História
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III. Classifficação e applicação das madeiras, e outros productos.

by on 3 de Março de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

0 PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

III.

Classiffcação e applicação das madeiras, e outros productos.

As madeiras do pinheiro bravo ou marítimo podem-se dividir em tres classes distinctas no pinhal de Leiria, a saber:

1.ª classe. Madeira sã para construcções navaes e civis.

2.ª     ,,     Madeira de refugo para lenha, aproveitando-se alguns cerneiros.

3.ª     ,,     Madeira resinosa a que chamam acha, para a extracção do alcatrão, pez , etc.

1.ª classe.

Bem se deixa vêr que nesta classe entram todos os pinheiros que se apresentam em bom estado, e com dimensões convenientes para delles se tirarem diversas peças de construcção. A sua madeira é com especialidade applicada para o Arsenal de Marinha em Lisboa. No principio de cada anno o Inspector deste Arsenal dirige á Secretaria d’Estado dos Negocios da Marinha, uma relação circumstanciada das peças de madeira que precisa, em attenção ás obras projectadas ou em andamento; e esta relação é remettida á Administração Geral das Mattas, para se proceder ao respectivo córte, e sua promptificação. Além desta requisição annual, se fazem outras eventuaes, se ha urgencia de madeiras. O mappa n.° 3 apresenta a quantidade de todas as madeiras de construcção que têem sahido do pinhal nos ultimos 8 annos, de 1835 a 1842, tanto para o Arsenal de Marinha, como para o do Exercito, e particularcs.

2.ª classe.

Tem-se reconhecido pela experiencia que a idade em que se acha completamente desenvolvido um pinheiro, é entre os 70 e 80 annos: d’então data a sua decadencia, e ainda que continue a vegetar e a engrossar, com tudo sua seiba começa a decompor-se por não encontrar no lenho a mesma disposição e facilidade de poder girar por entre as fibaas, e exercer suas funcções vegetativas; principiando assim a obstruirem-se e engorgitarem-se certos canaes e póros destinados a absorver os diversos alimentos da terra e do ar; os ramos ou braçadas, que directamente sahem do tronco central dos pinheiros, bem manifestamente inculcam esta decadencia pela maneira como, já cançados de respirar por suas extremidades, vão pouco a pouco declinando a ponto de fazerem angulos maiores de 90º com a direcção do tronco central, quando estes no seu começo são apenas de 5 a 8 gráos. Assim, no estado de vigor em que se deve cortar o pinheiro, anda este angulo entre 60 a 70° É este um dos principaes meios de conhecer  a idade destas arvores; e a que chamam coroação; sendo outro inquestionavel a côr e aspecto da casca, que pelo tempo se vai tornando mais liza e avermelhada. Para se saber porém se a madeira estará sã ou não, ha um indicio infallivcl que é o do cogumello (3), que logo que o pinheiro começa. a apodrecer, annuncia immediatamente este estado, apparecendo na superficie do tronco, e quasi sempre nas concavidades que deixam os ramos seccos que delle se despegam. Os pinheiros assim atacados são chamados cardidos; e posto que por isso percam o seu principal merecimento e valor, têm ainda mesmo assim muitas applicações. Como acontece vir o cogumello, e não estar o pinheiro podre em todo o seu comprimento, mas só naquelle logar em que elle se manifesta; ainda se aproveita ás vezes parte de sua madeira sã em peças curtas de construcção. A outros tira-se-lhes o borne (4); e ficando só com o cerne, tomam então o nome de cerneiros, e assim são vendidos. Esta madeira de cerne, que se póde tirar tambem dos pinheiros sãos em todo o seu comprimento, é de uma duração admiravel, e pode existir seculos sem se corromper: não se presta tão facilmente ao artista, como outra qualquer, por causa da sua rigeza e união das fibras, mas é preferível por outras qualidades.

Os pinheiros com o cerne completamente cardido têem tambem uma serventia particular, e vem a ser para calhas e conduccão d’agoas subterraneas. A vantagem que elles apre -sentam neste estado, e de não ser necessario fural-os; pois aprodecendo-lhes todo o cerne sómente, e conservando-se sempre são e verde o borne em quanto o pinheiro vegeta, acontece encontrarem-se pinheiros ôcos desde os ramos superiores até a raiz. Póde-se tambem tirar dos pinheiros cardidos alguma acha como adiante veremos.

