História
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As Empresas Vidreiras e o Desenvolvimento Regional em Portugal: da Autarcia (1870-1914) à internacionalização (1980-2000)

by on 22 de Dezembro de 2013
 

As Empresas Vidreiras e o Desenvolvimento Regional em Portugal: da Autarcia (1870-1914) à internacionalização (1980-2000)

José Amado Mendes

A produção de vidro em Portugal tem já uma longa história, com uma duração de cerca de meio milénio.

Com efeito, esta actividade encontra-se devidamente documentada desde, pelo menos, os anos 1520, sendo actualmente um dos sectores industriais mais dinâmicos e actualizados.

Do século XVI ao XIX manteve-se sob a forma artesanal ou pré-industrial, dispersa maioritariamente por pequenas oficinas, embora tivessem sido instaladas algumas unidades dignas de registo - as chamadas manufacturas -, por diversos pontos do Centro e Norte do país: Covo e Vista Alegre (distrito de Aveiro), Coina (proximidades de Lisboa) e Marinha Grande (distrito de Leiria). Durante esse período, cada unidade produzia geralmente vários tipos de vidro, pelo que ainda não se poderá falar de especialização.

Entre as dificuldades com que então os produtores de vidro se debatiam contavamse, por um lado, a necessidade do abastecimento de combustível (a lenha), em grandes quantidades (como é sabido, a fusão do vidro exige temperaturas entre os 1200 e os 1500 graus Celsius), motivo pelo qual a proximidade de pinhais constituía um factor favorável à instalação de fornos de vidro. Por outro lado, escasseavam os técnicos e a mãode-obra especializada, havendo necessidade de recorrer, com alguma frequência, a know-how estrangeiro.

Na sequência de outras iniciativas tomadas na primeira metade de Oitocentos, o sector vidreiro sofreu um grande impulso desde os anos 1870, como se verá seguidamente. Não sendo possível desenvolver o assunto neste trabalho de síntese, seguirei de perto a investigação realizada para diversos estudos (referenciados na bibliografia), com especial relevo para a obra intitulada História do Vidro e do Cristal em Portugal (Lisboa, Edições INAPA, 2002), bem como a desenvolvida bibliografia aí referenciada.

1. O Apelo da Industria Vidreira

1.1. Criação de novas empresas e definição de pólos vidreiros

Após uma certa dispersão dos fornos de vidro por diversos pontos do país, nos séculos XVII e XVIII e nos primeiros três quartéis do século XIX, a indústria vidreira começou a concentrar-se, sobretudo, na localidade da Marinha Grande, então pertencente ao concelho e distrito de Leiria.

A tradição vidreira daquela povoação remonta a 1747, com a deslocação, para ali, da unidade instalada em Coina (concelho do Barreiro, distrito de Setúbal, ao Sul do rio Tejo). Tendo esta encerrado por meados dos anos 1760, pouco depois (1769) foi criada, na Marinha Grande, uma nova empresa, explorada pelo súbdito inglês Guilherme Stephens (com um substancial apoio do poderoso Marquês de Pombal) e, após a sua morte, pelo seu irmão Diogo Stephens, falecido em 1826.

Acrescente-se que, para a escolha da Marinha Grande como futuro centro vidreiro por excelência, muito contribuiu a existência, nas proximidades, além de matéria-prima em abundância (areia, da qual é extraída a sílica), de uma área de pinhal das mais extensas da Europa, o célebre Pinhal do Rei ou Pinhal de Leiria, cuja plantação inicial tem sido atribuída ao Rei D. Dinis, nos finais do século XIII ou inícios do século XIV.

