História
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A enorme Crise

by on 20 de Outubro de 2013
 
Continua a terrivel paralisação do trabalho. A Marinha Grande arrasta-se penosamente, vendo-se centenares operários vidreiros lutarem num desespero titanico contra tão grave situação, e na qual se levantam dois horrendos histriões: a Fome e a Morte.
Veio ahi o sr. Ministro do Trabalho, que de visu verificou a derrocada que se aproxima; comoveu-se profundamente ante as mulheres e as crianças, filhas desses laboradores cheios de saúde, obrigados a uma paragem forçada, – hercules prostrados ante os gigantescos edificios das fabricas, nuas e frias, sós, mudas ! – e com palavras de consternação e conselho amigo, prometeu-lhes o seu maior interesse para debelar a aflitiva crise.
Depois dessa visita são passados muitos dias, que mais vieram agravar a vida desses numerosos soldados do Trabalho, falando-se na instalação de uma Cosinha Economica, na reabertura da Fabrica Nacional, numa exposição da vidraria portuguêsa, e na baixa de 30 e 40 por cento nos produtos vidreiros.
Bem sabemos que não é de afogadilho que se resolvem assuntos tão transcendentes, mas o que deveria ter sido feito imediatamente era abrir um credito para acudir às necessidades desses validos, resplendentes de saude, criando-se uma cooperativa onde eles fossem buscar os alimentos que pagariam com o fruto da sua labuta, quando a recomeçassem, sem os sujeitarem ao oprobrio da esmola de uma sôpa, dada com ostentação!
Para uma festa, para uma data de somenos importancia, para a manutenção de uns individuos que vão ao estrangeiro estudar um zero para a Patria, abrem-se creditos de importancias fabulosas, rapidamente. Faça-se, pois, o mesmo para pôr fim à terrivel situação que a Marinha Grande está atravessando.
Os operarios vidreiros, robustos, sãos, querem trabalho, não pedem esmola! Desejam, no intuito de pagarem, quando as circunstancias o permitam, que lhes seja fornecido o indispensavel à vida. E só a Cooperativa aberta pelo Governo poderia satisfazer tais aspirações.
De resto, reabra-se a Fabrica Nacional e passe-se um traço sobre o malfadado decreto da selagem das garrafas, que não dará receita provavel ao Estado. E, julgamos, terminará imediatamente a crise que nos afecta.

in: O IMPARCIAL – Nº 5
de 15 de Janeiro de 1925

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