História
950 views 2 comments

II. Qualidades d’arvoredo.

by on 23 de Fevereiro de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

0 PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

II.

Qualidades d’arvoredo.

     O pinheiro bravo (Pinus marítima) é a arvore que mais abunda, e domina quasi exclusivamente toda a superficie desta grande matta. Dando-se esta arvore mui bem em terrenos soltos, seccos, e arenosos, não obstante crescer e vegetar espontaneamente em todo o nosso paiz; com tudo dá-se melhor nas costas marítimas. Todas estas circumstancias concorrem no terreno que occupa o pinhal nacional de Leiria; e como se conservam mui vastos os pinheiros nos seus primeiros annos, e não se cortam indistinctamente antes de chegarem ao seu devido crescimento, dando-se a maior parte delles o tempo ne cessario para a formação do cerne, é esta a razão porque os pinheiros bravos chegam alli a tão gigantescas dimensões, que sua madeira é superior á de todos os outros pinhaes existentes neste reino, e não, como erradamente julgam alguns, por serem d’uma qualidade diversa e exotica: no decurso dos nossos trabalhos topographicos encontrámos no pinhal de Leiria dois pinheiros, um com 178 palmos d’altura e 20 de cicum ferencia no tronco, tomada junto a raiz; e outro com 158 palmos d’altura e 19 de circumferencia, contendo ainda este na parte inferior do tronco uma porção sã de 50 palmos. Estes pinheiros devem contar seculos d’idade, e talvez sejam da primitiva.

     Do pinheiro manso (Pinus pínea) ha alli mui pouca quantidade. Não se dando tao bem estes pinheiros junto as costas do mar, e precisando de um terreno em que profundem com facilidade suas raizes, é esta a causa da sua escacez no pinhal de Leiria; tendo-se preferido, com bastante motivo, as sementeiras dos pinheiros bravos, por vegetarem melhor naquelle local, e crescerem muito depressa. Junto ao alto da Cabeça Lousã fez-se uma sementeira destes pinheiros mansos ha mais de 50 annos; porém pela má qualidade do terreno acham-se definhados, e crescem lentamente. Proximo ao aceiro do Rio Tinto, para a parte de S. Pedro de Muel, e junto á praia da Vieira, se encontram com elles algumas porções de terreno; mas ainda estão pequenos, por terem sido semeados depois da queimada de 1824.

     Estas são as duas unicas especies de pinheiros que formam tanto esta matta, como as mais do reino, e que são (segundo Brotero) naturaes deste reino, ou nelle ha seculos naturalisadas.

     Algumas tentativas se têm feito entre nós para aclimatar outras especies de pinheiros do Norte; porém ou seja pela falta d’escolha d’um terreno que lhes fosse adequado, ou pelo estado de deterioração em que por ventura estaria a semente, ou mesmo talvez por falta do agazalho e abrigo que precisam estas arvores nos seus primeiros annos, não tem progredido a vegetação. É para lamentar, todavia, que havendo em Portugal tantas serras e terrenos incultos proprios para nutrir estes pinheiros, como comprovam as experiencias feitas por sabios e acreditados Botanicos, não se tenham creado mattas d’uma madeira tão preciosa e necessaria para a mastreação de nossos navios, e em geral de tanto uso em Portugal, assim em architectura naval, como civil. Desta incuria resulta, além da perda de tantas utilidades que comsigo trazem similhantes arvoredos, o pagarmos annualmente um tributo tão avultado aos estrangeiros, e que bastante peza na balança commercial e politica.

      D. Rodrigo de Sousa Coutinho, sendo Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar, mandou vir do Norte em 1800 varias sementes de pinheiros, larissos, e abetos: destas, as que semearam em varios locaes do terreno pertencente ao pinhal de Leiria não vingaram, e alguns pinheirinhos que nasceram, pereceram logo nos primeiros annos. Não succedeu com tudo outro tanto aos que nessa época igualmente se semearam em outras partes do reino, com especialidade na serra do Marão, onde vigorosamente cresceram; porém como não houvesse methodo regular nestas sementeiras, nem se olhasse mais para a conservação dos pinheiros nascidos, baldados foram os esforços deste diligente Ministro, podendo alias termos agora viçosas mattas desta especie tão desejada.

     Durante a administração do Coronel Varnhagen fizeram-se algumas sementeiras de pinheiros larissos, proximo á lagôa da Sapinha, mas infelizmente pouco resultado se tem obtido desta empreza: os poucos que nasceram da primeira vez, posto que ainda vegetem, não dão esperanças para o futuro d’um crescimento vigoroso; e as primeiras pinhas que crearam além de virem tardias, a amendoa encerrada no pinhão não estava formada completamente. As ultimas destas sementeiras feitas em 1840, por qualquer que fosse o motivo, tambem não vingaram, nem mesmo nasceram, senão 9 a 10 pinheirinhos.

     Assim bem se deixa vêr, que sendo o pinheiro bravo ou marítimo o escolhido para habitar naquelles arenosos logares, elle, como primeiro senhorio, tem tomado posse, e posições tão avantajadas em toda a sua superficie, que não consente rivaes, nem quem o affronte, ainda que seja da sua propria familia. É desta maneira que encerrando o pinhal de Leiria tanta diversidade de madeiras como o sanguinho, o amieiro, o loureiro, o salgueiro, o samouqueiro, o carrasco, o folhado, o aroeiro, o aderneiro, a sorveira, o zambujeiro, e o erve deiro ou /medronheiro, todas estas arvores, achando-se vigiadas por tão altivos e soberbos pinheiros em tomo de si, se conservam submissas, e nunca conseguem chegar ás proporções e robustez que por ventura teriam, se livremente respirassem.

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.
PUBLICAÇÂO MENSAL Redigida Sob a Direcção Da
ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
________________________________
LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

Outras áreas da História
 
Esboço Histórico