Na década de 1870 foram efectuadas algumas tentativas de instalação de outras fábricas de vidro na referida localidade, mas sem êxito, pois laboraram apenas durante curtos períodos (que, em geral, não ultrapassaram os dois anos). Maior sucesso teve, contudo, a unidade instalada em 1889 por José dos Santos Barosa (1855-1923), a qual esteve na origem de uma moderna e actualizada fábrica de vidro de embalagem, actualmente explorada pela firma Santos Barosa - Vidros, SA. [1]

Por seu turno, na década de 1890 mais 4 unidades foram criadas, entre as quais se contam a Nova Fábrica de Vidros, que trabalhou durante mais de um século (1895-1999) e a de Ricardo dos Santos Gallo, fundada em 1899 (por Ricardo dos Santos Gallo Júnior, 1861-1912) e que, também profundamente modernizada e transformada, continua em actividade, actualmente sob a firma Ricardo Gallo - Vidro de Embalagem, SA[2].

Nas primeiras duas décadas do século XX acentuou-se o ritmo de criação de fábricas vidreiras, não só na Marinha Grande como em algumas outras localidades.

De qualquer modo, foi então que aquela se transformou no principal pólo de produção de vidro no país, tendo o número de unidades vidreiras subido de 1, em 1888, para 14, em 1922. Como nesta última data existiam, em Portugal, 36 fábricas de vidro (das diversas modalidades), as 14, instaladas na Marinha Grande, correspondiam a cerca 38,8 % do total [3].

Escusado será dizer que foi o vidro que, numa primeira fase, induziu e estimulou o desenvolvimento da respectiva região marinhense. A própria povoação, que permaneceu como uma modesta aldeia até finais do século XIX, foi elevada, sucessivamente, à categoria de vila (1892), a sede de conselho (1917) e a cidade (1988)[4]. É hoje um dos centros económicos mais dinâmicos do país.

O seu crescimento, abrupto e sem planificação urbanística adequada, ainda hoje é perceptível, por se tratar de um aglomerado onde o rural e o urbano se entrecruzam, numa mescla de habitações e de fábricas convivendo, lado a lado, salvo na recente zona industrial, onde tal já não se verifica.

Assim, na última década de Oitocentos e primeiras de Novecentos foi necessário: abrir estradas e construir alojamento, para os operários e técnicos recém chegados à Marinha Grande; edificar escolas (entre as quais uma escola técnica, nos anos 1920, contemplando disciplinas relacionadas com o vidro); providenciar o abastecimento de água e electricidade. É que, nas décadas imediatas (anos 1930 e seguintes), a Marinha Grande transformar-se-ia não só na capital do vidro - que, incontestavelmente é e continuará a ser -, mas também no centro estratégico de um cluster (cuja relevância, em termos de desenvolvimento, já foi devidamente sublinhada [5]), do qual fazem parte as indústrias de moldes, plástico, embalagens de papel e madeira e iluminação, assim como serviços de apoio às empresas [6].

As restantes fábricas vidreiras encontravam-se dispersas pelo país, sobretudo no Centro, entre as cidades de Lisboa e do Porto. De então para cá, algumas localidades perderam as suas fábricas de vidro e, em alguns casos, até da sua memória pouco se manteve (Covo, Oliveira de Azeméis e Ílhavo, no distrito de Aveiro; Viseu; Monte Redondo e Guia, no de Leiria; Seixal, na margem esquerda do Tejo). Noutros casos, porém, a tradição e a Indústria vidreira mantiveram-se nas respectivas áreas, nas quais foram instaladas unidades modernas e devidamente automatizadas (Santa Iria da Azóia, proximidades de Lisboa, de vidro plano; Figueira da Foz e Avintes-Vila Nova de Gaia, Porto, de vidro embalagem ou garrafaria).

1.2. Patrões e empresários no vidro

Não abundam em Portugal os estudos, biográficos e prosopográficos, sobre os patrões e os empresários do vidro. Até há pouco tempo, os investigadores estiveram mais interessados no estudo dos vidreiros - que, antes da mecanização e enquanto o respectivo saber-fazer foi um elemento imprescindível à produção de vidro, constituíram uma certa aristocracia operária -, quer pela especificidade da sua actividade, quer pelo seu poder combativo e reivindicativo, no âmbito do movimento operário. Com efeito, foram os vidreiros da Marinha Grande que, ao revoltarem-se, em 18 de Janeiro de 1934, mais precocemente se opuseram à política autoritária e controladora, imposta pelo Estado Novo às organizações sindicais [7].

