece, assim de Ceres como de Pomona; porque com a benigna inspiração do ceo e disposição da terra, não sómente são as plantas mais formosas á vista, os fructos mais saborosos ao gosto, as flores mais suaves ao cheiro e alegres aos olhos, mas ainda os penedos mais engraçados e parece que menos duros7

II

      A população da Marinha Grande passou por uma horrivel provação quando as tropas francezas invadiram Portugal. Indical-a-hemos desde essa época (1811), porque os nossos apontamentos não puderam ir mais além.

Assim temos, antes da invasão:

varões       femeas       total       fogos

  1.042        1 079         2.121       511

Depois da invasão (1812):

varões       femeas       total       fogos

  509             559         1.068       445

Em 1854 8:

varões       femeas       total       fogos

  1.313         1.212        2.525       666

Em 1864 9:

varões       femeas       total       fogos

  1.523          1.634       3.157        716

     A notavel differença, que se encontra no primeiro periodo, nasceu de duas causas extraordinarias, dois grandissimos flagellos,— a invasão e a epidemia.

     As tropas francezas, que passaram pela Marinha Grande, mataram ali 74 pessoas10, assolaram o campo e o pinhal, destruiram o theatro da fabrica de vidros, e damnificaram a propria fabrica; e taes foram a dolorosa impressão que este facto causou, e o medo de que ficaram tomados os habitantes, que mais de 100 emigraram para outros pontos do reino, deixando inteiramente as casas á mercê dos invasores.

      Aggravada pelo terror, a epidemia, que tambem affligiu o logar da Marinha Grande por occasião da invasão franceza, produziu ali mais de 800 victimas. Por ser especie curiosa, e hoje ignorada de muitos, demonstraremos como se operou a differença indicada de 1811 para 1812:

      De um para outro anno a Marinha contava menos 1:053 habitantes, que em notas do tempo figuram d'este modo:

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      Em 1854 é que a população tornou a chegar ao seu antigo desenvolvimento, e desde então até 1864 a diferença para mais tem sido sempre gradual e sensivel. Comparando portanto os algarismos do ultimo decennio, vemos que a differença está na proporção de 3,5 para 4,5.

III

      Entre as diversas industrias que as estatisticas de Leiria mencionam, o primeiro logar pertence, sem dúvida alguma, ainda hoje pelo seu valor real e pela importancia da sua producção, á fabrica de vidros da Marinha Grande, da qual trataremos desenvolvidamente n'este e nos seguintes capitulos.

      A fabrica está bem situada. Póde-se até dizer que a sua collocação tem o que quer que seja de poetica. Por toda a parte, arvores, flores11 e casas alvissimas. A povoação e a fabrica formam um todo harmonico, e ao vêl-as por primeira vez logo se presuppõe que uma é necessaria á existencia da outra, e que não será possivel para ambas viverem separadas. Com effeito, a vida da povoação encontra-se na fabrica, e a vida da fabrica existe na povoação.

     A fundação d'esta fabrica data do seculo passado, e consta dos documentos officiaes que, antes do inglez Guilherme Stephens lançar os fundamentos da que seu herdeiro doou ao estado, já n'aquella povoação se produzia vidraça e coparia ordinaria, trabalho em que se empregavam muitos dos seus habitantes; e, embora não possa provar-se, talvez d'esta circumstancia e da proximidade do pinhal real nascesse a idéa de fazer ali desenvolver a industria, aproveitando tambem o bom animo com que o marquez de Pombal alimentava a força creadora da nação, valendo-se de muitos elementos que achára accumulados, porém mal aproveitados, dos ultimos tempos do reinado do sr. rei D. João v.

      Effectivamente, o marquez de Pombal ordenou, em beneficio do emprehendedor Guilherme Stephens, que lhe fossem emprestados dos cofres publicos 32:000$000 réis sem juro12 para as principaes despezas da fundação da real fabrica de vidros, e ao mesmo tempo concedeu varias isenções, sobresaindo entre ellas a de tirar gratuitamente do pinhal de Leiria o combustivel necessario para a fabrica, sem prejuizo das madeiras de construcção do mesmo pinhal.

      Estes privilegios, já de si importantes, que deviam durar pelo espaço de quinze annos, conforme consta do alvará de 7 de julho de 1769, foram accrescentados logo no fim dos primeiros sete annos com diversas providencias relativas ao fornecimento das lenhas, entre as quaes se notava a declaração official de que a fabrica ficava sob a immediata protecção do rei como util ao bem publico e ao dos pinhaes de Leiria, no presupposto de que o dito fornecimento para a fabrica, bem e conscienciosamente dirigido, em vez de prejudicar, beneficiava os mesmos pinhaes.