O que sobra destas applicações é lenha para queimar que, junta com a que fica dos córtes dos pinheiros sãos, vai entrar na fabrica dos vidros da Marinha Grande, e consumo dos particulares. Os numerosos carreiros empregados neste trabalho a conduzem primeiro para junto de determinadas casas dos guardas do pinhal, e sendo alli revistada pelos guardas, a racham convenientemente naquellcs logares a que chamam casqueiros, e que servem de retem para d’alli a levarem para a fabrica dos vidros, onde ha ordinariamente um grande deposito. O numero de carradas de lenha que actualmente consome esta fabrica por anno anda de 12 a 13.000: cada carrada deve formar um parallelopipedo com a base de 7 palmos de comprido e de largo e 4 palmos d’altura: as cavacas fazem o lado mais pequeno desta figura, e por isso devem ter 5 palmos de comprimento. Uma carrada de lenha com estas dimensões, vindo rachada e prompta a metter no forno, custa á fabrica 360 réis; e por consequencia o seu combustivel annual importa em 5:040$000 réis a 5:400$000 quantia que reverte toda directamente em beneficio destes carreiros, que pela maior parte são lavradores pobres, que muito precisam deste recurso para entreterem seus bois, principalmente no inverno.

3.ª classe.

Chama-se acha no pinhal de Leiria a toda a madeira de pinho que contém certa quantidade de partes rezinosas, das quaes se possa extrahir alcatrão, pez, etc. É esta a producção mais rica que dá o mesmo pinhal, e da qual se podem tirar grandes vantagens, como adiante se verá. Diversas opiniões existem entre os physiologistas e botanicos sobre a maneira como ella é formada durante a assimilação da arvore. O que se sabe porém, é que ella tem logar e se congrega por entre as fibras lenhosas, principalmente por onde a seiba não pode livremente girar: a esta funcção se chama entear. A acha póde-se obter dos pinheiros natural ou artificialmente. A natural, que se apresenta sempre no cerne, toma diversos nomes conforme se acha disposta, a saber:

l.° Acha massiça. Quando toda uma porção de tronco ou raiz se acha enteada sem intervallo algum cardido.

2.° Costa. Quando existe enteada uma das zonas exteriores do cerne, achando-se o interior todo cardido.

3.° Forrada. Quando as partes enteadas se apresentam misturadas com partes inteiramente lenhosas ou cardidas.

4.° Rajos. A que apparece nos nós dos pinheiros.

A acha tambem se distingue pelas cores que apresenta de amarella, branca , e vermelha, sendo esta ultima côr a mais trivial.

Para a formação desta acha natural concorre a idade do pinheiro, qualidade do terreno, sua exposição para com o sol, sua collocação isolada, e muitas outras diversas causas.

Encontram-se muitas vezes pinheiros reduzidos a este estado rezinoso, que dão 200, 300 e mais arrobas d’acha magnifica, e que podem por isso render mais de 30$000 réis em productos extrahidos.

Quanto á acha artiticial e meios de a obter, irão descriptos quando tratarmos dos productos rezinosos.

Nada temos a descrever sobre a madeira do pinheiro manso e suas applicações no pinhal de Leiria, por isso que os poucos que existem nesta matta, não se têem cortado em razão da sua pequenez. Diremos entretanto de passagem que a madeira destes pinheiros, pela sua structura, e configuração volteada, póde ser vantajosamente empregada nas ossadas das embarcações; e sua acha, posto que não dê um alcatrão tão liquido como a do pinheiro bravo, com tudo é mais abundante em rezina.