Acrescente-se, aliás, que a pouca atenção dada ao empresariado, como objecto de estudo, não é uma característica exclusivamente portuguesa, já que tem sido também apontada relativamente a outros países. A propósito, já sublinhou Carlos Dávila L. de Guevara:

«Por varias décadas hubo tabúes poderosos que previnieron a muchos investigadores de acercarse a estudiar al empresariado, mirado por algunos como su “principal enemigo”; por otros como los “vendepatrias”, “burguesía concupiscente” y “parasitaria”. Para muchos, el empresariado siempre ha despertado - con razón - suspicacias. Estas preconcepciones estuvieron vinculadas a procesos económicos, políticos, ideológicos y sociales en que se debatió más de una generación de académicos e intelectuales» [8].

Pelo que se acaba de referir, no estado actual da investigação pouco se poderá avançar. De qualquer modo, entre os fundadores e/ou administradores de empresas vidreiras encontram-se, por exemplo: capitalistas, inclusive alguns titulares; antigos vidreiros, com conhecimento empírico da actividade; e grandes empresários, com interesses em diversos tipos de negócios.

No primeiro grupo incluem-se o conde (1.º) do Farrobo e o conde (1.º) de Azarujinha. O conde do Farrobo, Joaquim Pedro Quintela, explorou a Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, durante duas décadas (1827-1847) [9]. Como notou José Pedro Barosa, foi a primeira vez que um dos maiores financeiros do tempo se interessou pela indústria vidreira (a segunda verificar-se-á mais tarde, com os Burnay, com veremos oportunamente) [10].

O conde do Farrobo foi uma figura marcante do seu tempo, na política, apoiando decididamente a causa liberal, como homem culto, interessado pelas artes e como mecenas e, ainda, como interveniente em numerosas actividades a que se dedicou. Como já foi destacado, «na esfera dos negócios, não houve grande empresa comercial ou industrial em que fosse alheia a sua dinâmica actividade: a empresa vidreira da Marinha Grande, a fábrica de produtos químicos […], as minas de carvão, a fiação de sedas, as companhias de seguros “Bonança” e a “União Comercial”, a fundição Vulcano, a Companhia de Caminhos de Ferro do Norte e Leste, etc., etc., foram iniciadas ou largamente apoiadas pela sua iniciativa e capitais» [11].

Por sua vez, o conde de Azarujinha, António Augusto Dias de Freitas, foi arrendatário e director da já referida Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, de 1864 a 1894 (juntamente com Jorge Croft, que depois foi 1.º visconde da Graça) [12]. Foi também «director da Companhia do Mercado da Praça da Figueira [Lisboa] e membro do conselho fiscal de várias outras companhias» [13].

Os casos mencionados podem enquadrar-se no conjunto das “persistências do Antigo Regime”, estudadas por Arno J. Mayer [14]. Efectivamente, trata-se de membros da nobreza que, embora em fase decrescente do poderio de que tinham gozado antes da Revolução Liberal de 1820, passaram a envolver-se em negócios e, inclusive, na actividade industrial, mais consentânea com a dinâmica da “burguesia conquistadora”, para usar a conhecida expressão de Charles Morazé.

Recordo, apenas, que já durante o antigo Regime se verificou um fenómeno curioso e pouco vulgar, uma vez que os empresários vidreiros da Fábrica do Covo (localizada a 3 km. de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro, e que teve um extraordinária longevidade, cerca de 4 séculos, anos 1520-1920) se nobilitaram, produzindo vidro, tornando-se nos “senhores do Covo”[15].