      Passados mais quatro annos depois d'esta nova concessão, isto é, em dezembro de 1780, os edificios da fabrica e seus terrenos annexos, bem como os que viessem a annexar-se, foram declarados por alvará como de natureza de praso fateosim perpetuo, para que tudo pudesse conservar-se indiviso e illeso, e para que em tempo algum viesse a parar a laboração da fabrica, com grave prejuizo do publico e das familias n'ella empregadas.

      Expirando o praso de quinze annos determinado no alvará de 1769, o governo prorogou por mais dez annos as concessões respectivas á isenção de direitos de entrada sobre os generos necessarios para a composição do vidro, e de todos os direitos de saida nas alfandegas do reino e de entrada nas do ultramar a favor dos productos da fabrica, e ao mesmo tempo regulou, em beneficio da producção nacional, a admissão das chapas de vidraça estrangeira.

      Em 1794 foram prorogados por mais dez annos todos os privilegios e isenções até então concedidos ao proprietario da real fabrica da Marinha Grande, sendo egualmente approvada e louvada a construcção da estrada que Guilherme Stephens fizera á sua custa para tornar mais facil o serviço externo, e attrahir alli directa e commodamente os almocreves e agentes que promoviam a extracção dos productos da fabrica, e aos quaes se dava certa percentagem. Em 1796 ordenou o governo que se fizessem por conta do estado os cortes de madeira necessarios para se acabarem as obras da dita estrada.

      Em 1799 fez-se nova prorogação de todos os privilegios por dez annos, além dos dez concedidos em 1794, a favor dos primitivos proprietarios, regulando-se definitivamente o fornecimento de lenhas dos pinhaes reaes de Leiria para a laboração da fabrica. Desde 1799 até 1802 novos privilegios foram concedidos á fabrica, por effeito de repetidas instancias do proprietario, e pelo favor e influencia de que elle de certo gosava na côrte, chegando até o ponto de isentarem do serviço do exercito e da armada todos os empregados e operarios da fabrica!

      A invasão franceza, que foi uma verdadeira calamidade para a peninsula iberica, e que não poupou coisa alguma, templos, palacios, livrarias, reliquias, edificios publicos e particulares, officinas, laboratorios, industrias, pois que o exercito de Napoleão I em o nosso paiz mostrou ser n'aquelles tempos composto de gente barbara e indisciplinada; a invasão franceza, dizemos, tambem não isentou a fabrica de vidros e a povoação da Marinha Grande, como demonstrámos. Não só lhe foram retirados os privilegios, mas egualmente sequestrados os edificios, utensilios e terras annexas, e Stephens, por não querer cumprir as determinações de Junot, teve ordem de prisão, que padeceu por espaço de quatro mezes e onze dias, recebendo a final a liberdade com a vexatoria clausula de se apresentar á respectiva auctoridade todas as quinzenas.

      Expulsos os francezes do reino, e livres, felizmente, os seus habitantes dos vexames e tropelias que elles exercitaram aqui em larga escala, a fabrica recuperou os antigos privilegios, com a prorogação de mais de vinte annos. Foi isto em 1811.

      Faltam-nos os esclarecimentos sobre quando occorreu o fallecimento de Guilherme Stephens, primeiro proprietario da fabrica, e a respeito da época em que seu irmão João Diogo veio a possuil-a e administral-a. Em um relatorio13 que temos presente, e o qual seguimos n'este capitulo, por ser trabalho de grande valor, vêmos que foi João Diogo Stephens14 quem em 1826 fez doação da fabrica e de todos os seus pertences á nação portugueza, segundo consta da verba do testamento que em seguida transcrevemos15:

      «... Os edificios e casa de habitação e mais casas, herdades, terras, pomares, vinhas, jardins, engenhos de agua, etc., na Marinha Grande, e ao que se possa dar o nome de fixo capital do meu trafego de vidros, tendo sido tratado e convencionado entre mim e meu muito lamentado socio e irmão Guilherme Stephens que o mesmo passaria indivisivel para os representantes ou successores do sobrevivente socio a beneficio d'este reino e da gente ou familias empregadas n'este estabelecimento, assim como foi approvado e ratificado por sua magestade fidelissima no § 1.° do alvará de 11 de dezembro de 1780, agora para inteiramente se cumprir aquelle tratado ou convenção, e servir como um monumento de meu alto apreço e gratidão pelos favores e protecção que n'este paiz me tem sido concedidos, dou e deixo á nação portugueza todos os mencionados bens e estabelecimentos, supplicando ao governo que haja de eleger e nomear uma auctoridade para esta os reger e administrar, rogando tambem mais que não deixe de haver contemplação para com o actual administrador José de Sousa e Oliveira, e conceder-se-lhe aquella dignidade e remuneração, que tão devida é ao seu merecimento, e d'esta sorte espero fixamente, como assim o desejo, que prosperidade, estabilidade e permanencia acompanhem esta util e bella fabrica, a beneficio da Marinha Grande em particular, e utilidade d'este reino em geral, e assim para sempre.»

