História
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I. Historia e descripção do pinhal nacional de Leiria.

by on 15 de Fevereiro de 2014
 

MEMÓRIA

SOBRE

0 PINHAL NACIONAL DE LEIRIA

SUAS MADEIRAS E PRODUCTOS REZINOSOS.

Offerecida á Associação Marítima e Colonial de Lisboa, pelos Socios autores da mesma, os Srs. Francisco Maria Pereira da Silva, e Caetano Maria Batalha.

 Anno de 1843.

Nomeados em 1839 para levantar as plantas das diversas mattas nacionaes, principiámos o desempenho desta commissão pela planta ou carta topographica do pinhal nacional de Leiria e seus arredores.

Sendo esta a principal matta de Portugal, e que pela sua organisação e abundancia de suas madeiras, fornece quasi exclusivamente os nossos Arsenaes de mar e terra, fizemos quanto estava ao nosso alcance, por entrar no conhecimento de todos os objectos que lhe diziam respeito; tanto pela maneira como esta matta se acha ligada com a Repartição de Marinha, como pela pouca noticia que della ha; sendo seguramente hoje a primeira riqueza nacional, e que muito convem conhecer pelas vantagens que ainda offerece ao Estado.

Tendo neste sentido obtido algum cabedal, foram dois os motivos que depois nos incitaram a fazer a presente memoria:

1.° Acompanhar com esclarecimentos locaes a carta topographica do pinhal nacional de Leiria, que ha pouco levantámos, e que juntamos reduzida.

2.° Apresentar todos os factos e dados necessarios que possam servir de base a quaesquer melhoramentos que se julguem necessarios a esta vasta e rica matta, com especialidade no bom aproveitamento de todos os seus productos.

É este trabalho o resultado de muitas investigações e pesquizas que nos foi forçoso fazer, por não encontrarmos cousa alguma escripta a tal respeito; e a não ser a coadjuvação e copiosos esclarecimentos que obtivemos de todos os dignos empregados da Administração geral das mattas, que para isto se prestaram com a melhor vontade, debalde nos cansariamos.

Se não preenchemos completamente o nosso fim, ao menos damos o primeiro passo, mostrando uma fonte de riqueza nacional da maior importancia para a nossa marinha.

I.

Historia e descripção do pinhal nacional de Leiria.

 

     O pinhal nacional a que chamam de Leiria, posto que esteja duas legoas ao SO. desta cidade, deve a sua creação e regimento, como matta do Estado, a ElRei D. Diniz (1). Este previdente Monarcha, tendo em vistas tanto o engrandecimento da nossa marinha de guerra, que a esse tempo já se distinguia em assignalados feitos d’armas contra os Sarracenos, obtendo reconhecidas vantagens para a Corôa Portugueza; como o beneficiar a agricultura, seu extremoso objecto; mandou fazer naquelle local vastas sementeiras de pinheiros, afim de impedir tambem que as arêas moveis da costa do Oceano, arrojadas pelos ventos do mar, continuassem a innundar os terrenos circumvisinhos, esterilisando ferteis campinas, e submer gindo até povoações inteiras, como acontece na Africa, onde nem vestígios já existem de opulentas cidades; e proximo ao mesmo pinhal de Leiria encontra-se um destes exemplos na antiga villa de Paredes, junto ao valle do mesmo nome, que sendo ainda no seculo passado bastantemente povoada, hoje se acha inteiramente deshabitada, e reduzida a um montão de arêas.

     Analysando ainda hoje o terreno em toda a superficie do pinhal de Leiria, se conhece, pela sua configuração e qualidade, essa immensidade de dunas que então se afastavam mais de uma Iegoa da costa do mar.

     Até á época do venturoso reinado d’ElRei D. Manoel se conservou este pinhal em grande prosperidade, e a elle deve Portugal uma boa parte da sua gloria marítima, pela abun- dancia de madeiras que então fornecia, e com que se construiram tão numerosas frotas que, sahindo do Téjo, percorriam os mares até às regiões mais longinquas, infundindo em toda a parte respeito e admiração.

     As muitas e ricas madeiras que obtivemos com a descoberta do Brasil, a par dos acontecimentos politicos, que depois tiveram logar neste reino, fizeram com que pouco a pouco fossemos desprezando o nosso pinhal de Leiria, a ponto de ficar reduzido a um completo abandono, não tirando o Estado fructo algum d’uma tão grande riqueza nacional.