Mais frequente foi, contudo, antigos operários ou técnicos vidreiros tornarem-se patrões e/ou empresários. Assim sucedeu, entre muitos outros, com os fundadores de empresas às quais ficaram ligados os apelidos, bem conhecidos no meio vidreiro, de Barosa, Custódio, Gallo, Magalhães, Morais, Roldão, etc., ou estrangeiros como André Michon (francês), que explorou e dirigiu fábricas de Vidro em Vila Nova de Gaia (Porto) e em Buarcos (Figueira da Foz). Nestes casos, ao domínio da técnica vidreira, por aqueles que, em certas fontes coevas, aparecem designados como “sócios de indústria”, era necessário agregar capital, o que foi conseguido de várias formas: associando familiares (alguns emigrantes brasileiros, como Joaquim Barosa, irmão de José dos Santos Barosa, fundador da empresa a que deu o nome) aos empreendimentos, recorrendo ao crédito ou vendendo propriedades agrícolas. Numa segunda fase, o autofinanciamento foi um meio muito usado para o desenvolvimento da actividade e, posteriormente, também o recurso ao crédito bancário.

Por último, merece destaque o envolvimento, na indústria vidreira, dos capitalistas e empresários Burnay, cuja “dinastia” marcou a economia e a sociedade portuguesas, nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX. Mesmo sem dispormos, ainda, de estudos aprofundados sobre o assunto, algumas achegas e os diversos testemunhos não deixam margem para dúvidas. Por exemplo, em obra recentemente publicada pode ler-se: «Numa litografia a cores de Henry Burnay [1837-1909], Rafael Bordalo Pinheiro escreveu como legenda: “compra, vende, troca, empresta. Põe, dispõe, impõe, repõe, fia fura e faz”. Henry Burnay é o primeiro empresário do século XX e o último do século XIX, como diz a investigadora italiana, Giulia Rossi Vairo, “hábil empreendedor, incarnou a figura de magnata no cenário da economia europeia entre o fim de Oitocentos e o início de Novecentos”. Condensa em si as dificuldades de um país late-comer em busca da sua industrialização, quando esta já tinha varrido a Europa além Pirinéus» [16].

Também Maria Filomena Mónica, no seu estudo sobre “Capitalistas e industriais (1870-1914)”, se refere à dita família, frisando: «Na viragem do século, os Burnay eram célebres: o seu irmão Adolfo era administrador da Companhia Portuguesa dos Tabacos e da Companhia de Vidros da Marinha Grande; o seu primo João era administrador da maior metalurgia da capital; o seu tio Constant estava à frente da CUF [Companhia União Fabril]; o seu irmão Eduardo, um médico que casara com a filha de Ramalho Ortigão, dirigia o Jornal do Comércio, que lhe pertencia. Toda a gente sabia quem era o “pulgão polimórfico”, como lhe chamava Fialho de Almeida. Até Eça de Queirós nele se inspirou para a criação de Cohen, de Os Maias. Na imaginação popular, Burnay transformara-se no capitalista por excelência, judeu na origem, internacional nos contactos e dissoluto nos vícios»[17].

No que à indústria vidreira diz respeito, a acção dos Burnay, entre 1899 e 1921, caracterizou-se por uma estratégia, perseverante e continuada, com vista á formação de um monopólio para o ramo. O tema já mereceu a atenção de José Pedro Barosa, que o estudou de forma detalhada [18], pelo que se torna desnecessário retomá-lo aqui. Recordarei, no entanto, as principais conclusões a que chegou o citado investigador, quanto aos objectivos, aos resultados e aos motivos da não concretização plena do projecto.

Quanto aos objectivos, o mais plausível parece ter sido o seguinte: «[…] analisando a situação da indústria vidreira, [Burnay] pensou catalisar a “reorganização” desta como um monopólio que lhe garantisse taxas de lucro superiores às das aplicações alternativas dos seus capitais» [19].

Quanto aos resultados, como recorda o autor, uma conclusão a tirar é a de que: «a actuação do grupo Burnay na indústria vidreira portuguesa se traduziu em diversas inovações. Ao nível dos métodos de gestão, não era frequente, à época, uma empresa gerir um conjunto de fábricas na mesma indústria, procurando aproveitar, coordenadamente, as vantagens de cada uma e as sinergias do conjunto num quadro multiproduto, e, no plano da tecnologia, há que deixar registado que foi este grupo, ou as empresas que o integraram, que introduziu em Portugal diversos equipamentos, de que se destacam o forno a tanque e a máquina de soprar mangas, na vidraça, e as máquinas semi-automáticas de soprar garrafas» [20].