      Esta é, em resumo, a historia da real fabrica de vidros até a sua doação á coroa d'estes reinos. D'ahi por diante, por ser essa a opinião das estações competentes, cujas consultas subiram ao governo, a fabrica, levada á praça, continuou a ser administrada por emprezas particulares mediante contractos mais ou menos vantajosos, conservando-se em parte os antigos privilegios, e tendo sempre em vista os interesses e a prosperidade dos habitantes da Marinha Grande, no que se cumpria a vontade do doador.

1) D. Pedro de Castilho foi vigario ou prior da egreja de S. Salvador de Ilhavo; beneficiado da de Santo André de Celorico; bispo de S. Salvador da cidade de Angra (1577), donde veio na armada castelhana do commando do marquez de Santa Cruz, que ali foi submetter a ilha Terceira ao governo intruso; e depois prelado da Sé de Leiria (1583-1607); capellão-mor e esmoler-mór de Filippe II; conselheiro de estado; presidente do desembargo do paço; governador de Alcobaça; D. prior da collegiada do mosteiro de Guimarães; inquisidor geral; duas vezes viso-rei de Portugal, sendo a segunda na ausencia de D. Christovão de Moura, reinando Filippe III, etc. O bispo D. Pedro de Castilho fundou na egreja do mosteiro de S. Domingos, de Lisboa, uma capella (onde jazia), que era obra de bella fabrica e bem ornamentada. Julgámos que não existem vestigios d'esta obra, porque quasi todas as capellas particulares, com missa diaria, tinham sido erectas no claustro do mosteiro, e desappareceram no terremoto de 1755. Quando menos, em S. Domingos não se nos deparou hoje memoria d'ella. O sr. Julio de Castilho, em a extensa nota que escreveu para o tomo 3.° do Camões, na qual trata exclusivamente da genealogia da illustre família dos Castilhos, e da qual extrahimos alguns dos esclarecimentos acima, diz que este bispo D. Pedro passava por varão de grandes qualidades e muito saber. (Vid. Camões, estudo historico-poetico, pelo sr. Antonio Feliciano de Castilho, 2.1 edição, tom. 3.°, pag. 73 a 78.)

2) Passou á cathegoria de parochia no começo do seculo xvii

3) A povoação com effeito melhorou muito, não só pelo desenvolvimento que tem tido a industria do vidro, mas pelo estabelecimento da administração das mattas, da estação telegraphica, pelo augmento das lojas de venda, etc. Além d'isso, está ligada a Leiria por uma boa estrada, o que torna hoje facilima a communicação da Marinha Grande com a capital do districto.

4) Francisco Rodrigues Lobo nasceu n'aquellas ribeiras, como elle proprio diz: . Nas ribeiras do Lena fui nascido, e nas do Lis guardava o manso gado. E tambem é d'ali natural o não menos suavissimo poeta Antonio Xavier Rodrigues Cordeiro.

5) Primavera, edição de 1774, pag. 103.

6) Leiria.

7) Primavera, pag. 2.

8) Vid. a Estatistica do districto de Leiria.

9) Vid. a Estatistica official referida ao anno 1864.

10) Vid. Memorias economicas da Ac. R. das Sciencias, tom. v, pag. 258 e seg.

11) Na Marinha Grande as casas são, pela maior parte, de um só andar. Em 1855 vimos, e cremos que ainda se vê, em muitas d'essas casas uns canteiros de flores aos lados da porta da entrada, o que dava á povoação singular encanto. Isto é vulgar na Inglaterra, e é de suppor que o uso fosse transplantado por Stephens, que para o melhoramento da fabrica e da povoação nada, para assim dizer, lhe esqueceu.

Além de outros benefícios, a Marinha Grande deve contar, como um dos mais valiosos com que foi favorecida por Stephens, o desenvolvimento da cultura, de que elle proprio deu o exemplo nos terrenos annexos á fabrica.

Incitou egualmente o desejo pelo cultivo das bellas artes, creando uma philarmonica na quasi totalidade composta dos operarios da fabrica e promovendo representações dramaticas no theatrinho, que dependia da fabrica e ficou mui arruinado em 1811.

FONTE: “Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de Portugal”

por P.W. DE BRITO ARANHA –

Livraria de A.M.Pereira – Editor – 1871

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