História
1213 views 0 comments

Datas Históricas

by on 19 de Outubro de 2013
 

21 de Agosto de 1892

Que dia de sol abrasador! As cigarras, no cimo dos pinheiros, faziam uma “algazarra” dos diabos. O rapazio pelo caminho da Estação esbaforeava e algumas mulheres, mais curiosas, com os filhos ao colo, descansavam pelas sombras das árvores.

Aguardavam-se visitas de fina estirpe e todos queriam ver de perto o Rei e a Rainha. Estavam para chegar no comboio, dizia o povo, em alarido de festa. Eram a0 e 30. Na Nacional Fábrica ia grande azáfama. Os operários de fatos novos, estavam nos seus postos prontos a mostrar aos gentis visitantes, a grandeza da sua profissão. À entrada da fábrica, a banda perfilada, aguardava o sinal do mestre para atacar. Rapsódia estudada. Havia flores e bandeiras. Burburinho do povo que se juntava, no largo fronteiro, sob o sol que já abrasava. Já tinham passado, há muitos os trens das Matas florestais, brilhantes como um sonho de fadas, puxados por parelhas de cavalos, mais limpos e asseados do muitos assistentes. A vozeada do povo era ensurdecedora e o delírio de entusiasmo, contaminava aquela gente ávida e hospitaleira.

Há, distância, ouviu-se um silvo agudo. A multidão fez silêncio. Eram, precisamente, 10 e 45. O comboio tinha chegado à Estação.

A  Família Real e a sua comitiva tomaram os lugares nos trens, postos à disposição e seguiram em cortejo, para a Nacional Fábrica, onde os aguardava muito povo. Percorreram as instalações da Fábrica, na companhia do Conde Azarujinha e dos principais artífices, evidenciando muita curiosidade e sempre interessados na descrição do fabrico das peças de cristal. A seguir foram visitar a Fábrica de Resinagem, acompanhados do Director José Pires de Albuquerque, que lhes mostrou as instalações e explicou as formas do fabrico dos sucedâneos da resina. Voltando à Nacional Fábrica, foi-lhe servido nos aposentos do Palácio, um lanto banquete, servido na baixela riquíssima, usada quando da visita de D. Maria II, em Maio de 1852, e que é pertença da Fábrica.

A comitiva visitante era constituída por El-Rei D. Carlos I, D. Amélia, o Infante D. Afonso, Ministro das Obras Públicas e seu secretário, dignatários da Corte de serviço, conselheiros e deputados, e o hábil caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro.

Depois do repasto, apresentou-se uma Comissão composta por José Ferreira Custódio Júnior, Gervásio Silva Neto, Conselheiro Taybner de Morais, que agradeceram a visita e apresentaram as conveniências da Marinha Grande de ver restabelecido o seu antigo concelho, criado por certa lei de 6 de Novembro de 1836. A pretensão, aliás, o desejo de todos os marinhenses, apenas se viria a concretizar passados vinte e cinco anos, da visita do Rei, propriamente, em Março de 1917.

Contudo dias depois, elevou a Marinha Grande à categoria de Vila e agraciou com a Comenda de Cavaleiro da Ordem Militar, de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo seu mérito artístico: António José de Magalhães Júnior, administrador e técnico da Fábrica; João José de Magalhães, operário florista; Joaquim de Oliveira, operário lapidário; Floriano Trayer, oficial de vidraça, Joaquim Matias Pedrosa e Severiano Matias, oficiais de cristal.

Em 23 de Outubro de 1899, o Príncipe D. Luiz Filipe, acompanhado do Capitão Mouzinho de Albuquerque, também visitou a antiga Fábrica Nacional de Vidros, e na ocasião foi oferecido ao príncipe, uma espada de vidro, artisticamente feita pelo operário José Morais Matias, oficial de cristal.

18 de Janeiro de 1934

Decorria o ano de 1934, quando o levantamento operário fez tremer Salazar e o perturbou seriamente.

Os acontecimentos tiveram o palco principal na Vila Vidreira. Em menos escala, actos semelhantes sucederam-se em diversos locais do País.

De 17 para 18 e durante todo o dia 18 de Janeiro, aconteceram pelo País acções de desespero, tendo havido cortes de linhas telegráficas, descarrilamento de comboios, explosões, assaltos a postos policiais, etc. ..etc..

Contudo foi na Marinha Grande onde o movimento operário teve expressão devido ao facto de maior coesão de trabalhadores.