Quanto aos principais motivos que impediram o grupo de atingir, em pleno, os seus objectivos, são apontados: a) por um lado, o ter confundido eficiência técnica com eficiência económica; b) por outro, pelo facto de uma parte considerável da actuação do grupo ter decorrido num quadro adverso, ou seja, em plena I Guerra Mundial (1914-1918) [21].

2. Modernização e Internacionalização

No período que decorreu entre os anos 1930 e 1960, a indústria vidreira, em Portugal, prosseguiu o seu caminho no sentido do desenvolvimento e da modernização. A todo esse processo foram inerentes vários factores. A especialização progressiva, na sequência do que já se iniciara nos finais do século XIX, com a fundação da fábrica da Amora, de garrafas pretas, no Seixal. De qualquer modo, só com o arranque da COVINA, em Santa Iria da Azóia (em 1941), que passou a assegurar toda a produção de vidraça, é que se deram passos decisivos para uma completa especialização.

Assim, as fábricas que, anteriormente, produziam diversos tipos de artigos, ao deixarem de se dedicar ao vidro plano, concentraram-se, umas, no vidro de embalagem ou garrafaria e, outras, na chamada cristalaria ou vidro doméstico. A partir de então (salvo uma ou outra excepção, no que se refere a produtos específicos, como vidro de laboratório, vidro decorativo/vitrais e lâmpadas), aqueles três subsectores - vidro plano, vidro de embalagem e cristalaria - partilham, entre si, o fabrico de uma gama diversificada de produtos.

A especialização, a concorrência e o aumento do consumo levaram à automatização da produção. Esta, iniciada na produção da vidraça, logo a partir da entrada em funcionamento da dita unidade da COVINA (como se disse já, em 1941), foi também sendo introduzida pelos produtores de garrafas. Porém, aqui tratou-se de um processo mais complexo e moroso - que passou, numa primeira fase, por uma utilização mais generalizada do semiautomático -, o qual se arrastou por cerca de duas décadas (de aproximadamente 1940 a 1960).

Não menos significativo, para a modernização do sector, foi a concentração, em certas unidades e pólos vidreiros. Referindo-se ao assunto, afirma Manuel Lisboa, em obra recentemente vinda a lume: «Mas, apesar da forte componente da mão-de-obra, no início da década de cinquenta, a indústria vidreira é já um dos sub-ramos dos minerais não metálicos que apresenta um nível elevado de concentração. Depois de uma década de alguma estabilidade, o início dos anos sessenta abre um período que se estende até 1974 e que é marcado pelo reforço do valor da produção face à mão-de-obra. Os anos que se seguem são de alguma instabilidade e já no início da década de oitenta inicia-se um outro processo de reestruturação caracterizado pela redução do número de estabelecimentos e de mão-deobra, mas com um ligeiro aumento do valor da produção (em valores absolutos e por estabelecimento). A este facto não têm sido alheias as convulsões sociais que têm ocorrido na Marinha Grande nas últimas duas décadas do período analisado» [22].

Meios de internacionalização da indústria vidreira O aumento da capacidade produtiva do sector vidreiro, por um lado, e a perda do mercado colonial, no pós-25 de Abril de 1974, por outro, induziu os industriais vidreiros a voltarem-se mais para o estrangeiro, embora na sequência de algumas iniciativas já tomadas anteriormente.

Com efeito, dos finais dos anos 1950 até aos inícios da década de 1970 (última fase dos já chamado “30 anos de ouro da economia”), alguns empresários vidreiros portuguesas, beneficiando do know-how entretanto adquirido, começaram a ser atraídos pelo mercado externo, inclusive através da instalação, noutros países, de fábricas de vidros.