As arvores d’outras especies, que já notámos, existirem espalhadas por todo o pinhal de Leiria, não apresentam dimensões para serem empregadas na construcção naval; todavia têem muitos outros usos e applicacões, principalmente para os lavradores. Destas o ervedeiro ou medronheiro (Arbustus unedo de Limteo) tem o primeiro logar. Encontra-se este útil arbusto

com frequencia em todo o pinhal de Leiria, sua madeira é de boa qualidade e duração, e póde-se empregar com preferencia em obras de torno, marceneria, carros, e instrumentos agricolas; sua cepa é excellente para carvão, e para isso já foi applicada durante alguns annos, ficando até o nome de Carvoaria a um sitio do pinhal onde elle se fazia: suas folhas servem de pasto a alguns animaes; e seu fructo bem conhecido é pela fermentação alcoólica que desenvolve. O Sr. José de Sousa e Irmãos, da Marinha Grande, com casa de commercio na Figueira, trazem arrematado este fructo annualmente pela quantia de 40$000 réis, para o empregarem na sua fabrica de distillação estabelecida no logar da passagem; e delle têm extrahido 14 a 17 pipas d’agoardente por anno, podendo ainda fazer muito mais, se o preço a isso os convidasse, attendendo ás despezas de conducção d’alli para a Figueira, e ao muito vinho que annualmente se queima naquellas immediações.

O loureiro e salgueiro negral tambem abundam no pinhal, e têm muito gasto para arcos de vazilhame, sendo destes os que se empregam na fabricação dos barris para o alcatrão: as aduellas para estes barris são tiradas de pinheiros que vegetam em logares mais humidos e enxarcados do pinhal em consequencia de sua madeira ser mais macia, e flexivel para este fim.

 Um dos mais uteis productos do pinhal de Leiria é sem duvida a grande quantidade de estrume vegetal, que elle fornece á agricultura. Sendo em geral todos os terrenos que circ cumdam o pinhal arenosos e de sua natureza fracos e estereis, conservar-se-hiam ainda hoje incultas milhares de geiras e legoas inteiras, se não fosse este precioso meio de tornar a terra productiva. Dos estrumes extrahidos do pinhal de Leiria, o mais apurado e melhor é um a que alli chamam rapão e piórno: encontra-se nos lugares mais humidos e sombrios, e apresenta-se com uma crusta balôfa sobre a terra, formada de certo musgo produzido por uma fermentação vegetal nos residuos que apodrecem cahindo das arvores. Todavia os fetos, e a caruma secca ou folha dos pinheiros têm muito uso para o mesmo fim.

O muito matto que do pinhal se tira constantemente, bem como lenha e varólas de desbaste, não são objecto de menos monta, nem de menos utilidade para a agricultura.

Por estes recursos e muitos outros motivos, póde-se dizer affoutamente que o pinhal de Leiria é o amparo e sustentaculo de oito freguezias que o rodeiam; e delle vivem, directa ou indirectamente, alguns milhares d’habitantes. É a elle que se deve o consideravel augmento de fogos e a cultura de tantos terrenos maninhos em seu contorno, particularmente nestes ultimos anos, de que resultam vantagens bem palpaveis ao Estado e á nação. Só a freguezia da Vieira, que não existia ha 100 annos, compõe-se hoje de 400 fogos com 2.000 habitantes.

NOTAS:
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(4) Nos pinheiros e em todas as arvores existem as seguintes classificações, partindo do interior do tronco para fóra: medula, cerne, borne, alburno, e casca.
Medula é um tubo interior, que parte pelo pé e troncos desde a raiz até ás extremidades dos ramos, formado d’uma substancia pouco consistente e delicada, disposta como o tutano nos ossos. Cerne é a reunião das camadas concentricas existentes em roda da medula, e só se fórma (depois da arvore estar adulta) dos residuos dos diversos líquidos que a nutrem, sendo este o estado de perfeição do lenho, e que apresenta mais duração em consequencia do compacto de suas fibras. Borne é a camada que se segue em roda do cerne, e por onde giram quasi exclusivamente os líquidos. Alburno é a ultima camada que involve o borne, ficando entre este e a casca, e se compõe d’uma substancia tenra e gommosa, que alli depositam os diversos líquidos todos os annos para augmento do tronco da arvore: este alburno se vai successivamente solidificando até ser da natureza do borne, ou converter-se nelle mesmo. A casca finalmente é bem conhecida, sendo de grande importancia para o vegetal: sem ella, elle brevemente pereceria; porque não tendo este escudo os diversos fluidos gazosos e liquidos, não poderiam exercer suas funcções e se extravasariam, sobre tudo a seiba descendente, e seccaria o vegetal.

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
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LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

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