Desde 1922 que o fascismo se instalou na Itália sobre a bitola de Mussolini, e, internacionalmente, na Alemanha de Hitler, em 1933.
Em Julho de 1932, Salazar toma conta da chefia do Governo e mantém o poder durante muitas décadas, fascizando o País e impondo ao seu maior inimigo – o movimento operário – a grilheta e o silêncio, a privação e a fome.

Promulga em 23 de Setembro de 1933, o Estatuto do Trabalho Nacional e com ele, os Sindicatos Nacionais, os Grémios e as Corporações. Os sindicatos livres, foram encerrados e em 31 de Dezembro de 1933, impedia a liberdade sindical.

Com a crise económica de 1929, crise mundial, suprimem-se as mais elementares liberdades individuais e aumenta-se a repressão e exploração sobre os trabalhadores. O desemprego e a coacção sobre as massas operárias era tão evidente e tão anormal que o 18 de Janeiro surgiu, como promissor e desejado salvador. Foi uma aventura arriscada, mas foram as aventuras que dignificaram os factos mais brilhantes da nossa história.

A classe operária, embora numericamente menor em relação à população activa, sentia a necessidade de lutar contra a fascização dos sindicatos e contra o infeliz Estatuto do Trabalho Nacional. A proporção na luta era descomunal… o desespero não tinha limites.

À data do movimento não existia, infelizmente, uma completa identificação de pontos de vista entre os trabalhadores nacionais, razão pelo fracasso do golpe.

No entanto, é digno de assinalar, a lição que hoje não devemos esquecer. Não foi uma inglória luta. Ela foi bem evidente e apesar de tingida com sangue e lágrimas dos gloriosos intervenientes, que sofreram na carne as injustiças dos opressores, vincou indelével, o querer, a força e a legitimidade da razão.

O sacrifício e o sofrimento da gloriosa juventude de 1934, não foi destruída de significado. Construíram grandes acções, junto com tantas outras, que acumuladas, minaram o terror fascista, causando-lhe o derrube.

E é ao recordar, hoje, passados muitos anos, que não olvidamos a lição dos operários que lutaram denodadamente por melhores condições de vida.

Com gratidão, assinalamos, a luta dos briosos trabalhadores. Foi um marco na história do operariado, uma estrela que há-de brilhar eternamente.

25 de Janeiro de 1934 “Uma semana depois…”

Foi, nesta data, há 43 anos, precisamente, uma semana depois do 18 de Janeiro, que um violento incêndio destruiu o velho edifício da Câmara Municipal. As causas do sinistro, segundo os cronistas do época, foram ocasionados por um curto-circuito. Muito se quis especular, mas a razão, verdadeira, foi a motivada pela deteriorado instalação eléctrica

.
Foi um medonho incêndio, atiçado nos papéis do arquivo, situado no sotão. 0 fogo rapidamente lambeu o madeiramento de cerne e destruiu o edifício. 0 restauro foi feito sobre os antigos alicerces e, imperdoavelmente, os técnicos da obra e os seus directores responsáveis, não verificaram ou não quiseram, por razões desconhecidas, terminar com o afunilamento do Rua Machado Santos, mesmo ali à entrado do Praça Stephens, evitava-se assim o disparate, sem dúvida, uma nódoa tremenda, para o qual não há justificação possível.

Se o erro já era censurável e se impunha a sua rectificação, agravou-se depois, como naturalmente se compreende… e, foi pena!… cento e tal anos antes já os colaboradores do Marquês de Pombal traçaram as avenidas e ruas de Lisboa com ampla margem, a contar com o futuro.

A propósito do incêndio no edifício da Câmara, deve realçar-se o mérito dos Bombeiros Voluntários, que no ocasião, tiveram acção de muita valia, evitando que o fogo se propagasse aos prédios vizinhos, conseguindo salvar, de forma exemplar e audaciosa, o recheio e documentos dos repartições instalados no rés do chão e que eram importantes.

A título de curiosidade, esclarece-se que foi no edifício da Câmara que os Bombeiros locais se exercitavam, em treinos que foram, no época, espectáculos de perícia e habilidade, a que o povo deliciava assistir. 0 edifício possuía varandas com armações de ferro, no primeiro e segundo andar, essa estrutura possibilitava os exercícios de mangueira e escada.

Impecáveis no aprumo e educação, os metais dos capacetes e das fardas, exibiam sempre um brilho novo, conseguindo pelo mérito de apresentação, de audácia e ligeireza, nos trabalhos de socorro, elevada consideração, como uma das melhores cooperações do Distrito.

