História
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A Fábrica STEPHENS

by on 2 de Novembro de 2013
 

A Fábrica STEPHENS da Marinha Grande

O último dia
Fotos LUIZ CARVALHO
EXPRESSO, 13 de Junho de 1992
 Coisas boas em jornais
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 A Stephens fechou e houve quem chorasse por ela.
«A Marinha já não o que era»
ISABEL Constâncio desligou a máquina que há 24 anos — completos naquela derradeira manhã — a acompanhava no seu dedicado trabalho de operária vidreira da Fábrica Stephens. «Não sei como vou poder ficar em casa a ouvir as sirenes de outras fábricas». As lágrimas caem-lhe pelo rosto, como se esta mulher — de aparência tão forte — representasse o papel de heroína de um filme a preto e branco da fase neo-realista italiana.
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O último dia da Fábrica Escola Irmãos Stephens começou como qualquer um dos outros milhares de dias que preencheram os mais de duzentos anos da história da Marinha Grande. Cada operário ocupou o seu posto como se fosse cumprir uma missão superior. O fiscal da linha de fabrico continuava a rejeitar, com um X desenhado a tinta vermelha, as peças imperfeitas; o olhar de cada trabalhador seguia, atento, cada uma delas a desfilar rumo ao armazém.
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No final do dia, todos deixaram a fábrica arrumada, pronta para reabrir no dia seguinte, não obstante cada um deles compreender, com precisão, a inutilidade dos seus últimos gestos, o patético da rotina, a impossibilidade de qualquer esperança. O enorme espaço vazio transformou-se numa espécie de catedral — um monumento ao dia findo e aos milhares de dias que o precederam, até ao tempo em que esta e outras fábricas fizeram nascer a cidade, sem preverem tão injusta recompensa. Envolta já no lusco-fusco da tarde, ela parece, agora, eterna, perene, quase tão mágica como o cristal que fabricava.
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ANTÓNIO Loureiro guarda num saco o que lhe resta das recordações daquele mundo que o transformou num especialista do cristal: uma cassete de música avulsa, um totoloto falhado, um comunicado sindical e por fim, quando já atravessava o portão de ferro forjado, a sua ficha de operário dedicado, que um colega lhe passou para as mãos. Em poucas palavras a ficha descreve a sua história e a de muitos outros que, sendo outros, são os mesmos. No primeiro dia de Setembro do ano de 1960, foi admitido.

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Recebia 12 escudos, diariamente. No verso, onde tinham registo as sanções disciplinares, a folha é orgulhosamente branca. António Loureiro é irrepreensível e não foi seguramente por sua culpa que a Fábrica fechou. Olha, uma última vez, para trás. A chaminé ainda fumega, mas já sem o fôlego dos dias felizes. Os fornos começaram a arrefecer há já alguns dias, mas uma morte, nem por ser programada, é menos triste. Nem sequer de eutanásia se trata, que nem todos os que dependiam daquela vida consentiram no seu fim. António caminhou para o largo fronteiro e juntou-se aos seus 200 colegas que, reunidos, se preparavam para prestar uma derradeira homenagem ao «ex-libris» da Vila.
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DISCURSOS, flores, lágrimas, e meia dúzia de punhos já erguidos com timidez, quando o orador, sindicalista, ainda grita: «A luta continua.»
Uma operária exclama: «Fomos enganados! Mataram a nossa alma! Esta Marinha Grande já não é o que era». Tem razão — que é feita da vila operária, das tradições da greve geral de 1934? Como pode haver «vanguarda» se as novas fábricas de moldes funcionam com computadores e meia dúzia de operários?
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Não foi só a Stephens que morreu, com ela foi-se a alma de muita gente. Ali se formaram gerações daqueles operários que vinham nos livros: com espírito de classe, solidários, firmes como o aço e transparentes como o vidro que fabricavam. Agora restam-lhes as palavras escaldantes que contrastam com o arrefecimento dos fomos que alimentaram a Fábrica e o espírito de luta de quem lá trabalhava.
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Também a luta arrefeceu, dando lugar à resignação. Podem dizer, como disseram, que o encerramento da Stephens é anti cultural, que é uma perda histórica, que é contra os trabalhadores e o povo da Marinha, mas sabem, de antemão, que é impossível voltar atrás. Todos os tempos deixam saudades, mesmo os piores, aqueles de uma jorna de 12 escudos — e todo o presente cria revolta. Pelo passado e pelo presente se gritam, em tom de futuro, as palavras mágicas de quem nada mais pode dizer — «A Luta Continua! A Luta Continua! A Luta Continua!» Uma operária destaca-se do grupo e, de câmara fotográfica em riste, tira o último retrato.
Os tempos mudaram…
EXPRESSO, Sábado, 13 de Junho de 1992
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Fotos Luiz Carvalho, copiadas do jornal Expresso

A Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande
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Foto da gravura encontrada em marcasdasciencias.fc.ul.pt
(…) Após a morte de Guilherme Sephens a fábrica passou a ser administrada pelo seu irmão, João Diogo, que, apesar de algumas dificuldades, nomeadamente durante as invasões francesas, manteve um extraordinário desenvolvimento e progresso. Em 1826, João Diogo faleceu deixou em testamento a Fábrica à “Nação Portuguesa”. Demoraria cerca de dois anos até que o governo decidisse que, não tendo capacidade para administrar a Fábrica, iria abrir concurso para a sua exploração. Entre 1827 e 1919 a Fábrica conheceu vários arrendatários e tempos de prosperidade, realizando grandes projectos que desenvolveram tecnologicamente a Fábrica, produzindo vidro de grande qualidade, e períodos de grandes dificuldades, chegando mesmo a encerrar e os trabalhadores terem de procurar emprego na construção de estradas ou limpezas do pinhal.
Em 1919 o Governo decide iniciar a sua exploração através de Comissões Administrativas. Destaca-se o período (1928-1966) em que a administração esteve a cargo do Engenheiro Acácio Calazans Duarte. Além do grande desenvolvimento tecnológico que deu à Fábrica, passou a ser obrigatório a formação dos aprendizes dos sectores de decoração, pelo menos em desenho e a frequência da escola nocturna da Fábrica, pelos menores analfabetos que ali trabalhavam.
 A partir de 1954 um novo regulamento reformula a Fábrica, transformando-a num centro de desenvolvimento da indústria vidreira. Passou a designar-se Fábrica Escola Irmãos Stephens. Fabricava cristalaria de qualidade, desenvolveu a vertente artística do vidro, tendo contado com algumas parcerias, entre elas, com a Escola Nacional de Belas Artes. Em 1957 passou a ser superintendida pelo Instituto Nacional de Investigação e em 1977 passaria a Empresa Pública, conhecendo várias administrações até ao seu encerramento em 1992. Em 1993 foi adquirida pelo dinamarquês Jorgen Mortensen e reactivada. Actualmente já não de encontra em laboração.

(In, iejclubedopatrimonio.blogspot.pt – 29 de Janeiro de 2011)

Artigo retirado do Blog Citizen Grave – Ao qual se recomenda vivamente uma visita.

 

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