Aberturas
848 views 0 comments

A Revolta da Marinha Grande

by on 17 de Janeiro de 2014
 

JN_opiniao_0Completam-se amanhã 80 anos sobre a insurreição dos operários da Marinha Grande que, em 18 de janeiro de 1934, cortaram as comunicações, ocuparam a estação dos Correios, prenderam o destacamento local da Guarda Nacional Republicana e elegeram um “conselho operário” que assumiu o governo da vila.

O efémero “Soviete da Marinha Grande” não iria subsistir mais do que algumas breves horas. As tropas enviadas por Salazar iriam prontamente reprimir a insurreição e repor a “lei e a ordem” do Estado Novo, ao princípio da manhã seguinte. A greve geral convocada pelos sindicatos para o mesmo dia, com exceções pontuais na Marinha Grande, no Barreiro e em Silves, não conseguiu suscitar uma adesão significativa. Os insurgentes, apesar da moderação que demonstraram e de terem conseguido evitar o derramamento de sangue, foram esmagados de forma cruel e impiedosa. Condenados sumariamente, muitos deles viriam a ser deportados para o campo de concentração do Tarrafal, o “campo da morte lenta”, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde – uma colónia penal instituída pelo Estado Novo, dois anos depois, segundo o modelo dos “fascismos” emergentes. Ali morreram muitos democratas deportados do continente a que, mais tarde, se iriam somar os combatentes dos movimentos de libertação das antigas colónias africanas.

As correntes antidemocráticas iam tomando conta da Europa. Na Itália, o ditador fascista, Benito Mussolini, tinha instaurado um Estado totalitário, depois de ilegalizar os movimentos sociais e de a sua polícia secreta ter eliminado toda a oposição política. Na Alemanha, o partido nazi de Adolfo Hitler, recém-chegado ao poder através de eleições, iria prontamente suspender a constituição democrática que lhe permitira a nomeação como chanceler, para implantar o regime de terror do Terceiro Reich que, alguns anos depois, aliado à Itália e ao Japão, vai desencadear a Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro de 1934, o regime fascista consolidava-se também em Portugal, depois do sucesso do golpe militar de 28 de maio de 1926, com a aprovação de uma nova Constituição, por via plebiscitária, que suprimia as liberdades, proibia os partidos políticos e legalizava a ditadura. Quem quisesse votar contra a “nova Constituição” tinha de escrever “não” no boletim de voto. A abstenção e os votos em branco foram contabilizados como votos a favor da nova Constituição neste referendo original!

Depois de Portugal, também em Espanha a República iria cair ao cabo de uma sanguinária guerra civil (1936/1939) conduzida pelo fascista Francisco Franco, fortemente apoiado por Hitler, Mussolini e Salazar.

É por contraste com este ambiente sombrio da ascensão dos totalitarismos na Europa que se destaca o valor simbólico da revolta popular da Marinha Grande e que, em contracorrente, se avolumou a sua dimensão mítica. A partir de 1934, vai consolidar-se por muitas décadas o domínio absoluto de Salazar, enquadrado pelos instrumentos de controlo do Estado corporativo, pelo partido único – a União Nacional – e pela polícia política. O esmagamento dos fascismos, com o fim da Segunda Guerra Mundial, iria trazer alguns sobressaltos ao salazarismo que esboçou alguns sinais de abertura, todavia logo abandonada. A ditadura salazarista irá sobreviver até para além da morte do ditador. Só 40 anos depois da heroica insurreição da Marinha Grande, com a Revolução de Abril, a liberdade e a democracia voltariam a triunfar em Portugal.

FONTE: JN – Jornal de Notícias Pedro Bacelar de Vasconcelos

OUTRAS ÁREAS DE ABERTURAS
 
Invasões