Sob o comando de Joaquim de Carvalho, a Associação dos Bombeiros, que ao tempo tinha a sua sede aonde hoje se situa a Biblioteca, entre a Praça do Peixe e o Registo Civil, possuía elementos de competente valia, recrutados entre os operários vidreiros, filhos distintos desta gloriosa Vila vidreira.
Decorreram 43 anos! Muitos já partiram. Parece um sonho esta galopado incrível, em que os anos decorrem velozmente… inocente, o homem, julga-se eterno e, afinal, tão efémera é a sua passagem terrena!

in: O PÓ CHEIRA A FLÔRES
(Vultos e Sínteses da História de S. Pedro de Moel e Marinha Grande)
“Edmundo Oliveira Orfão”

 

Comunicação Social

Em 1892 publicava-se na Marinha Grande, o jornal “Autonomia”, sob orientação de José Ferreira Custódio.
Em 1917, surgia o “Marinhense” tendo como Director e Administrador, respectivamente António Augusto dos Santos e António Afonso de Abreu.

Em 1928, despontou o semanário “Marinha Grande” da responsabilidade de José Duarte de Carvalho e Francisco Correia Moita.

Jornais que apresentavam lisongeiro aspecto e boa colaboração, mas por motivos óbvios, não conseguiram, qualquer deles, atingir a maioridade. Páginas de jornalismo regional, de literatura – eu sei lá, meus amigos ! – de quantas páginas de arte estão esquecidas, amarelecidos pelo tempo, ignorados os seus ilustres autores.

Seguiu-se um interregno, demasiado para as pretensões do povo da gloriosa terra dos Stephens, até que o Reis e o Engenheiro Rafael de Magalhães, descendente de grandes mestres vidreiros, de colaboração com o semanário “Região de Leiria” empreendeu, muito louvávelmente, a publicação de duas páginas dedicados ao concelho. Foi um inestimável empreendimento, pois marcou o aparecimento de novos valores.

Prosseguiram depois, uns quantos correspondentes, que sucessivamente foram dando vida a essa meritória publicação e para todos foi digno galardão, porque souberam, apesar de muitas contrariedades distinguir essas páginas, onde quantos o desejaram puderam tomar conhecimento das realidades da terra natal e dizer de sua justiça. Empreendimento a todos os títulos louvável. Foi durante algumas décadas o único orgão de informação do concelho.

Em 1961, por notar um declíneo acentuado nessas páginas e por a Marinha Grande ter jus a um semanário próprio, solicitamos autorização para a publicação de um jornal que intitulávamos “Marinha Grande”.

Não fomos felizes na pretensão. 0 Ministério competente sob a autoridade repressiva do Pide negou-nos o direito, conforme seu despacho “Aguarde melhor oportunidade”. Lacónico, indiferente, perverso, como tudo que era ou julgavam vir a ser contrário aos interesses nefastos do fascismo. Entretanto, foi autorizado a publicação do “Jornal da Marinha Grande”, sob a direcção de José Martins Pereira da Silva, que a partir dessa época tem mantido a publicação, embora dirigido por diversos redactores.

 

in: O PÓ CHEIRA A FLÔRES
(Vultos e Sínteses da História de S. Pedro de Moel e Marinha Grande)
“Edmundo Oliveira Orfão”

 

Junho de 1959

Foi inaugurado, com músico e foguetes, o novo edifício do Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, situado no velho campo da Feira, onde outrora, no tempo das balizas às costas, se exibiam as velhas glórias do futebol marinhense.

Agora, no mesmo sítio, ergue-se, portentoso edifício, sentinela arquitectónica, a confirmar que a gloriosa terra dos Stephens, se desenvolve e cresce com aconselhável êxito … é grato ver “florir” dia a dia a vila vidreira.

Também fui aluno da velha Escola – oh que belos tempos lá passei! – no meu reinado de menino e cábula. A Escola nos Edifícios da Fábrica Nacional, que existiu, para recordar aos trabalhadores, que a continuação da instrução se iniciava ali, na Praça Stephens, como o desejou e o quis, o venerável Guilherme Stephens.

Durante alguns anos, sob a regência do Engenheiro Rodrigues, de Calazans Duarte e de Nery Capucho, e de mais uns quantos professores, a Escola foi risonha e franca.

Com o crescimento do população, o seu espaço diminuiu assustadoramente e as condições de ensino, deixaram de ter significado.

Nasceu então o edifício novo. A festa de inauguração foi uma manifestação sincera, presenciada por milhares de pessoas. A Televisão fez a cobertura e no pequeno écran, surgiu o cenário apoteótico que emoldurou, com raro brilho, a festa da inauguração. Presidiu o Ministro do Educação, o Subsecretário, Directores, o Sr. Bispo de Leiria, o Sr. Victor Gallo, Presidente da Câmara, etc..