     Foi no tempo do incansavel Martinho de Mello e Castro, Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios da Marinha e UItramar, que o pinhal de Leiria tomou um novo aspecto; é desta época em diante que nós descreveremos a sua historia, visto não podermos colher dados para a trazer de mais longe. Em 1790 este habil e zeloso Ministro, tendo visitado todo o pinhal, e conhecido de perto os abusos que alli existiam com o antigo regimen, tratou d’uma reforma em todos os ramos da sua administração.

     Principiou por fazer abolir o regimento das Superintendencias e dos Couteiros, por não preencher o fim a que se propunha: os Superintendentes eram pessoas que olhavam para este logar como um patrimonio ou beneficio simples, e residiam constantemente na cidade de Leiria; por isso, estando a duas lagoas do pinhal, pouco podiam fazer para a sua boa administração e fiscalisaçao, e davam amplos poderes para este fim aos Couteiros. Estes Couteiros, em numero de 40, eram ordinariamente lavradores abastados, ou individuos a quem convinha este logar pelo privilegio que comsigo trazia, isentando-os de certos encargos e da milicia: assim, ou não se davam ao cumprimento de suas funcções, ou prevaricavam prejudicando a Fazenda Real, sem que houvesse quem por isso olhasse.

     Era então livre a entrada no pinhal por todos os lados: os gados iam alli pastar, comendo e calcando os pinheiros recem-nascidos; e era mui facil a qualquer o cortar uma arvore, às vezes de bastante valor, e fazer lenha della, ou leval-a para outro uso particular.

     Neste mesmo anno o sabio Ministro deu novo regulamento para o pinhal, substituindo as taes Superintendencias e seus numerosos Couteiros, uma administração adequada, cujas bazes ainda hoje se conservam, compondo-se o seu pessoal de

1 Administrador do pinhal.
1 Juiz conservador, logar annexo ao de Corregedor de Leiria, e que servia de Fiscal nas disposições do mesmo regulamento.
1 Mestre do pinhal.
1 Fiel dos armazens, no porto de S. Pedro de Muel.
1 Guarda, na fabrica da madeira.
1 Cabo dos Guardas do pinhal.
6 Guardas.
1 Patrão para os saveiros de conduzir madeira para bordo das embarcações do Arsenal da Marinha.

     Estabeleceu em roda do pinhal casas de Guardas convenientemente dispostas, por onde eram obrigados a passar todos aquelles que nelle entrassem, e sahissem com madeiras, ou outros quaesquer productos do pinhal; afim de alli serem revistados, evitando-se por este meio os muitos roubos e prejuizos que aconteciam pela arbitraria entrada e sahida em todo o seu grande contorno. Estas casas eram então só 4, sendo a 1.ª no sitio da Sapinha, a 2.ª em Pedrianes, a 3.ª na Cova do Lobo, e a 4.ª nos caminhos de Carvide, proximo á Veira; hoje porém, em consequencia do augmento da população e casaes em tomo do pinhal, se elevam ao numero de 12, como se vê na carta topographica junta, as quaes adiante nomearemos.

     Foi durante o seu ministerio que se construíram os primeiros fornos de fazer alcatrão em Portugal, extrahido dos nossos pinheiros; o que até alli se não tinha podido conseguir, julgando-se, pelos mal dirigidos ensaios que anteriormente se tinham feito, que estas arvores pela sua qualidade diversa e rezina menos liquida que a do pinheiro silvestre que nasce nos paizes do Norte, não eram disso susceptíveis. Para este lim mandou vir de Raguza um mestre, o qual obteve o effeito desejado.

     Ordenou que se fizessem os embarques das madeiras para Lisboa na costa do pinhal, visitando duas vezes aquelles logares; e prohibio-os nos portos de S. Martinho e Figueira, com o que economisou muito a Fazenda Nacional, sendo então ainda mais bem fornecido de madeiras, e em muito maior abundancia do que presentemente, o nosso Arsenal de Marinha; tudo devido ás efficazes medidas que adoptou, que removendo as frivolas difficuldades que lhes oppunham, fizeram desenvolver bastante actividade neste interessante ramo.

     Finalmente o bom regimen e fiscalisação que tem o pinhal de Leiria, deve-se datar da época daquelle habil Ministro, o qual vio com bastante fundamento a necessidade de andar ligada a prosperidade desta grande matta com a da nossa Marinha.