Acrescente-se, todavia, que a experiência já havia sido iniciada anteriormente. Com efeito, a já mencionada COVINA - única produtora de vidraça em Portugal, desde os inícios dos anos 1940, como já referi -, logo em 1941 criou, no Brasil, a empresa vidreira COVIBRA [23]. A ambos os empreendimentos esteve ligado o grande empresário Lúcio Tomé Fèteira [24].

Cerca de duas décadas mais tarde, foi a vez dos accionistas da Ricardo Gallo, Filho, Ld.ª (da Marinha Grande), participarem na constituição da sociedade «Centro Vidreiro da Venezuela, C. A. - CECIVE, com sede em Caracas, cuja escritura foi lavrada em 9 de Julho de 1959 e [alguns anos depois] na VIDRUL, em Angola» [25]. A esta última iniciativa também esteveligada a Santos Barosa. Àqueles iniciativas no âmbito da industrialização, geralmente esporádicas e em número relativamente escasso, várias outras se seguiram, nas últimas décadas do século XX. Estas destacaram-se por três aspectos essenciais: a diversidade, a escala e os valores envolvidos.

A referida evolução pode avaliar-se através dos seguintes factores: o aumento crescente das exportações de artigos de vidro; o recurso a tecnologia e a experiências estrangeiras, em novos moldes; a entrada de capital estrangeiro no sector; a penetração de uma multinacional na indústria do vidro; e, por fim, a aquisição de fábricas no estrangeiro por uma empresa portuguesa.

As exportações de vidro têm vindo a aumentar substancialmente, nas suas diversas modalidades. No que concerne ao vidro plano, as suas numerosas aplicações e a inovação, em termos de produto [26], tem permitido exportar uma parte considerável da produção.

Quanto ao vidro de embalagem, o elevado grau de modernização das cinco unidades, instaladas no país, usando a tecnologia mais avançada (geralmente com as máquinas automáticas I S, de diversas secções), tem permitido aumentar as exportações.

A procura deste tipo de vidro tem crescido muito nas últimas décadas, devido à tendência, quase generalizada, para o uso da comercialização das bebidas engarrafadas, cujas embalagens, em muitos casos, não são reutilizáveis. Por outro lado, os aperfeiçoamentos do respectivo fabrico permitem a produção de embalagens em vidro fino, mais leves que as tradicionais, o que permite diminuir os custos de transporte.

Por sua vez, a cristalaria (não só o vidro de uso doméstico como o cristal de chumbo, de longa tradição no país), tem encontrado boa receptividade no mercado externo. Por exemplo, os artigos da ATLANTIS – cuja origem remonta a 1944, ano em que José Emílio Raposo de Magalhães e outros sócios a fundaram, em Alcobaça -, hoje integrada no grupo Vista Alegre, do ramo da porcelana, encontram-se em algumas das principais cidades de vários países, em lojas especificamente instaladas para o efeito, onde podem ser adquiridos cristais de qualidade e rara beleza.

Quanto à tecnologia e ao saber-fazer importados, não se tratando propriamente de uma novidade no período em foco, foi então que o seu uso mais se difundiu. Como exemplo, recorda-se a fábrica da empresa Barbosa & Almeida - instalada em Avintes-Vila Nova de Gaia -, aqual começou a laborar em 1969, transformando-se, desde logo, numa unidade de referência, no âmbito da produção de garrafas. Para tal muito contribuiu o apoio e a assistência técnica que recebeu da firma alemã, Glasswerke Rhur.

Actualmente, o grupo BA -Fábrica de Vidros Barbosa & Almeida, SA, além daquela unidade fabril, possui ainda mais três fábricas do ramo, uma na Marinha Grande e duas em Espanha. A sede do grupo e a sua fábrica mais importante continuam instaladas em Avintes-Vila Nova de Gaia, sendo de notar a proximidade de um excelente mercado para os seus produtos, nomeadamente o famoso e importante Vinho de Porto.