Uma nova era, na educação secundária, se iniciava na Marinha Grande.

in: O PÓ CHEIRA A FLÔRES
(Vultos e Sínteses da História de S. Pedro de Moel e Marinha Grande)
“Edmundo Oliveira Orfão”

 

Obragem de 1915

A fina flôr de artífices vidreiros que nos princípios do século, designadamente em 1915, formavam no Fábrica Nacional, o quadro distinto de trabalhadores da nobre arte, era assim constituída:

Praça no 1: Filipe d’ Aquino

Praça no 2: Joaquim Freitas Nobre

Praça no 3: Adriano Freitas Nobre, Bento Morais, Joaquim Barosa e António Franco.
Prensa: Luíz da Silva, José Marrazes, António Marques, Artur da Silva, António Possidónio, Luiz Antunes e Firmino Alves.

Belga: José Monteiro, Jacinto Possidónio e Tomaz Saraiva.

Forno de 6 potes.

Descendentes de uma plêiade de artistas vidreiros, estes gloriosos percursores, marcaram a partir dos fins do século passado até ao alvorecer de 1925, a continuidade de distintos operários vidreiros, de cartola e casaca, que foram intérpretes condignos da fina estirpe que militou no Indústria Vidreira e que constituíram famílias de reputada consideração e de muito respeito.
in: O PÓ CHEIRA A FLÔRES
(Vultos e Sínteses da História de S. Pedro de Moel e Marinha Grande)
“Edmundo Oliveira Orfão”

 

25 de Abril de 1974

EDepois do Adeus“, música interpretada por Paulo de Carvalho e emitida, via rádio, no dia 24 de Abril de 1974, às 22h55m, foi a primeira senha que daria a Portugal uma viragem histórica. A canção “Grândola Vila Morena” de José Afonso, emitida no dia 25 de Abril de 1974 às OOh20m foi o sinal confirmativo de que as operações militares estavam em marcha e eram irreversíveis: deu-se a Revolução de Abril.

Foi o fim de 13 anos de Guerra Colonial (1961-1974) e o fim do Estado Novo. Deu-se a libertação de centenas de presos políticos. A Junta de Salvação Nacional assumiu o poder, com o General António de Spínola a comandar. Descolonizar, Democratizar e Desenvolver foram os objectivos do Movimento das Forças Armadas.

Com o 25 de Abril de 1974 morre o regime ditatorial, com 48 anos de idade, e nasce uma linda criança: a Democracia!!! Passámos a pensar livremente e o mais importante: a dizer o que pensávamos!!!!

Esta transição foi vivida com grande entusiasmo, alegria e emoção. No dia 26 de Abril de 1974, as massas populares saíram à rua em todos os pontos do país para apoiar a Junta de Salvação Nacional.

No Jornal da Marinha Grande, de 3 de Maio de 1974, na página n° 1 podia-se ler a seguinte notícia:

Na passada sexta-feira, dia 26, realizou-se, pelas 15 horas, na Praça Guilherme Stephens, frente ao edifício dos Paços do Concelho, uma grandiosa manifestação de apoio às Forças de Libertação, tendo sido montada na varanda do aludido edifício uma aparelhagem sonora que serviu para alguns oradores usarem da palavra no sentido de pedir ao povo marinhense que se mantivesse calmo e que procurasse com o seu civismo ajudar a obra que irá ser levada a cabo pela Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General António de Spínola, obreiro desta grande reviravolta levada a efeito no dia 25 de Abril, o qual passará a ser para todos os portugueses um dia memorável.

A multidão que enchia por completo a Praça frente ao edifício da Câmara, ostentava cartazes com dizeres de Vivas a Portugal, Vivas às Forças Armadas, Vivas à Liberdade e Vivas ao General António de Spínola, entoando ao mesmo tempo o Hino Nacional. Usaram da palavra os Srs. Manuel Baridó, Álvaro Domingues, Francisco de Sousa, Osvaldo Sarmento e Castro, Joaquim Augusto Carreira, Américo Catita e João de Almeida Fernandes, tendo todos apelado para o bom senso das populações, afirmando que se estava a viver um dia inesquecível da nossa História.

 

condensado de: Imagens do Século XX do Concelho da Marinha Grande
autoria de Patrícia Alexandra Balbino Grilo
edição de Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Marinha Grande
edição integrada no âmbito da exposição intitulada: «100 Anos de Fotografia do Concelho da Marinha Grande»
data de edição – Outubro 2001

Outras áreas da História
 
Esboço Histórico