     Os estragos que depois succederam com a invasão do exercito francez, e as grandes queimadas de 1806 e 1814, suffocaram tão prospera marcha, e lançaram outra vez o pinhal n’uma extrema decadencia, paralysando os actos da sua administração, que depois tornaram pouco a pouco a recobrar sua antiga marcha, até que, em 1823, foi creada uma commissão especial para visitar esta matta, e propor os meios necessarios para o seu restabelecimento. Dos trabalhos desta commissao resultou o regulamento de 1824, ainda hoje em vigor. Todavia como parte de sua doutrina vai d’encontro ás instituições politicas que presentemente regem este paiz, foi nomeada em 1840 uma commissão para tratar da reforma deste regulamento, e formação d’um Codigo Florestal em harmonia com estas instituições, servindo-lhe de base o Codigo Florestal adoptado em França (2).

     Esta extensa matta, situada proximamente 1 gráo ao Norte de Lisboa, contém uma superficie de 20:150.945 braças quadradas (3 legoas quadradas e 796.145 braças quadradas), e confina pelo Norte com a foz do rio Liz e freguezia da Vieira; pela parte de Leste com as freguezias de Carvide, Amor, Marinha Grande, e Pataias; pelo Sul com o camarção que pertencia aos frades Bernardes d’Alcobaça, e Valle d’Agoa de Medeiros; e pelo lado d’Oeste com o Oceano e grandes dunas d’arêa. O seu maior comprimento é de Norte a Sul, e tem 3 legoas e 844 braças; e de Leste a Oeste na sua maior largura 1 legoa e 860 braças.

     Estas dunas ou areaes, situados entre o pinhal e a costa, têm de superficie 3;759.456 braças quadradas.

    Existem tambem duas contadas contiguas ao pinhal, e dentro da sua demarcação, ficando uma ao Norte com 1:655.301 braças quadradas, e outra ao Sul com 1:122.852 braças quadradas: a primeira, já toda cultivada pelos povos circumvisinhos, acaba de lhes ser legalmente cedida pela Portaria de 14 de Novembro de 1842.

     A séde dos empregados deste pinhal, e da Administração Geral das Mattas, é no logar da Marinha Grande, povoação central que fica pegada ao pinhal pela parte de Leste; e que deve o seu engrandecimento ao mesmo pinhal, e á grande fabrica de vidros fundada por W. Stephens, e que hoje pertence á Fazenda Nacional.

     A Administração Geral das Mattas, comprehendendo a particular dos pinhaes de Leiria, compõe-se actualmente de

1 Administrador Geral.
1 Thesoureiro.
1 Escripturario do dito.
1 Escrivão.
1 Ajudante do Escrivão.
2 lnspectores de divisão.
1 Guarda dos armazens.
1 Fiel dos armazens.
1 Meirinho.
1 Mestre da fabrica.
1 Patrão dos saveiros.
1 Cabo dos Guardas.
10 Guardas.

     Além do grande pinhal de Leiria ha outras mattas annexas á sua administração, dando-se a tudo o titulo de Administração dos pinhaes de Leiria; e compondo-se de duas divisões, cada uma com um Inspector.

Na 1.ª entra:

     Toda a parte do sul do pinhal de Leiria até ao aceiro da Cova do Lobo.
O pinhal do Valado, e mattas de carvalhos do Vimeiro que eram do extincto convento d’Alcobaça, e o pinhal do Santissimo, proximo de S. Martinho.

Á 2.ª divisão pertence:

     Toda a parte do Norte do pinhal de Leiria até ao aceiro da Cova do Lobo.
O pinhal do Amor, pinhal do Urso, e pinhal de Foja, e a matta madriz de sovereiros.

     O Inspector da 1.ª divisão, Guarda dos armazens e Cabo dos Guardas devem residir segundo o regulamento, na Marinha Grande. E o Inspector da 2.ª divisão deve residir na Vieira. Para cada uma das divisões do pinhal ficam 5 Guardas de numero; e as casas de guarda em torno do pinhal onde o devem vigiar, são actualmente 12, como se vê na planta.

Na 1.ª divisão

1.ª Guarda no alto denominado do Facho.
2.ª No alto da Lagoa Cova, junto a Abronhosa.
3.ª Na Sapinha, proximo a lagôa deste nome.
4.ª Junto à Marinha Grande, a que chamam Guarda nova.
5.ª Guarda de Pedrianes.
6.ª Dita da Gaxeia.
7.ª Dita da Cova do Lobo.

Na 2.ª divisão

8.ª Guarda do alto da Cabeça Lousã.
9.ª Dita da Meoteira.
10.ª Dita dos caminhos de Carvide.
11.ª Dita da Serraria, junto a Vieira.
12.ª Dita do Forninho.

     Em S. Pedro de Muel existe constantemente 1 Guarda, para rondar o pinhal por aquella parte; mas vive n’uma casa particular.