A propósito, permito-me recordar o que já afirmei noutro trabalho: «A relação da empresa [Barbosa & Almeida] com o vinho (sem esquecer, naturalmente, outros mercados: águas minerais, cerveja, refrigerantes, etc.) e, de modo particular, com o Vinho do Porto continua a ser muito forte. A progressiva substituição de vinho a granel pelo engarrafado teve que ser acompanhada por um aumento considerável na produção de embalagens, para o que também contribui o uso da não reutilização da garrafa. Em 2001, foram vendidos para Vinho do Porto, pela indústria nacional (no país e exportados), 168 milhões de embalagens»[27].

Quanto ao investimento de capital estrangeiro, na indústria vidreira em Portugal, pode apontar-se o exemplo da empresa Ricardo Gallo - Vidro de Embalagem, SA, já anteriormente referenciada.

Por último, não menos significativo, em termos de internacionalização, é o facto de o conhecido e prestigiado grupo multinacional Saint-Gobain [28] - que, a partir da sua origem em França, se tem expandido quase por todo o mundo - ter integrado duas importantes unidades vidreiras portuguesas: a de Santa Iria da Azóia, criada pela COVINA (nos arredores de Lisboa e que, como já referi, passou a concentrar, desde 1941, toda a produção de vidraça, no país) e a Vidreira do Mondego, SA (na Fontela, Figueira da Foz), cuja antecessora, também dedicada à produção à produção de garrafas, havia sido instalada nos anos 1920.

Em suma: o assunto, nas presentes circunstâncias, não pode ser suficientemente desenvolvido. Todavia, é possível inferir-se, dos exemplos indicados, que o sector do vidro, em Portugal, não só se tornou, nas últimas décadas, um dos mais desenvolvidos e actualizados, como tem vindo a adaptar-se bem ao mundo globalizado, em que vivemos, com o esbater das fronteiras, em várias esferas, mas com destaque especial para a dos negócios.

Resumo

A história da produção do vidro, em Portugal, encontrasse documentada, pelo menos, desde os inícios do século XVI. A sua fase pré-industrial prolongou-se até finais do século XIX. Desde então, aquela sofreu profundas alterações, tendo-se transformado num sector competitivo e internacionalizado.

Na comunicação que se apresenta focam-se, sobretudo, dois períodos marcantes dessa evolução. Um, de 1870 aos inícios da I Guerra Mundial, que se caracterizou por uma certa autarcia, pela criação de diversas empresas e pelo interesse que alguns empresários e grupos manifestaram pelo vidro. Foi também então que se começaram a definir os centros vidreiros por excelência, com destaque para a Marinha Grande.

No outro período focado (1980-2000), por sua vez, assistiu-se, a nível interno, à consolidação e modernização do ramo vidreiro e, do ponto de vista externo, a uma progressiva internacionalização, baseada em diversos tipos de estratégias. Estas passaram pela exportação de produtos, pela instalação e/ou aquisição de fábricas estrangeiras e, ainda, pelo participação de capital, tecnologia e assistência técnicas estrangeiras. Apresentam-se alguns exemplos concretos de cada uma das referidas estratégias.

[1] Sobre a história desta empresa, ver a obra publicada aquando das comemorações do respectivo centenário: José M. Amado Mendes (col. Manuel Ferreira Rodrigues), Santos Barosa -100 anos no vidro, 1889-1999, Marinha Grande, Santos Barosa - Vidros, SA, 1992.

[2] Ver José M. Amado Mendes e Manuel Ferreira Rodrigues, Ricardo Gallo. Um século de tradição e inovação no vidro, 1899-1999, Marinha Grande, Ricardo Gallo - Vidro de Embalagem, SA, 1999.

[3] Joaquim Barosa, Memórias da Marinha Grande, 3.ª ed., ampliada. Introdução, notas, fixação e revisão do texto por José M. Amado Mendes, Câmara Municipal da Marinha Grande, 1993, p. 156.

[4] O assunto encontra-se mais desenvolvido em José M. Amado Mendes, História da Marinha Grande. Introdução e perspectivas, Câmara Municipal da Marinha Grande, 1993, p. 42-49.

[5] Ver Monitor Company, sob a direcção de Michael Porter, Construir as vantagens competitivas de Portugal, Lisboa, Forum para a Competitividade, 1994.