     Todo o pinhal é dividido por aceiros, ou ruas alinhadas com 10 braças de largo; e por uma infinidade de caminhos de carro, afim de se lhe poder extrahir as madeiras e outros productos.

     Quanto ao que diz respeito á salubridade do pinhal de Leiria, ainda que na primitiva devia ser bem pouca por não passar a sua superficie d’um montão d’arêas e de pantanos, com tudo agora tem mudado muito de face pela existencia de uma tão rica matta. Purificado por esta o ar atmosferico, o clima de suas circumvisinhanças é hoje effectivamente saudavel, principalmente depois que se abriram algumas vallas, e se esgotaram certas lagôas: as principaes abriram-se durante a Administração do Tenente Coronel Raposo; porém muito se deve tambem nesta parte ao fallecido Administrador Varnhagen. Correm pelo pinhal varias ribeiras, e existem muitas nascentes d’agoa excellente, sendo algumas medicinaes, como as ferreas do Bréjo da Delviria, acondicionadas á custa do Bispo de Leiria D. Manoel d’Aguiar; as do Forninho e Garcia; as que em 1839 brotaram na praia de S. Pedro de Muel, cujo uso tem principalmente produzido bom effeito aos que soffriam molestias de estomago: e sobre todas as sulfuricas dos Covões junto a Monte Real, muito nomeadas, e cuja efficacia é bem reconhecida pela grande concorrencia dos povos visinhos.

     N’uma tão extensa matta forçosamente haviam d’existir todos os animaes selvagens de que fosse suceptivel o nosso paiz; e por isso no pinhal de Leiria se encontra o lobo, o javardo ou porco bravo, o ginete, a rapoza, o techugo, o gato bravo, o saca rabos, o ouriço, o tourão; a toupeira a doninha, a lebre, o coelho; etc. No ribeiro de Muel e no rio Liz aparecem algumas lontras. As cobras não são muitas, e as maiores não passam de 7 a 8 palmos de comprido, sendo delgadas; as viboras, porém, os lacráos e nicranços são mui frequentes. Dos passaros o mais remarcavel é o pica-páo, curioso não só pelas suas variadas côres, como tambem pela maneira como apanha os formigões e bichos que dão nos braços podres dos pinheiros cardidos, sendo este o seu principal alimento: pousa nos ramos ou no que alli chamam carrascas, e com o bico faz um alarido similhante ao som de castanholas, nas entradas das tocas destes insectos, que espavoridos ou talvez açanhados sahem fóra, occasião de que elle maliciosamente se aproveita para os caçar: os seus ninhos tambem são nos troncos dos pinheiros podres, onde fazem escavações para esse fim; com tudo algumas vezes sahem-lles frustradas suas fadigas, pois os enxames das abelhas (com quem se não atrevem) aproveitam estas escavações para theatro de seus trabalhos.

     Bastante apparatosas se tomavam antigamente as montarias que se faziam no pinhal de Leiria, pelo grande concurso de povo armado, ordenanças, milicias, e tropa de linha, que alli se reunia. Ordinariamente levavam dois dias: no primeiro se batia para dentro do pinhal, começando a duas, tres, e mais legoas de distancia: ficava um cordão de noute em roda do pinhal, para não deixar sahir bicho algum, e para isso faziam fogueiras; e no outro dia batiam o pinhal para uma charneca, onde se formava o cerco ou az: fechado este, se matavam a ferro frio os lobos, javardos, etc. Durante a nossa commissão em 1841 teve logar uma destas montarias, mas em ponto pequeno, á qual assistimos: a porção de pinhal que se bateu, era mui pouca; com tudo ainda se mataram dois lobos.

NOTAS:
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(l) Ha bastante incerteza sobre a época da fundação deste pinhal; e querem alguns que fosse anterior a ElRei D. Diniz, datando-a outros de D. Sancho, pai deste Monarcha. Todavia, o nosso sabio Brotero e outros muitos autores de consideração a referem a D. Diniz. O que parece fóra de duvida, é que foi no seu reinado que se fizeram as grandes sementeiras, e que se considerou então toda aquella extensão d’arêas como malta da Corôa, dando-se-lhe um regulamento para este fim. 

(2) Consta-nos que este Codigo está concluido , e que será em breve presente ás Camaras Legislativas.

 

ANNAES MARITIMOS E COLONIAES.

PUBLICAÇÂO MENSAL

Redigida Sob a Direcção Da

ASSOCIAÇÂO MARITIMA E COLONIAL
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LISBOA – Na Imprensa Nacional – 1843.

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