[6] Luisa Oliveira e Raul Lopes (coords.), Estudo socioeconómico da Marinha Grande. Avaliação de potencialidades, Lisboa, Observatório do Emprego e Formação Profissional, 1996, p. 65-66.

[7] Ver, entre outros, o trabalho de Maria Filomena Mónica, «Poder e saber: os vidreiros da Marinha Grande», Análise Social, vol. XVII –571.(67-69), 1981, 3.º-4.º, 505

[8] Carlos Dávila L. de Guevara (compilador), Empresa e Historia en América Latina. Un balance historiográfico, Bogotá, TM Editores, 1996, p. XI.

[9] J. Barosa, op. cit., p. 142.

[10] José Pedro Barosa, «Os Burnay no vidro, ou um monopólio que não chegou a existir», Análise Social, vol. XXXI (136-137), 1996, 2.º-3.º, p. 487.

[11] «Farrobo (Condes do)», Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira,,vol. 10, Lisboa-Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, s. d., p. 976 (sublinhado meu).

[12] Carlos Vitorino da Silva Barros, Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande. II Centenário. 1769-1969, 2.ª ed., com uma introdução de Emília Margarida Marques, Câmara Municipal da Marinha Grande, 1998, p. 145. Joaquim Barosa (op. cit., p. 142), certamente por lapso, menciona um segundo período do referido titular como responsável pela Real Fábrica de Vidros (1896-1906), mas aquele faleceu em 1904.

[13] «Azarujinha (Condes de)», Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, cit., vol. 3, p. 891.

[14] Arno J. Mayer, La persistencia del Antiguo Régimen. Europa Hasta la Gran Guerra (trad. do inglês), Madrid, Alianza Editorial 1984.

[15] J. Amado Mendes, História do Vidro e do Cristal em Portugal, p. 42-46.

[16] Filipe S. Fernandes, Fortunas & Negócios. Empresários portugueses do século XX, Lisboa, Oficina do Livro, 2003, p. 11.

[17] Maria Filomena Mónica, «Capitalistas e industriais (1870-1914)», Análise Social, vol. XXIII (99), 1987-5.º. p. 840.

[18] J. Pedro Barosa, op. cit. (ver supra, nota 10), p. 487-525.

[19] J: P. Barosa, op. cit., p. 490.

[20] Idem, p. 519.

[21] Ibidem.

[22] Manuel Lisboa, A indústria portuguesa e os seus dirigentes. Crescimento na segunda metade do século XX e potencial de inovação das funções capitalista, empresarial e de gestão, Lisboa, Educa, 2002, 193.

[23] Filipe S. Fernandes, op. cit., p. 110.

[24] Ver, sobre outros iniciativas empresariais do dito empresário, Maria Alice R. P. Guimarães, «A Empresa de Limas União Tomé Fèteira Ld.ª (1856-1943)», Gestão e Desenvolvimento, 9, 2000, p. 213-153.

[25] J: A. Mendes e M. F. Rodrigues, Ricardo Gallo, p. 169.

[26] Ver Manual do vidro, Saint-Gobain Glass, 2000.

[27] José Amado Mendes, «Vinho e vidro de embalagem: contributos durienses», p. 10 (comunicação, em vias de publicação).

[28] Jean-Pierre Daviet, Une multinationale à la française. Histoire de Saint-Gobain. 1665-1989, Paris, Fayard, 1989.

Barosa, Joaquim, Memórias da Marinha Grande (3.ª ed., ampliada). Introdução, notas, fixação e revisão do texto por José Amado Mendes, Câmara Municipal da Marinha Grande, 1993.

Barosa, José Pedro, «Os Burnay no vidro, ou um monopólio que não chegou a existir»,

Análise Social, vol. XXXI (136-137), 1996 (2.º-3.º), p. 487-525.

Barros, Carlos Vitorino da Silva, Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande. II Centenário. 1769-1969, 2.ª ed., Câmara municipal da Marinha Grande, 1998.

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FONTE: pressglas-korrespondenz.de

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